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quarta, 06 fevereiro, 2008
sexta, 18 janeiro, 2008
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HORAS NOTURNAS
HORAS NOTURNAS
Quando bate a modorra, reluto incançavelmente para não sucumbir á efêmera morte diária a que me impõem os contínuos breus dormentes, os quais me fazem jazer sobre a cama do esteio da velha solitude teimosa que comigo aporta nesta alcova nova.
porque quero muito ficar ao sabor do fraternal masoquismo dum recente relicário de rios que inexplicavelmente sem sentido se esfumaçam: afinal sem saber-se refluentes. Sem saber se exatamente poderão talvez um dia desses voltar á sua congênita forma. No entanto, eu bem sei: eles não são molas!
Ah, me pego subitamente afogando-me nas águas profundas do divagar onde alfobram o titanismo e seus devotados miasmas garridos. Entretanto, uma vez mais, para o quarto retorno. Me fixo na janela a contemplar o fluir e o refluir das relíquias fraternas que, na estrada saudosista da memória, perpassam lépidas. Sim, então, sob o peso da dor, sobre o leito, desmaio. Com efeito, sob o peso das águas que não jorram, no catre, eu mortamero cansado! Cansado de olhar o rio que corre. Corre cheio de desapego: desapego ao passado ainda tão claro. JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

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quarta, 16 janeiro, 2008
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CHUVAS DE PENSAMENTO
CHUVAS DE PENSAMENTO
Ouvi o fragor das gotas d’agua caídas ontem, lá fora; mas, fugazes, elas tão-somente se mostraram... como também a sua ressonância. Peremptoriamente, aliás, como o é a via temporal de uma bala: sim, porque, ao sair da ígnea arma, em poucos momentos, transmuda uma lépida potência de luz numa vida irremediavelmente ceifada.
Ah, também eu sei que na minha mente chove. No entanto, não são gamas de efêmero H2O cadente; infelizmente, na realidade, vertem-se dilúvios de epígrafes ácidos: os quais nem remotamente lembram o olor da transitoriedade. Creia-me: é muito ao contrário. A bem da verdade, na mentosfera, eles se formam; se condensam; deixam-se ficar; expandem-se e Se reverberam! Sempre num vôo-passo fleumaticamente contínuo. Continua- mente inercial. Inercialmente reto.
Sim, eu tomo essa híbrida espécie de chuva por fluxos de diária reflexão que me levam bem ulteriormente a mim; e, ao mesmo tempo, inimaginavelmente próximo: próximo das chagas. Contemplando as chagas: próximo o bastante para contemplá-las. Sentindo as chagas: próximo o bastante para senti-las. Incorporando as chagas: próximo o bastante para incorporá-las. Então, finalmente, sendo as chagas: a se apossar da sua matéria; e, enfim, ei-las... eis que sou elas!
Não, não posso contemplá-las... Não, não posso senti-las... Não, não posso incorporá-las... Não, não sou a matéria... Não, não sou a chaga.
Ah, pena que não possa nada... Ah, pena que uma coisa só fazer possa... Ah, pena poder apenas empunhar a pena pra exarar E mais nada. Sim, que porra não poder conter a chuva... Não estancar a cruel enxurrada. Não poder acabar com o padecimento causado pelas mazelas. Não cicatrizar as dolorosas chagas! Ah, e esta chuva que não passa...
JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA
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POEMA DO DEPOIS
POEMA DO DEPOIS
E depois... depois dos abadás? E depois... depois das plumas e paetês? E depois... depois das bocetas degustadas? E depois... depois das bananas chupadas? E depois... depois da euforia passada? E depois... depois do vermelho despontando no frontal horizonte? Do vermelho dos juros do Banco... Do vermelho que canta a trova do despejo que se aproxima... Do vermelho que toca a dramática balada do avolumar duma Jovem Barriga... Do vermelho no estouro do limite do dinheiro de plástico... Do vermelho que irrompe a periferia, levando consigo o amargo: O amargo sabor do Ocaso... Do vermelho da responsabilidade que se materializa num cordão Umbilical Cortado... Do parasita vermelho do HIV continuamente a devorá-lo... E depois... depois do vermelho da vida que escapa? Escapa ao deixar o corpo para inundar o chão de plasma... E depois... depois do servo Irãnio?
E depois... depois da conquista do Negro Ouro em solo maometano? E depois... depois de mostrar aos mandarins quem é que manda? E depois do presente? E depois do efetivo de ferramentas assassinas... Dos soldados do rentável sistema de baixo? E depois das carícias...da decepção...das certezas...do amor. Das promessas? E depois do passado? E depois do futuro: o que haverá de nós sobrado? E depois do nada ecoado? E depois das cinzas da fogueira? E depois de tudo apagado? E depois do mar de silêncio? E depois da supernova? E depois do enterro? E depois do pairar do crepúsculo? E depois do teatro dos vampiros? E depois do olhar do mendigo? E depois da aurora? E depois, como continuar a seguir o caminho? E depois, como se achar em um mundo perdido? E depois do agora? E depois do depois do agora? E depois do depois do amanhã? E depois do depois do depois?
JESSÉ BARBOSA OLIVEIRA
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ORVALHOS CAÍDOS SOBRE OS CACTOS
ORVALHOS CAÍDOS SOBRE OS CACTOS
Na deformação do itinerário trilhado por fluidos abstratos, assenta-se a cristalização de imagens concretas. Sim, nelas arde o desprezo pelo passeio sobre a derme da matéria: esta, pouco explorada, quase ignota. Na verdade, de leitura aparentemente hermética, ou, na maioria das vezes, se comutando em estradas salpicadas de nódoas da procura inglória.
Claro, por isso, muitos, sob o efeito do álcool da pusilanimidade, não se atrevem a trilhá-la, sequer esquadrinhá-la, o subterrâneo prospectar-lhe: perdendo, assim, a chance de, ali, quem sabe, descobrir novas variedades de pérola, rubi, prata, ouro, esmeralda que sejam crias de uma surpreendentemente insólita seara da consciência: até, então, ainda não penetrada.
No entanto, outros tantos têm ânimo de perseguir o espectro de suas nuanças para, com sorte, encontrá-la e, sobretudo, ir além: sim, afinal, chegar-lhe á manancial para partilhar, com os sábios do falso hermetismo, a arca da têmpera contida na sublimação da singeleza expressa na esfinge dos mais ordinários do talvez mais fascinante espécime dos seres vivos que a Terra habitam.
Mas, dentre esses tantos outros, assoma, existe, fulgura a mestra. Sim, ela, o docemente catártico chafariz de sabedoria, é a única que penetra a matéria tantas quantas forem as feitas que queira ou conceba a sua intuição feminina, femininamente artística. E, não satisfeita, vai além. Ela submerge ás profundezas: ás profundezas deste Ar-Mar-Terra indizível, deslindando-o sem fim. De fato, sendo o seguidor da via secretamente eterna da vital energia, a qual, em nós, calorosamente, se encerra arredia.
Ah, como ela não se furta, nem mesmo se cansa de olhar além das perfeitas quimeras hipócritas da bonança. Ah, ela, com seu olhar oblíquo, de sosláio, de esguelha, enxerga o lirismo acre do modelo antípoda ao paradigma da prole de Ísis, Afrodite, Arquimedes, Dionísio, Diógenes, Hércules, Sólon, Péricles, Sócrates, Platão, Athenas. Não, nada que venha, provenha dos gregos “Jardins do Eden” faz com que a Poesia Plástica a enseje, a almeje, a ganhe, a aprisione, a medre e faça com que ela os venere. A sábia prefere colher a poesia encontrada nos orvalhos caídos sobre os cactos que afloram no real solo deste flagelado campo universal, mas também brasileiro: de esperança brasileiramente nunca estanque: sim, exatamente assim como a chama que emana do candeeiro que tenazmente alumeia, embora precariamente, as humildes casas e, mesmo, as enfermas almas da sofrida e infatigável gente sertaneja. Ah! brava gente sertaneja: a expor, todos os dias, sua face ás intempéries do sol, sua barriga ás intempéries da seca, ou, quando em vez, matando a fome com o lume de sazonais faíscas emitidas pela solitária estrela vermelha. Oh! sem falar nos protestos da mente: ora sob a forma das lufadas benfazejas do eco da lírica poética jazida nas laudas da bíblia de cordel, ora na força harmônica das palavras cantadas por repentistas, ou ora pelo vale de lágrimas derramadas pelo luar sertanejo, tão vazio de alegria, glória, magia!
