PAIXÃO PELA LEITURA
PAIXÃO PELA LEITURA
sexta, 08 fevereiro, 2008
Monadologia de Leibnz

Esta é a principal obra ou pelo menos a que retrata melhor a filosofia de Gottfried Wilhelm von Leibniz, Filósofo e cientista alemão.

A monadologia é um discurso metasifico acerca das mónades (susbtancias simples – atomos que compoem toda natureza). Monadologia na filosofia de Leibniz é o estudo das substancias simples.

Por tratar-se de um discurso metafísico (as monades são unidades metafisicas) a monadologia tende a ser uma obra teológica, pois  nela,  Deus é a susbtancia simples originária donde todas as mónades são criadas ou derivadas. A partir daí o filosofo alemão passar a discorrer acerca dos atributos de Deus, ser perfeito e por isso totalmente distinto da sua criação.

Leibniz fala especificamente de tres atributos da divindade – Potência, conhecimento e vontade. Estes mesmos atributos serão encontrados nas mónadas (contigência) como meras imitações, isto é, num grau de imperfeição, em Deus porém absolutamente infinitos ou perfeitos. É essa  perfeição que coloca o universo em ordem, pois para o filososo alemão “não há nada de inculto, de esteril, de morto no universo”.

A teologia de Leibniz (a postura já não é mais filosófica) é  Teísta, pois nela, Deus é um ser pessoal disposto a entrar em sociedade com as suas criaturas. Deus é um ser que busca relacionar-se com suas criaturas num nivel de paternidade. Já não somos apenas criaturas, somos filhos do Deus que decidiu ser nosso Pai.

Acho que é isso. Agora deixo voces com os fragmentos da Monadologia de Leibniz.

Notas:

29  — Porém, o conhecimento das verdades necessárias e eternas é o que nos distingue dos simples animais e nos faz possuir a RAZÃO e as Ciências, elevando-nos ao conhecimento de nós próprios e de Deus. E é o que se chama em nós Alma Racio­nal ou Espírito.

30  — É também pelo conhecimento das verdades necessárias e pelas suas abstracções que nos elevamos aos ACTOS REFLEXIVOS, que nos fazem pensar no que se chama Eu e a considerar que isto ou aquilo existem em nós. E é assim que pensando em nós pensamos no Ser, na Substância, no simples e no composto, no imaterial e no próprio Deus, concebendo que aquilo que é limitado em nós é nele ilimitado. E estes Actos reflexivos for­necem os objectos principais dos nossos raciocínios. (Teod., Prefácio).

37  — E como todo este DETALHE envolve ainda outros contingentes anteriores ou mais detalhados, dos quais cada um tem ainda necessidade de uma Análise semelhante para lhe confe­rir razão, nunca mais se avança na análise; e é preciso que a razão suficiente ou última esteja fora da seqüência ou SÉRIES deste detalhe dos contingentes por mais infinito que ele possa ser.

38  — E é assim que a última razão das coisas deve estar numa substância necessária, na qual o detalhe das mudanças não esteja senão eminentemente, como na origem: e é o que chamamos Deus. (Teod., § 7).

39 - Ora, esta substância sendo uma razão suficiente de todo este detalhe, o qual está igualmente ligado por todo o todo o lado, NÃO HÁ SENÃO UM DEUS E ESTE DEUS BASTA.

41  — Donde se segue que Deus é absolutamente perfeito, não sendo outra coisa a perfeição senão a grandeza de realidade positiva tomada rigorosamente, excluindo os limites ou restrições nas coisas que as têm. E onde não há limites, isto é, em Deus, a perfeição é absolutamente infinita. (Teod., § 22, Prefácio, § 4).

42  — Segue-se igualmente que as criaturas têm as suas perfeições a partir da influência de Deus, mas que elas têm também as suas imperfeições a partir da sua própria natureza, incapaz de ser sem limites. Porque é nisto que elas são distintas de Deus. (Teod., §s. 20, 27-30, 153, 167, 377 e ss.).

43  — Ê igualmente verdade que em Deus está não somente a fonte das existências, mas ainda a das essências, enquanto reais, ou o que há de real na possibilidade. E isto é assim porque o Entendimento de Deus é a região das verdades eternas ou das idéias de que se dependem, e sem ele nada de real haveria nas possibilidades; e não somente nada de existente, mas tão-pouco nada de possível. (Teod., § 20).

44  — Porque é necessário que, se há uma realidade nas Essências ou possibilidades ou nas verdades eternas, esta realidade seja fun­dada em algo de existente e Actual; e, consequentemente, na Existência do Ser necessário, no qual a Essência implica a Existência ou no qual basta ser possível para ser Actual. (Teod,, §s. 184-189, 335).

47  — Assim, só Deus é a Unidade Primitiva ou a substância simples originária, da qual todas as Mónadas criadas ou derivativas são produções; e nascem, por assim dizer, por Fulgurações contí­nuas da Divindade de momento a momento, limitadas pela receptividade da criatura, à qual é essencial ser limitada. (Teod., §s. 382-391, 398, 395).

