A Crítica
A Crítica
quarta, 19 novembro, 2008
“Repensar o nosso socialismo é a melhor forma de celebrar a Revolução Cubana”

ENTREVISTA - CARLOS TABLADA

Em entrevista à Carta Maior, Carlos Tablada, professor da Universidade de Havana e autor de livros sobre o pensamento político e econômico de Che Guevara, fala sobre os 50 anos da Revolução Cubana, sobre o marxismo de Che e o socialismo do século XXI.

Com o 50º aniversário da Revolução Cubana se aproximando, Carta Maior conversou com Carlos Tablada, professor da Universidade de Havana e redator da revista Alternatives Sud, do Centro Tri-continental (CETRI), além de Fundador do Fórum Mundial de Alternativas e membro do júri do Prêmio Casa das Américas. Em recente entrevista, quando incitado pela milésima vez a fazer críticas a Cuba, o escritor uruguaio Eduardo Galeano resumiu assim sua análise sobre o país: “Continuo acreditando que a onipotência do Estado não é a melhor resposta à onipotência do mercado e ainda pratico aquele conselho de Fonseca Amador, o fundador do sandinismo na Nicarágua: Amigo, amigo verdadeiro, é quem elogia pelas costas e critica pela frente”. Tablada é da mesma turma, autor de vários livros e dezenas de artigos, licenciado em sociologia, filosofia e doutor em ciências econômicas, ele esteve no Brasil para lançar a primeira edição em português de "O marxismo de Che e o socialismo no século XXI".

Na ocasião da entrevista, passava por Cuba o terceiro furacão deste mês, deixando perdas avaliadas em US$ 8,6 bilhões e quatro mortos. “Nós sabemos que não há como reconstruir uma sociedade sem a possibilidade de repartir tuas coisas com outras pessoas e outros povos. Ou seja, o cubano tem um espírito de solidariedade muito forte, de repartir o pão, não somente com outro cubano, mas também com um estrangeiro. Por exemplo, no período em que o Produto Interno Bruto cubano caiu quase 40%, nós tínhamos mais de 25 mil estudantes estrangeiros com bolsa estudando na universidade e nós não mandamos ninguém de volta. A nenhum cubano passou pela cabeça dizer bueno, agora não temos o que comer, vamos mandar esse pessoal embora, como vamos alimentar e educar mais de 25 mil estudantes estrangeiros¿. Mas é normal. E agora, com os furacões, creio que vai ser a mesma coisa, nos recuperamos”.

Nesta conversa, Tablada defende que é a partir da mesma força solidária de reconstruir Cuba que surgem as comemorações de meio século de revolução.

Carta Maior – O mundo está passando por uma crise do modelo capitalista. Como isso é visto desde Cuba?

Carlos Tablada – Na verdade, nós fomos um dos primeiro países a denunciar isso. E nossos dirigentes e acadêmicos cubanos foram os primeiros que denunciaram a natureza do neoliberalismo e o Consenso de Washington. Nós estávamos totalmente convencidos que isso só traria mais pobreza. O Consenso é como um aspirador de pó para sugar riquezas, uma nova colonização dos países do sul, uma imposição ao resto dos países do mundo a grande especulação financeira. Até economistas europeus e capitalistas como Keynes, já nos anos 30, denunciavam a economia cassino. Hoje em dia os próprios capitalistas estão recorrendo a Karl Marx porque é nele que esta a explicação do desenvolvimento do capital.

E Karl Marx já nos advertia como o desenvolvimento do capital industrial ia levar ao desenvolvimento do capital fictício. E este capital fictício acaba crescendo a um nível maior que o capital real, industrial, de serviços. Assim, simplesmente se traga a economia real. O desenvolvimento da economia fictícia se dá em detrimento ao crescimento da economia real. Keynes faz essa avaliação a partir do que aconteceu na grande crise de 1929, gerada a partir dos Estados Unidos como esta, e alerta que os estados deveriam ter mais controle para que não se convertessem em economias cassino. Ao invés disso, deixou-se de lado o acordo de Bretton Woods, que de certo modo estabelecia uma ordem.

E aí, nos anos 70, quando os Estado Unidos não podiam mais manter economicamente a loucura de Guerra do Vietnã, rompem com Bretton Woods e transladam o custo da guerra que estava chegando ao final ao resto das economias do mundo. Então era evidente o que aconteceria. O neoliberalismo fundamentalmente se converteu em cultura, em domínio nos anos 80 e 90, e foi isso que lhe permitiu o pensamento único, um pensamento pior do que aquele que surgiu do socialismo real do bloco soviético, um dogmatismo incrível. O capital hoje em dia extrai da natureza uma maior quantidade de recursos naturais do que a natureza é capaz de produzir. E, também, a indústria e a forma de vida capitalista devolvem à natureza um nível de contaminação que o planeta não tem capacidade de regenerar. O capitalismo neoliberal gera conseqüências que o planeta não tem mais como encarar, aí estão as mudanças climáticas que são irreversíveis.

Essa é uma crise civilizatória, é um bloco de coisas. E isso independe de você ser comunista, ser de esquerda ou de direita. Os exemplos que estou dando, de economia cassino e mudança climática, fazem referência a dois representantes do sistema que não podem nunca ser acusados de terem sido comunistas. Um é Keynes e o outro é Al Gore, vice-presidente de Bill Clinton e candidato à presidência dos Estados Unidos que ganhou as eleições, mas simplesmente perdeu para Bush por uma fraude. Faço referência a duas pessoas sobre as quais não há duvida de seu tom ideológico e que são partidárias do capitalismo, e até eles concordam que, do jeito que está, ficamos sem capital, sem planeta e sem nada.

CM – E o que a experiência de Cuba tem a contribuir nesse cenário?

CT – Em primeiro lugar, é necessário aceitar Cuba como uma experiência de construção de sociedade alternativa à capitalista. Quando Cuba triunfou, as revoluções socialistas, e a que tinha mais anos era a da União Soviética, tinha 30 anos, já tinham cometido erros gravíssimos que determinaram seu desaparecimento. Portanto, quando triunfa a Revolução Cubana a humanidade não tinha receita, não havia sido capaz de criar uma cultura alternativa à capitalista ou uma economia real alternativa à capitalista, nem um sistema político participativo alternativo ao capitalismo. Esses três temas estavam pendentes e nós cubanos fomos descobrindo que permaneciam pendentes. Que o que nos vendiam como uma coisa feita, o modelo soviético que deveria ser copiado, não era assim.

Nós cometemos erros próprios e erros semelhantes quando copiamos o modelo soviético. Reproduzimos erros em Cuba cometidos pelos países socialistas e, por outra parte, cometemos erros na busca de um caminho próprio, erros menores, porque sempre que se comete um erro pensando com cabeça própria é melhor. Precisamente é por isso que desaparece o bloco soviético e nós não desaparecemos. Porque a Revolução Cubana se caracterizou sempre por uma grande vitalidade, por uma busca constante de novos caminhos.

A outra coisa que não nos fez perder foi o internacionalismo. Quando Cuba surge como uma nação, surge junto uma posição internacionalista, tanto cultural como política. E é precisamente esse internacionalismo que nos ajudou a não nos perdermos e seguirmos a busca de um caminho próprio. E, por outra parte, é necessário avaliar as condições tão difíceis sob as quais nos desenvolvemos, nós estamos submetidos a um bloqueio criminal, econômico político e financeiro. Os Estados Unidos perseguem aos empresários e os ameaça se negociam com Cuba. Um barco mercante que entra em Cuba tem que esperar seis meses para poder entrar em um porto norte-americano. Tu imaginas, nós compramos na Europa várias coisas. Fora as agressões militares, biológicas e o terrorismo que aplicaram. Tudo isso deixou feridas já reconhecidas e se não fossem elas, nosso desenvolvimento teria sido maior.

Por dezessete anos consecutivos, a Assembléia Geral das Nações Unidas condenou o bloqueio norte americano a Cuba. E das 192 nações inscritas nas Nações Unidas, 185 votaram contra o bloqueio. Somos uma experiência fora do capitalismo que tem justeza ao redor do mundo.

CM – O senhor está no Brasil para lançar O marxismo de Che e o socialismo no século XXI, livro que nasce de um processo de 15 anos de estudo...

CT – Em toda Revolução Cubana, a pessoa que mais se preocupou com a organização da nova economia foi Ernesto Che Guevara. O Che foi também um dos primeiros dirigentes cubanos que visitou a União Soviética. Ele era comunista e um observador do que acontecia lá, ainda no México antes de vir para Cuba, fazia parte da Associação de Amizade México - União Soviética. E havia estudado desde os 17 anos o marxismo. Com os revolucionários cubanos, como José Martí e Fidel Castro, tinha aprendido que toda revolução que não leva implícita uma mudança na natureza humana não tem sentido, não vale a pena lutar apenas por coisas materiais, uma revolução é verdadeira e justifica o sangue derramado por ela, se implica uma mudança de espiritualidade, de valores, se desenvolve a individualidade e não o individualismo. Desenvolve a coletividade, mas não o coletivismo burocrático, no qual a pessoa se converte em um número. Isso está presente na cultura revolucionária cubana desde o século 19.

E Che aprendeu isso. Mas quando ele visita as fábricas e empresas do bloco soviético, descobre que não havia tal mudança. Que após 30 anos de revolução, o espírito capitalista estava presente nessas empresas. As empresas eram estatais, e se dizia que eram de todo o povo, mas o administrador seguia realizando suas funções como se fosse um capitalista, o operário não tinha realmente nenhum participação real na tomada de decisões sobre o que ia produzir ou como ia produzir. E foi isso que o levou a pensar e a repensar o sistema econômico socialista. E Che se dá a tarefa de montar na prática um sistema econômico alternativo ao soviético, e o fez com bastante êxito por quatro anos.

Igualmente, começou a teorizar a respeito, dando origem a uma polêmica econômica grande, inclusive com dois intelectuais de renome mundial, Ernest Mandel e Charles Bettelheim. Esse é o ponto principal do Che. Quando ele parte para o Congo e depois para Bolívia a combater com as armas, o Che não havia tido tempo de expor de uma forma positiva e coerente todas essas idéias. E eu me dei a tarefa, em 1969, de descobrir esse pensamento, investigar e recopilar esse material. Isso levou 15 anos. Simultaneamente, comecei a trabalhar no sistema empresarial cubano e apliquei em uma empresa estatal nacional cubana de 2.823 trabalhadores que produzia 20 milhões de dólares ao ano o sistema de Che e vi seus resultados e depois tive que obrigatoriamente estabelecer o modelo soviético e vi seus resultados também.

Pude comparar como cada um atuava sobre a consciência das pessoas e como atuava o outro. Quais os resultados econômicos e os resultados humanos. Daí surgiu "O pensamento econômico de Ernesto Che Guevara", em julho de 1984. Eu comecei a escrever em 1º de junho de 1969, no hospital onde nascia minha filha, o que demorou quase 24 horas. Na sala de espera comecei e 15 anos depois terminei. Esperei três anos até que ele fosse publicado, e quando recebi Prêmio Casa das Américas, o livro se independizou. Já são 33 edições e meio milhão de exemplares.