Ah, guardiã dos sortilégios e magnos poderes da matéria maior, permita-me singrar o caminho que você sabiamente singrou. Dê-me a coragem necessária para poder chegar ao mesmo patamar em que você chegou. Dê-me o ânimo adequado para que eu vença o medo e transcenda ás débeis barreiras do fantasma do hermetismo, o qual aprisiona meus filosóficos pensamentos oníricos. Deixe-me, também, descerrar a arca das sutilezas e sentir o êxtase de ter decifrado o rosto verdadeiro da indecifrável substância perfeita. Deixe-me ver o lídimo veio dos orvalhos que caem sobre os coitados e, ainda sim, impávidos filhos do sofrimento: sim, falo destes miserandos corpos celestes que viajam a esmo pelo sideral espaço do desconhecimento; que vagueiam pelas Terras mais férteis em busca de melhorar seu viver precário. Sim, falo daqueles aprisionados no limbo do tempo, onde, enclausurados, não viram que a passagem dinâmica do mesmo fez transformar o moderno Nilo da prosperidade em Mar-Morto de opacos astros primários da utilidade. De quem eu falo? Falo dos infelizes que abandonam suas pradarias para se perder na poeira dos oasis que encobrem os desertos de horizontes das selvas de pedra que são as grandes cidades cosmopolitas. De quem eu falo? Falo daqueles que em vez de luz recebem gélidas rajadas de ocaso por parte de um sol elitista, implacavelmente apenunbrante, desigualitário! De quem eu falo? Falo de mim, de ti, dele, daquela, daquele, de vós, de nós, de vários! Na verdade, são tantos de quem eu falo, a quem dirijo a minha voz: uma voz tão presa no mais nefando dos vácuos, a impotência feroz. Sim, esta dor, que se irradia pelo meu corpo, langorosa, ligeira, ferina, mentecapta, sádica, maldita, egoísta, daninha, Atroz.
jessé barbosa de oliveira
barbosia@zipmail.com.br
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TAL QUAL O VENTO
TAL QUAL O VENTO
Na minha puerícia desinxabida, A deficiência física levara-me ao Templo do Saber: Dos oito aos treze anos, mesmo progredindo, queria esquecer; Depois de uma breve pausa, empreendi uma missão surda, Pseudo-Profunda]
Do alto da soberba em mim incursamente imunda, Ingressara noutro ecossistema, só que de diversidade jucunda: Inicialmente encontrei abrigo no gáudio da aleivosia e intolerância; Contudo, dos boreais do sofrer, pulularam no âmago meu Humildade e Coerência]
Viera um truão á prudência contrito: Fiel ao pragmatismo da nova gama idealística, Teve os olhos fitos. Pugnou finalmente por ideais que nele jaziam escondidos.
Doravante dispenso palavras programadas Que me lembrem submisso doutrinamento: Não sou mais automatismo, Vivo agora como o vento!
Jessé barbosa de oliveira
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terça, 15 janeiro, 2008
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NILO NORDESTINO
NILO NORDESTINO
Água límpida, límpida, límpida, límpida, límpida... Água assoreada, ada, ada, ada, ada, ada, ada... Sobre o curso de um fluido rico outrora; E pobre agora, Vejo: Vejo navegar um barco sob a direção de seu navegador Sereno.
Pescador lança a isca para a pesca: Pescador quando recolhe o anzol, Quase nada ele tem, pega. Ah, nas águas de sua lembrança, O homem viaja num lugre-cardume de fartura, Profusão, Sustança!
Na nascente mineira: Exuberância, enlevo; Tropegar norteia os retirantes Nos sertanejos âmbitos da seca, Ainda que no Vale dos Privilegiados O desvio agradeça á Parreira. Desvio sagrado que, grelando, Faz prosperar a colheita.
Ó facínoras legais, emires cretinos... Ó homens vilões, Não basta meu congênito mal? Espoliais-me com contumazes progressos infrenes? Não vedes que se expiro, Vossos hermanos sertanejos Fenecem comigo, SÃO FRANCISCO?!
Jessé barbosa de oliveira

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OTROS OJOS
OTROS OJOS
Corpos primários, recônditos na minha neblina do olvido, Guiem-me. Guiem-me até a porta onde ela, Opaca madeira morta, Reside.
Mostrem-me a reflexão da luz ---- que incidida ---- Revela. Revela a vivacidade De uma visão, desde então, Imota, Cega!
Ella ontem: Jovem Jóia Turmalina; Antes, antes mesmo de Turmalina, Era Esmeralda. Esmeralda, Verde, De um verde que deveras fascina, açaima, Cintila. E que, num tempo tão recente, Ainda intensamente em minha mente refulgia.
Porém, hoje, o lago de inebriamento e enlevo Evolou-se: volatilizando-se sua rainha. Rainha do meu lago. Lago-Pensamento Onde era Ondina. Ondina que se obliterou: Caiu-me no esquecimento da cerebral retina.
Mas, assim, subitamente, Uma palavra, o empuxo da recordação: Recordação que a emergiu: Emergiu como uma saudade morna, Que se sente e se evapora. Saudade que se sente Quando alguém, Há muito, partiu. Ah, foi-se embora. JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA
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THE WHITE RIVER

THE WHITE RIVER
A imensidão sobre as nuvens me encanta: encanta ao me fazer crer na existência. Existência da sua face. Face em forma de linear centelha. Centelha intangivelmente a percorrer a infinitude de seu corpo. Corpo que chamam de céu azul. Como o azul da Poesia das mais suaves Flores, Nomes, Doces amores nascidos da fátua pedra amarga dos meus fiéis, eternos Votos-de-Eunuco]
Não, mas não é esse o motivo de eu olhar pra ele, o céu. Olhá-lo fixamente. Na verdade, quando assim o faço, é porque me brota uma esperança de que subitamente possa vê-la. Ver aquela suposta faísca invisível, que deitadamente reta, dizem, o seu próprio corpo atravessa.
Sim, vejo-a então. Fico á procura de um caderno e uma caneta para fotografar no papel a imagem. A imagem de sua essência! E, ao fazê-lo, eu descubro. Descubro o verdadeiro nome. O nome da centelha. Seu nome é horizonte: linha tênue que tacitamente rasga o ar, as estrelas, o próprio céu... sem, tampouco, ainda que levemente, o tocar.
Porque esse tanger não se porta como o tanger tátil. Não é o tanger tátil ou o corporal. Ele não possibilita o sentir da massa a preencher a mão, o corpo. Não, ele não faz com que sintamos a sua pressão... Não nos obriga a ceder espaço a ele. Não, o tanger do qual eu falo, não age assim. O tanger do qual eu falo, quer transmitir uma mensagem, quase em extinção, ao mundo. Uma mensagem de esperança áqueles socialmente moribundos. Que sigam. Sigam a trilha da universalização do amor. Do amor, hoje em dia, muito [Muito em falta... em falta nesta Selva de Pedra. Neste sol nascer quadrado, onde, jaz, a cada dia mais definhante, a senhora da igualdade de direitos... das chances. Da Liberdade!
Do ir e vir interminável!
Desse modo, sigo: persigo, com a caneta, depois, com o lápis, esta linha. Assim como quando estamos a correr atrás duma arraia furtiva. Como quando nós nos encontramos na idade da picula, Da estripulia] Como quando, sofregamente, corremos atrás de uma garota tirada: tirada á burguesa menina. Como quando entramos errônea e pressurosamente numa congosta escondida. Como quando, inexplicavelmente, corremos á caça de uma pessoa com a qual nunca topamos. Sim, como quando corremos atrás do infinito horizonte para lográ-lo, [Para dele perto chegar. Não... realmente sem o podermos jamais.
Porém, a imagem. A sua essência! Capto-o em tudo. Em toda a sua extensão eu o capto... Usando somente o quê? A percepção. Com efeito, ela mesma. Sim, ela: a se materializar na ponta de minha caneta.
