Descartes, O Filosofo da Dúvida

Terminei a leitura das “Meditações” de Descartes. Realmente a leitura é um tanto difícil, pois o texto é muito denso. Quero fazer algumas considerações que a meu ver são extremamente pertinentes. Descartes é conhecido como aquele que iniciou uma nova era para o labor filosófico. Na verdade com ele inicia a filosofia moderna. Moderna em que sentido? Descartes propõe a desconstrução do pensamento, uma ruptura com o pensamento antigo. Segundo ele todo conhecimento adquirido precisa ser posto de lado. Descartes é moderno porque vê o antigo como ultrapassado. É preciso começar tudo de novo, através do pensamento cartesiano. O primeiro passo nessa desconstrução é duvidar de tudo. Se o fundamento não é sólido não merece credibilidade. Vale ressaltar que a duvida proposta por Descartes não é a do ceticismo. O cético duvida por duvidar, por não acreditar numa verdade. Descartes crê na existência de uma verdade, e é preciso recomeçar o caminho buscando verdades que nada mais são do que pistas para a verdade absoluta. Afinal, se não existe uma verdade, qual a razão de ser da filosofia? Será que a filosofia só existe para duvidar? Depois de por de lado todo o pretenso conhecimento, Descartes sai em busca de fundamentos seguros. Descartes passa então a apresentar princípios sólidos: - Sou um ser que pensa. Cogito ergo sum. Penso logo existo.
- Alem de ser um ser que pensa, este ser é também contigente. Este ser traz consigo a idéia do perfeito. E de onde vem esta idéia? A perfeição só pode nascer de um ser que é perfeito. É aí que Descarte lança mais um seguro fundamento – Deus.
- Deus é o ser perfeito que planta em nós a idéia do ser perfeito. Deus existe porque ele é a causa da idéia inata do ser perfeito.
- Mas Deus não existe. Existe aquilo que foi criado. Eu fui criado. Deus é!
- Mas esta idéia está plantada na alma. O corpo percebe através dos sentidos e os sentidos enganam. Isso me leva a crer que sou uma alma, portanto um ser pensante.
- É na alma que reside a razão, o caminho mais acertado para o conhecimento verdadeiro. O caminho para a verdade.
Mas falar de verdade hoje em dia é tarefa árdua. Árdua porque vivemos a relativização de todas as coisas. O que é verdade para um pode não ser para o outro. Descartes vai ser relevante em nossos dias por propor a duvida. A duvida é o primeiro passo. A verdade é a grande meta! Agora deixo você com os fragmentos das “Meditações” “Há já algum tempo me apercebi de que, desde meus primeiros anos, recebera grande quantidade de falsas opiniões como verdadeiras e que o que depois fundei sobre princípios tão mal assegurados só podia ser muito duvidoso e incerto. Agora, pois, que meu espírito está livre de todos os cuidados, e que me proporcionei um repouso assegurado numa aprazível solidão, aplicar-me-ei seriamente e com liberdade a destruir em geral todas as minhas antigas opiniões”. "Ora, quem me pode me assegurar que esse Deus não tenha feito com que não haja terra, nenhum céu, nenhum corpo externo, nenhuma figura, nenhuma grandeza, nenhum lugar, e que não obstante eu tenha os sentimentos de todas essas coisas, e que tudo isso não me pareça existir de modo diferente do que o vejo?” “Ora, eu sou uma coisa verdadeira e verdadeiramente existente; mas que coisa? Disse-o: uma coisa que pensa” “E, por certo, já que não tenho nenhuma razão de crer que haja algum Deus que seja enganador, e mesmo que ainda não tenha considerado as que provam que há um Deus, a razão de duvidar que depende somente dessa opinião é bem tênue e, por assim dizer, metafísica. Mas, a fim de poder suprimi-la totalmente, devo examinar se há um Deus, tão logo se apresente a ocasião; e se achar que o há, devo também examinar se ele pode ser enganador; pois, sem o conhecimento dessas duas verdades, não vejo que possa jamais estar certo de alguma coisa”. “Aliás, não somente aprendi hoje o que devo evitar para não falhar, mas também o que devo fazer para alcançar o conhecimento da verdade. Pois, certamente, eu o alcançarei, se detiver suficientemente minha atenção sobre todas as coisas que conceber perfeitamente, e se as separar das outras que só compreendo com confusão e obscuridade. Ao que, doravante, cuidadosamente prestarei atenção”. “E o que encontro aqui de mais considerável é que encontro em mim uma infinidade de idéias de certas coisas, que não podem ser estimadas um puro nada, embora, talvez, não tenham nenhuma existência fora de meu pensamento, e que não são fingidas por mim, se bem que esteja em minha liberdade pensá-las ou não as pensar”. “Assim, para começar esse exame, observo aqui, primeiramente, que há uma grande diferença entre o espírito e o corpo, pelo fato de o corpo, por sua natureza, ser sempre divisível e de o espírito ser inteiramente indivisível. Pois, com efeito, quando considero meu espírito, ou seja, eu mesmo na medida em que sou somente uma coisa que pensa, nele não posso distinguir nenhuma parte, mas concebo-me como uma única e inteira. E, conquanto todo o espírito pareça estar unido a todo o corpo, todavia, estando separados de meu corpo um pé, ou um braço, ou alguma outra parte, é certo que nem por isso haverá algo suprimido de meu espírito. E não se pode propriamente dizer que as faculdades de querer, de sentir, de conceber, etc., sejam suas partes; pois o mesmo espírito se dedica por inteiro a querer, e também por inteiro a sentir, a conceber, etc. Mas é exatamente o contrário nas coisas corporais ou extensas; pois não há uma que eu não ponha facilmente em pedaços com meu pensamento, que meu espírito não divida com muita facilidade em varias partes e, por conseguinte, que eu não conheça ser divisível. Isso bastaria para ensinar-me que o espírito ou a alma do homem é inteiramente diferente do corpo, se, de outro lugar eu já não o houvesse aprendido suficientemente”.
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