CM – Foi desta obra que surgiu o livro traduzido para o português...

CT – Este livro que eu tive o privilégio de vocês traduzirem para o português, "O marxismo de Che e o socialismo no século XXI", é formado por algumas idéias que não pude expressar no primeiro livro e das minhas reflexões entre 1987 e 2007. O livro tinha algo como 300 e tantas páginas, mas eu disse a mim mesmo que tinha que ser capaz de transformar isso em um livro pequeno. Consegui reduzi-lo a menos de 100 páginas. Eu o coloquei gratuitamente no site Rebelión e para a minha alegria e surpresa vocês aqui no Brasil me escreveram, pediram se poderiam realizar a tradução e eu lhes disse sim, com muito gosto. O livro foi impresso em Cuba e na Bélgica, e atualmente é traduzido em inglês e francês.

Aí está a essência da essência e aí se explica porque é tão importante o pensamento de Che. O Che foi um dos poucos homens do século XX que conseguiu que forças aparentemente contraditórias o atacassem. Foi perseguido por toda máquina cultural do império norte americano e atacado por toda a burocracia do bloco soviético. Todos os pensamentos novos e audazes em essência são perseguidos. Enfim, o pensamento filosófico de Che é muito profundo e inovador, o pensamento econômico é transgressor, o pensamento sociológico é novo. Quando desapareceu o bloco soviético, lembro que diziam que Cuba não resistiria, que éramos um satélite da União Soviética. Não acreditavam que Cuba possuía uma economia própria que poderia levá-la adiante.

E mais, era bom para nós que desaparecesse a União Soviética, porque assim nos estávamos num momento de deixar a certeza na qual estávamos vivendo e alcançar nossa soberania econômica, nossa independência econômica total. O Che é a máxima expressão disso e por isso a importância que ele tem para a América Latina e para os povos africanos até hoje. O socialismo futuro não pode ser um só socialismo. Tem que haver tantos socialismos como experiências de participação real das populações, dos trabalhadores, dos sindicatos.

CM – Em janeiro de 2009, comemora-se meio século da Revolução Cubana. Como o país pretende celebrar esta data?

CT – Essa comemoração já está acontecendo, agora, enquanto conversamos. E está acontecendo precisamente do melhor modo. Pensando e repensando o nosso socialismo. A maioria da população cubana não quer voltar ao capitalismo, mas não quer ficar com o socialismo que temos hoje. Há uma insatisfação incrível, gigantesca, em todos os setores da sociedade cubana. A insatisfação é tão grande que inclusive foi manifestada pela máxima direção do nosso país, o companheiro Raúl Castro. Raúl Castro disse:

“Eu não entendo porque o leite deve ser somente para as crianças até os sete anos. Por que um velho não pode ter acesso ao leite? Por que nos conformarmos com a garantia do leite para todas as crianças até os sete anos?”

E olha que no Terceiro Mundo isso é algo muito grande. Porque tu sabes que agora mesmo, desde que começamos essa entrevista, a cada segundo morrem dez crianças. E dessas crianças que morrem, nenhuma tomou leite na vida. Então, o que o povo cubano conseguiu, apesar deste bloqueio criminoso dos Estados Unidos, de que todas as crianças tenham leite gratuitamente é incrível. Mas Raúl Castro quer dizer que não pode ser apenas isso. “Temos que resolver já, de imediato, que todos tenhamos acesso ao leite”, ele disse.

Estou expressando com um exemplo concreto uma grande inconformidade com o que temos, com o nosso sistema econômico e com o nosso sistema político. Então, a melhor forma de celebrar o 50º aniversário do triunfo da Revolução Cubana de 1959 é precisamente tomar esse caráter autocrítico, esse caráter criativo que nos levou ao poder em 1959, no país em que menos se podia pensar isso. Ninguém podia pensar que se poderia tomar o poder a 150 km da costa americana, com uma base militar norte-americana em nosso território. Isso é muito importante. E é assim que o nosso povo recebe o 50º aniversário, mais que com atos grandes, mas com discussões.

Neste momento, há milhões de cubanos que estão discutindo em seus sindicatos uma nova lei salarial. Porque nós caímos em um falso igualitarismo. A gente recebia o mesmo, se trabalhasse ou não. E neste momento estamos fazendo uma reforma salarial profunda e não a estamos fazendo por decreto. Estamos discutindo com todos os trabalhadores, com os estudantes, em assembléia. Essa é a melhor forma de festejar o 50º aniversário da Revolução Cubana.

fonte: www.agenciacartamaior.com.br



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quarta, 01 outubro, 2008
ENTREVISTA: ERIC HOBSBAWM

A crise do capitalismo e a importância atual de Marx

Em entrevista a Marcello Musto, o historiador Eric Hobsbawm analisa a atualidade da obra de Marx e o renovado interesse que vem despertando nos últimos anos, mais ainda agora após a nova crise de Wall Street. E fala sobre a necessidade de voltar a ler o pensador alemão: “Marx não regressará como uma inspiração política para a esquerda até que se compreenda que seus escritos não devem ser tratados como programas políticos, mas sim como um caminho para entender a natureza do desenvolvimento capitalista”.

Em entrevista a Marcello Musto, o historiador Eric Hobsbawm analisa a atualidade da obra de Marx e o renovado interesse que vem despertando nos últimos anos, mais ainda agora após a nova crise de Wall Street. E fala sobre a necessidade de voltar a ler o pensador alemão: “Marx não regressará como uma inspiração política para a esquerda até que se compreenda que seus escritos não devem ser tratados como programas políticos, mas sim como um caminho para entender a natureza do desenvolvimento capitalista”.

Eric Hobsbawm é considerado um dos maiores historiadores vivos. É presidente do Birbeck College (London University) e professor emérito da New School for Social Research (Nova Iorque). Entre suas muitas obras, encontra-se a trilogia acerca do “longo século XIX”: “A Era da Revolução: Europa 1789-1848” (1962); “A Era do Capital: 1848-1874” (1975); “A Era do Império: 1875-1914 (1987) e o livro “A Era dos Extremos: o breve século XX, 1914-1991 (1994), todos traduzidos em vários idiomas.

Entrevistamos o historiador por ocasião da publicação do livro “Karl Marx’s Grundrisse. Foundations of the Critique of Political Economy 150 Years Later
” (Os Manuscritos de Karl Marx.
Elementos fundamentais para a Crítica da Economia Política, 150 anos depois).

Nesta conversa, abordamos o renovado interesse que os escritos de Marx vêm despertando nos últimos anos e mais ainda agora após a nova crise de Wall Street. Nosso colaborador Marcello Musto entrevistou Hobsbawm para Sin Permiso.

Marcello Musto:
Professor Hobsbawm, duas décadas depois de 1989, quando foi apressadamente relegado ao esquecimento, Karl Marx regressou ao centro das atenções. Livre do papel de intrumentum regni que lhe foi atribuído na União Soviética e das ataduras do “marxismo-leninismo”, não só tem recebido atenção intelectual pela nova publicação de sua obra, como também tem sido objeto de crescente interesse. Em 2003, a revista francesa Nouvel Observateur dedicou um número especial a Marx, com um título provocador: “O pensador do terceiro milênio?”. Um ano depois, na Alemanha, em uma pesquisa organizada pela companhia de televisão ZDF para estabelecer quem eram os alemães mais importantes de todos os tempos, mais de 500 mil espectadores votaram em Karl Marx, que obteve o terceiro lugar na classificação geral e o primeiro na categoria de “relevância atual”.

Em 2005, o semanário alemão Der Spiegel publicou uma matéria especial que tinha como título “Ein Gespenst Kehrt zurük” (A volta de um espectro), enquanto os ouvintes do programa “In Our Time” da rádio 4, da BBC, votavam em Marx como o maior filósofo de todos os tempos. Em uma conversa com Jacques Attali, recentemente publicada, você disse que, paradoxalmente, “são os capitalistas, mais que outros, que estão redescobrindo Marx” e falou também de seu assombro ao ouvir da boca do homem de negócios e político liberal, George Soros, a seguinte frase: “Ando lendo Marx e há muitas coisas interessantes no que ele diz”. Ainda que seja débil e mesmo vago, quais são as razões para esse renascimento de Marx? É possível que sua obra seja considerada como de interesse só de especialistas e intelectuais, para ser apresentada em cursos universitários como um grande clássico do pensamento moderno que não deveria ser esquecido? Ou poderá surgir no futuro uma nova “demanda de Marx”, do ponto de vista político?

Eric Hobsbawm: Há um indiscutível renascimento do interesse público por Marx no mundo capitalista, com exceção, provavelmente, dos novos membros da União Européia, do leste europeu. Este renascimento foi provavelmente acelerado pelo fato de que o 150° aniversário da publicação do Manifesto Comunista coincidiu com uma crise econômica internacional particularmente dramática em um período de uma ultra-rápida globalização do livre-mercado.

Marx previu a natureza da economia mundial no início do século XXI, com base na análise da “sociedade burguesa”, cento e cinqüenta anos antes. Não é surpreendente que os capitalistas inteligentes, especialmente no setor financeiro globalizado, fiquem impressionados com Marx, já que eles são necessariamente mais conscientes que outros sobre a natureza e as instabilidades da economia capitalista na qual eles operam.

A maioria da esquerda intelectual já não sabe o que fazer com Marx. Ela foi desmoralizada pelo colapso do projeto social-democrata na maioria dos estados do Atlântico Norte, nos anos 1980, e pela conversão massiva dos governos nacionais à ideologia do livre mercado, assim como pelo colapso dos sistemas políticos e econômicos que afirmavam ser inspirados por Marx e Lênin. Os assim chamados “novos movimentos sociais”, como o feminismo, tampouco tiveram uma conexão lógica com o anti-capitalismpo (ainda que, individualmente, muitos de seus membros possam estar alinhados com ele) ou questionaram a crença no progresso sem fim do controle humano sobre a natureza que tanto o capitalismo como o socialismo tradicional compartilharam. Ao mesmo tempo, o “proletariado”, dividido e diminuído, deixou de ser crível como agente histórico da transformação social preconizada por Marx.

Devemos levar em conta também que, desde 1968, os mais proeminentes movimentos radicais preferiram a ação direta não necessariamente baseada em muitas leituras e análises teóricas. Claro, isso não significa que Marx tenha deixado de ser considerado como um grande clássico e pensador, ainda que, por razões políticas, especialmente em países como França e Itália, que já tiveram poderosos Partidos Comunistas, tenha havido uma apaixonada ofensiva intelectual contra Marx e as análises marxistas, que provavelmente atingiu seu ápice nos anos oitenta e noventa. Há sinais agora de que a água retomará seu nível.