Então apreendo a luz: apreendo a face: apreendo a linha! Apreendo, enfim, o horizonte de mim acima:
Esse ignoto caminho sempre a perseguir. Essa fonte de incertezas, á qual só a certeza da sequidão sabe o que está por vir. Esse magma que arde, persegue e queima, me dizendo: prossiga. Ajude os outros a prosseguir! Este horizonte é a centelha. É a luz da esperança. É uma força ígnea. É mais uma supernova. É aurora chegando para anunciar o começo duma nova manhã. Um novo dia A certeza do refrigerante e contínuo renascer da vida!
JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA
JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA
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A CROMÁTICA DA DOR
A CROMÁTICA DA DOR
1
A cor do som da apatia faz doer as vistas de tanto a verem. Verem-na fluir e refluir como imagem na mente de um homem.
2
A cor da fome faz doer as vistas de tanto a verem. Verem-na fluir e refluir como imagem na mente de um homem.
3
A cor do oásis da fome faz doer as vistas de tanto a verem. Verem-na fluir e refluir como imagem na mente de um homem.
4
A cor da intemperança e da hipocrisia faz doer as vistas de tanto a verem. Verem-na fluir e refluir como imagem na mente de um homem.
5
A cromática da dor a todo momento assoma para que ele enxergue na agora pouca distância entre sultões e párias a verdadeira nuança da caliginosa miséria, transformada nos lençóis luminosos do repasto diário Da prolífera bonança eterna!
6
Sim, todas estas cores são vistas por este homem, o qual não anda e nem tem voz ativa; não porque não bipedie. Mas, porque, só, não pode fazer nada. Contudo, forjado em têmpera de teimosia, nas linhas de um caderno ou em linhas cibernéticas: insiste, grita! Segue o difícil e vão itinerário do brado da poesia...
7
A visão da cromática da dor incessantemente o consome. O consome por testemunhar o dantesco ressoar petrificante do individualismo: por isso fica triste. Triste, porque, sozinho, não fita, no horizonte do caminho, a Esperança. O que vê? Vê a adiaforia. Vê o mutismo, Vê o passamento do anseio por Liberdade. Enfim, vê o falecer da dignidade, sentimento augusto, encontrado na Revolta que se deve ter ante a arte do injustiçar e do oprimir, na verdade!
JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA
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O ÊXTASE DA DOR IMPOSTA POR UM FANTASMA
O ÊXTASE DA DOR IMPOSTA POR UM FANTASMA
Posso vê-lo, insidioso. Não, não adianta se ocultar atrás do rotundo conjunto De nuvens neutralizadoras. Não, tal manobra, a mim, É assaz notória; e, no entanto, tão oclusa na alameda Do esquecimento do pretérito mais-que-perfeito da alienada Memória do leprosamente oprimido mundo.
Talvez seja por decorrência desta diplomacia de crocodilo que, patrocinando o digladiamento de raivosos sobreviventes de indeléveis tirânicos extermínios, quem sabe, consiga extrair do sangue derramado no solo das funestas batalhas os metais auríferos que lhe fazem o maior titã dum cosmo onde o ser individual se sobrepõe a tudo, até mesmo ao universal instinto coletivo, o qual nós, ainda que tênue e inconscientemente, venhamos cultivando há tempos.
E como gosta de saborear o sangue alheio ou o seu mesmo. E como sente prazer em se afogar no mar de um sadomasoquismo Verdadeiro. E como seu sorriso aflora vivaz quando, da emersão da tragédia, O palato degusta o olor do tesouro a ele benfazejo. E como seu sorriso aflora ledo quando, da emersão da tragédia, Vislumbra um oceano sem fim de porções do vil metal Dardejante E altaneiro] E como gosta de pensar que, da exposição de vísceras, brota uma Paisagem magnífica. E como gosta de pensar que, da corrosão plena, rutila e viceja A mais pura forma do que seja o êxtase da beleza...
JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA
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NOVA LUA-NOVA DE DESTERRO
NOVA LUA-NOVA DE DESTERRO
Eu sei, minha gente, o vagalhão da diáspora se impõe inexorável ante vós, novamente.
Não, eu sei, agora não é porque sejais uma criança que, incautamente, tenha escolhido o caminho incorreto para se chegar seguramente em casa;
Ou porque sejais despojo do costume dos prêmios humanos aos vencedores de uma guerra sem fim definitivo, a se agravar graças aos nobres sequazes daquele que inclementemente fora clucificado vivo: iconoclastas do culto á crédula casta Natureza e do mais etéreo dos mais etéreos antropocentrismos que habi- tam a face do nosso Planeta.
Ou, ainda, porque tenhais sido arrancados do forte e terno abraço do afago da mais linda flor dentre aquelas escolhidas para serem da Poesia inefáveis sortilégios benfazejos do comum cotidiano da esfera das coisas não anuídas.
Não, eu sei, agora sois obrigados a fugirdes, não para um ditoso rincão do vosso nascedouro colo- nial, mas sim, ás mais ricas partes do globo, afinal.
Não, eu sei, vais lá pra eludirdes que a geriatria transmude aquele viés do mundo em sepulcro. Vais lá para dardes-lhes um dilúvio contínuo de filhos: salvardes os vossos intemperançosos e sicários algozes da auréola malsã que os envolve: da destruição que de vossa vilania se aproxima. Vais lá, pra serdes dos novos senhores idosos nova hoste de velhos cativos, servidores em crisálida metidos.
Eu sei, Eu sei... Eu sei, Eu sei... Eu sei, Eu sei... Eu sei que o trem da História sempre vai e volta: com efeito, impiedosamente, nos detém. JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA
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nóia de preto aleijado
NÓIA DE PRETO ALEIJADO
Estou estafado de ficar confinado aos muros: aos muros de mim mesmo. Queria era poder suplantá-los para chegar até a balsa da divagante consciência e, por sua vez, ao singrar o rio das idéias confusas, triunfar sobre as miríades das sentimentais tormentas materializadas em angustiada solitude, cheia de resignada fleuma: pesarosa, soturna, cativa, profunda, eterna lufada de incertezas.
Na verdade, gostaria, realmente, de que meus pensamentos pudessem transpor os escolhos que são encontrados ao longo da vastidão do mar da memória: pois quem lhes lança uma olhadela não acredita; ao contrário, crê em sua doce e angélica fisionomia. No entanto, mais que bela perfídia: infelizmente, eles se irmanam á água-viva: esta, tão meiga, cândida, inócua, mádida, garrida; arde, fere, lacera, calcina. Oh! como gostaria de achar um caminho que me conduzisse á saída do alcácer de meu ego. Em verdade, como quero que meus pensamentos sobrepujem-lhe, sem medo, a fina, forte e ferina soleira de nocivos sortilégios!
Então, liberto, vagar á procura: á procura d’outros escravos da mesma egocêntrica angústia: os quais, assim como eu, a alimentam com o oceano caudaloso de surreais lirismos de desventuras corriqueiras jazidas em lúgubres e áridas sepulturas de anônima tristeza puritanamente impúdica.
Ah, mais o quão me agradaria, a seguir, de penetrar a matéria de seus cérebros: daí, esquadrinhar-lhes todo o complexo até achar os nichos que portam o vírus, a anomalia do rio-mar-oceano perene da passionalidade excessiva.
Não obstante, gostaria de fazer a prospecção de seu terreno para ver se é possível que se possa criar um antídoto. Antídoto que nos possa curar da chaga que é o câncer do hedonismo: câncer este, o qual, silentemente, nos corroe por dentro: então, apenas, se revelando fatalista, quando a hemorragia irrompe da pele, derramando, no vazio incógnito do ocaso, até a última gota da água que alimenta continuamente os nossos corpos, ali exaustos, os quais, outrora, se achavam, cintilantemente, animados.
Ah! que pena, meu banho de sol termina. Ah, infelizmente, vejo-me encerrar, de novo, na penitenciária da atroz e sensaborosa rotina. Sim, e, assim, confinado na antiga cela da controversão, sinto o vagalhão da vazia brancura me tocar com sua insistente mão de desilusão. Sinto o mais que conhecido gosto da velha melancolia soçobrar o fluxo da manancial de minha reflexão até aí incontida. Ah, como quero poder transpor as fronteiras da prisão do egoísmo para semear em meu solo, quase maninho, o rio da liberdade de consciência, onde germinem flores de pensamentos altruístas. Oh, como quero que os raios do sol do altruísmo incidam sobre as retinas da minha mente de hiena faminta.
JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA
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A ERA DOS OUROPÉIS VERMELHOS
A ERA DOS OUROPÉIS VERMELHOS
Os Tucanos voam tomados pela profundidade de um anseio Os Tucanos voam querendo alcançar o estelar horizonte vermelho Os Tucanos voam encantados com a expansão da astral vacuidade Ruiva Pairando Sobre O Cosmo Inteiro
Os Tucanos voam sob a tutela da têmpera de um sonho Os Tucanos voam desejando transformar tal sonho em realidade Os Tucanos sonham nos ares comutar seu mundo num mundo de Universal Privacidade
Os Tucanos voam sabendo que este sonho sofre de uma limitação Os Tucanos voam conscientes de que, para realizá-lo, devem sujei tá-lo: sujeitá- lo a uma amarga condição Os Tucanos voam sabendo ser preciso apostar na glória da nuança Escarlate Duma Solitária Constelação
Os Tucanos voam a enxergar nesta gama de estrelas sua vitória Os Tucanos voam vislumbrando nela o sumo píncaro da glória Os Tucanos vêem na Solitária Estrela Rubra sua mais querida Venturosa Desventura
JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA
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segunda, 14 janeiro, 2008
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CENTELHA OPACA
CENTELHA OPACA
Bem oculto na contra-luz da companhia, Me entrego ao inútil exercício da prospecção das alheias Existências conjugalmente preenchidas
Antigamente, ao contemplá-las, Acabava sendo alvejado por suaves e nocivas Balas de vazio, que perfuravam, enérgicas, A parede de aço da esperança de ser integrado á auspiciosa Cúpula da fugaz felicidade cotidiana
Ah, eu já perdi a conta de quantas vezes Tentei me desvencilhar dos afagos langorosos desta contra-luz. Tantas e tantas vezes estive a ponto de chegar á soleira da porta, Então, nessas ocasiões, sempre aberta. No entanto, sempre A onipresença do toque desconstrutor da força a estar Vedando a passagem para o libertador caminho, o qual assomava No vislumbre dos meus paraísos oníricos, me toldava lenta e Pungentemente a cor da certeza, banhada no oceano dos raios Emanantes da mais concretamente rutilante estrela
Após tentativas malogradas de escapar do labirinto da opacidade, Sucumbi inteiramente ao poder da contra-luz: Deixei que a minha matéria se aderisse á dela; Aceitei a idéia de que nossos corpos formassem um só corpo; Procurei não nutrir mais a utopia da comunhão da convexidade Com O côncavo] Me dispus ao recolhimento do abrigo do intangível lençol da Conformação. Agora tenho medo de me tresmalhar do aconchego da minha Irônica amada e ser atingido pelos raios da prosaica luz que se Incide profusamente na multidão temerária!
JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA
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O PESCADOR DE SEIXOS
O PESCADOR DE SEIXOS
Na vida, sempre caminhei sem realmente fazê-lo. Vivendo entre a exsudação da alegria e o amargor do sangue escorrido da decepção, que brotando, Subjugava o meu peito em agonia.
Caminhar sem realmente provar o sabor do caminho com os dois pés: daí decorre todos os meus muitos desgostos posteriores. É como se a cada não de namoro, de amizade mais intensa; sobreviesse um sim da misantropia, da tristeza, da solidão ferina, quase indigesta!
Entretanto, como que tomado pelas mãos do auspício, passava a sentir a pulsação do ânimo sempre quando ia ao encontro dos livros, da poesia, do feitiço. Enlevo que vinha á tona ao me chafurdar no universo temático da patologia: a ter contato com as mazelas, desventuras, desilusões e padecimento [Padecimento de um oprimido povo. Uma gente que, mesmo vertendo um oceano de lágrimas dos olhos, desafia a subsistência e segue em frente, a viver, como pode, cada instante do seu dia.
Depreendi o quanto eu estava aprisionado numa masmorra de egocentricidade, egocentricidade, mesquinharia, tola vaidade. Pois os meus problemas representam uma pequena gota inócua caída ante uma tempestade [ Novas e letais tempestades no deserto a ceifar os inocentes filhos do Senhor Islã, chamado, por nós, de Oriente Médio!
Então, assim, num repente de pensamento, descobri poder dialogar com as minhas dificuldades; dialogar com adversidades alheias; dialogar com as infinitas dimensões da filosófica consciência. E, uma vez inserido dentro delas, em seu âmago, colher flores ornadas de olor petrificante de aporia. Banhar-me nas águas petrificantes de aporia. Contemplar o jazer da ignescência solar petrificante de aporia. Pescar os tubarões petrificantes de aporia [Ser o pescador das sensações petrificantes da humana aporia, as quais não se recolhem ao reverberar da noite; Nem tampouco ao despontar da aurora. Porque são imunes ao hermetismo da natural mediocridade. Desse modo, vivem insones]
Então hoje caminho feliz, sem caminhar a bem da verdade. Caminho feliz, sem poder caminhar por saber quem sou de verdade [Sou aquele que pesca a essência daqueles que não podem falar. Daqueles que se furtam em reconhecer a natureza do seu próprio ser: Da sua própria humanidade. Pois é aí que se assenta o não caminhar verdadeiro. Este sim, é aquele de quem devemos ter medo. Afinal, será apenas dessa forma que expugnaremos a tão sonhada liberdade... Sim, plenamente, na verdade... Sim, não havendo mais fantasmas, perversos sonhos. Pesadelos de vertica- lidade!
JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA
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A AURORA DE UM HOMEM
A AURORA DE UM HOMEM
O céu trilha o mesmo horizonte, no entanto, o vento parece rumar para um horizonte híbrido do primeiro.
Ou talvez seja o mesmo estando a assumir uma nova forma; a percorrer outros itinerários
Que o aduzam, finalmente, ao que tanto anda á procura. E assim se entregue ao bel-deleite de si próprio [De sua pessoal ventura!
Se alegre com o bel-prazer emanado do antes tão incognoscivelmente augusto segredo E descubra, desta maneira, a sua face [O seu ser revelado por inteiro!
JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA
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NOTURNOGRAFIA
NOTURNOGRAFIA
Na penumbra do quarto onde durmo, minhas pálpebras pesarosas exaram palavras sobre o suporte da mente.
Escrevem a respeito de um indígena que chegou ao Poder na Terra onde fora o passadouro dum Argentino destemido [Carrasco da pátria na qual o conceito de Liberdade é o mais perfeito do nosso mundo humanístico!
Porém, elas não escrevem somente a respeito deste servo do titânico império all star, camuflado em um herói de um autêntico povo andino; mas também soluçam as chagas causadas pela lembrança [Reminiscência dum cálido e fraternal sorriso... seios... Anseios libertinos!
Completamente imersas em lassidão, as pálpebras largam a caneta a qual serve para exarar o verbo sobre a lauda da reflexão; e, então, cedem ao modorrar dos olhos que não resistem ao galope do expandir no céu da concreta escuridão.
JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA
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MASOQUISMO
MASOQUISMO
Sim, já vislumbra o caminho da queda, Antes mesmo que a sombra atra Acorra a seus pés. Por isso, lança á foguira, Embora fugazmente, sua derme: aliás, como tantas E tantas outras vezes fizera.
Se me recordo bem, Uma das primeiras Fora justamente aquela em que você comutou O ancoradouro amigo na mais irascivelmente tranqüila Face aterradora do carrasco. Fizera-o singrar a ponte marítima que conecta O viés leste do mundo ao nosso viés boreal ( na verdade, erário inato do norte, repousado em plaga setentrional). Sim, pois a Ilha da Liberdade é filha do fluido tapete de tramas pacíficas, que ao sol rutila afinal. Sim, então, você deixou cravar em seu peito espadas e mais Espadas De pólvora, para adentrar ensangüentado na luta e sair como O mais dardejante herói do campo de batalhas.
JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA
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RECENT PAGES OF THE BOOK OF LOST JOY
RECENT PAGES OF THE BOOK OF LOST JOY
A linha que segrega o criador da criatura Já não é mais tão patente a ponto de se ver a plenitude d’alvura. Tampouco bivaga guiada por uma espécie de marcha lenta, Aguda! Envolta em grossos lençóis de bruma e hesitação concisa, Segura]
Não, é justamente o contrário. Cada vez mais ela é talhada á moda do ser antropocêntrico: Sim, sem sombra de dúvida, em muito, lhe transcendendo. Sim: na verdade, cada vez mais, progride a passos largos, Convictos, Assentes, Ligeiros]
Ah, mais o coitado do quase pária não tinha noção Do quão ruim o rural êxodo lhe seria, não: Primazialmente expulso de sua gleba, depois, estafado de apreciar O bucólico horizonte de velhas migalhas, então, indigestas, Foi ser fazedor de selvas de pedra modernas: Lá encontrando distintas migalhas, as quais acesso jamais tivera, Nem mesmo em suas melhores e mais felizes quimeras.
Agora, asfixiado por vagalhões de vazio e sem horizontes, Vaga, errante, sobre o asfalto de estradas de humilhação e Volatilidade: incentivado ou obrigado a trilhá-lo, não importa o Que se exare. A verdade é que novamente perdido: desta vez, não em limbos de Teocracia e feudos espoliativos, mas perdido no labirinto de Barbáries: barbáries da Modernidade, reino dos novos ricos. Sim, até que a flama do masoquismo outra vez se extinga. Que a espera por novas migalhas converta-se, uma vez mais, No mais dantesco magma da ira. Então, nós, aquele pária de velhas eras, sê-lo-emos, novamente, as Impiedosas lavas da conflagração incontinenti a impor o Crepúsculo ao Eden da nova elite: elite que tão vilmente nos faz De escravos do mais ultrajante dos esquifes.
JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA
JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA
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SLAVES OF THE FINAL TWILIGHT
SLAVES OF THE FINAL TWILIGHT
Sim, estou convicto de que esteja vendo a luz da definitiva supernova de nós cada vez mais sensível, mais próximo. E a seguir seu rastro, interstícios edazes, loucos para degustar, desde já, a nossa já tão sucumbida, até putrefada carne.
Porém seu aspecto sereno não revela nenhum traço de fome agu-da. Não, ao contrário. O que parece é que talvez sejamos nós que estejamos a evocá-la, queiramos desesperadamente que ela venha, nos invada e seja bem-vinda, enfim, á nossa generosa casa, apesar de seus muitos dissabores, ainda alegremente altaneira, altiva, galharda.
Pesa-me sobre os ombros do cérebro tal impressão, sobretudo quando contemplo desejos bélicos e dividendos em franca expansão seqüestrarem-nos as mentes, aprisionando-as em calabouços temerários do egoísmo, por sua vez, repousado em nosso magnífico computador congênito: vivente, vívido, submerso em vagalhões de vil-metálica obsessão, vil-metálico vício.
Esta impressão pesa-me sobre os ombros do cérebro, principalmente quando percebo os sonhos de linearidade se esvaírem ao seguir o curso do estuário da sofismáticamente feliz realidade burguesa telefabricada. Sim, esta mesma que diz que a felicidade suprema repousa, impregnada; não na interminável fileira linear das mãos dadas, mas, unicamente, nos alicerces da assimetria hierarquizada.
Sim, sinceramente, sinto a certeza do apagar da existência pesar-me sobre os ombros do cérebro. Sim, sobretudo por ver, perplexo, o cominho no qual estamos trilhando: a via do nosso sol a subtrair-se, a tresmalhar-se do re-banho, a esmaecer-nos drasticamente a luz do corpo. Finalmente a desentegrar-nos a matéria, sem chance de retorno. Sim, sinceramente, vejo o vácuo a nos varrer do mundo. Vejo-o reduzindo-nos a menos que átomos, a menos que poeira, a menos que tudo, a menos que o nada presente, a menos que o nada sequer existente. Enfim, a menos que a lama mais sórdida da subsistência em que, inconscientemente presos, dia a dia, apodrecemos por inteiro. Vejo, então, ele rir vividamente quando constata que não há nenhum outro ser extraordinariamente pensante, além dele, em toda vastidão do universo, então, imerso na refulgência de seus obscuros buracos, corpos opacos, estrelas! Estrelas a sorrir, a se obliterar, a se acender sob o sempre açambarcador espaço enigmático e sôfrego por escapar da sombra de seu evo insuplantável!
Jessé barbosa de oliveira
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UNDER THE PACE OF TIDE WITHOUT JOY
UNDER THE PACE OF TIDE WITHOUT JOY
Sim, uma vez mais, somos arrebatados pelo velho vagalhão Contrário: Como quando éramos eunucos da brisa que sopra contínua em Direção do itinerário Que aponta o sol sempre onipresente, recôndito Nas nuvens da bruma do seu intangível horizonte inexpugnável; Como quando fôramos prisioneiros da penumbra da nacional Simetria que nos imergiu no caldo ácido do purismo Açucênico da ira; Como quando fomos, e, ainda agora, como quando nos achamos A ser jogados ás garras e dentes inexoráveis dos leões da nossa Mais bem erigida sociedade de paradisíacos horizontes que, de Tão altivos, nossas mãos não os pegam e nossos olhos, nem Mesmo a sua silhueta avistam, alcançam, enxergam; Como quando fomos deixados adredemente ao sabor da fúria dos Físicos fenômenos notariamente nefandos, funestos; Como quando agora, desesperados e sem rumo, somos Considerados abominável falange felônica: indignos de Recebermos a sublime luz da poética aurora que ilumina o nosso Generoso mundo de perpétuos camaleões, do inobliterável brilho De nós, diamantes negros, e da torpe egocentricidade da alva Rosa: lúgubre corpo estranhamente primário a emitir luzes que Causam dor e nos aprisionam a pés de cadafalsos encobertos pelo Nevoeiro do medo de serem tocados pelos dedos da sentença de Pandora e da dantesca imagem de um fracassado artista plástico, Imortalizada pela face contemporânea da História da humanidade.
JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA
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FILHO DO CREPÚSCULO
FILHO DO CREPÚSCULO
A
Sigo o itinerário da vida, sabendo ser guiado intimamente até agora pela bruma da desventura por sina. B
Quando embrião da tenra aurora, ao primazial impacto, não do reflexo dos raios emanados da ígnea estrela, que esse fora bálsamo, mas do da daninha luz dos homens, senti calcinar-me o olho da compreensão um dos muitos e inefáveis veios da centelha da atroz razão.
C
Doera-me muito a primeira botada desferida, no entanto, como a maioria das crianças que se fere na perna e sofre um breve processo de cicatrização, a assimilei quase prontamente, retomando a trilha da via temerária e pungente do meu coração. D
Parece haver um magnetismo entre mim e o malogro: uma força que me impele a ir a seu encontro. Tenho relutado muito não querendo ceder á recalcitrante potência que irrevogavelmente quer ao fosso do desespero me arrastar, com veemência, mas agora, que vejo chegar o hausto de minhas têmperas, pondero sobre se há sentido em continuar seguindo o curso das querelas que estou acostumado a travar ao longo da minha existência ...