48  — Há em Deus a POTÊNCIA, que é a fonte de tudo, depois o CONHECIMENTO, que contém o detalhe das idéias, e enfim a VONTADE, que faz as mudanças ou produções segundo o princípio do melhor. E isto é o que corresponde, ao que nas Mónadas criadas faz o Sujeito ou a Base, a Faculdade Perceptiva e a Faculdade Apetitiva. Mas em Deus estes atributos são absolutamente infinitos ou perfeitos; e nas Mónadas criadas ou nas Enteléquias (ou perfectihabies, como Hermolaus Barbarus traduziu esta palavra) não são senão imitações à medida da perfeição que contêm. (Teod., §s. 7, 149, 150; § 87).

55  — E é esta a causa da Existência do Melhor, que a Sabedoria fez conhecer a Deus, que a sua bondade o fez escolher e que a sua potência o fez produzir.

(Teod., §s. 8, 78, 80, 84, 119, 204, 206, 208, Resumo 1a Obj., 8.a Obj.).

64  — Assim, cada corpo orgânico de um vivente é uma Espécie de Máquina divina, ou de um Autômato Natural, que ultrapassa infinitamente todos os Autômatos artificiais, porque uma Má­quina feita pela arte do homem não é Máquina em cada uma das suas partes. Por exemplo: o dente de uma roda de latão tem partes ou fragmentos que já não nos são algo de artificial e não contêm mais nada que indique da Máquina relativa­mente ao uso a que a roda era destinada. Mas as Máquinas da Natureza, isto é, os corpos vivos, são ainda Máquinas nas suas menores partes, até ao infinito. É isto que faz a diferença entre a Natureza e a Arte, isto é, entre a Arte divina e a Nossa. (Teod., §s. 134, 146, 194, 483).

67  — Cada porção de matéria pode ser concebida como um jardim pleno de plantas.e como um lago pleno de peixes. Mas cada ramo da planta, cada membro do Animal, cada gota de seus humores é ainda um tal jardim ou um tal lago.

68  — E embora a terra e o ar interpostos entre as plantas do jardim ou a água interposta entre os peixes do lago não sejam plantas nem peixes, eles os contêm ainda, as mais das vezes de uma subtilidade imperceptível para nós.

69  — Assim, não há nada de inculto, de estéril, de morto no universo, não há caos nem confusão senão na aparência, mais ou menos como num lago à distância no qual se veria um movi­mento confuso e buliçoso, por assim dizer, de peixes no lago sem discernir os próprios peixes.

72  — Assim, a alma não muda de corpo senão pouco a pouco e por graus, de modo que não é nunca despojada instantaneamente de todos os seus órgãos; e muitas vezes há metamorfose nos animais, mas nunca há Metempsicose nem transmigração das Almas; também não existem ALMAS completamente SEPARADAS nem Gênios sem corpo. Só Deus está inteiramente separado. (Teod., §s. 90, 124).

77  — Assim, pode dizer-se que não somente a Alma (espelho de um universo indestrutível) é indestrutível, como ainda o pró­prio animal, ainda que a sua Máquina pereça freqüentemente em parte e abandone ou receba despojos orgânicos.

83 — Entre as várias diferenças que há entre as Almas ordinárias e os Espíritos, das quais já analisei uma parte, há ainda esta: que as Almas em geral são espelhos vivos ou imagens do uni­verso das criaturas mas que os Espíritos são ainda imagens da própria Divindade ou do próprio Autor da natureza, capazes de conhecer o Sistema do Universo e de o imitar em algo atra­vés de escantilhões arquitectónicos, cada Espírito sendo como uma pequena divindade no seu domínio. (Teod., § 147).

84 — É o que faz que os Espíritos sejam capazes de entrar numa Maneira de Sociedade com Deus, e que Ele seja relativamente a eles não somente o que um inventor é à sua Máquina (como o é Deus relativamente às outras criaturas), mas ainda o que um Príncipe é a seus súbditos e mesmo um pai a seus filhos.

85 — Donde é fácil de concluir que a reunião de Todos os Espíritos deve constituir a Cidade de Deus, isto é, o mais perfeito estado possível sob o mais perfeito dos Monarcas. (Teod., § 146; Resumo, 2.a Obj.).

87  — Do mesmo modo que acima estabelecemos uma Harmonia perfeita entre os dois Reinos Naturais, um o das causas Eficientes, outro o das Finais, devemos ainda assinalar uma outra harmonia entre o reino Físico da Natureza e o reino Moral da Graça, isto é, entre Deus considerado como Arquitecto da Máquina do universo e Deus considerado como Monarca da cidade divina dos Espíritos. (Teod., §s.  62, 74,  118, 112,  130, 147).

88  — Esta Harmonia faz que as coisas conduzam à graça pelas próprias vias da natureza, e que este globo, por exemplo, deve ser destruído e reparado pelas vias naturais e nos momentos em que o requer o governo dos Espíritos, para castigo de uns e recompensa de outros. (Teod., §s. 18 e ss. 110, 244, 245, 340).

89  — Pode dizer-se ainda que Deus como Arquitecto satisfaz em tudo a Deus como Legislador e que, assim, os pecados devem arras­tar consigo a sua pena segundo a ordem da natureza e em vir­tude da própria estrutura mecânica das coisas; e que do mes­mo modo as belas acções atrairão as suas recompensas por vias mecânicas relativamente aos corpos, ainda que isto não possa e não deva sempre acontecer imediatamente.