Marcello Musto: Ao longo de sua vida, Marx foi um agudo e incansável investigador, que percebeu e analisou melhor do que ninguém em seu tempo o desenvolvimento do capitalismo em escala mundial. Ele entendeu que o nascimento de uma economia internacional globalizada era inerente ao modo capitalista de produção e previu que este processo geraria não somente o crescimento e prosperidade alardeados por políticos e teóricos liberais, mas também violentos conflitos, crises econômicas e injustiça social generalizada. Na última década, vimos a crise financeira do leste asiático, que começou no verão de 1997; a crise econômica Argentina de 1999-2002 e, sobretudo, a crise dos empréstimos hipotecários que começou nos Estados Unidos em 2006 e agora tornou-se a maior crise financeira do pós-guerra. É correto dizer, então, que o retorno do interesse pela obra de Marx está baseado na crise da sociedade capitalista e na capacidade dele ajudar a explicar as profundas contradições do mundo atual?

Eric Hobsbawm: Se a política da esquerda no futuro será inspirada uma vez mais nas análises de Marx, como ocorreu com os velhos movimentos socialistas e comunistas, isso dependerá do que vai acontecer no mundo capitalista. Isso se aplica não somente a Marx, mas à esquerda considerada como um projeto e uma ideologia política coerente. Posto que, como você diz corretamente, a recuperação do interesse por Marx está consideravelmente – eu diria, principalmente – baseado na atual crise da sociedade capitalista, a perspectiva é mais promissora do que foi nos anos noventa. A atual crise financeira mundial, que pode transformar-se em uma grande depressão econômica nos EUA, dramatiza o fracasso da teologia do livre mercado global descontrolado e obriga, inclusive o governo norte-americano, a escolher ações públicas esquecidas desde os anos trinta.

As pressões políticas já estão debilitando o compromisso dos governos neoliberais em torno de uma globalização descontrolada, ilimitada e desregulada. Em alguns casos, como a China, as vastas desigualdades e injustiças causadas por uma transição geral a uma economia de livre mercado, já coloca problemas importantes para a estabilidade social e mesmo dúvidas nos altos escalões de governo. É claro que qualquer “retorno a Marx” será essencialmente um retorno à análise de Marx sobre o capitalismo e seu lugar na evolução histórica da humanidade – incluindo, sobretudo, suas análises sobre a instabilidade central do desenvolvimento capitalista que procede por meio de crises econômicas auto-geradas com dimensões políticas e sociais. Nenhum marxista poderia acreditar que, como argumentaram os ideólogos neoliberais em 1989, o capitalismo liberal havia triunfado para sempre, que a história tinha chegado ao fim ou que qualquer sistema de relações humanas possa ser definitivo para todo o sempre.

Marcello Musto: Você não acha que, se as forças políticas e intelectuais da esquerda internacional, que se questionam sobre o que poderia ser o socialismo do século XXI, renunciarem às idéias de Marx, estarão perdendo um guia fundamental para o exame e a transformação da realidade atual?

Eric Hobsbawm: Nenhum socialista pode renunciar às idéias de Marx, na medida que sua crença em que o capitalismo deve ser sucedido por outra forma de sociedade está baseada, não na esperança ou na vontade, mas sim em uma análise séria do desenvolvimento histórico, particularmente da era capitalista. Sua previsão de que o capitalismo seria substituído por um sistema administrado ou planejado socialmente parece razoável, ainda que certamente ele tenha subestimado os elementos de mercado que sobreviveriam em algum sistema pós-capitalista.

Considerando que Marx, deliberadamente, absteve-se de especular acerca do futuro, não pode ser responsabilizado pelas formas específicas em que as economias “socialistas” foram organizadas sob o chamado “socialismo realmente existente”. Quanto aos objetivos do socialismo, Marx não foi o único pensador que queria uma sociedade sem exploração e alienação, em que os seres humanos pudessem realizar plenamente suas potencialidades, mas foi o que expressou essa idéia com maior força e suas palavras mantêm seu poder de inspiração.

No entanto, Marx não regressará como uma inspiração política para a esquerda até que se compreenda que seus escritos não devem ser tratados como programas políticos, autoritariamente ou de outra maneira, nem como descrições de uma situação real do mundo capitalista de hoje, mas sim como um caminho para entender a natureza do desenvolvimento capitalista. Tampouco podemos ou devemos esquecer que ele não conseguiu realizar uma apresentação bem planejada, coerente e completa de suas idéias, apesar das tentativas de Engels e outros de construir, a partir dos manuscritos de Marx, um volume II e III de “O Capital”. Como mostram os “Grundrisse”, aliás. Inclusive, um Capital completo teria conformado apenas uma parte do próprio plano original de Marx, talvez excessivamente ambicioso.

Por outro lado, Marx não regressará à esquerda até que a tendência atual entre os ativistas radicais de converter o anti-capitalismo em anti-globalização seja abandonada. A globalização existe e, salvo um colapso da sociedade humana, é irreversível. Marx reconheceu isso como um fato e, como um internacionalista, deu as boas vindas, teoricamente. O que ele criticou e o que nós devemos criticar é o tipo de globalização produzida pelo capitalismo.

Marcello Musto: Um dos escritos de Marx que suscitaram o maior interesse entre os novos leitores e comentadores são os “Grundrisse”. Escritos entre 1857 e 1858, os “Grundrisse” são o primeiro rascunho da crítica da economia política de Marx e, portanto, também o trabalho inicial preparatório do Capital, contendo numerosas reflexões sobre temas que Marx não desenvolveu em nenhuma outra parte de sua criação inacabada. Por que, em sua opinião, estes manuscritos da obra de Marx, continuam provocando mais debate que qualquer outro texto, apesar do fato dele tê-los escrito somente para resumir os fundamentos de sua crítica da economia política? Qual é a razão de seu persistente interesse?

Eric Hobsbawm: Desde o meu ponto de vista, os "Grundrisse" provocaram um impacto internacional tão grande na cena marxista intelectual por duas razões relacionadas. Eles permaneceram virtualmente não publicados antes dos anos cinqüenta e, como você diz, contendo uma massa de reflexões sobre assuntos que Marx não desenvolveu em nenhuma outra parte. Não fizeram parte do largamente dogmatizado corpus do marxismo ortodoxo no mundo do socialismo soviético. Mas não podiam simplesmente ser descartados. Puderam, portanto, ser usados por marxistas que queriam criticar ortodoxamente ou ampliar o alcance da análise marxista mediante o apelo a um texto que não podia ser acusado de herético ou anti-marxista. Assim, as edições dos anos setenta e oitenta, antes da queda do Muro de Berlim, seguiram provocando debate, fundamentalmente porque nestes escritos Marx coloca problemas importantes que não foram considerados no “Capital”, como por exemplo as questões assinaladas em meu prefácio ao volume de ensaios que você organizou (Karl Marx's Grundrisse. Foundations of the Critique of Political Economy 150 Years Later
, editado por M. Musto, Londres-Nueva York, Routledge, 2008).

Marcello Musto:
No prefácio deste livro, escrito por vários especialistas internacionais para comemorar o 150° aniversário de sua composição, você escreveu: “Talvez este seja o momento correto para retornar ao estudo dos “Grundrisse”, menos constrangidos pelas considerações temporais das políticas de esquerda entre a denúncia de Stalin, feita por Nikita Khruschev, e a queda de Mikhail Gorbachev”. Além disso, para destacar o enorme valor deste texto, você diz que os “Grundrisse” “trazem análise e compreensão, por exemplo, da tecnologia, o que leva o tratamento de Marx do capitalismo para além do século XIX, para a era de uma sociedade onde a produção não requer já mão-de-obra massiva, para a era da automatização, do potencial de tempo livre e das transformações do fenômeno da alienação sob tais circunstâncias. Este é o único texto que vai, de alguma maneira, mais além dos próprios indícios do futuro comunista apontados por Marx na “Ideologia Alemã”. Em poucas palavras, esse texto tem sido descrito corretamente como o pensamento de Marx em toda sua riqueza. Assim, qual poderia ser o resultado da releitura dos “Grundrisse” hoje?

Eric Hobsbawm: Não há, provavelmente, mais do que um punhado de editores e tradutores que tenham tido um pleno conhecimento desta grande e notoriamente difícil massa de textos. Mas uma releitura ou leitura deles hoje pode ajudar-nos a repensar Marx: a distinguir o geral na análise do capitalismo de Marx daquilo que foi específico da situação da sociedade burguesa na metade do século XIX. Não podemos prever que conclusões podem surgir desta análise. Provavelmente, somente podemos dizer que certamente não levarão a acordos unânimes.

Marcello Musto: Para terminar, uma pergunta final. Por que é importante ler Marx hoje?

Eric Hobsbawm: Para qualquer interessado nas idéias, seja um estudante universitário ou não, é patentemente claro que Marx é e permanecerá sendo uma das grandes mentes filosóficas, um dos grandes analistas econômicos do século XIX e, em sua máxima expressão, um mestre de uma prosa apaixonada. Também é importante ler Marx porque o mundo no qual vivemos hoje não pode ser entendido sem levar em conta a influência que os escritos deste homem tiveram sobre o século XX. E, finalmente, deveria ser lido porque, como ele mesmo escreveu, o mundo não pode ser transformado de maneira efetiva se não for entendido. Marx permanece sendo um soberbo pensador para a compreensão do mundo e dos problemas que devemos enfrentar.

Tradução para Sin Permiso (inglês-espanhol): Gabriel Vargas Lozano
Tradução para Carta Maior (espanhol-português): Marco Aurélio Weissheimer

 

Fonte: www.agenciacartamaior.com.br



postado por Roberto Morais as 11:25:25 6 comentários




As letras do riso

Li há muito tempo, não sei onde, que podemos rir em diferentes letras.

Quem ri em A ri o riso solto, franco, generoso, como se cantasse em dia de sol, de peito aberto, braços abertos, coração aberto, gargalhada aberta. Riso em A pode virar riso em K, kakakaka! Ou em H aspirado, hahahahaha! Gargalhar com a garganta e com a alma.

Outro tipo de riso é o riso em E. Malicioso riso, um tanto triste, porque é riso de quem ri da humanidade, esquecendo-se, o gozador, que todos à humanidade pertencemos. Riso meio cínico, se é que existe meio cinismo. Riso de quem pensa que tem tudo e por isso ri de quem nada tem. Riso em tom menor, riso que ri da dor alheia, mas é sintoma de outra dor, oculta dor.

O riso em I é riso ingênuo, tímido, fino riso de quem tem medo de rir. Riso talvez bobo, envergonhado riso, riso que ri à toa, sem muita graça, ri para mostrar que sabe rir. Riso com receio de ser ilícito, riso implícito, riso solícito, bondoso, bondoso até demais. Sub-riso. Sorrisinho. Riso escondido de si mesmo, riso preso, riso que até parece choro magoado.

Há aqueles que riem em O, riso de Papai Noel, riso gordo, riso corajoso, orgulhoso da arte de rir, riso poderoso, abastoso, copioso, incopiável. Riso redondo, que vai rolando e se desenrolando como tapete a convidar para a festa sem fim, para o mundo melhor, para a alegria sincera. Riso bonachão, luminoso, afetuoso, amoroso, caloroso, riso que entrega uma rosa para a criança doente, riso delicioso como um doce.

O riso em U, hipócrita riso, misantropo riso, inescrupuloso riso. Riso do mal. Riso sádico. Riso irresponsável. Riso que humilha, tortura, machuca, tritura. Riso azedo que ri da amargura alheia. Riso que não ouve, não fala, não responde. Riso rude, ruim, sem rosto.