E
Começo a pensar que a letargia de tudo deveria se abater sobre meu ente egocêntrico e gradativamente me fosse falindo a matéria até a hora do definitivo ocaso na Terra. F
Ah, como gostaria, antes disso, de pegar um trem numa estação alhures que seguisse uma rota de regresso áquele parque bucólico onde morava. Ver as folhas das amendoeiras a se esparramar pelo chão de mata. Colher nicuris ao ver- ter do céu escarlate. Ir á casa da vó Julieta. No casebre que ti- nhamos, jazer na sala e sentir o comichão que me dava o piso cor de cereja. Com meus amigos, Chiquinho e Lucas, por ter me- do de fantasma, me esconder na garagem cimentada sob a égide da trançada esteira. Ah, o quão queria voltar no tempo e reacen- der a perdida chama da ingenuidade verdadeira! H
Infelizmente nada disso é-me mais possível, pois a forma sólida da água onírica que me jaz nas mãos, se liquefaz e me escapa pelos dedos baldios. Impotente, a olho com olhos de fel: olhos cheios de rance- níase da paixão. Olhos insanos de nenhuma emoção. Afinal, vejo um varão misantropo. Um varão transmudado em desgosto. Um varão amargo. Um varão vazio. Menos que um varão, com toda certeza, afirmo!
barbosia@zipmail.com.br jessé barbosa de oliveira
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BAILE CIRCENSE
BAILE CIRCENSE
A esfera em branco rola De pé em pé a esfera em branco rola No prado verde a esfera em branco rola Corre o centro em branco, as laterais que também projetam-se Cada uma sublinhada por uma linha em branco Mas seu fado é parar de rolar no fundo duma rede em branco Sustentada por um quadrado em veio branco Embora as vezes também possa tudo terminar num vazio em Branco
Dualidade sentimental provoca: Alegria em diverso fragor demonstra Tristeza linear escorrendo do espelho d’alma
No entanto enquanto estamos Presos nesse quatrienal campo de sortilégios Parecemos não sentir as dores causadas pela fogueira da perspicaz Quão mais atroz opressão Que a cada dia mais um pouco nos enterra numa cova profunda De insipiência ciosamente cozida em água de engenho e edificada Em solo fértil de malsã sugestão Ah, a esfera em branco rola: Rola o placar que anuncia a nossa glória: Glória que nos proporciona o sarcástico gosto impalatável Da derrota
jessé barbosa de oliveira
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THE DOOR OF MELANCHOLY
THE DOOR OF MELANCHOLY
A porta que se encontrava fechada há um minuto, Agora jaz entreaberta. Novamente sinto o díodo da emoção de mim se esparsar E já vir, a razoável légua, O vulto sequioso do vazio vindo para subjugar-me o espírito E a me soçobrar outra vez a alegria do convívio.
Caralho! Justo agora que me desvencilhava das amarras Da ciência da transitoriedade, você destranca a porta, Livra-a do seu caixão: Por quê? Me diga, por quê, amante do céu de Interstícios.
Ah, entendo! Sim, eu entendo: você quer que eu seja Seu pecúnio exclusivo. Que siga a via dos unitários, Que trespasse a ponte do apodrecimento, ainda que Ocasionalmente seqüestrado pelo manto da companhia, então, Envolto no tornado da sua sombra-guia.
Quer me ver uma estrela esparsa de sua constelação Que, á medida que envelheça, se ofusque. Sim, e mais: á proporção Que fique mais fugidia a sua comunhão com seu ente de perfídia Você quer que celebre o mar de vácuos que norteiam Os passos da minha vida maninha No final, eu sei, estarei de mãos atadamente descerradas: Vendo cair lugubremente Orvalhos de lembrança, que me doerão, sobretudo, Porque certamente não poderei sentir sequer o leve Umedecer da palma. Sim, e a porta? A porta estará Como você gosta: integralmente aberta, escancarada!
jessé barbosa de oliveira
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FALSOS PROFETAS DA RESISTÊNCIA
FALSOS PROFETAS DA RESISTÊNCIA
Não, vós não ides de encontro ao verdugo em pêlo de guardião. Não, porque, se fôsseis, não aceitaríeis do novo mestre dos Sortilégios comer a maçã do esmaecimento. Sim, pois sabeis que Ela vos anula a força necessária para as pugnas Contra os ditos Todo-Poderosos Senhores do Magno cercamento, Onde moramos nós, os prisioneiros da esquizofrenia e curdos Da libertária consciência, que permanece imutável no fito De se pôr á nossa espera, ainda que possamos depreendê-la Tão-somente ao se obliterar a última centelha da suma vela Qual em nós vitaliciamente ardeja. Posto que arda deverasmente enferma: quase mesmo em réstia De fogueira!
Pra meu dissabor, descobri a vossa verdadeira identidade. Sede, na verdade, uma célula de boa aparência, que trazeis Convosco um vírus malsão que infecta as sadias, espalhando A bruma da bile e da ira, que, ao mundo jugando, abiogeniza.
Não, não me tenhais na conta de mais uma presa, um tolo. Não, sei que verdadeiramente sois um pernicioso sapo-camaleão. Sei que pulais de veio em veio consoante a conveniência dos Vossos sopeiros patrões. Sei, em razão disso, revesti-vos da Trama andrajosa e da fala da guerreira legião para liquefazerdes E dirimirdes com a urina a visão da justiça das batalhas empreendidas contra os grãos-mestres da rapina, sobretudo aos Olhos daqueles que crêem, mesmo ainda inconscientes, que um Dia o oceânico magma da igualdade nos afogará plenamente: Sim, o quão eu sei.
Talvez, por isso, consiga discernir o joio do trigo, A crocodilagem e as vítimas que caem na teia Do vosso malfazejo artifício; O bom samaritano camuflando o seu aspecto de teia, Que leva a incauta presa ás garras da aranha, então, ansiando Tão logo pela chegada, se supõe, da sua deliciosa encomenda. Enfim, vós sois tudo isso e muito mais coisas execravelmente Inominadas, as quais dizer não me animo. Porém, a definição que mais a vós se assenta na minha cabeça É a de rei das sanguessugas com certeza. Não compreendeis? --- pois muito bem: Libais avidamente e a pleno gosto Todo o plasma que habita a Dignidade, E, daí em diante, ela deixa de ser Dignidade E passa a apenas a mais um desmilingüido pedaço de carne Á espera do derradeiro abate!
Não, vós não sois vates. Não sois em absoluto, apesar dos trajes, Os filhos de KARL MARX ou a flor posterior do QUILOM- BO DOS PALMARES. Não, não. Sois, em realidade, os fazedores do holocausto: O holocausto do sonho de sermos, apesar do côncavo e do Covexo, A mais açucena expressão da LINEARIDADE entre OS SEXOS.
JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA
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ΩΩ SAUDADE DE PROSEAR
ΩΩ SAUDADE DE PROSEAR
Ás vezes, á noite, me arrebata a lembrança de meus amigos, que como eu, também freqüentam o templo das bíblias --- o paço das confabulações ---- o prostíbulo das xavecarias ---- O lacrado reino edace das mudanças sabinas.
Estando a bordo da nave dos sonhos, me transporto para lá. Vejo carros enfileirados naquela congosta antiga. Fixo os olhos na banca de revistas. Sinto o olor aprazível do caldo de cana. Deixo que as narinas sejam dominadas pela au- rora do ar da puberdade, que paira, reverbera e revitali- za a rua vetusta, quem dera além a cidade!
Subo a rampa com meus pés pneumáticos e estaco um momento na entrada daquele prédio: olho as muradas, o chão, os vigias, as pessoas que nele perpassam. Vou ao setor de empréstimo pegar Dós- toievisk e Cabral de Mello Neto. Quando volto ao li- miar do edifício, oh quem vejo, meus irmãos de ofício, meus análogos partidos, meus caros camaradas.
Então, seguimos a longa estrada de conversas atrasadas: pondo em dia todo um novelo de opiniões, percepções guarda- das, experiências vivenciadas. Ah, a gente rindo, rindo, rindo das armadilhas que se seguem no nosso caminhar contínuo, criadas pelo mor senhor das cartas, principalmente quando o burlamos, ao desvendarmos a finalidade das suas jogadas.
No entanto, uma lufada inesperada e dissaborosa me doma, me afasta, arranca-me do seio amigo. Quando me apercebo, estou de regresso, deitado no catre ao sabor da solidão do íntimo recinto. No dia seguinte, me consolo com o lirismo engajado de Lila Ripoll, única flor maior do Segundo Modernismo.
Sim, ela em suas reminiscências de picardias infantis... Sim, ela em sua melancólica luta por uma linearidade feliz... Sim, ela em seus versos que suscitam nostalgia e coragem me fazem entender, que ainda para desistir, não ser tarde.
E também me apego muito ás lições de Maya: seu estro em enfrentar as tormentas; sua perspicaz valentia ante o cruel inimigo; seu imenso amor á vida. Sim, ela me recorda que a guerra ainda não está vencida, que muitas águas hão de fluir e refluir antes que se dê o último suspiro, aquele da irremediável partida ao desconhecido...
JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA
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THE RETORN
THE RETORN
Lá estava eu: Novamente arremessado, imerso, integrado Áquela vaga compactamente esparsa de gente-rebanho.