90  — Enfim, sob este governo perfeito não haverá boa Acção sem recompensa nem má sem castigo; e tudo deve resultar para bem dos bons, isto é, daqueles que não se encontram descontentes neste grande Estado, que confiam na providência após terem feito o seu dever e que amam e imitam como é devido o Autor de todo o bem, alegrando-se na consideração das suas perfeições segundo a natureza do verdadeiro PURO AMOR, que nos faz gozar com a felicidade do que se ama. É o que faz tra­balhar as pessoas sábias e virtuosas em tudo o que parece con­forme à vontade divina presumida ou antecedente e satisfazer--se, todavia, com aquilo que Deus faz efectivamente acontecer por via da sua vontade secreta, conseqüente ou decisiva; reconhecendo que, se pudéssemos entender suficientemente a ordem do universo concluiríamos que ela ultrapassa todos os desejos dos mais sábios e que seria impossível torná-lo melhor do que ele é, não somente para o todo em geral mas ainda para nós próprios em particular, se nos submetemos como é devido ao Autor de tudo, não só como ao Arquitecto e à causa efici­ente do nosso ser, mas ainda como a nosso Mestre e à causa Final que deve constituir todo o objecto da nossa vontade e o único que pode fazer a nossa felicidade. (Teod., § 278; Prefácio).

 



postado por Isaias Rodrigues de Souza as 12:28:13 0 comentários




sexta, 11 janeiro, 2008
A República - Livros V e VI

Mais uma resenha da obra de Platão “A República” livros v à vii, a mãe de todas as Utopias.

Utopia é aquilo que desejamos que venha a ser, mas é Utopia precisamente por não ter chegado a ser e é preferível que não chegue, pois todas as tentativas de tornar realizada uma utopia chegam deformadas. Veja o caso em que Platão sonha com uma cidade perfeita (algo que só existe no mundo das idéias). Na cidade perfeita os deficientes não tem vez. A cidade perfeita pertence aqueles de raça pura. Lembrou de alguma coisa? Pois bem, Hitler tinha esse mesmo sonho e todos nós sabemos o resultado disso. Utopia só tem valor enquanto combustível para a esperança, pois a perda da esperança consiste na perda de todas as coisas.

Vamos ao que interessa. Fragmentos da leitura de “A República”

Somos de opinião que a boa ou má gerência desses assuntos é de grande, ou melhor de capital importância para a sociedade.(Falando da educação)

Para que pensas que viemos aqui? Disse Trasímaco. – Para buscar ouro ou para ouvir uma discussão?

E quanto ao homem que se ria de mulheres nuas a exercitar seus corpos para os mais nobres fins, esse “colhe verde o fruto de seu riso”, e não sabe nem de que ri, nem o que faz, pois com toda a razão se diz e se dirá sempre que o útil é o belo e o nocivo é o feio.

...é possível que os nossos governantes tenham de fazer uso freqüente da mentira e do engano no interesse de seus governados, e dizíamos, se bem me lembro, que o emprego de tais coisas a titulo de remédio poderia ser útil.

Teremos de inventar algum engenhoso sistema de sorteio para que indivíduos de menos valor, ao se verem mal contemplados, não possam acusar os governantes mas apenas a sua má sorte.

....se quisermos que a raça dos guardiães se conserve pura (frio na espinha)

Ora, o que une não é a comunidade de alegrias e pesares, quando o maior numero possível de cidadãos se rejubile ou se aflija diante dos mesmos acontecimentos felizes ou infaustos?

E o que não desune não é a diversidade dos sentimentos privados, quando as mesmas coisas sucedidas à cidade ou aos seus habitantes fazem com que uns não caibam em si de contentes ao passo que outros mergulham em profunda tristeza?

Como ia dizendo, pois, tanto a comunhão de propriedades como a de famílias contribuem para fazer deles verdadeiros guardiães; não desmembrarão a cidade com pendências em torno do “meu” e do “teu”, arrebanhando cada qual o que houver adquirido sem cooperação de ninguém para sua casa particular, onde tem esposa e filhos próprios e prazeres e dores todos seus, muito ao contrário, pensando todos do mesmo modo sobre os assuntos domésticos, buscarão os mesmos fins e compartilharão tanto quanto possível , os mesmos prazeres e dores.

- Quais são, então, os verdadeiros? (filósofos)

- Os que gostam de contemplar a verdade – respondi.

Mas aqueles que amam a verdade em cada coisa devem ser chamados filósofos ou amantes do saber....

Portanto, a alma esquecida não pode ser incluída entre as naturezas genuinamente filosóficas, é imprescindível que o filosofo tenha boa memória.

As almas fracas nunca serão capazes de grandes ações, quer no bem, quer no mal.

Por certo não ignoras que, dentro da má organização política atual, se alguma coisa se salva e é tal como devia ser, só pode resultar de uma intervenção divina. Isso podemos afirmar sem medo de errar. (na política brasileira principalmente)

Os que pertencem a este pequeno grupo e provaram a doçura e a felicidade de um bem semelhante vêem com suficiente clareza a loucura da multidão e sabem, por outro lado, que nenhum político é honesto, nem existe campeão da justiça a cujo lado possam lutar e ser salvos. É como alguém que tivesse caído entre animais ferozes e não quisesse participar de suas malfeitorias nem tampouco fosse capaz de resistir aos furores de todos eles; percebendo que se expõe a morre antes de haver prestado qualquer serviço à cidade ou a seus amigos, com morte inútil para si mesmo e para os demais, resolve calar-se e tratar exclusivamente de seus assuntos.