Mas existe riso para além das vogais. Podemos rir em diversas consoantes.

Rir em X. Riso enigmático, boca fechada, olhos faiscando.

Rir em L. Riso lateral, prometendo não se sabe o quê.

Rir em S. Riso sinuoso, melífluo riso, só uns poucos entendem sua mensagem.

Rir em V. Riso da vitória, que pode ser riso em W, se forem duas pessoas rindo de mãos dadas.

Risos vários. É preciso alfabetizar-se para entender o humor de cada um.

Gabriel Perissé é doutor em Educação pela USP e escritor.

Website: http://www.perisse.com.br/

Fonte: www.correiocidadania.com.br



postado por Roberto Morais as 11:19:43 6 comentários




A despolitização da política

Campanha eleitoral se ganha com TV. Toda eleição os partidos contratam equipes para cuidar da imagem de seus candidatos. Em geral, equipe comandada por um publicitário que não é do partido, não gosta do partido e não vota no partido. Mas tem fama de competente...

Ora, competência rima com convicção. Qualquer manual de marketing, desses que ensinam a vender poluição atmosférica para ecologista, aconselha o vendedor a estar convencido da qualidade de sua mercadoria. Por isso, em muitas campanhas o programa de TV emperra. Troca-se de publicitário, de equipe e de estilo. E confunde-se o eleitor, pois, de uma semana a outra, o candidato light vira xiita ou vice-versa.

O mais dramático é constatar que se troca a ética pela estética. Não importa se o candidato é bandido, corrupto ou incompetente. Uma boa imagem fala mais que mil palavras. Assim, opera-se a progressiva despolitização da política, que é um dos objetivos do neoliberalismo. Tira-se a política do âmbito público como ferramenta de promoção do bem comum, para reduzi-la ao âmbito privado, à escolha de candidatos baseada, não em propostas e programas, e sim em simpatias e empatias.

A razão é simples: no sistema capitalista, a política é teoricamente pública e a economia privada. Universaliza-se o voto e privatiza-se a riqueza. Se no Brasil há mais de 100 milhões de eleitores, apenas 19 milhões concentram em suas mãos 75,4% da riqueza nacional (Ipea, maio 2008).

Numa verdadeira democracia, a universalização do voto deveria coincidir com a socialização das riquezas, no sentido de assegurar a todos uma renda mínima e os três direitos básicos, pela ordem: alimentação, saúde e educação. Como isso não consta da pauta do sistema, procura-se inverter o processo: inocula-se na população o horror à política de modo a relegá-la ao domínio privado de uns poucos. Quem tem nojo da política é governado por quem não tem. E os maus políticos tudo fazem para usar o poder público em benefício de seus interesses privados.

Veja-se, por exemplo, o movimento em favor do voto facultativo. O que muitos encaram como positivo e condizente com a liberdade individual é uma maneira de excluir parcela considerável da população das decisões políticas. Aumenta-se, assim, o grau de alienação dos potenciais eleitores. Quando perguntam por minha opinião, digo com clareza: sou a favor, desde que seja também facultativa a atual obrigação de pagar impostos. Por que ser obrigado a sustentar economicamente o Estado e desobrigado de influir na sua configuração e nos seus rumos?

O desinteresse pela política é um dos sintomas nefastos da ideologia neoliberal, que procura dessocializar os cidadãos para individualizá-los como consumistas. Troca-se o princípio cartesiano do "penso, logo existo", para o princípio mercadológico do "consumo, logo existo". É nesse sentido que a propaganda eleitoral também se reveste de mercadoria. Oferecem-se, não idéias, programas de governo, estratégias a longo prazo, e sim promessas, performances, imagens de impacto.

Se há aspectos positivos nas restrições oficiais às campanhas eleitorais, porque deixam a cidade limpa e evitam que os comícios atraiam público, não em função do candidato, e sim dos artistas no palanque, é óbvio que favorecem a quem tem mais dinheiro. E enquanto não chega a prometida reforma política, o financiamento e o controle público das campanhas, o caixa dois prossegue fazendo a farra de quem posa de ético e, ao mesmo tempo, angaria recursos escusos e criminosos.

É hora de abrir o debate sobre as eleições 2008 em todos os espaços institucionais e populares: escolas, empresas, denominações religiosas, clubes, associações, sindicatos e movimentos sociais. Não se trata de favorecer este ou aquele candidato, e sim de fomentar o distanciamento crítico frente ao marketing eleitoral e acentuar os critérios de discernimento político.

Se a sociedade não se empenhar na educação política de seus cidadãos, em breve teremos parlamentos e executivos ocupados apenas por corruptos, milicianos, lobistas e fundamentalistas. Então o Brasil se verá reduzido a uma imensa Chicago dos anos 30, com os Al Capone dando as cartas ao arrepio das leis, de um lado, e os Bin Laden versão tupiniquim de outro, convencidos de que, em nome de sua religião, foram escolhidos por Deus para governar erradicando o pecado, ou seja, combatendo a ferro e fogo todos que não rezam pela cartilha deles.

Frei Betto é escritor, autor de "Cartas da Prisão" (Agir), entre outros livros.

Fonte: www.correiocidadania.com.br



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CAPITALISMO EM CRISE (I)

O resgate de todos os resgates: golpe de Estado cleptocrata nos EUA

O governo dos EUA mudou radicalmente o caráter do capitalismo norte-americano. Trata-se, nem mais nem menos, de um “golpe de Estado” a favor da classe que Franklin Delano Roosevelt chamava de “bancgsters”. O que aconteceu nas últimas semanas pode alterar o curso do século que começa de maneira irreversível. Estamos diante da maior e mais desigual transferência de riqueza desde que se presentearam terras aos barões das ferrovias na era da Guerra Civil. A análise é de Michael Hudson.

Ninguém esperava que o capitalismo industrial terminasse deste modo. Mais do que isso, ninguém sequer imaginou que ele evoluiria nesta direção. Suspeito que essa cegueira seja freqüente entre os futurólogos: a tendência natural é pensar sobre a forma ótima de crescimento e desenvolvimento das economias. Mas sempre parece surgir um caminho imprevisto e então a sociedade se vai por uma tangente.

Que duas semanas! No domingo, 7 de setembro, o Tesouro assumiu o controle dos 5,3 bilhões de dólares expostos ao risco hipotecário das empresas Fannie Mae e Freddie Mac, cujos chefes já tinham sido destituídos por fraude contábil. No dia 15 de setembro, Lehman Brothers declarou-se em bancarrota quando possíveis compradores de Wall Street não conseguiram encontrar rastro algum de realidade em sua contabilidade financeira. Dois dias depois, o Federal Reserve concordou em aprovar, a um custo de pelo menos 85 bilhões de dólares, os lucros “assegurados” que a AIG devia a instituições financeiras que, por meio do comércio de valores nas bolsas, apostaram em hipotecas podres e contrataram seguros de cobertura com essa empresa seguradora, o American International Group (cujo chefe, Maurice Greenberg, havia sido destituído poucos anos antes por fraude contábil).

19 de setembro: o momento de inflexão
Mas é o dia 19 de setembro que figurará na história dos EUA como o momento de inflexão. A Casa Branca comprometeu ao menos 500 bilhões de dólares no esforço de aumentar os preços imobiliários a fim de sustentar o valor de mercado das hipotecas podres (hipotecas contratadas sem levar em conta a capacidade dos devedores para pagar e que, além disso, superestimam o preço corrente de mercado que se oferece como garantia da dívida).

Esses bilhões de dólares foram sacrificados para manter vivo um sonho: as ficções contábeis postas sobre o papel por empresas que ingressaram em um mundo irreal fundado em uma contabilidade falsa que praticamente todo o mundo financeiro sabia ser enganosa. Mas todos jogavam com as hipotecas podres porque ali é onde se ganhava dinheiro. Inclusive, no momento do colapso dos mercados, vários gestores executivos de fundos de investimentos que mantinham a lucidez foram duramente criticados por não embarcar neste jogo enquanto ele funcionava.

Tenho amigos em Wall Street que foram demitidos por não conseguir igualar os lucros que colegas seus estavam conseguindo. E os maiores retornos eram conseguidos através da comercialização dos maiores ativos financeiros da economia: a dívida hipotecária. Somente as hipotecas pertencentes ou garantidas por Fannie e Freddie já excediam o volume de toda a dívida nacional dos EUA, que é o déficit acumulado pelo Estado norte-americano desde os dias em que a nação ganhou a guerra revolucionária da independência!

Isso dá uma idéia das enormes dimensões do resgate, assim como das prioridades do Estado (ou, ao menos, dos republicanos no governo). Em vez de despertar a economia para a realidade, o governo empenhou todos os seus recursos na promoção de um sonho irreal, segundo o qual as dívidas podem ser pagas: se não pelos próprios devedores, pelo governo (ou os “contribuintes”, como se diz eufemisticamente). Diante das trevas, o Tesouro dos EUA e o Federal Reserve mudaram radicalmente a face do capitalismo norte-americano. Trata-se, nem mais nem menos, de um “golpe de Estado” a favor da classe que Franklin Delano Roosevelt chamava de “bancgsters”. O que aconteceu nas duas últimas semanas ameaça alterar o curso do século que começa, de maneira irreversível. Pois estamos diante da maior e mais desigual transferência de riqueza desde que se presentearam terras aos barões das ferrovias na era da Guerra Civil.

Socorrendo os doadores da campanha eleitoral
Ainda assim, há poucos indícios de que isso chegue sequer a pôr fim ao som dos tambores e trompetes em defesa do livre mercado executado pelos insiders financeiros que conseguiram destruir o controle público pela via de colocar reconhecidos anti-reguladores nas principais agências reguladoras, gerando assim o caos que, segundo diz agora o secretário do Tesouro, Henry Paulson, ameaça os depósitos bancários e os postos de trabalho de todos os norte-americanos. Mas quem está realmente ameaçado são os maiores contribuidores financeiros da campanha eleitoral dos republicanos (e para ser justo, também os maiores contribuidores das campanhas de candidatos democratas a postos-chave nos comitês de finanças do Congresso.

Uma classe cleptocrática tomou o controle da economia, a fim de substituir o capitalismo industrial. O termo cunhado um dia por Roosevelt – “bancgsters” – diz tudo em uma palavra. A economia foi assaltada e capturada por uma potência exterior. Não pelos suspeitos habituais: não foi pelo socialismo, não pelos trabalhadores, não pelo “Estado gigante”, não pelos industriais monopolistas, nem sequer pelas grandes famílias de banqueiros. Também não o foi pela franco-maçonaria ou pelos illuminati (seria maravilhoso que existisse de verdade algum grupo que atuasse nas sombras, com séculos de sabedoria acumulada; assim, ao menos, alguém teria um plano).

Os Exterminadores do Futuro
O que ocorreu é que os “bancgsters” aliaram-se com uma potência externa: não com os comunistas, não com os russos, asiáticos ou árabes: aliaram-se com algo que sequer é humano. O grupo em questão é um feixe de máquinas. Isso pode soar ao tema do filme “Exterminador do Futuro”, mas o certo é que os computadores conseguiram assumir o controle do mundo, ao menos o mundo da Casa Branca.