Sim, aquela pobre gente forjada na dor da espera. Sim, aquela pobre gente forjada na dor da promessa. Sim, aquela pobre gente plantada na terra improdutiva da desídia. Sim, aquela pobre gente que, sempre diante do padecimento, Andando trôpega e firmemente, Resigna-se]
Quedo a contemplar os idosos: Semblantes que denotam muitas vezes uma longa Quilometragem penosa em que o duro perpasso do tempo, Quando tão logo pudera, lhes ensinou a trilhar O itinerário da sábia primavera do bivagar lento.
Lanço meu olhar para as matrizes filhas d’aurora: Tão tenras e imaturas pra carregar calhais magnos sobre as costas. Ah, coitadas também dessas Pedras Preciosas, porque muitas Percorrerão Estradas onde só encontrarão chagas, chagas, e mais chagas! E as matrizes filhas d’aurora, ao final do caminho, hão de estar Amargas... Amargas... Amaríssimas! Limão, limoeiros, limonadas, azedíssimas!
Eu, então, dentro de tal turbilhão de anseios e desesperos Reprimidos, Sob o esteio da compreensão da tranqüilidade dos meandros-Molas que fazem funcionar seu mecanismo, Me sinto o mais vão dos vãos intelectualismos, Porque sei que um bloco apenas não é capaz de soerguer nem Sequer o mais ínfimo dos ínfimos Edifícios.
Não, Não me restando nada a fazer, Recolho-me á porra da insignificância dos solilóquios inúteis E dos limbos de deserto que são os meus pensamentos. Não, A ação da minha fala e reflexões não causa nenhum impacto, Ao menos, não como a dor da conformação causa. Não, O que devia fazer é ir ao encontro do silêncio E dizer: “O bom impotente filho á casa retorna”!
JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA
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NAVEGANDO NA NEUROSE
NAVEGANDO NA NEUROSE
Na solidão d’alguns nichos de casa, Uma lacuna em mim ponteia. É a gêmea da primeira que me malfazeja.
JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA
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VACUIDADE
VACUIDADE
Sensação dadaística: Nada além do meu corpo Nada além da mente subtraída deste de onde ela faz de vivedouro
JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA
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LUTANDO CONTRA O REFLUXO DA CORRENTEZA
LUTANDO CONTRA O REFLUXO DA CORRENTEZA
Gostaria de soçobrar plenamente a sensatez, Pois ela aprisiona na câmara do pejo O lídimo molde dos meus gestos prudentes, Ordeiros]
Nunca consigo me desgarrar da sombra da pusilanimidade, Ainda que esteja todo envolto Em camadas e mais camadas de lençol de sol a pino, Claridade]
A razão minha envida toda a sua têmpera Para refrear a potência do ímpeto do ferrão, Que quer porque quer romper o campo de força Existente entre ele e aquilo que anseia a sua sofreguidão.
Contudo, a lasciva e curta trama Sobre o corpo não suplanta a minha pseudo heroína, Mais uma vez, aliviado, lamentavelmente, me curvo Á hipócrita moral das humanas relações do dia-a-dia.
JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA
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NUMBER ONE
NUMBER ONE
Sim, é a custa de vidas cuja mão letal das armas afaga Que se edifica um grandicíssimo império. Sim, morbidamente ser o número 1, almejam senhores austeros!
JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA
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SUPERNOVA LÚGUBRE
SUPERNOVA LÚGUBRE
Contemplo o firmamento acima de mim, tentando enxergar um horizonte mesmo que este aja rindo sarcástico ao olhar o meu estado de derrota.
Ou aponte um calibre o qual estoure meus miolos: antes dele, já sem nada. Não importando que o daninho me ofereça apenas o sabor da fugacidade,
Permeada, quando advier o fim, por um olor amargo de plasma cujo livre refluir do fluido me fará conhecer a outra margem do ignoto Rio-Mar-Oceano profundo...
Contemplo o firmamento acima de mim pra ver se vislumbro aquela célebre reta concomitantemente invisível e cintilante, da qual tantas pessoas, com o toque dos olhos, falaram. Nem que ela me enseje o atroz castigo de ser embalado pelo desgosto indizível do definitivo ocaso!
JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

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EL DOLOR MIO
EL DOLOR MIO
O cão e o larápio. A dor é como a mordedura do primeiro: sim, reverberando o estertor do seu lacerar o tempo inteiro. No segundo, intermitente e furtiva, justamente porque de tempos em tempos faz ressoar a lembrança da têmpera da ferida. Sem sombra de dúvidas, esta é a mais pungentemente corrosiva pois foge e não comunica sua vinda! O cão e o gatuno. Tempestade, monção e ciclone: daninhos todos tais fenômenos. Sejam eles na forma da porrada da socapa da brisa... Sejam eles o afago áspero da lhaneza ígnea... Sejam eles a encarnação da faca cortante que é o amargor da decepção com a sua gente querida! O cão e o ladrão. Ouço o bramar do martelo da mordida penetrar fundo nos tímpanos do meu coração. Eu sei ser você, dor minha, o vácuo a esgarçar balsamicamente minha alegria. Eu sei ser você, dor minha, a senhora de cada instante, minuto, hora da minha vivência desinxabida. Eis você, dor minha, a bruma da solidão a me envolver masoquisticamente em sua teia gasosa de fluidos misantrópicos que deitam na dinâmica e erosiva vastidão etérea de todos os enigmáticos dias. Eis como é você, onipresente ausência diária. Eis como é você, macabro e tenro tormento diário. Eis como é a minha agonia, suponho, vitalícia. Eis A DOR MINHA, tsunami de tristeza qual flui e reflui continuamente no esteio das infinitas galáxias de meu anonimato! JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA
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DESESPERO LATENTE
DESESPERO LATENTE
Queria que o mutismo sob forma de manto Me colmeasse o corpo da voz e dos pensamentos Para esgarçar completamente Os horizontes de fitos inalcançáveis que me povoam o ente.
Queria que ele se convertesse em incontáveis rajadas de tornado, E me arrastasse para longe da minha consciência inclemente Á qual me faz almejar incessantemente aquilo Que a mão da realização não pode tocar.
Queria que ele reduzisse a pó A faculdade de me aprisionar á estrada presunçosamente Infinita de sonhar, sonhar sem materializar o que vai na mente.
Ah, que me abata logo o passamento do querer parcial, pleno. Que me corroa a lepra do comodismo os ideais. Salgue-me mortal o sentimento do sepulcro, que não posso mais!
JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA
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MATRIX
MATRIX
Eu sei...quimera Eu sei... sugar a força vital Eu sei... sufuturística metáfora da vida real!
JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA
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ESPELHO
ESPELHO
Do outro lado do projetor hialino Ele vê a si mesmo: uma réplica perfeita e inalienável! As idéias, ah, as idéias! Elas se cobrem de outras vestimentas; Todavia, continuam a mostrar assimetrias quanto á aparência. As idéias, ah, as idéias! Imotos estamos: Como se do outro lado do vítrio plano Houvesse presente em sua essencialidade A réplica perfeita e inalienável Das mesmas idéias banhadas em crueldade!
JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA
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domingo, 13 janeiro, 2008
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SÍLABAS DE ESCOMBROS
SÍLABAS DE ESCOMBROS
Miséria ano após ano anulando-nos: Ria, mira; Séria, mera; P-MISERANDOS!
Indústria que se enriquece ao sol dos filhos da magna carência: Dura, instrua; Esquecer, doer, durma; Lufada de ar frio que a estrela ígnea não esquenta nunca. Fugaz oceano de alegria e rio eterno de tristeza que nos cala: Radiosa face, fome, falta; Esmola-Escola-Anuência-Máquina; Sem-Terra, Sem-Teto, Sem-Aurora, Sem-Nada; MAR-DE-GENTE-TRISTONHA-NO-JARDIM-E-EM-CASA!
Carcomida casta que lavra a seara de Garanhuns: Carmo, caco, cava, cova; Manada que acorda com os galos ao nascer d’aurora. Comida comendo nenhuma coisa que se valha: Que come mesmo é nada!