Á medida que a vida for avançando e o intelecto começar a amadurecer, intensificarão pouco a pouco a ginástica da alma.

Esta ultima hipótese me parece mais provável, pois não foram poucas as ocasiões em que me ouviste dizer que o mais sublime conhecimento é a idéia do bem, e unicamente por sua associação com ela a justiça e as outras virtude se tornam úteis e benéficas.

E não sabes que todas que todas as opiniões sem conhecimento são defeituosas, ou cegas na melhor das hipóteses? Não negarás, imagino, que aqueles que professam uma opinião reta, mas sem conhecimento, se assemelham em tudo a cegos que vão pelo bom caminho?

 

 



postado por Isaias Rodrigues de Souza as 08:10:24 0 comentários




quinta, 10 janeiro, 2008
A INVESTIGAÇÃO ACERCA DO ENTENDIMENTO HUMANO

Este é o meu primeiro post de 2008. Estou firme na decisão de levar adiante minhas leituras filosóficas, pois acredito que a filosofia me ensina a pensar não só criticamente mas claramente.

Abri o ano de 2008 com a obra de David Hume – A investigação acerca do entendimento humano. Hume parece ser aquele tipo de gente que não gosta de “fazer rodeios”, é o vamos ao que interessa. Nada de abstrações. Nada de viver num “mundo de idéias”. Hume nos convida a adentrarmos num mundo de sensações. Temos diante de nós um novo modo de “enxergar” o mundo, chamo de visão empírica da vida.

A filosofia empírica de Hume critica a filosofia platônica (idéias inatas) e a duvida cartesiana (cogito enquanto evidência de existência). Hume amplia o debate propondo filosoficamente:

1. Que as idéias nada mais são do que cópias das sensações. A idéia perde a sua força à medida que se afasta das sensações, é por isso que a mais vivida idéia será sempre inferior mesmo que a sensação seja a mais embaçada.

2. Que a experiência é a via de fato. É preciso sentir, experimentar para poder conhecer.

3. Que a duvida profissional de Descartes é impossível. A informação que nos chega através dos sentidos é obvia.

4. As idéias não são inatas. Os instintos são inatos. Sinto logo existo.

A filosofia de Hume é interessante, desafiadora mas me deixa um pouco inquieto. Confiar apenas nas sensações? Buscar a verdade nas experiências? Entendo que sou uma tabula rasa e as impressões da vida estão sendo inscritas nela, mas acredito também que a vida não está absolutamente condicionada às sensações.  A fé, por exemplo, não é uma questão de sentir mas de saber metafisicamente (A fé é o firme fundamento daquilo que não se vê).

Bem, por hoje é só. Vou deixá-los com os fragmentos da leitura de “A investigação acerca do entendimento humano”. Ah, por favor, deixem um comentário. Ok?!

Notas de leitura

“...passam de casos particulares para princípios gerais, e con­duzem ainda mais suas investigações para princípios mais gerais, e não ficam satisfeitos até chegar àqueles princípios primitivos que, em toda ciência, devem limitar toda curiosidade humana.

Certamente, a filosofia fácil e dada terá sempre preferência, para a maioria dos homens, sobre a filosofia exata e abstrusa; e por muitos será recomendada, não apenas como a mais agradável, mas também como mais útil do que a outra. Ela penetra mais na vida cotidiana, molda o coração e os afetos, e ao atingir os princípios que impulsionam os homens, reforma-lhes a conduta e aproxima-os mais do modelo de perfeição que ela descreve. Ao contrário, a filosofia abstrusa, alicerçada numa concepção que não pode penetrar na vida prática e na ação, desvanece quando o filósofo sai da sombra e penetra no dia claro, nem seus princípios podem manter facilmente qualquer influência sobre nossa conduta e nossos cos­tumes. Os sentimentos de nosso coração, a perturbação de nossas paixões e a impetuosidade de nossas emoções, dissipam todas as suas conclusões e reduzem o filósofo profundo a um simples plebeu.

Sede um filósofo, mas, no meio de toda vossa filosofia, sede sempre um homem.4

O político adquirirá maior previsão e sutileza na divisão e no equilíbrio do poder, o advogado, mais método e prin­cípios mais sutis em seus raciocínios, o general, mais regularidade em sua disciplina, mais cautela em seus planos e em suas manobras. A maior estabilidade dos governos modernos sobre os antigos e a exa­tidão da filosofia moderna têm melhorado, e provavelmente melho­rarão ainda mais, por gradações semelhantes.

Se não houvesse nenhuma vantagem a ser colhida destes estudos além da satisfação de uma curiosidade ingênua, mesmo assim este resultado não devia ser desprezado, pois ele se acrescenta aos poucos prazeres seguros e inofensivos que são conferidos à raça humana. O caminho da vida, o mais agradável e o mais inofensivo, passa pelas avenidas da ciência e do saber; e, quem quer que possa remover quais­quer obstáculos desta via ou abrir uma nova perspectiva, deve ser considerado um benfeitor da humanidade.