Eis aqui como conseguiram. A AIG subscreveu apólices de seguros de todo tipo solicitados por gente e pelo mundo dos negócios: seguros de habitação e de propriedade, seguros agropecuários e inclusive seguros para cobrir o arrendamento aeronáutico. Esse rentabilíssimo negócio não foi o problema (por isso mesmo, provavelmente, será todo coberto para poder pagar as apostas fracassadas da companhia). A queda da AIG veio dos 450 bilhões de dólares que ficaram pendurados ao assegurar garantias a fundos hedge de investimento.

Em outras palavras: se duas partes jogavam um jogo de soma zero, apostando uma contra a outra pela alta ou queda do dólar frente à libra esterlina ou ao euro, ou se asseguravam uma carteira hipotecária ou hipotecas podres para ter garantias de que seriam cobertas, pagavam uma minúscula comissão a AIG por uma apólice que prometia pagar, se o mercado hipotecário norte-americanos de 11 trilhões de dólares chegasse a “tropeçar”, ou se os perdedores que tinham colocado bilhões de dólares em apostas em derivados do mercado internacional de divisas ou em derivados financeiros de ações ou obrigações, terminassem em uma situação parecida com a que se encontram muitos jogadores de Las Vegas, isto é, incapazes de cobrir suas dívidas em dinheiro.

A AIG colheu bilhões de dólares com essas apólices. E graças ao fato de que essas companhias seguradoras são um paraíso “friedmaniano” – não regulado pelo Federal Reserve, nem por nenhuma outra agência de alcance nacional – a subscrição dessas apólices era feita por meio de processos informáticos. A empresa recebia enormes quantidades de honorários e comissões sem sequer aportar capital. Isso é o que se chama de “auto-regulação”. E é assim que, supostamente, funciona a mão invisível do mercado.

O fato é que, inevitavelmente, algumas instituições financeiras que tinham apostado bilhões de dólares – normalmente, e para ser preciso, apostando 1 bilhão de dólares no curso de uns poucos minutos – não estavam em condições de pagar. Esses jogos se desenvolviam em micro-segundos, praticamente sem interferência humana. Neste sentido, não é tão distinto dos alienígenas tomando o controle. Mas neste caso trata-se de máquinas tipo robô: daí a analogia que tracei com os Exterminadores.

Seu repentino acesso ao poder é tão imprevisível como uma invasão procedente de Marte. A analogia que mais se aproxima é a invasão dos Chicago Boy’s, do Banco Mundial e da USAID (Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional) a Rússia e a outras economias pós-soviéticas logo após a dissolução da URSS, promovendo privatizações de livre mercado a fim de criar cleptocracias nacionais. Para os estadounidenses deveria constituir um sinal de alerta que esses cleptocratas tenham se convertido nas fortunas fundadoras de seus respectivos países. Deveríamos ter presente a observação de Aristóteles, segundo a qual a democracia é o estado imediatamente anterior à oligarquia.

Comércio à velocidade da luz
As máquinas financeiras que desenvolveram o comércio que resultou na quebra da AIG estavam programadas por executivos financeiros para atuar com a velocidade da luz em operações de comércio eletrônico que costumam durar alguns segundos, e isso, milhões de vezes ao dia. Só uma máquina poderia calcular a distribuição de probabilidades matemáticas a partir da observação de ínfimas variações, para cima e para baixo, de taxas de juros, taxas de câmbio, preços de ações e obrigações, preços de hipotecas empacotadas. E esses últimos pacotes, cada vez mais, assumiram a forma de hipotecas podres, supostamente dívidas pagáveis mas, na realidade, casca vazia.

Em particular, as máquinas empregadas pelos fundos hedge deram um novo significado ao capitalismo de cassino. Há muito que se aplicava esse significado aos especuladores que jogavam no mercado de valores. Consistia em fazer apostas cruzadas, perder algo e ganhar algo, e deixar que o Estado resgatasse os não-pagadores. O giro observável na turbulência das duas últimas semanas é que os ganhadores não podem recolher os lucros de suas apostas, a menos que o governo pague as dívidas contraídas pelos perdedores, incapazes de satisfazê-las com seu próprio dinheiro.

Alguém poderia pensar que tudo isso exige algum grau de controle por parte do Estado, que provavelmente esse tipo de atividade não deveria jamais ter sido autorizada. De fato, nunca foi autorizada, tampouco regulada. Mas parecia haver uma boa razão para isso: os investidores dos fundos hedge assinaram um papel dizendo que eram suficientemente ricos para permitirem-se perder seu dinheiro neste jogo financeiro. Um jogo que não era acessível aos pobres mortais. Apesar do alto rendimento gerado por milhões de minúsculas operações comerciais, tais operações eram consideradas demasiado arriscadas para principiantes carentes de fundos confiáveis para entrar no jogo.

Um fundo hedge, ou fundo de cobertura ou de investimento livre, não ganha dinheiro produzindo bens e serviços. Não avança fundos para comprar ativos reais, nem sequer empresta dinheiro. O que faz é tomar emprestadas enormes somas para alavancar suas apostas com crédito praticamente ilimitado. Seus executivos não são engenheiros industriais, mas sim matemáticos que programam computadores para fazer apostas cruzadas ou straddles sobre como se comportarão as taxas de juros, as taxas de câmbio de moedas, os preços das ações e obrigações ou os preços das hipotecas empacotadas pelos bancos. Os empréstimos empacotados podem ter lastro ou ser puro lixo. Não importa. A única coisa que importa é ganhar dinheiro em um mercado no qual o grosso das operações comerciais dura apenas alguns segundos. O que gera lucros é a fibrilação dos preços, a volatilidade.

Jogo financeiro sem criação de riqueza
Este tipo de transações pode fazer fortunas, mas não é a “criação de riqueza” que muita gente imagina. Antes da fórmula matemática de Black-Scholes para calcular o valor das apostas destes fundos de investimento livre, esse tipo de jogo com opções de compra e venda resultava demasiado custoso, salvo para as empresas de intermediação financeira. Mas a combinação de potentes computadores com a “inovação” representada por um crédito praticamente ilimitado e o livre acesso às tabelas do jogo financeiro tornaram possível uma frenética manobra de ir e vir.

Pois bem, por que o Tesouro considerou inevitável esse esquema? Por que seria preciso salvar esses cassinos e seus apostadores, se eles tinham dinheiro bastante para perder sem que se convertessem em salas hospitalares necessitadas de assistência pública? O comércio de fundos hedge estava limitado aos muito ricos, aos bancos de investimentos e a outros investidores institucionais. Mas uma das maneiras mais fáceis de ganhar dinheiro chegou a ser emprestar fundos com juros que as pessoas tinham que devolver com o que retiravam de suas operações comerciais computadorizadas.

E, quase simultaneamente com a operação, esse dinheiro era pago em forma de comissões, remunerações e bônus anuais que traíam a memória dos EUA da Era da Ganância, nos anos que precederam a I Guerra Mundial, antes que se introduzisse o imposto sobre a renda em 1913. O notável em todo este dinheiro era que seus destinatários nem sequer tinha que pagar por ele um imposto de renda normal. O governo o chamou de “ganhos de capital”, o que significava que esse dinheiro era registrado fiscalmente somente como uma fração da taxa com a qual se taxavam os rendimentos.

Tudo isso com a pretensão, é importante dizer, de que todo esse frenético comércio estivesse criando “capital” real. Desde logo, cabe dizer que isso não ocorre, ao menos no sentido do conceito de capital dado pela economia clássica do século XIX. Esse conceito tem sido divorciado das noções de produção de bens e serviços, contratação de trabalho assalariado ou inovação financeira. Nesta novíssima acepção, “capital” passa a ser o direito de organizar uma loteria e recolher os lucros resultantes das esperanças dos perdedores. Mas, então, os cassinos de Las Vegas converteram-se em uma pujante “indústria do crescimento”, manchando a linguagem do capital, do crescimento e da própria riqueza.

Para encerrar as mesas de jogo e saldar dívidas, os perdedores têm que ser resgatados: Fannie Mae, Freddie Mac, AIG. Quem sabe quem será o seguinte? É a única maneira de resolver o seguinte problema que se apresenta às empresas que já pagaram seus executivos e acionistas, em vez de ter colocado essas somas em uma reserva: como recolher seus lucros diante de devedores insolventes e seguradoras quebradas? Estes, os perdedores, também pagaram seus executivos financeiros e seus colaboradores internos (junto com as oportunas contribuições patrióticas aos candidatos políticos em postos-chave das comissões do Congresso, encarregadas de decidir a estruturação financeira da nação).

O planejamento do caos
Sim, porque para que isso funcione, é preciso que seja orquestrado previamente. É necessário comprar políticos e oferecer-lhes um argumento plausível (ou, ao menos, um conjunto bem armado de eufemismos à prova de questionamento da opinião pública) para poder explicar aos eleitores por que era do interesse público resgatar os apostadores do cassino. É preciso ter uma boa retórica para explicar por que o governo tinha que permitir que eles entrassem em um cassino, deixar que ficassem com os lucros de suas apostas e, finalmente, usar fundos públicos para resgatar as perdas dos perdedores.

O que ocorreu nos dias 18 e 19 de setembro levou anos de preparação, escondidos por uma falsificação ideológica patrocinada por think thanks de relações públicas e emitida agora, em condições de emergência, a um Congresso e a eleitores reféns do pânico, justo antes da eleição presidencial. Poder-se-ia dizer que esta é a surpresa eleitoral que setembro reservava. Em condições de crise bem encenadas, o presidente Bush e o secretário do Tesouro Paulson convocam agora o país a uma guerra contra os proprietários de habitações, em situação de quebra técnica. Dizem que essa é a única esperança para “salvar ao sistema”. (Que sistema? Não o capitalismo industrial, nem sequer o sistema bancário tal como o conhecemos).

A maior transformação do sistema financeiro norte-americano desde a Grande Depressão aconteceu, comprimida, em duas semanas: começando com a duplicação da dívida nacional norte-americana quando, no dia 7 de setembro, ocorreu a nacionalização de Fannie Mae e Fredie Mac. (O corretor ortográfico de meu computador não concorda com a utilização do eufemismo “conservadorização” aplicado pelo senhor Paulson para referir-se ao resgate dos “fraudgsters” de Fannie Mae e Freddie Mac).

A teoria econômica poderia explicar que os lucros e o juro eram a remuneração do risco calculado. Mas em nossos dias o nome do jogo é ganhos de capital e apostas computadorizadas sobre o comportamento das taxas de juros, das moedas estrangeiras, dos preços das ações. E quando as apostas dão errado, os resgates são a remuneração econômica calculada de quem contribuiu financeiramente para a campanha eleitoral. Mas agora, supostamente, não é o momento de falar sobre tais coisas. “Temos que atuar agora para proteger a saúde econômica de nossa nação, ameaçada por graves riscos”, disse o presidente Bush no dia 19 de setembro.

