O Ente e a Essência

Mais uma leitura filosófica do programa de introdução á filosofia. Desta vez – O Ente e a Essência de Tomás de Aquino. O famoso filosofo e teólogo (conhecido por cristianizar Aristóteles) faz uma aprofundada reflexão acerca do ser, do ente enquanto ser, e da essência do ser. O tema proposto é essencialmente metafísico e vai desembocar numa reflexão religiosa enquanto filosofia da religião, pelo menos é o que Tomás de Aquino deixa claro no ultimo parágrafo do Ente e a Essência – “Excetua-se o ser primeiro, que reveste simplicidade infinita. N’ele não cabe o conceito de gênero ou de espécie. Tampouco pode Ele ser definido, em razão da sua simplicidade. Seja Ele a meta e o remate desta nossa exposição.” Deixo vocês com os fragmentos desta leitura. ...o ente, tomado no primeiro sentido , é aquilo que significa a substancia de alguma coisa. Denomina-se natureza tudo quanto de uma forma ou de outra pode ser apreendido pela inteligência, visto que nenhuma coisa é inteligível a não ser pela sua definição e essência. A essência é aquilo que é significado ou expresso pela definição de uma coisa. O corpo é a parte material do homem: o nome que significa aquilo de que se toma a natureza da espécie com abstração da matéria designada significa a parte formal, e por isso a “humanidade” é significada como uma certa forma. Com efeito, em todas as coisas que estão umas para as outras de modo que uma é causa da outra, aquela que desempenha o papel de causa pode ter o ser sem a outra, mas não vice-versa. Ora, a relação entre a matéria e a forma é tal, que esta ultima dá o ser à matéria, e por conseguinte é impossível existir alguma matéria, já que a forma não tem, enquanto forma, dependência em relação à matéria. Consequentemente, aquelas formas que estão muito próximas ao primeiro principio são formas que subsistem em si mesmas, sem matéria. Por conseguinte, a essência da substancia composta se diferencia da essência da substancia simples pelo fato de que a essência da substancia composta compreende não só forma nem só matéria, mas forma e matéria, ao passo que a essência da substancia simples consta exclusivamente de forma. Ora, toda a essência ou quididade pode ser entendida sem que se compreenda qualquer coisa acerca do seu ser ou existência. Com efeito, posso compreender o que seja o homem e a fênix, ignorando se possuem ou não existência real. É evidente, por conseguinte, que a existência difere da essência ou quididade. Se, porem, houvesse alguma coisa que fosse exclusivamente ser, de maneira que o próprio ser fosse subsistente este ser não receberia adição de diferença,pois que já não seria apenas ser, mas ser e além disso alguma forma. Muito menos receberia adição da matéria, pois que já seria ser não subsistente, mas material, donde se conclui que a tal realidade que constitui a sua existência não pode ser senão uma só, por conseguinte, é necessário que em qualquer outra coisa, com exceção dela, seja distinta a existência da quididade ou natureza ou sua forma. Estamos falando, naturalmente, de causa eficiente, pois neste caso uma coisa seria causa de si mesma, e uma coisa se produziria a si mesma, o que é impossível. Por cosnseguinte, é necessário que toda coisa cujo ser difere da sua natureza tenha sua existência de outra. Ora, já que tudo aquilo que existe por outro pode ser reduzido aquilo que existe por si, como à sua causa primeira, por esta razão é necessário que exista uma determinada coisa que seja causa do ser para todas as outras coisas, pelo fato de ela ser puro ser; do contrário,iríamos até ao infinito, em termos de causalidade, já que toda coisa que não é puro ser tem a causa do seu ser em outro, como já dissemos. É evidente, por conseguinte, que o intelecto é forma e ser, que é exclusivamente ser: este ser é a causa primeira, isto é, Deus. Esta é a razão pela qual alguns filósofos afirmam que estas substancias se compõem de quo est (aquilo pelo qual são) e de quod est (o que são), ou seja, do quo est e de essência, como diz Boecio. Primeiramente existe algo, como Deus, cuja essência é o seu próprio ser ou existência. Razão pela qual há filósofos que afirmam que Deus não possui essência, pelo fato de a sua essência coincidir com a sua existência. Com efeito este ser que Deus é de tal condição, que nada se lhe pode adicionar. Em conseqüência, em virtude da sua própria pureza, é um ser distinto de qualquer outro. Por este motivo afirma-se, no comentário à nona proposição do livro Sobre as causas, que a individuação da causa primeira, a qual é puro ser, ocorre por sua pura bondade. Assim Deus possui no seu próprio ser todas as perfeições existentes. E embora a individuação da alma dependa ocasionalmente do corpo, quanto a origem, já que a alma não adquire o seu ser individualizado a não ser no corpo do qual é ato, disto não se deve concluir, todavia que, ao perecer o corpo, pereça também a individuação da alma. Como efeito, uma vez que a alma tem um ser absoluto, desde que adquiriu o seu ser individualizado, pelo fato de ter-se tornado a forma deste determinado corpo, o seu ser permanecerá individualizado para sempre. Por esta razão , Avicena afirma que a individuação e a multiplicidade das almas dependem do corpo no que diz respeito ao seu principio, mas não no que concerne ao seu fim. E já que a coisa é individualizada pela matéria e se engloba no seu gênero ou na sua espécie em virtude da sua forma, por este motivo os acidentes que inerem à matéria são acidentes do individuo, e é por eles que os indivíduos da mesma espécie diferem uns dos outros. Excetua-se o ser primeiro, que reveste simplicidade infinita. N’ele não cabe o conceito de gênero ou de espécie. Tampouco pode Ele ser definido, em razão da sua simplicidade. Seja Ele a meta e o remate desta nossa exposição.
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