LEITURAS & RELEITURAS
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sábado, 26 julho, 2008
Entrevista para uma acadêmica do curso de Pós em deficiência auditiva

1- Poderia dar alguma indicação de como acontece a interação dos alunos com a criança surda em sala de aula? 

Alguns alunos já aprenderam alguns sinais e levam um relacionamento normal com eles.  Na maioria das vezes, realizam com os ouvintes algumas brincadeiras como jogar bola, assistir a vídeos, práticas no laboratório, atividades que exigem pouca interação verbal.

2- Tem professor intérprete em sala de aula? Qual a relação dele com os alunos da classe?

Este ano nosso colégio recebeu um professor intérprete. O relacionamento dele com os alunos da classe é normal como de qualquer outro professor. Ele impõe respeito sem ter que pedir.  O intérprete presente na sala de aula tem ajudado muitos os alunos, principalmente o não oralizado (não lê lábios).Tem atuado como um colaborador e acaba ajudando a todos na compreensão dos conteúdos, tirando as dúvidas e melhorando nas questões de aprendizagem.

3- Você como professora da turma, que tipo de contato tem com o aluno surdo?

As interações se dão de diferentes formas (gestos negativos e positivos, expressão facial, escrita, intervenção do intérprete), mas geralmente estão impregnadas de mal-entendidos, mudanças de sentidos que restringem a possibilidade de ensino-aprendizagem. A forma de diálogo é impregnada de repetições e recorrências resultantes da dificuldade de comunicação.  E essa tentativa de diálogo acaba por consumir um grande esforço entre mim e o aluno surdo dificultando a construção de conhecimentos. Às vezes utilizo um dos alunos surdos, que consegue entender melhor o conteúdo para que repasse a informação  aos demais.

  4-  Encontra dificuldades no trabalho com o surdo em sala?

 Encontrei muita dificuldade no início, quando assumi a primeira turma há 4 anos. Não tínhamos intérprete e sabe-se que a metodologia da maioria das aulas é a exposição oral e a utilização do quadro de giz. Discutíamos em reuniões sobre as melhores formas de facilitar a aprendizagem desses alunos e decidir sobre as melhores estratégias metodológicas, de modo a não ignorar suas necessidades diferenciadas e não marginalizar suas produções. Por isso, sempre que tínhamos alguma dificuldade a tomada de decisão era sempre feita em conjunto entre professores, equipe técnico-pedagógica e professores especializados, que sempre os acompanharam em outro turno.  Na primeira turma, não houve reprovação, mas o aprendizado foi muito deficiente. Este ano, com a ajuda do intérprete, o aprendizado e a participação são bem mais visíveis. Houve também uma acentuada mudança no comportamento dos alunos surdos com a vinda do intérprete, parece que demonstraram mais interesse, segurança sobre seus direitos, tornaram-se donos de seu espaço e confiam em suas atitudes e decisões. Com um profissional como o Anderson, nosso intérprete, em sala de aula, os surdos têm uma participação semelhante aos de outros estudantes: podem apresentar seminários, participar de debates e reuniões em grupo com outros colegas e não perdem o que acontece ao redor

5-  Adota  metodologia diferenciada no trabalho com o aluno surdo?

  • No primeiro dia de aula é  combinado( por todos professores da turma) com o aluno surdo que se sente na primeira carteira e de preferência em uma das filas do meio;

  • Durante as aulas faço minhas explanações sempre de frente para o surdo, falando nem muito rápido, nem muito devagar com movimentos labiais expressivos, procurando articular corretamente os fonemas. Nunca dou explicações de costas ou escrevo na lousa, bem como, não caminho na sala enquanto realizo explicações.

  • Se um aluno da sala, que não é surdo, faz uma pergunta, repito-a aos surdos, antes de iniciar a resposta.

  • Passo os conteúdos, trabalhos do bimestre e livros que deverão ser lidos, aos alunos no inicio de cada bimestre, ou com antecedência para que possa se organizar antecipadamente e receber apoio em outro período pela professora especialista em surdos;

  • Sempre me preocupo em fazer as anotações importantes na lousa (datas das provas, entrega de trabalhos, cursos, outros cronogramas, etc.) revendo se o aluno fez a anotação e cobrando-a do intérprete.

  • Elaboro provas idênticas a dos demais alunos com o objetivo de averiguar suas dificuldades, não facilitando a aquisição de notas. No final do ano se não conseguir a média, dependendo da aprendizagem, promovo-o por conselho de classe.

  • No processo de avaliação, respeito a forma de escrita dos alunos surdos, levo em consideração a falta de concordância dos verbos, artigos, pronomes, entre outros e preocupo-me se assimilaram o conteúdo

  • Quando utilizo recursos áudio – visuais (TV, Vídeo, DVD), apresento somente legendado, para facilitar a compreensão. Caso não seja legendado o intérprete os auxilia na compreensão;

  • O intérprete é um mediador entre mim e o aluno, tanto na comunicação oral quanto na escrita. Foi muito importante seu ingresso este ano no colégio.

  • Quando não entendo o que o aluno está falando peço que repita ou escreva.

  • Estimulo para que todos os alunos falem com o surdo objetivando sua maior integração com os colegas;

  • Procuro promover atividades juntamente com os demais alunos;

  • Observo se o aluno surdo está atento antes de iniciar uma comunicação oral com ele, caso contrário chamo sua atenção, tocando-o levemente.

    Obs.: Temos matriculados no terceiro ano do ensino médio cinco alunos surdos. Dentre eles três  desejam  prestar vestibular  no final do ano.



  • postado por Miriam Fajardo as 12:12:50
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