O que ele queria dizer é que a Casa Branca deve responder com uma promessa de garantia ao maior grupo de doadores da campanha eleitoral do Partido Republicano – ou seja, Wall Street – resgatando suas más apostas. “Haverá muitas oportunidades para discutir as origens deste problema. A tarefa do momento é resolvê-lo”. Em outras palavras, não convertam isso em um assunto eleitoral. “Na história da nossa nação, ocorreram momentos que exigiram que andássemos unidos, deixando as divisões partidárias de lado a fim de enfrentar desafios de grande envergadura”. Justo antes das eleições! Idêntico disparate pode ser ouvido dos lábios do secretário Paulson: “Nossa saúde econômica exige que sejamos capazes de trabalhar juntos e empreender uma ação imediata bipartidária”. Os locutores disseram que nas manobras do dia estava em jogo uma cifra de meio bilhão de dólares.

Boa parte das culpas deveria recair sobre a Administração Clinton, responsável direta, em 1999, pela supressão da Lei Glass-Steagal, que permitiu aos bancos funcionarem como cassinos. Ou melhor dito, aos cassinos absorverem bancos. Isso é o que pôs em risco a economia dos norte-americanos.

Mas isso significa realmente que a única solução passa por “reinflar” o mercado imobiliário? O plano de Paulson-Bernanke é capacitar os bancos para que possam vender as casas de 5 milhões de devedores hipotecários que este ano terão que enfrentar ou a quebra ou o embargo. Os proprietários de habitações submetidos a juros hipotecários variáveis disparados perderão suas casas, mas o Federal Reserve garantirá às empresas de empréstimo hipotecário crédito suficiente para permitir que novos compradores se endividem o suficiente para conseguir resgatar as hipotecas lixo das mãos dos apostadores dos cassinos que são seus atuais possuidores. Com o que se ganha tempo para que uma nova bolha financeira acuda em resgate das instituições de empréstimo e dos empacotadores de hipotecas podres.

Nova guerra, novas ficções
Os EUA entraram em outra guerra, uma guerra para salvar os comerciantes de derivados computadorizados. Assim como a guerra do Iraque, esta nova guerra baseia-se muito em ficções e, como na guerra do Iraque, o país entra nela sob a pressão de condições de aparente emergência. Também como na guerra do Iraque, a solução proposta guarda pouca relação com a causa que provocou o problema. Esgrimindo razões de segurança financeira, o governo considerará como boas as Obrigações de Dívida Colateralizada (ODCs) que Warren Buffett chamou de “armas de destruição financeira massiva”.

Não é por acaso que esse esbanjamento de dinheiro público está sendo manejado pelo mesmo grupo que tão piamente alertou o país sobre a existência de armas de destruição em massa no Iraque. O presidente Bush e o secretário do tesouro declararam tão ricamente que este não é o momento para desacordos partidários a respeito da deriva da política pública em favor dos credores e não dos devedores; que este não é o momento de converter em assunto eleitoral o maior resgate já registrado nos anais da história eleitoral; que não é o momento adequado para debater se é bom “reinflar” o preço dos imóveis a níveis que seguirão obrigando os novos compradores de casa a endividarem-se até o ponto de ter que gastar em habitação cerca de 40% de seus rendimentos.

Recordem a época em que o presidente Bush e Alan Greenspan informaram aos norte-americanos que não havia dinheiro para financiar a Seguridade Social, porque em algum momento futuro (dentro de 10? 20? 40 anos?) o sistema teria um déficit de 1 bilhão de dólares, distribuído ao longo de muitos anos, soma irrisória diante do resgate que está sendo promovido agora. A moral da história era que se não podemos imaginar uma forma de pagar esse sistema no longo prazo é melhor deixar cair agora mesmo o programa assistencial. O senhor Bush e o senhor Greenspan garantiram na época que tinham uma oportuna solução. O Tesouro poderia canalizar o dinheiro da Seguridade Social e dos seguros médicos para os bancos Bear Stearns, Lehman Brothers ou seus pares, para que eles o investissem a um “mágico juro composto”.

O que teria ocorrido se a Seguridade Social tivesse feito tal coisa? Talvez tivéssemos assistido nestas duas semanas à entrega aos apostadores de Wall Street de todo o dinheiro acumulado desde que a Comissão Greenspan resolveu, em 1983, deslocar a carga fiscal sobre as retenções salariais reguladas pela FICA (Lei Federal de Contribuição à Seguridade Social). Não são os aposentados que se pretende resgatar, mas sim os investidores de Wall Street que assinaram papéis dizendo que estavam em condições de enfrentar a perda do dinheiro jogado. A consigna eleitoral dos republicanos este ano deveria ser: “Seguro de jogo, não seguro de saúde”.

Em seu célebre livro “Caminho da Servidão”, Friedrich von Hayek e seus meninos de Chicago insistiam que a servidão viria da planificação e da regulação estatais. Essa visão caminhava na direção contrária a dos reformadores clássicos da Era Progressista, que concebiam a ação do Estado como a do cérebro da sociedade, como a linha diretriz para modelar os mercados e liberá-los dos especuladores rentistas, ou seja, da renda que não fosse contrapartida do desempenho de um papel necessário na produção.

A teoria da democracia fundava-se no pressuposto de que os eleitores atuariam movidos pelo próprio interesse. Os reformadores do mercado partiram de uma feliz suposição paralela, segundo a qual os consumidores, os poupadores e os investidores promoveriam o crescimento econômico atuando com pleno conhecimento e cabal compreensão das dinâmicas em ação. Mas a mão invisível terminou resultando em fraude contábil, empréstimo hipotecário podre, informação privilegiada e fracasso em controlar os crescentes gastos da dívida conforme a capacidade dos devedores para pagar. É todo este caos, aparentemente legitimado por alguns modelos de comércio eletrônico, que acaba de ser socorrido pelo Tesouro dos EUA.

Michael Hudson é ex-economista de Wall Street especializado em balanço de pagamentos e bens imobiliários no Chase Manhattan Bank (agora JPMorgan Chase & Co.), Artur Anderson e, depois, no Hudson Institute. Em 1990 colaborou no estabelecimento do primeiro fundo soberano de dívida do mundo para Scudder Stevens & Clark. Hudson foi assessor econômico chefe de Dennis Kucinich na campanha primária presidencial democrata e assessorou os governos dos EUA, Canadá, México e Letônia, assim como o Instituto das Nações Unidas para Formação e Pesquisa. Destacado professor e pesquisador na Universidade de Missouri, na cidade de Kansas, é autor de numerosos livros, entre eles "Super Imperialism: The Economic Strategy of American Empire".

Tradução do inglês para o espanhol: Ricardo Timón
Tradução do espanhol para o português: Marco Aurélio Weissheimer

Fonte: www.agenciacartamaior.com.br



postado por Roberto Morais as 11:13:57 6 comentários




quarta, 07 maio, 2008
Três trabalhos atraentes

Escrito por Gabriel Perissé   

28-Abr-2008

Ler é trabalho. Eleger um livro, livrar-se do tempo para ter tempo de percorrer suas linhas, penetrar nas entrelinhas. Ler é trabalho trabalhoso. Comer a carne da leitura, sugar-lhe o sangue, roer-lhe o osso. Suportar o que há de insosso até chegar ao poço de água viva. Mais: saborear o insosso. Sentir no insosso o gosto que poderia ter.

Ler dá trabalho. Guardar da leitura a palavra exata, a frase contundente, a imagem certeira, a metáfora nova, a idéia paradoxal, o personagem mais vivo que os próprios vivos. Ler é trabalhar sem salário, sem recompensa material. Ler é trabalho puro, trabalho duro, trabalho divino.

Ler é também trabalho sujo. Ler é lamber os séculos, digerir tudo o que há em outras mentes. Leitura suja. Leitura suja de vida. E por isso é trabalho limpo. Trabalho decente, atraente.

Pensar é trabalho. Raciocinar é pouco, apenas racionar idéias, contar os passos, evitar falácias, economizar processos. Pensar mesmo, que cansa, é transbordamento, perda do tempo que não temos. Pensar é imaginar e relembrar, transgredir e transcender.

Pensar dá trabalho. É virar do avesso o que já estava certo. Pensar é misturar. Bom senso com não-senso, senso prático com senso moral, senso comum com senso estético.

Pensar é trabalhão. Emagrece a alma. É sempre hora extra, hora extensa, hora extrema. Pensar é pensar nas horas mortas e nas horas vivas, nas horas vagas e perdidas, em cima da hora, pela hora da morte.

Escrever é outro trabalho e tanto! Escrever é ser escravo das letras. Trabalhar de sol a sol, de lua a lua, de segunda a segunda, de hora em hora, de chaga em chaga, de ano em ano, tudo e nada, com leitor ou sem, com editora ou sem, com dinheiro ou sem.

Escrever dá trabalho. Dá medo, dá dor, dá dó. Catar palavras nas areias, correr atrás de algumas, que fogem. Ou fugir das que nos perseguem, repetidas, redundantes, replicantes.

Escrever, trabalho braçal, trabalho de cão, trabalho de Hércules, trabalho de Sísifo, trabalho de parto que nos parte ao meio, trabalho forçado que liberta.

Ler, pensar e escrever. Três trabalhos que atraem, subtraem, maltratam e enriquecem. Trabalhos ocultos, solitários. Trabalhos que aumentam a fome de trabalhar. Trabalhos impunes. Trabalhos sem perdão, sem a devida remuneração. Trabalhos que não têm preço. Que não têm fim. Que não têm jeito.

Gabriel Perissé é doutor em Educação pela USP e escritor – Web Site: http://www.perisse.com.br/

Fonte: www.correiocidadania.com.br



postado por Roberto Morais as 02:23:14 6 comentários




A FOME INFAME - Transnacionais de alimentos lucram com aumento da fome

A fome no mundo é a nova grande fonte de lucros do grande capital financeiro e os lucros aumentam na mesma proporção que a fome. Nos últimos meses, os meses do aumento da fome, os lucros da maior empresa de sementes e de cereais aumentaram 83%. Ou seja, a fome de lucros da Cargill alimenta-se da fome de milhões de seres humanos. A análise é de Boaventura de Sousa Santos.

Há muito conhecido dos que estudam a questão alimentar, o escândalo finalmente estalou na opinião pública: a substituição da agricultura familiar, camponesa, orientada para a auto-suficiência alimentar e os mercados locais, pela grande agro-indústria, orientada para a monocultura de produtos de exportação (flores ou tomates), longe de resolver o problema alimentar do mundo, agravou-o.

Há muito conhecido dos que estudam a questão alimentar, o escândalo finalmente estalou na opinião pública: a substituição da agricultura familiar, camponesa, orientada para a auto-suficiência alimentar e os mercados locais, pela grande agro-indústria, orientada para a monocultura de produtos de exportação (flores ou tomates), longe de resolver o problema alimentar do mundo, agravou-o.