E não há razão para temer que não tenhamos o mesmo êxito em nossas investigações acerca da organização e das faculdades mentais, se rea­lizadas com o mesmo talento e cautela. E provável que uma operação e um princípio do espírito dependam de uma outra operação e de um outro princípio que, por seu turno, possam reduzir-se a uma outra operação e a um outro princípio mais geral e mais universal. E ser-nos-á muito difícil determinar exatamente até onde é possível levar nossas investigações, antes — e mesmo depois — de um cuidadoso exame.

O pensamento mais vivo é sempre inferior à sensação mais embaçada.

Em resumo, todos os materiais do pensamento derivam de nossas sensações externas ou internas; mas a mistura e composição deles dependem do espírito e da vontade. Ou melhor, para expressar-me em linguagem filosófica: todas as nossas idéias ou percepções mais fracas são cópias de nossas impressões ou percepções mais vivas.

Segundo, se ocorre que o defeito de um órgão prive uma pessoa de uma classe de sensação, notamos que ela tem a mesma incapacidade para formar idéias correspondentes. Assim, um cego não pode ter noção das cores nem um surdo dos sons. Restaurai a um deles um dos sentidos de que carecem: ao abrirdes as portas às sensações, pos­sibilitais também a entrada das idéias, e a pessoa não terá mais difi­culdade para conceber aqueles objetos.

Portanto, quando suspeitamos que um termo filosófico está sendo empregado sem nenhum significado ou idéia — o que é muito freqüente — devemos apenas perguntar: de que impressão é derivada aquela suposta idéia?3 E, se for, impossível designar urna, isto servirá para confirmar nossa suspeita. E razoável, portanto, esperar que, ao trazer as idéias a uma luz tão clara, removeremos toda discussão que pode surgir sobre sua natureza e realidade.4

Como esta regra não admite exceção, conclui-se que nas com­posições narrativas os eventos ou atos que o escritor relata devem estar unidos por algum elo ou laço; é preciso que estejam unidos uns aos outros na imaginação e formem uma espécie de unidade que possa situá-los em um único plano, em um único ponto de vista, e que possa ser o objeto e o fim do autor em seu primeiro empreendimento.

Este princípio de conexão entre vários eventos, formando o tema de um poema ou de uma história, pode ser diferente segundo os dis­tintos planos de um poeta ou de um Nestas duas espécies de composição é indispensável a unidade e a simplicidade de ação para manter intacto e sem distração o interesse e a simpatia; mas, na poesia épica ou nar­rativa, esta regra se estabelece sobre um outro fundamento: a neces­sidade que se impõe a todo escritor de ter um plano ou desígnio antes de principiar qualquer dissertação ou relato e de compreender seu tema sob um aspecto geral ou uma visão unificadora que possa ser o objeto constante de sua atençãohistoriador.

É-nos suficiente presente­mente ter estabelecido esta conclusão: os três princípios de todas as idéias são as relações de semelhança, de contiguidade e causalidade.

Portanto, deve ser assunto digno de nossa atenção investigar qual é a natureza desta evidência que nos dá segurança acerca da realidade de uma existência e de um fato que não estão ao alcance do testemunho atual de nossos sentidos ou do registro de nossa me­mória.

Suponho que descobrir defeitos na filosofia comum, se os há, não é motivo de desânimo mas, pelo contrário, como é de costume, um incentivo para se tentar alguma coisa mais completa e mais satisfatória do que aquela que tem sido até agora proposta ao público.

Nenhum objeto jamais revela, pelas qualidades que aparecem aos sen­tidos, tanto as causas que o produziram como os efeitos que surgirão dele; nem pode nossa razão, sem o auxílio da experiência, jamais tirar uma inferência acerca da existência real e de um fato.

O espírito nunca pode encontrar pela in­vestigação e pelo mais minucioso exame o efeito na suposta causa.

Em uma palavra: todo efeito é um evento distinto de sua causa.

É preciso que um homem seja muito sagaz para poder descobrir através do raciocínio que o cristal é o efeito do calor e o gelo o efeito do frio, sem estar previamente familiarizado com o funcionamento destes estados dos corpos.

Cada solução gera uma nova questão tão difícil como a precedente e nos conduz a novas investi­gações.

Portanto, considera-se inteligível toda proposição concebida distintamente e sem contradição e, por conseguinte, jamais sua falsidade é mostrada por ar­gumento demonstrativo ou raciocínio abstrato a priori.

Entretanto, se os argumentos nos levarem a confiar na experiên­cia e fazê-la padrão de nosso juízo futuro, deveremos considerá-los apenas prováveis, isto é, referentes às questões de fato e de existência real, de acordo com a divisão acima mencionada.

Este princípio é o costume ou o hábito. Visto que todas as vezes que a repetição de um ato ou de uma determinada operação produz uma propensão a renovar o mesmo ato ou a mesma operação, sem ser impelida por nenhum raciocínio ou processo do entendimento, dizemos sempre que esta propensão é o efeito do costume.

Numa palavra, se não partirmos de um fato presente à memória ou aos sentidos, nossos raciocínios serão puramente hipotéticos; e seja qual for o modo como estes elos particulares estejam ligados entre si, toda a cadeia de inferência não teria nada que lhe servisse de apoio e jamais por meio dela poderíamos chegar ao conhecimento de uma existência real

Não há nada mais livre do que a imaginação humana; embora não possa ultrapassar o estoque primitivo de idéias fornecidas pelos sentidos externos e internos, ela tem poder ilimitado para misturar, combinar, separar e dividir estas idéias em todas as variedades da ficção e da fantasia imaginativa e novelesca.

