Memória do Brasil
Memória do Brasil http://www.sescsp.org.br/sesc/revistas/revistas_link.cfm?Edicao_Id=256&Artigo_ID=3968&IDCategoria=4377&reftype=2
Material recolhido pela pioneira Missão de Pesquisas Folclóricas, organizada em 1938 por Mário de Andrade, dá origem a coletânea do Selo Sesc que reúne livro e seis CDs Amante da literatura, da arte fotográfica, da dança e da música, Mário de Andrade - uma das figuras mais importantes do modernismo brasileiro - passou a vida a desvendar a cultura popular do Brasil. E, mais de 50 anos após a morte dele, ainda nos são reveladas surpresas de seu imenso baú. A mais recente é o material recolhido pela Missão de Pesquisas Folclóricas, uma expedição organizada por ele em 1938. Naquela época o modernista estava à frente do Departamento de Cultura da Municipalidade Paulistana - que mais tarde viria a ser a Secretaria Municipal de Cultura - e enviou quatro pesquisadores a alguns estados brasileiros para registrar a diversidade do norte e nordeste do país. A iniciativa foi pioneira. Era a primeira vez que se registrava como se expressavam - sobretudo no âmbito musical - as pessoas que viviam quase isoladas do restante do país. "Embora em cada localidade pela qual o grupo viajou se tenham filmado, fotografado e gravado peças importantíssimas de nossa cantoria popular, o conjunto se destaca, acima de tudo, pelo mapeamento musical que delineou aquele ano de 1938", diz Flávia Camargo Toni, professora de musicologia da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) e pesquisadora do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB). "Em linhas gerais pode-se dizer que a função do grupo era registrar as músicas que homens, mulheres e crianças cantavam para trabalhar, se divertir e rezar", explica. Por décadas o material recolhido pertenceu à Discoteca Pública de São Paulo, que por 30 anos foi chefiada por Oneyda Alvarenga. Depois os arquivos foram para o Centro Cultural São Paulo. Foi então que o pesquisador musical e professor da ECA/USP Marcos Branda Lacerda e a pesquisadora Rosa Maria Zamith mergulharam nesse universo. Juntos, ouviram as músicas coletadas e fizeram um recorte representativo das manifestações encontradas pela expedição - cerca de 80 grupos. Recentemente, uma empreitada deu cara - e vida - nova ao material pesquisado por Marcos e Rosa. Por iniciativa da prefeitura de São Paulo e do Sesc São Paulo, a coletânea Missão de Pesquisas Folclóricas será lançada este mês pelo Selo Sesc, trazendo boa parte do material reeditado em seis discos e um livro bilíngüe - inglês/português -, com textos de pesquisadores e colaboradores do projeto. A coleção será vendida com exclusividade nas Lojas Sesc.
Pai da idéia Para entender o que significou a Missão de Pesquisas Folclóricas é preciso conhecer seu idealizador. E transitar pelo universo de Mário de Andrade (1893-1945) é um exercício pontuado por descobertas. O conhecido autor de Macunaíma - O Herói sem Nenhum Caráter, lançado em 1928, era homem de múltiplos talentos e paixões. Macunaíma é um bom exemplo disso. No enredo do livro, é possível perceber algumas habilidades de Mário, que associou a verve de escritor à de exímio pesquisador da cultura popular brasileira. Se na literatura Mário foi estrela de primeira grandeza, também se destacou em outras áreas, sempre buscando valorizar a identidade nacional. "Ele se mantinha obsessivamente a par de pesquisas e aproximações da cultura popular no Brasil e na Europa", explica Lacerda, que compara a trajetória de Mário de Andrade à do húngaro Béla Bartók (1881-1940). Considerado um dos maiores compositores do século 20, Bartók percorreu o Leste Europeu recolhendo as músicas da cultura popular. "Ambos souberam associar a visão modernista às experiências realizadas com profundidade no domínio popular", escreveu o curador no texto Os Registros Musicais da Missão de Pesquisas Folclóricas, publicado com a coletânea editada pelo Sesc São Paulo. No entanto, é importante lembrar o que se toma como música popular no universo de Mário de Andrade. Quem atenta para o fato é o professor e historiador de arte Jorge Coli, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (IFCH-Unicamp), que escreveu o artigo O Nacional e o Outro para a coletânea. "No pensamento de Mário de Andrade entenda-se sempre a música popular como a música folclórica e não a significação predominante hoje", afirma ele.
