Eu admito que tenho o infeliz costume de relevar sentimentos incômodos e de difícil ou inexistente solução. Já fiz disso um hábito: levo na cara, engulo seco a continuo andando. Alguma coisa fez com que a inércia me tomasse. E algo a mantém no controle. É que eu via o mundo através de um caleidoscópio de arrogância e ingenuidade. Acreditava que tudo, minhas paixões, meus ímpetos mais gritantes e até o amor (!), era solúvel em razão. Subestimei minhas crises, as diminui, abusei da pragmática e as classifiquei como delírio existencial. Não suportava a idéia de que havia algo acima de mim, algo me controlando. Achava inaceitável que eu não pudesse o autor das minhas escolhas, não quis escolher os excessos e extravagâncias que as paixões demandavam e abusei da dialética para pensar coisas e pessoas. Achei melhor me conter e ser comedido porque me assustava o tudo que é paixão e empírico demais. E agora vem a compreensão. Não sei se é alívio ou se é mais uma derrota. Enquanto tudo derrete neste calor infernal, enquanto minha cabeça lateja dolorosamente e meu corpo dói de cansaço extremo, eu compreendo o igualmente doloroso processo sentimental pelo qual passo. Destitui-me das defesas racionais e o sentimento de vulnerabilidade me esmaga cruelmente. Assumi que a vulnerabilidade, assim como o fracasso e a frustração, é só mais uma constante na vida de qualquer pessoa e isso me desapontou e me destruiu, porque eu realmente achei que estaria imune para sempre. Eu achei que não sentiria falta das pessoas e que, se a convivência com elas era difícil, pelo menos a despedida seria menos traumática. Agora as coisas se inverteram. Eu nunca achei que fosse precisar tão desesperadamente de algo que me faz tão mal. Eu acreditei que nunca seria contraditório e que precisar e não precisar eram conceitos extremamente distintos. Ledo engano.
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