Digo, pois, que a crença não é nada senão uma concepção de um objeto mais vivo, mais vivido, mais forte, mais firme e mais estável que aquela que a imaginação, por si só, seria capaz de obter.

Em filosofia, não podemos ir além da seguinte afirmação: crença é qualquer coisa sentida pelo espírito, que distingue as idéias dos juízos das ficções da imaginação.

Os objetos sensíveis influem com mais vigor sobre a fantasia do que quaisquer outros e comunicam mais depressa esta influência às idéias com as quais se relacionam e se assemelham.

Os supersticiosos afeitos às relíquias dos santos e de personagens sagradas procuram, por esta razão, simbolos ou imagens que possam avivar sua devoção e forne­cer-lhes concepção mais íntima e mais forte das vidas exemplares que visam a imitar.

Mas os sentimentos mais sutis do espírito, as funções do entendimento, as diversas agi­tações das paixões, embora realmente diferenciados em si mesmos, esquivam-se facilmente de nós quando os examinamos pela reflexão; e temos o poder de recordar o objeto original tão frequentemente como temos ocasião de contemplá-lo.

Portanto, o principal obs­táculo para o nosso aperfeiçoamento nas ciências morais ou metafísicas consiste na obscuridade das idéias e na ambigüidade dos termos.

É preciso produzir as im­pressões ou sensações originais das quais as idéias são cópias. Essas impressões são todas fortes e sensíveis.

Portanto, para atingir um conhecimento total da idéia de poder ou de conexão necessária, devemos examinar sua impressão e, a fim de desvendar a impressão com maior segurança, busquemo-la em to­das as fontes das quais ela possivelmente deve derivar.

Nossa autoridade sobre nossos sentimentos e nossas paixões é muito mais débil do que sobre nossas idéias; e mesmo esta última se cir­cunscreve dentro dos mais estreitos limites. Quem pretenderá dar a razão última destes limites ou mostrar por que o poder é débil em alguns casos, e não em outros?

Os homens têm o hábito, em tais dificuldades, de recorrer a algum principio invisível e inteligente9 como causa imediata do evento que os surpreende e que, pensam eles, não pode ser expli­cado pelos poderes corriqueiros da natureza. Mas os filósofos, que levam suas pesquisas um pouco mais adiante, percebem imediata­mente que, mesmo nos eventos mais familiares, a energia da causa é tão ininteligível como no mais invulgar, e que apenas apreendemos da experiência a freqüente conjunção dos objetos, sem que jamais se­jamos capazes de compreender nada semelhante à conexão entre eles.10

Pretendem que os objetos geralmente denominados causas não são em realidade nada mais do que ocasiões, e que o verdadeiro e direto princípio de todo efeito não é nenhum poder ou força natural, mas a vontade do Ser Supremo, que quer que tais objetos particulares estejam sempre ligados entre si.

Nossa visão mental ou nossa concepção de idéias nada mais é do que uma revelação que nos faz nosso Criador

De acordo com esta experiência, portanto, podemos definir uma causa como um objeto seguido por outro, de tal forma que todos os objetos semelhantes ao primeiro são seguidos de objetos semelhantes ao se­gundo. Ou, em outras palavras: se o primeiro objeto não houvesse existido, o segundo nunca haveria existido.

Em todos os raciocínios abstratos há um ponto de vista que, se afortunada­mente o alcançamos, nos ilustra mais acerca do assunto que mediante toda a eloqüencia do mundo. Devemos aspirar a este ponto de vista e reservar os floreios da retórica para oportunidade mais adequada.

Seria razoável esperar que acerca das questões que têm sido examinadas e discutidas cuidadosamente desde os primórdios da ciên­cia e da filosofia houvesse, ao menos, acordo entre os disputantes sobre o significado de todos os termos e, transcorridos dois mil anos de inquirições, houvessem passado das palavras para o objetivo ver­dadeiro e real da controvérsia.

Poderíamos dizer, em tal suposição, que um objeto ou evento resulta de outro e não que um foi produzido pelo outro.

Quereis conhecer os sentimentos, as inclinações e o modo de viver dos gregos e dos romanos? Estudai bem o temperamento e as ações dos franceses e dos ingleses: não estareis muito equivocado se transferirdes aos primeiros a maioria das observações que fizestes sobre os segundos. A humanidade é bastante parecida, em todos os tempos e lugares, e a história nada nos informa de novo ou estranho a este respeito.

Podemos mudar o nome das coisas, porém sua natureza e sua ação sobre o entendimento não mudam jamais.

Pois estes são fatos pa­tentes e reconhecidos. Por liberdade, então, podemos apenas entender um poder de agir ou de não agir segundo as determinações da vontade;11 isto é, se escolhermos permanecer em repouso, podemos; mas, se esco­lhermos mover-nos, também podemos. Ora, reconhece-se universalmente que esta liberdade incondicional encontra-se em todo homem que não esteja prisioneiro ou acorrentado. Logo, aqui não há assunto para discussão.

Não há método mais comum de raciocinar — e não obstante nenhum mais censurável — do que refutar as hipóteses nas discussões filosóficas sob pretexto de conterem perigosas conseqüências para a religião e a moral.