Metodologia Antes da Missão de Pesquisas Folclóricas, em 1938, Mário de Andrade havia ensaiado uma iniciativa dessa natureza um ano antes, quando enviou o compositor Camargo Guarnieri à Bahia para registrar alguns cantos locais. Apesar do pioneirismo e da relevância dessas empreitadas, na época não houve grande repercussão sobre o fato. "A importância de ambas as viagens foi muito restrita, até porque Mário de Andrade saiu do Departamento de Cultura antes que a missão voltasse", explica a professora Flávia Toni. Nosso homem da cultura, no entanto, parecia mesmo saber o que fazer. "Ele tinha certeza de que os registros seriam fundamentais, como são, para as gerações futuras", afirma. Em 1935, quando assumiu a chefia do Departamento de Cultura de São Paulo, Mário começou a planejar ações para mapear a musicalidade brasileira. Uma vez no cargo, criou a Discoteca Pública, em que foi semeado o projeto da missão. Para cumprir os projetos da discoteca, no entanto, era preciso formar pesquisadores. Em 1936 Mário convidou a etnóloga Dina Dreyfus, que estava no Brasil com o marido, Claude Lévi-Strauss, recém-contratado para lecionar na Universidade de São Paulo (USP). Na discoteca, Dina coordenou o curso de etnografia e folclore. "Deve-se a ela, provavelmente, a bibliografia à qual Mário de Andrade teve acesso, especializada na coleta de documentação musical em campo: Ésquisse d'une Méthode de Folklore Musical, de Constantin Brailoiu. (...) Eis a fonte da metodologia empregada pela Missão de Pesquisas Folclóricas", afirma Flávia Toni no texto Missão: As Pesquisas Folclóricas, presente na edição.
Zarpar A equipe que embarcou para o Nordeste no começo de fevereiro de 1938 a bordo do navio Itapagé era formada por Luís Saia, estudante de arquitetura e engenharia; Martin Braunwieser, que na época era maestro-assistente do Coral Paulistano e regente do Coral Popular; além de Benedicto Pacheco, técnico de som; e Antônio Ladeira, auxiliar-geral e assistente técnico de gravação. Os quatro saíram daqui preparados para gravar, filmar e fotografar as manifestações populares que encontrassem pelo caminho. A primeira parada do grupo foi em Pernambuco, onde foram recebidos pelo poeta Ascenso Ferreira e pelo musicólogo Valdemar de Oliveira. Lá visitaram cidades como Rio Branco - hoje Arcoverde -, Tacaratu, Brejo dos Padres e Folha Branca, e recolheram material com amostras de acalantos, aboios, cantos com viola, coco, xangô, bumba-meu-boi e outros, mas filmaram apenas manifestações de frevo e o carnaval de Recife. A estadia mais longa dos quatro foi na Paraíba, onde visitaram João Pessoa e seus arredores, e cidades no interior do estado, como Campina Grande, Patos e Pombal. Lá colheram cantigas de roda e outras expressões musicais, e filmaram as danças de caboclinhos e os vaqueiros, entre outras. Só que a essa altura, no Sudeste do país, os ventos não sopravam a favor da missão. Com a chegada de Prestes Maia à prefeitura, ficou cada vez mais difícil justificar a presença da expedição no Nordeste. A demissão de Mário de Andrade do cargo de diretor do Departamento de Cultura piora a situação do grupo, que encurta o roteiro. A terceira etapa da viagem ocorreu entre o fim de maio e meados de junho, com uma longa viagem até o Maranhão, onde ficaram por mais alguns dias até partir para Belém. Em julho, o grupo aportou no Rio de Janeiro, encerrando a expedição. Quando chegaram à capital carioca, foram recebidos pelo próprio Mário, que se mudara para lá. Ao todo recolheram cerca de 30 horas de gravações, por vezes, com dificuldade. Basta imaginar o que era viajar milhares de quilômetros com um equipamento grande - embora moderno para época -, indo a lugarejos remotos. A falta de luz elétrica era só uma das difíceis tarefas a ser dribladas pelo quarteto. Em Recife, por exemplo, o grupo teve de enfrentar a repressão do governo e da Igreja, que proibia as manifestações religiosas de influência africana. Apesar das dificuldades, quem conhece o material colhido garante que o grupo se aprimorou na sua tarefa com o passar do tempo. "Durante a expedição, o material foi ficando cada vez melhor. Eles gravavam na hora em discos de acetato com sistema de 78 rotações. São cerca de 1.200 fonogramas", diz o curador Marcos Branda Lacerda. Segundo ele, uma das curiosidades encontradas no material vem do bumba-meu-boi de Belém do Pará. "Há muita música carioca nessa manifestação. Há uma carnavalização muito forte ali dentro. Ou seja, há um lado bem cosmopolita nesse bumba-meu-boi", conta. Outra surpresa, revela Lacerda, foi ter encontrado em meio ao material uma paródia de Pelo Telefone, samba de Ernesto dos Santos, o Donga, e Mauro de Almeida, que fez muito sucesso nas primeiras décadas do século 20.
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