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sexta, 12 setembro, 2008
No Caminho com Maiakoviski

O lindo poema com esse título, na verdade não é de autoria do grande poeta russo Maiakóvski.Inúmeras vezes confundido como sendo do próprio é na verdade de outro poeta, o brasileiro Eduardo Alves da Costa.Esse equívoco que perdurou por três décadas, foi resolvido por uma personagem de novela.Escrito nos anos 60 pelo poeta fluminense Eduardo Alves da Costa, o poema "No Caminho, com Maiakóvski" era costumeiramente creditado ao russo Vladimir Maiakóvski .
E assim foi estampado em camisetas na época das Diretas-Já. Transformou-se em símbolo da luta contra a ditadura militar. Quando a personagem da atriz Cristiani Torloni, durante o capítulo de uma novela leu um trecho do poema dando o crédito correto, a controvérsia foi reacesa e as dúvidas foram dirimidas em horário nobre, em capítulo posterior.
"O engano surgiu quando o poema saiu em jornais universitários, nos anos 70. O Psicanalista Roberto Freire publicou num dos seus livros e deu crédito ao russo, me colocando na qualidade de tradutor", diz Eduardo Alves da Costa.  Eduardo Alves da Costa é, sem dúvida alguma, um poeta que contém um homem apaixonado em si, a maneira com que trata sua poesia é rica e clara; nada daqueles preciosismos pseudos literários que só fazem distorcer a concepção da poesia. Nele, arte e crítica caminham juntas,o que resulta em textos repletos de reflexões, tudo isto incrustado numa narrativa poética arejada e contemporânea.
Eis o poema:

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de me quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas manhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA
!



postado por Miriam Fajardo as 04:30:28
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