Somente porque um temperamento precipitado, em­bora dotado de uma causa ou princípio constante no espírito, atua apenas por intervalos e não corrompe todo o caráter. Por outro lado, o arrependimento purifica todos os crimes, se acompanhado de uma reforma da vida e dos costumes. Como explicar isto? Apenas decla­rando que as ações tornam alguém criminoso quando elas constituem provas da existência de princípios criminais, em seu espírito; quando, por uma alteração destes princípios, deixam de ser provas concluden­tes, igualmente deixam de ser criminais. Mas, excetuando a doutrina da necessidade, elas nunca foram provas concludentes e, por conseguinte, nunca foram criminais.

En­quanto agimos, algo age, por sua vez, sobre nós. O Autor último de todas as nossas vontades é o Criador do mundo, quem, no início, deu o impulso a esta imensa máquina e colocou todos os seres nesta posição particular, de onde deve resultar, por uma necessidade inevitável, todo evento posterior.

Um homem sábio,4 portanto, torna sua crença proporcional à evidência. Nas conclusões que se baseiam numa experiência infalível, espera o evento com o máximo grau de segurança e considera a ex­periência passada uma prova completa da existência futura deste even­to. Em outros casos, procede com mais precaução; pesa as experiências contrárias; considera qual dos lados está apoiado por maior número de experiências; é para este lado que se inclina, com dúvida e hesitação; e quando finalmente estabelece seu juízo a evidência não ultrapassa o que denominamos propriamente de probabilidade. Toda probabilida­de, portanto, supõe uma oposição de experiências e de observações, na qual um dos lados sobrepuja o outro e produz um grau de evidência proporcional à superioridade.

Um homem que delira ou que é conhecido por sua falsidade e sua vilania não tem nenhuma espécie de autoridade para nós.

Um milagre é uma violação das leis da natureza; e como uma experiência constante e inalterável estabeleceu estas leis, a prova contra o milagre, devido à própria natureza do fato, é tão completa como qualquer argumento da natureza que se possa imaginar.

Nada é considerado um milagre se ocorre no curso normal da natureza.

A eloqüência, no seu mais alto grau, sobrepuja a razão e a re­flexão; mas como ela se dirige inteiramente à fantasia ou aos afetos, cativa os ouvintes condescendentes e subjuga seu entendimento

Prodígios, presságios, oráculos e punições divinas ocultam completamente os poucos eventos naturais que se misturam a eles. Mas, como o seu número diminui a cada página, à medida que nos aproximamos das épocas das luzes, rapidamente compreendemos que não há nada de misterioso ou de sobrenatural no assunto, mas que tudo decorre da tendência natural dos homens para o maravilhoso, e que, embora esta inclinação às vezes possa ser refreada pelo bom senso e pela instrução, não pode ser jamais extirpada da natureza humana.

A menor centelha aqui pode transformar-se na maior chama, já que os materiais estão sempre preparados para se inflamar. Avidum genus auricularum9 a população alucinada recebe sofregamente, sem exame, tudo o que adula a superstição e promove o maravilhoso.

Porquanto apenas a experiência con­fere autoridade ao testemunho humano, e é ainda a experiência que nos assegura a respeito das leis da natureza

Embora o Ser ao qual o milagre é atribuído seja, neste caso, Onipotente, o fato não se torna, por esta razão, nem um pouco mais provável, visto que nos é impos­sível apreender os atributos e os atos de um tal Ser, senão através da experiência que temos de suas produções no curso ordinário da na­tureza.

religião cristã, que se têm proposto defen­dê-la mediante os princípios da razão humana. Nossa santíssima religião funda-se na fé, e não na razão; e um método seguro para fazê-la perigar consiste em submetê-la a uma prova para a qual não está de maneira nenhuma preparada para resistir.

A mera razão é suficiente para convencer-nos da sua veracidade; quem quer que, movido pela fé, lhe dá o seu assentimento, está consciente de um milagre contínuo em sua própria pessoa, que subverte todos os princípios de seu en­tendimento e o determina a crer nas coisas mais opostas ao costume e à experiência.11

Concluístes que as doutrinas e os raciocínios religiosos não podem ter influência sobre a vida porque não devem tê-la; não consi­derais jamais que os homens não raciocinam da mesma maneira que vós, mas que tiram muitas conseqüências da crença na existência de Deus e supõem que a divindade imporá castigos ao vício e concederá recompensas à virtude, além daquilo que parece no curso ordinário da natureza. Não importa se seu raciocínio é justo ou não. Sua in­fluência sobre a vida e sobre a conduta deve ser a mesma. E aqueles que tratam de livrá-los de tais preconceitos podem ser, pelo que eu saiba, bons raciocinadores, mas não posso considerá-los bons cidadãos e políticos, pois eles livram os homens disto que freia suas paixões e tornam mais fácil e mais segura, em certo modo, a transgressão das leis da sociedade.

Não há maior número de raciocínios filosóficos desenvolvidos sobre um assunto do que os que provam a existência de um Deus e refutam as falácias dos ateus; apesar disso, os filósofos mais religiosos persistem discutindo e averiguando se alguém pode ser tão cego a ponto de tornar-se um ateu especulativo.

...o que se entende por cético? E até que ponto é possível estender estes princípios filosóficos de dúvida e incerteza?