Glebas, Sáfaras, Estilhaços, Estrados, Pratos, Agros, Labuta; Grilhões, Gritos, Cactos, estertores, ultrajes, loucura; Grilhões, Luares, Sonhos, Fé, Romeiros, Procura; Grilhões, Sertões, Profusa água esconsa, Miraculosa chuva; Grilhões, Sorrisos rurais, Sofreres faciais, Perpétua luta! Sim, é a Seca que molda, marca, mata, enxovalha, flagela, Inunda... Sim, é a Seca que se faz a edaz comensal, a insaciável vampira, A carnívora planta... Sim, é a Seca, é aquela com a qual se lucra... Sim, é a Seca quem fala, quem manda e desmanda... Sim, é a Seca que se quer: Quer que se traduza. Traduza-a em disformes caminhos e Estradas. Traduza-a em disformes frases, orações e Sintaxes. Traduza-a em plenos coloquialismos, línguas Semi-padrões, a forma culta! Finalmente, traduza-a na intradução da tenacidade Destas pessoas que, ao lançar seus olhos ao céu, Sempre vêem um arco-íris dar-lhes em retribuição Uma gargalhada de esperança que semeie aquele Antigo provérbio no ressequido chão e Diga a estes que dias melhores certamente virão.
jessé barbosa de oliveira
jessé barbosa de oliveira jessé barbosa de oliveira jessé barbosa de oliveira

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COMPANHEIRA ESPECTRAL
COMPANHEIRA ESPECTRAL
1
Alguém me segue durante o percurso do caminho Alguém que sob a égide da intangibilidade me acompanha Alguém que agora eu percebo: sempre caminha a meu lado. 2 Alguém que, porquanto não veja, Está sempre ali a repartir as agruras da viagem. Viagem salpicada de escassas alegrias caras E da rotina de vales de lágrimas. 3
Alguém que me faz querer o diálogo Alguém que me faz querer degustar o diálogo Alguém que me faz amar o diálogo Alguém que dialoga comigo calado.
4
Alguém que sempre soube quem era Alguém que sempre soube ser ela Alguém que comigo segue, deixando-me aprisionar em sua cela!
Jessé barbosa de oliveira
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∑ CARTAS SOBRE A MESA
∑ CARTAS SOBRE A MESA
E somos novamamente atraídos para a teia virtual: Sim, os mesmos sortilégios a programar nossas já enfermas mentes. Sim, nós já a revirarmos presa dos seus blefes.
Sim:
De novo a crermos na estória de que no leito da morte estamos repousados Que a letargia nos mandará ao inferno por termos falhado Que iremos sucumbir ante um rato inerme, um navio que facil- mente se deita em naufrágio.
Escute:
A mim, seu sofisma não enreda Conheço cada átomo das mentiras que engedra Eu sei o que quer: ver o circo ardendo em chamas Rir, ao ver o povo em vagalhões de estertor chorar.
Eu sei
Quer consolidar seu reinado, tonar-se sumo soberano Vendo caírem em desgraça As últimas e valentes herdades da cara causa. É, sei que vai ter êxito É, sei que está em seu auge É, sei que é só plenilúnio agora É, eu sei, mas não se incomode Logo, logo avistará no horizonte a cor da sua dama da morte. JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA
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∑ LIMBO DA CONSCIÊNCIA
∑ LIMBO DA CONSCIÊNCIA
A maioria de nós vive temerariamente afluindo, através do pleonasmo dos dias medíocres, sob o signo do guia da alacridade ferina, para as câmaras de gás da rotina.
Não, não depreendemos a centelha da verdade, que se incide em nossas retinas, emanada surpreendentemente dos recifes recônditos na ilusórica miríade das tramas da própria aparência mundana. Não, não depreendemos pois parece haver uma venda a tapar plenamente a visão da nossa consciência. Por isso somos levados programaticamente a crer na fábrica particular, esquizofrênica que é o mundo no qual habijazemos.
Ah, mas como eu gostaria de pensar que finalmente descobrimos a miragem e, então, termos soçobrado totalmente os capciosos efeitos dos muros inexoráveis da in-tan-gi-bi-li-da-de. Mas, repentinamente, acordo e descubro ser só um sonho a materialização da liberdade. Sim, desalentado, quedo novamente em sono profundo: me afogando também em mar magoado.
barbosia@zipmail.com.br
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honricídio
HONRICÍDIO
Há um corpo estirado no chão da sala de nossa casa. Parece não respirar. Parece estar em coma, a perder o sopro da vida. Dá impressão de que seu sangue esteja empreendendo uma rápida díaspora, de que aquela Terra, subitamente, tenha se tornado inóspta, tamanha é a alegria que, na sua fronte morna, fulgurantemente, cora.
Há um corpo estirado no chão da sala de nossa casa. Parece que pede socorro, mas é vão: ninguém o ouve. Estranho que nós não o ouçamos, estamos tão próximos da sala. Estamos em nosso quarto, sobre a nossa cama, a assistir aos programas que passam na televisão. O quarto fica á pouca distância da sala: na verdade, logo após o corredor, o qual, em suma, conecta os dois recantos de nossa tão bela mansarda.
Há um corpo estirado no chão da sala de nossa casa. Porra, será que o volume do televisor está assentado no cume de uma montanha muito elevada? Será que a voz do corpo moribundo trilha uma via muito silente, radicalmente tácita? Ah, por que, por estarmos tão próximos, não conseguimos ouvir a voz que brada a sua prece desesperada?
Há um corpo estirado no chão da sala de nossa casa. Sim, talvez estejam a pilhar sua voz as aves de rapina. Talvez os leões do vil metal, tão logo o tenham abatido, hajam-no esgarçado e devorado a língua. Quem sabe, abutres, gaviões, raposas, hienas e formigas da mesquinharia, cada um com seu quinhão, possam ter comido a sua carniça.
Há um corpo estirado no chão da sala de nossa casa. Sim, nós o vemos, o vemos ao abrirmos a porta da alcova: com ele, há dois homens de paletó e gravata. Eles nos acenam, dizendo que irão ajudá-lo, mas, ao mesmo tempo, fazem descer sobre ele uma chuva de bofetadas que lhe molham cruelmente a cara. Nós, bem, nós achamos graça!
barbosia@zipmail.com.br JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA
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exéquias não sabido
EXÉQUIAS NÃO SABIDO
Quereria amanhecer amanhã: amanhã, bem cedo, se fosse possível, para ver o fluxo da pobre gente pobre bem na sua concepção:
Concepção que ilustra os espectros privados da sobriedade d’alma. Por isso desejaria saber como podem prosseguir circunscritos pela cruel esquizofrenia multifacetária.
Ora gritante: tal a novela das oito; ora intangível: como quando se é cingido pelo assombro do nada-ar em forma de açoite; Ora ambos: quando se encontram diluídos em nossa contemporânea [Contemporânea Sociedade de Pedra, insensível aos afagos ternos e cálidos do mar!
Quereria amanhecer amanhã: amanhecer amanhã, bem tarde, pra não ver o fluxo inercial da sofrida gente que passa... [Sem nem mesmo enxergar o céu. O seu horizonte! E nele, tão sequiosamente a estar berrando, a sua voz querendo dizer a verdade... a verdade contida no bojo do âmago do mundo!
JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA
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CARROS
Os automóveis antigamente corriam palmo a palmo Não se discernia a superioridade entre eles Hoje há um grande abismo no mundo automotivo Hoje há carros que percorrem rodovias do dinamismo Hoje há carros a mercê da marcha lenta Eu faço parte daqueles que estacaram no meio da estrada apenas Vejo os carros da minha vista se diluírem feito chuva passageira
JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA
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OS MASCATES DE CRISTO
OS MASCATES DE CRISTO
Um dia eram judeus cansados a seguir um novo vate-via Um dia eram o Messias crucificado a ressuscitar no sétimo dia Um dia eram crentes sequazes almas em galeras metidas
Um dia eram gente humilde arrebatada Um dia eram um centurião e um pescador enleados em velhacaria Um dia eram o ícone maior de um estadão do Império em ruína
Um dia eram a maior Senhora das Terras Boreais que havia Um dia eram a dona da sapiência e da concugiscência morigeira Um dia eram então a prosopopéia da dicotomia Um dia eram a ganância elegida como redenção divina
Hoje são o eco a exortar a salvação, evocando o dízimo Hoje são o eco a reverberar, dizendo que deus exige o dízimo Hoje são o eco de deus a expurgar o diabo com a força do dízimo Hoje, sim, a salvação está no mundano eco dos mascates de deus, Cristo
JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA
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