Tendo prometido erradicar a fome do mundo no espaço de vinte anos, confrontamo-nos hoje com uma situação pior do que a que existia há quarenta anos. Cerca de um sexto da humanidade passa fome; segundo o Banco Mundial, 33 países estão à beira de uma crise alimentar grave; mesmo nos países mais desenvolvidos os bancos alimentares estão a perder as suas reservas; e voltaram as revoltas da fome que em alguns países já causaram mortes. Entretanto, a ajuda alimentar da ONU está hoje a comprar a 780 dólares a tonelada de alimentos que no passado mês de março comprava a 460 dólares.

A opinião pública está a ser sistematicamente desinformada sobre esta matéria para que se não dê conta do que se está a passar. É que o que se está a passar é explosivo e pode ser resumido do seguinte modo: a fome do mundo é a nova grande fonte de lucros do grande capital financeiro e os lucros aumentam na mesma proporção que a fome.

A fome no mundo não é um fenômeno novo. Ficaram famosas na Europa as revoltas da fome (com o saque dos comerciantes e a imposição da distribuição gratuita do pão) desde a Idade Média até ao século XIX. O que é novo na fome do século XXI diz respeito às suas causas e ao modo como as principais são ocultadas. A opinião pública tem sido informada que o surto da fome está ligado à escassez de produtos agrícolas, e que esta se deve às más colheitas provocadas pelo aquecimento global e às alterações climáticas; ao aumento de consumo de cereais na Índia e na China; ao aumento dos custos dos transportes devido à subida do petróleo; à crescente reserva de terra agrícola para produção dos agro-combustíveis.

Todas estas causas têm contribuído para o problema, mas não são suficientes para explicar que o preço da tonelada do arroz tenha triplicado desde o início de 2007. Estes aumentos especulativos, tal como os do preço do petróleo, resultam de o capital financeiro (bancos, fundos de pensões, fundos hedge [de alto risco e rendimento]) ter começado a investir fortemente nos mercados internacionais de produtos agrícolas depois da crise do investimento no sector imobiliário.

Em articulação com as grandes empresas que controlam o mercado de sementes e a distribuição mundial de cereais, o capital financeiro investe no mercado de futuros na expectativa de que os preços continuarão a subir, e, ao fazê-lo, reforça essa expectativa. Quanto mais altos forem os preços, mais fome haverá no mundo, maiores serão os lucros das empresas e os retornos dos investimentos financeiros.

Nos últimos meses, os meses do aumento da fome, os lucros da maior empresa de sementes e de cereais aumentaram 83%. Ou seja, a fome de lucros da Cargill alimenta-se da fome de milhões de seres humanos.

O escândalo do enriquecimento de alguns à custa da fome e subnutrição de milhões já não pode ser disfarçado com as “generosas” ajudas alimentares. Tais ajudas são uma fraude que encobre outra maior: as políticas econômicas neoliberais que há trinta anos têm vindo a forçar os países do terceiro mundo a deixar de produzir os produtos agrícolas necessários para alimentar as suas próprias populações e a concentrar-se em produtos de exportação, com os quais ganharão divisas que lhes permitirão importar produtos agrícolas... dos países mais desenvolvidos.

Quem tenha dúvidas sobre esta fraude que compare a recente “generosidade” dos EUA na ajuda alimentar com o seu consistente voto na ONU contra o direito à alimentação reconhecido por todos os outros países.

O terrorismo foi o primeiro grande aviso de que se não pode impunemente continuar a destruir ou a pilhar a riqueza de alguns países para benefício exclusivo de um pequeno grupo de países mais poderosos. A fome e a revolta que acarreta parece ser o segundo aviso. Para lhes responder eficazmente será preciso pôr termo à globalização neoliberal, tal como a conhecemos.

O capitalismo global tem de voltar a sujeitar-se a regras que não as que ele próprio estabelece para seu benefício. Deve ser exigida uma moratória imediata nas negociações sobre produtos agrícolas em curso na Organização Mundial do Comércio. Os cidadãos têm de começar a privilegiar os mercados locais, recusar nos supermercados os produtos que vêm de longe, exigir do Estado e dos municípios que criem incentivos à produção agrícola local, exigir da União Europeia e das agências nacionais para a segurança alimentar que entendam que a agricultura e a alimentação industriais não são o remédio contra a insegurança alimentar. Bem pelo contrário.

Fonte: http://www.cartamaior.com.br/



postado por Roberto Morais as 02:17:08 8 comentários




Paraguai: o fim de um ciclo

Escrito por Atílio Boron   

25-Abr-2008

O triunfo do ex-bispo Fernando Lugo nas eleições desse domingo põe fim a quase 61 anos de predomínio do Partido Colorado. A maior parte desse período transcorreu sob o signo de uma das mais ferozes e reacionárias ditaduras da América Latina presidida por Alfredo Stroessner que tomou o poder mediante um golpe de Estado em 1954 e permaneceu nele até 1989. Desde então, até o domingo de 20 de abril, o Partido Colorado manteve o poder político no país.

Ao longo desses anos, o Paraguai, um país que, como a Bolívia, possui grandes recursos naturais e uma população relativamente pequena (não chega a sete milhões de habitantes), aprofundou o seu atraso econômico, político e cultural, condenando à pobreza a grande maioria dos seus filhos e ‘prendendo’ aqueles que não emigraram sob um sistema corrupto até a medula, no qual os mais altos funcionários do Estado eram, com poucas exceções, os organizadores do saque praticado contra a nação guarani.

Com o triunfo de Lugo caiu o último bastião do despotismo que assolou a região durante a segunda metade do século passado. O do Paraguai foi mais longe; mudou de pele como uma serpente e engendrou, para perpetuar a ditadura, a continuidade do mesmo bloco dominante sob uma roupagem que apenas formalmente parecia democrático. O transformismo de que falava Gramsci foi uma verdadeira escola entre a classe política paraguaia e as mudanças que aconteceram logo após a saída de Stroessner serviram, com dizia Gatopardo, para que tudo continuasse igual.

Com Lugo como presidente, toda a estrutura da sociedade paraguaia enfrentará fortes abalos. Para começar, o aparato clientelístico montado faz seis décadas e alimentado permanentemente por uma corrupção imperante. A oposição que encontrará o ex-bispo será inclemente e intratável: donos absolutos de vidas e administradores que estão durante décadas no poder, oportunistas e hipócritas aderentes à norma do jogo democrático não deixarão de empregar qualquer recurso para desestabilizar o processo e provocar uma situação similar àquela em que se encontra a Bolívia de Evo Morales.

De outro lado, como se a oposição interna não fosse pouca coisa, os olhos do império se concentrarão a partir de hoje na República paraguaia, que passará a engrossar a lista de governos com "débeis credenciais democráticas". A imperdoável miopia dos governos do Brasil e da Argentina, a mesma que está empunhando cada vez com mais força o Uruguai até os braços dos Estados Unidos, fez com que Assunção terminasse por conceder, para uso das forças estadunidenses, a base área de Mariscal Estigarribia. Situada em um região praticamente despovoada, a uns 200 Km da fronteira da Argentina e uns 300 do Brasil, tem a pista área mais extensa do Paraguai, superior à do aeroporto internacional de Assunção, e capacidade para abrigar tropas de até 20 mil soldados.

Tropas que gozam de imunidade sob um suposto "Acordo Militar de Treinamento" assinado entre brindes à meia-noite em 2005, enquanto o Itamaraty e a Chancelaria argentina estavam distraídas com questões menos relevantes.

Agora se verá se a Argentina e o Brasil passarão da retórica à solidariedade efetiva com o governo de Lugo. Um governo que precisará de muita ajuda para poder sobreviver aos embates já antevistos que apostam em seu fracasso para que o Paraguai volte a ser o que sempre foi.

Originalmente publicado no jornal Página/12, com tradução do Cepat.

Atilio Boron é sociólogo argentino.

Fonte: www.correiocidadania.com.br



postado por Roberto Morais as 02:13:37 6 comentários




terça, 22 abril, 2008
O Psol não vai para eleição só para fazer de conta

ENTREVISTA Heloísa Helena, presidente nacional do Psol

Conhecida por suas opiniões duras e perfil combativo, Heloísa Helena Lima de Moraes Carvalho, 46 anos, foi a primeira mulher a se tornar senadora pelo Estado de Alagoas em 1996. Nascida no município de Pão de Açúcar, que fica no sertão alagoano, começou sua carreira política em 1992, como vice-prefeita de Maceió pelo PT.
Em 1994, foi eleita deputada estadual e ocupou a função de líder do PT e do bloco de oposição no Senado. Em 2003, foi expulsa do PT por criticar o governo Lula e votar contra vários projetos do Executivo. Um ano depois, ajudou a fundar o Partido Socialismo e Liberdade (Psol), com o qual foi candidata à presidência da República em 2006.
Formada em Enfermagem, atualmente Heloísa Helena divide seu tempo entre as aulas que ministra na Universidade Federal de Alagoas e as ações do Psol, da qual é presidente nacional, em todo o Brasil. No último final de semana, ela esteve em Belém para participar de um debate sobre saúde pública promovido pelo DCE da UFPA. Nesta entrevista, concedida aos jornalistas Frank Siqueira, Fábio Nóvoa e Alethéia Vieira, do DIÁRIO, ela falou sobre as eleições municipais de 2008, alianças com outros partidos e sobre o seu futuro político.


DIÁRIO: Recentemente, o Psol tem feito, em algumas cidades, a articulação para o lançamento de candidaturas próprias às prefeituras. Essa mesma estratégia vai ser adotada aqui no Pará?
Heloísa Helena: Eu tenho dito várias vezes que o Psol reconhece humildemente que ainda é uma ferramenta partidária pequena. Não é um partido nanico, pois existe partido grande que é nanico moral. Mesmo assim, possui uma militância muito valorosa, lutadora, com muitas pessoas da sociedade de uma forma em geral que nem tem partido, que respeitam a nossa luta. Em um país de dimensões continentais como é o Brasil, talvez não consigamos apresentar candidaturas nem em 8% do país todo. Então, estamos fazendo um mapeamento de onde temos organização partidária suficiente para estabelecermos laços democráticos em torno da construção de uma proposta de administração pública voltada ao interesse da maioria desta população, para poder disputarmos as eleições. Porque não nos interessa fazer qualquer disputa eleitoral só para fazer de conta que estamos participando do processo, ou com qualquer aliança que reproduza a velha matemática eleitoralista que nós sempre condenamos com ferocidade, baseado no cálculo para atingir o coeficiente para eleger vereador ou para ter mais tempo no horário eleitoral - isso não nos interessa. O partido tem a obrigação de, ao representar a esquerda socialista democrática que não se rendeu ao capital e não se vendeu à promiscuidade do poder, realmente significar uma ferramenta partidária nova, portanto, não tem o direito de reproduzir os erros que condena. Então, aqui no Pará é uma definição que vai ser tomada pelo diretório, porque a Direção Nacional entende que todas as discussões serão feitas pelos diretórios municipais. No dia 18 de maio, teremos o congresso municipal que vai eleger delegados, não necessariamente para definir candidaturas, mas para auferir as decisões nacionais acerca das políticas de alianças e como as nossas candidaturas deverão se portar no pleito eleitoral. Esse debate vai ser feito nos municípios. Estamos com 50 municípios organizados pelo Psol também com esse mesmo critério.

