Cheguei a minha casa às dez e alguma coisa da matina. Joguei minha mala perto da cama, e parei para escutar a casa: silêncio quase total, o dia parecia a noite. Ter a casa só pra mim me faz sentir morar em outro lugar. Não sei se melhor, ou pior, só outro lugar. Fui até o velho armário, no quarto de meus pais e, quando abri as portas, encontrei uma porção de livros que eu nunca havia visto. Silencio pairando. Minha calma respiração era ouvida como um suspiro ofegante, de tão quieto o dia, e, por isso, tratei de abaixá-la. Entre um livro de Monteiro Lobato e outro, encontrei um livro de capa dura, e com desenhos infantis. Datado de maio do ano 2000, o volume continha a coisa mais preciosa: entre páginas de desenhos de paisagens e provérbios, havia a letra de minha mãe, contando acontecimentos diários e características dos seus três filhos. Quedas de dentes, brigas fraternas, características individuais e muitas outras coisas que só uma mãe poderia ter tecido. Foi mesmo uma nostalgia dominante. Eu, como que levando "uma fisgada num membro que já perdi", li todas as poucas páginas que minha mãe completou do diário.
Até hoje minha infância é um enorme mistério. Não é algo que eu consiga explicar, mas ela me parece um pouco inacabada, apagada. Eu fui criança, tenho as fitas de vídeo e esse diário pra provar, mas é como se não tivesse sido. A memória que eu tenho desse tempo é escassa, e, às vezes, misturo-as com as coisas que eu vi nas fotos daquela época. Eu sempre olhei as fotografias, e, quando olho nos meus olhos castanhos de menino, vejo a emoção de quem não sabia o que ia acontecer. Vejo e revejo as recordações do passado a procura de algo sólido que possa me levar de volta. No fundo é essa minha vontade. Minha relação com o passado é a mesma que tenho com o futuro: a de completo desconhecimento. Os álbuns me mostram os parentes e os amigos, pessoas que eu reconheço, e que correspondem fielmente às que me acompanham em minha vida nos dias de hoje. Mas daí eu olho para trás e me vejo, sorrindo, chorando, falando, escutando, sendo a única pessoa que eu sempre soube ser, e simplesmente não me reconheço. Vou até os lugares em que as recordações me mostram, e está tudo lá, como era antes. Falo com as pessoas que habitaram eternamente o meu passado, e elas são o que sempre foram. Mas, não adianta, é trágico e é insólito, mas eu não sou o mesmo. E há um pensamento que me acompanha incessantemente desde que sai das fotos e me tornei eu mesmo, e que me traga a cada decepção e a cada obstáculo que encontro: eu não devia ter mudado.
Mas, ao mesmo tempo, além de tudo, tem a fuga. Como disse antes, passado e futuro são desconhecidos, por isso se confundem tanto. O mistério de olhar para trás é o mesmo do que o de olhar para frente. Não me conheço no antes, não me imagino no depois, e isso me puxa do presente com uma força imbatível. De certo modo o presente não me agrada, o que faz com o que o desconhecido se torne um lugar melhor. A infância bela e o futuro próspero. Tentar lembrar do passado, ou me projetar no futuro me resgata do agora frustrante. Apesar de nada disso melhorar coisa alguma, eu continuo fugindo. Sou covarde, e vou escapar do que me incomoda sempre que tiver a oportunidade.
Mas quando abri aquele diário, alguma coisa me moveu. Algo da minha cabeça, que foi aberto junto com o livro, ecoa até agora em mim (e me faz urgente de escrever esse texto). A frustração de não me ver no ontem, e de não captar qualquer reflexo do passado quase que cessou por um instante. Alguma parte do tudo aquilo que eu não encontrei em fotos, filmes, pessoas e lugares me veio à tona, na forma de palavras de minha mãe (e eu quis chorar). Encontrei-me naquelas anotações, e tive a certeza de que o menino ali descrito era eu. Com o diário, todas as fases da minha vida retratadas nos álbuns fazem um sentido maior. O passado parece mais próximo de mim, e talvez seja essa a solução pra parar de fugir. Faz sentido que a desmistificação do futuro ocorra da mesma maneira do que a do passado, já que tanto faz pra que lado da linha do tempo é a fuga. Então, tirados o passado e o futuro do caminho, espero, por fim, ser contente com o presente.
“Ele gosta muito de computador e da madrugada. Sempre dorme tarde, e não resiste a um sofá e a uma televisão. Puxou o pai.” – 01/05/2000
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