Há uma espécie de ceticismo antecedente a todo estudo e filosofia, bastante recomendado por Descartes e outros, como eficaz proteção contra o erro e o juízo precipitado. Este ceticismo, prescrevendo uma dúvida universal que abrange tanto o conjunto de nossas opiniões e princípios anteriores como também nossas próprias faculdades, de cuja veracidade — dizem eles — devemos assegurar-nos mediante uma cadeia de racio­cínios deduzida de um princípio primitivo que não pode ser enganador ou duvidoso.

Ou, mesmo se houvesse, progrediríamos um só passo além deste princípio, utilizando-nos dessas mesmas faculdades em que, supõe-se, não confiamos? Portanto, se um ser humano pudesse alcançar a dúvida cartesiana — o que é simplesmente impossível — ficaria completamente incurável, e nenhum raciocínio jamais poderia conduzi-lo a uma situação de segurança e de convicção sobre algum tema.1

No entanto, devemos concordar que esta espécie de ceticismo, sendo mais moderada, pode ser aceita como bastante razoável, pois afigura-se como atitude prévia e indispensável ao estudo da filosofia, mantendo adequada imparcialidade em nossos juízos e apartando nos­so espírito de todos os preconceitos adquiridos pela educação e pre­cipitação. Iniciar com princípios claros e evidentes por si mesmos, avançar com passos prudentes e seguros, repassar frequentemente nos­sas conclusões e examinar rigorosamente todas as suas conseqüências são os únicos métodos que nos podem levar a aspirar à verdade e lograr uma adequada estabilidade e certeza em nossas conclusões, embora reconhecendo que assim nossos sistemas progridem pouco e lentamente.2

Através de que raciocínio pode ser provado que as percepções do espírito devem ser causadas por objetos externos, completamente diferentes delas embora lhes assemelhando — se isto é possível — e que não podem nascer da energia do próprio espírito ou da sugestão provocada por algum espírito invisível e desconhecido, ou de alguma outra causa ainda mais desconhecida de nós?

Despojando a matéria de todas as suas qualidades inteligíveis, tanto as primárias como as secundárias, de certo modo vós a aniquilais e preservais somente uma certa qualquer coisa desconhecida e inexplicá­vel como causa de nossas percepçóes; noção tão imperfeita que ne­nhum cético a julgará digna de ser objetada.

De maneira que nada pode ser mais cético ou mais repleto de dúvida e de hesitação que este próprio ceticismo, engendrado por algumas das conclusões paradoxais da geometria ou da ciência da quantidade

Pelo contrário, deve reconhecer, se quiser admitir alguma coisa, que toda a humanidade pereceria se seus princípios prevalecessem universal e constantemente. Todo discurso e toda ação cessariam imediatamente, e os homens ficariam em total letargia, até que as necessidades da natureza, não sendo satisfeitas, pusessem fim à sua miserável existência. Em verdade, não se deve temer demasia­damente um evento tão fatal. A natureza sempre é mais forte que os princípios.3

O pirrônico, ao ser despertado de seu sonho, será o primeiro a se incorporar ao riso que o ridiculariza e a admitir que todas as objeções não passavam de mero divertimento e não tinham, portanto, outra intenção senão revelar a peculiar condição do ser humano que, devendo agir, raciocinar e crer, não é capaz, pela mais diligente in­vestigação, de se esclarecer sobre o fundamento destas operações ou de remover as objeções que se poderiam levantar contra elas.

A dúvida ou a suspeita gera perplexidade em seu entendi­mento, bloqueia sua paixão e interrompe sua ação.

Em geral, há um grau de dúvida, de prudência e de modéstia que, nas investigações e nas decisões de todo gênero, deve sempre acompanhar o homem que raciocina corretamente.

Um juízo correto observa um método contrário e, evitando todas as investigações lon­gínguas e elevadas, limita-se à vida diária e aos objetos compreendidos pela prática e experiência cotidianas, reservando os temas mais subli­mes ao embelezamento dos poetas e dos oradores, ou à arte dos sa­cerdotes e dos políticos.

Aqueles que têm pro­pensão para a filosofia continuarão ainda suas pesquisas, porque re­fletem que, além do prazer imediato que acompanha tal ocupação, as decisões filosóficas nada mais são do que reflexões sobre a vida coti­diana, metodizadas e corrigidas.

É uni­camente a experiência que nos ensina a natureza e os limites da causa e do efeito e permite-nos inferir a existência de um objeto partindo de um outro.

As ciências religiosas ou teológicas, enquanto visam a provar a existência de Deus e a imortalidade das almas, compõem-se em parte de raciocínios baseados em fatos particulares e, em parte, de raciocínios baseados em fatos gerais. Fundam-se sobre a razão, na medida em que se apóiam na experiência. Mas seu melhor e mais sólido funda­mento é a fé e a revelação divina.

Quando percorremos as bibliotecas, persuadidos destes princí­pios, que destruição deveríamos fazer? Se examinarmos, por exemplo, um volume de teologia ou de metafísica escolástica e indagarmos: Contém algum raciocínio abstrato acerca da quantidade ou do número? Não. Contém algum raciocínio experimental a respeito das questões de fato e de existência? Não. Portanto, lançai-o ao fogo, pois não contém senão so­fismas e ilusões.

 



postado por Isaias Rodrigues de Souza as 01:12:50 0 comentários




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