DIÁRIO: Pelos menos nas capitais e maiores cidades, a tendência é do Psol sair com candidato próprio?
Heloísa Helena: Com certeza. Nós estamos exatamente fazendo este esforço. E é um esforço muito grande, tenha certeza. Aparentemente, é estranho dizer que há um esforço para todas as capitais, mas é isso. Ainda está sendo feito um esforço para garantir um convencimento de dirigentes partidários para disponibilizarem seus nomes para as candidaturas nas capitais e nos municípios onde tenhamos organização suficiente. Todos os partidos, obrigatoriamente, têm que ter uma fundação controlada financeiramente pelo Ministério Público - a nossa é a Fundação Lauro Campos, onde eu estou na coordenação do grupo de trabalho que está auxiliando na construção de propostas concretas, ágeis e eficazes a serem implementadas a curto, médio e longo prazo nas administrações municipais, que vão desde os mecanismos para minimizar os riscos da corrupção, como o aumento da permeabilidade da administração pública para a fiscalização, monitoramento e controle da sociedade. Isso na elaboração desde a LDO, PPA, orçamento, ações administrativas, execução dos planos municipais, mecanismos a serem implementados nos eixos da administração pública. Para nós são muito importantes, além do combate à corrupção, a dinamização da economia local, a geração de emprego e renda, com prioridade nos investimentos em infra-estrutura urbana, no campo e na cidade, as questões relacionadas à Educação, desde a infantil, fundamental, de jovens e adultos, profissionalizante. Na área da Saúde, desde a atenção básica, média e alta complexidade e (também temos) na área de Segurança Pública, embora a Segurança Pública seja, do ponto da legislação, uma tarefa do Estado, mas as mulheres e homens expostos todos os dias ao risco da violência são cidadãos dos municípios. Portanto, todos os mecanismos relacionados à parceria e pactuação na área de Segurança Pública são obrigação dos municípios também. Além, é claro, de reeleger nossos vereadores e vereadoras, aumentar as nossas bancadas, isso é importante para nós também.

DIÁRIO: No caso de Belém, fala-se muito no retorno do ex-prefeito Edmilson Rodrigues para disputar as eleições. Já há uma definição a esse respeito? Pessoalmente, qual a sua avaliação?
Heloísa Helena: Pra mim, é, assim, um pouco constrangedor falar sobre o assunto porque significa uma decisão coletiva, mas que em última instância, acaba sendo uma decisão das pessoas. Então, nós preferimos realmente não criar nenhum mecanismo de forçar as pessoas a disponibilizarem seus nomes para candidaturas, porque todos nós temos maturidade suficiente para entendermos o papel que temos que desempenhar. Então, se o Edmilson puder disponibilizar o nome dele, será extremamente importante. Senão, teremos outro nome para disponibilizar.

DIÁRIO: Com relação a possíveis alianças no segundo turno, já tem uma discussão no partido sobre isso?
Heloísa Helena: Não, de jeito nenhum. Eu sempre digo que o Psol é muito novo para já degenerar, para já querer ousar se degenerar. No primeiro turno, as alianças dependem do projeto a ser apresentado. É por isso que a gente tem um espectro ideológico e programático para alianças, mas não necessariamente ela se consolida de pronto, porque, de repente, pode ter um partido que a gente respeita ideologicamente, mas que não seja um partido que quer ser parte de um projeto a ser implementado.
O primeiro passo é discutir qual o programa a ser compartilhado na sua construção com a sociedade, e apresentado a essa sociedade. Depois, qual a política de alianças e dirigentes que se identificam e que melhor representam esse projeto. Segundo turno, nem ouso pensar agora, antecipadamente, o que será feito. A gente não fala tão mal dos outros que fazem qualquer aliança para ganhar eleição? Quem se dá ao direito de criticar ferozmente os outros por fazer qualquer aliança só para ganhar eleição, não tem o direito de reproduzir esse mesmo comportamento. Portanto, alianças só serão decididas com base na discussão nacional e que também já produza o programa a ser apresentado.

DIÁRIO: O seu futuro político mexe com os sentimentos do eleitorado brasileiro e, principalmente de Alagoas...

Heloísa Helena: Tem muita gente que diz: ‘olha Heloísa, eu não acredito em nada dessa coisa que você fala, de socialismo, eu acho que isso não é possível, mas eu respeito, acho que vocês têm que continuar lutando’.

DIÁRIO: O Senado faz falta para você?
Heloísa Helena: Olha, eu seria cínica em dizer eu não gostaria de estar lá nos grandes debates que fazem nacionalmente. Eu sempre me preparei muito, não apenas politicamente, mas emocional e espiritualmente, para ser senadora. Não é a toa que, pela primeira vez, que eu vi aquela estrutura arquitetônica que eu nunca tinha visto, nunca tinha entrado, eu pedi muito a Deus que a vaidade não fosse capaz de levar o que eu achava que tinha de melhor, na minha alma e no meu coração. E quando eu terminei o mandato, no último dia, eu peguei meu carro, saí dirigindo. Eu lembro que, quando olhei no retrovisor do carro, que eu vi o Senado, sabe que eu não senti nenhuma saudade? Eu falei: ‘Meu Deus, obrigada, porque eu saio com a consciência tranqüila, de dever cumprido. Uma mulher do povo, uma qualquer, chegou no Senado e não se vendeu’. Eu sorri com a alegria dos que têm a consciência tranqüila do dever cumprido. Eu combati o bom combate e não perdi a fé. Claro que politicamente é diferente. Em Alagoas, o caos é maior. Lá eu não consigo dar uma entrevista, como eu estou dando aqui no DIÁRIO DO PARÁ, em nenhum jornal, rádio ou televisão. Para mim, é mais grave em meu Estado, enfrentar poderosíssimas estruturas de verdadeiras organizações criminosas que tentam lhe aniquilar todos os dias como mulher e como militante do mundo da política. E eu sabia disso. Eu não tenho arrependimento. Mas, qual militante não gostaria de estar no Senado debatendo a Reforma Tributária? Estar nas CPIs, nas comissões de fiscalização e controle, para debater a área da Saúde?

DIÁRIO: E a candidatura à presidência?
Heloísa Helena: Claro que não estou dizendo que ser candidata é meu projeto pessoal, uma candidatura à presidência da República não é um projeto pessoal, e todos os militantes do Psol sabem que eu só vou para um processo eleitoral quando defendo o que eu acredito. A campanha presidencial está longe. O Psol vai ter candidato à presidência? Vai, mas primeiro tem que discutir o projeto e o dirigente que melhor se identificar com esse projeto e representar esse projeto. Mesmo há um ano e meio sem visibilidade pública, sem mandato e ter entre 13% e 20% das intenções de voto, claro que eu fico feliz, não vou ser cínica de dizer que isso não me deixa feliz e agradecida com a generosidade das pessoas que ainda lembram das nossas lutas.

DIÁRIO: Seu nome foi cogitado para prefeita de Maceió ou para vereadora. A senhora vai ser candidata?
Heloísa Helena: À prefeitura, não. Pois isso significaria que, para cumprir qualquer tarefa em 2010, eu teria que abandonar com um ano e meio com mandato. Agora, (ser candidata) à vereadora é uma coisa que estamos discutindo no Estado. Porque, interromper um mandato de vereadora, não teria problema, pois como vereadora, eu poderia ser candidata a qualquer cargo em 2010.

DIÁRIO: A senhora foi expulsa do PT por não concordar com as mudanças ideológicas do partido. Qual o perfil das pessoas que procuram o Psol para se filiar?
Heloísa Helena: Em relação ao processo de expulsão, que eu sempre caracterizava como um tribunal do santo ofício, que de santo nada teve, eu fiquei muito magoada com toda a intolerância e truculência de que fui vítima. Hoje, depois de todo esse tempo, eu agradeço muito a Deus a experiência que eu tive, porque eu fui testada. Entre escolher cargos de prestígio, escolhi defender as convicções ideológicas que eu tinha. Portanto, desse contexto eu não guardo nenhum rancor, nenhuma mágoa. Tenho amigos queridos dentro do PT e tenho inimigos que são capazes de promover qualquer carnificina para me destruir. Sei que lá existem honestos militantes socialistas, do mesmo jeito que existem delinqüentes e inimigos que são capazes de aniquilar a mim ou qualquer outro militante que resista. Então não fizemos um esforço muito grande de filiação. Foi uma decisão nossa. Construir novas vanguardas, possibilitar a pessoas que nunca tiveram experiências partidárias conhecer mais das concepções ideológicas que dão sustentação aos partidos socialistas é muito importante.

DIÁRIO: E a tese do terceiro mandato do presidente Lula?

Heloísa Helena: Qualquer mecanismo golpista, de alterar a legislação para viabilizar os interesses reinantes de um determinado grupo político deve ser combatido com veemência. Se é a utilização da máquina pública para a reeleição do Fernando Henrique ou se é a utilização da máquina pública para o terceiro mandato do Lula tem que ser combatido.

Jornal Diário do Pará/domingo/20.04.2008



postado por Roberto Morais as 11:14:12 6 comentários




quarta, 10 outubro, 2007
Reflexões de Che

.

“A única coisa em que acredito é que precisamos ter capacidade de destruir as opiniões contrárias, baseados em argumentos ou, senão, deixar que as opiniões se expressem. Opinião que precisamos destruir na porrada é opinião que leva vantagem sobre nós. Não é possível destruir as opiniões na porrada e é isso precisamente que mata todo o desenvolvimento da inteligência...”

“Nós, que, pelo império das circunstâncias, dirigimos a revolução, não somos donos da verdade, menos ainda de toda a sapiência do mundo. Temos que aprender todos os dias. O dia que deixarmos de aprender, que acreditarmos saber tudo, ou que tivermos perdido nossa capacidade de contato ou de intercâmbio com o povo e com a juventude, será o dia em que teremos deixado de ser revolucionários e, então, o melhor que vocês poderiam fazer seria jogar-nos fora...”

“Deixa-me dizer, com o risco de parecer ridículo, que o verdadeiro revolucionário é feito de grandes sentimentos de amor.”

“Nosso sacrifício é consciente. É a cota que temos de pagar pela liberdade que construímos.”

“Muitos dirão que sou aventureiro, e sou mesmo, só que de um tipo diferente, destes que entregam a própria pele para demonstrar suas verdades.”

“Sobretudo, sejam capazes de sentir, no mais profundo de vocês, qualquer injustiça contra qualquer ser humano, em qualquer parte do mundo.” (Carta de despedida aos filhos)

“É preciso endurecer, sem perder a ternura, jamais.”

“Que importam os perigos ou os sacrifícios de um homem ou de um povo, quando está em jogo o destino da humanidade.”

“É um dos momentos em que é preciso tomar grandes decisões: este tipo de luta nos dá a oportunidade de nos convertermos em revolucionários, o escalão mais alto da espécie humana, mas também nos permite graduar como homens.”

“Nós, socialistas, somos mais livres porque somos mais completos; somos mais completos porque somos mais livres.”



postado por Roberto Morais as 01:27:06 6 comentários




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