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domingo, 07 fevereiro, 2010
Estado crônico

Crônicas selecionadas para algumas emoções : emoção e poesia por todos os poros.

                                                                                                  Por Rogério Salgado*

 

 Contar o cotidiano do ser humano de forma simples, como se estivesse nos espiando da janela é coisa para poucos. Só os grandes cronistas conseguem esse feito: escrever com tanta naturalidade, como quem estivesse nos contando um caso. Assim o escritor Jeferson de Andrade se revela em Crônicas selecionadas para algumas emoções (Editora Pági na Aberta): um narrador simples do cotidiano de cada ser humano leitor, que há de se refletir em cada página desse livro.

Composto por 42 crônicas publicadas anteriormente no jornal Folha do Padre Eustáquio , o livro revela antes de tudo, um ser humano que vive suas próprias emoções a flor da pele, que chora e ri nas suas próprias situações humanas. Já na primeira crônica o autor nos revela a amizade e admiração por uma pessoa que muito marcou sua vida, falando de amizade. Ao longo de suas 104 páginas, o leitor sente-se envolvido com as histórias reais do autor, vivenciando como numa tela de cinema, nosso próprio cotidiano. Crônicas como “A morte não espera”, “Jurema: vida e morte dignas” e “90 anos de Dona Irene”, emocionam pela sutileza de emoção entranhadas nas palavras escritas pelo autor. No todo, o livro transpira emoção e poesia em cada página, levando o leitor (mesmo aquele mais embrutecido) a se emocionar.

Jeferson de Andrade é mineiro de Paraguaçu/MG. Veio para Belo Horizonte e saiu para residir quinze anos no Rio de Janeiro e quatro em São Paulo. Retornou para Belo Horizonte em 1996. Como escritor, estreou através de revistas literárias no início da década de 70, publicando contos. É o autor de Anna de Assis - história de um trágico amor , depoimento de Judith Ribeiro de Assis, a respeito de sua mãe, Anna, e o pai, Dilermando de Assis, que matou o escritor Euclides da Cunha em 1909. O livro foi best-seller e, adaptado à televisão pela TV Globo, virou a minissérie Desejo . Com a colaboração do jornalista Joel Silveira, escreveu Um jornal assassinado - a última batalha do Correio da Manhã , contando a história completa do jornal carioca fechado pela ditadura militar da década de 60 e 70. Foi um dos organizadores do Manifesto dos Intelectuais contra a censura, em 1977, e fez parte da comitiva que esteve em Brasília para a entrega do documento ao ministro da Justiça da época. Como editor, lançou publicações mimeografadas em Minas Gerais , com destaque para as Edições Marginais No Rio, foi editor de livros da Codecri, a editora do jornal Pasquim, em sua fase inicial. Passou para a Record em 1979, exercendo de junho de 1984 a dezembro de 1986 a função de editor de autores brasileiros. De 1997 a 1999, escreveu crítica literária e fez reportagens culturais para o jornal Estado de Minas. É o editor e o proprietário do jornal de bairro Folha do Padre Eustáquio com circulação mensal  na região noroeste de Belo Horizonte.

Jeferson de Andrade é antes de ser um escritor profissional, um ser humano e tem consciência disso (o que muitos ainda não tem), por isso  Crônicas selecionadas para algumas emoções apesar de ser um livro de prosa, exala poesia por todos os poros e precisa ser lido, principalmente por quem perdeu aquela emoção que tinha, com a luta cotidiana da sobrevivência. Com certeza, recomendo.

Contatos com o autor: (31) 3411.8303 ou pelo e-mail:

jefersondeandrade@ig.com.br

 

 

                                                                                                                              *Poeta e escritor

 

 

 



postado por Lecy Pereira Sousa as 11:14:53  0 comentários
quinta, 04 fevereiro, 2010
Saiu a 2ª edição do Projeto Pão e Poesia

Pão e Poesia: lançamento da 2ª edição

acontece no Verão Arte Contemporânea  


 

Impressos em embalagens para pão, a iniciativa literária traz poemas de Adriana Versiani, Alice Ruíz, Arnaldo Antunes, José Ouverney, Marcelo Dolabela, Paulo Franchetti, Paulo Urban, Sebastião Nunes e Wilmar Silva.  
 

      No próximo dia 10 de fevereiro (quarta-feira), de 10h às 12h, no Teatro João Ceschiatti, em Belo Horizonte, acontecerá o lançamento da segunda edição do “Pão e Poesia – em qualquer esquina, em qualquer padaria”. A iniciativa literária se apropria da embalagem utilizada por padarias para divulgar a poesia e obras de artistas plásticos ao público. Ao unir o útil ao agradável, o projeto associa a necessidade de atender a fome de pão dos consumidores ao prazer destes em poderem saciar a “fome de beleza”, a partir do alimento poético. Afinal, como bem diz a canção do grupo Titãs, "a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte". No embalo do pão, poesia. E vice-versa.

      Intitulado Verão Poetas: Ilimites ao Léu, o evento integra o Verão Arte Contemporânea 2010, que incluiu, pela primeira vez, a Literatura em sua programação. Na data, o público poderá participar de um bate-papo com os poetas Diovvani Mendonça – idealizador do projeto(foto acima) -, Dioli, Fabrício Marques, Leonardo de Magalhaes e Luiz Edmundo Alves. O encontro terá como mediador o jornalista, poeta e doutorando em Literatura Brasileira pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Marcos Fabrício.

      Vindos de vários estados brasileiros, e de Portugal, foram inscritos 1200 poemas nas categorias Haicai, Trova, Soneto e Verso Livre. Gostaria de apertar a mão de cada um dos participantes. Não tive, ainda, o prazer de conhecer a maioria dos escritores e seria muito bom entregar a eles, pessoalmente, as embalagens com suas respectivas obras”, finaliza Diovvani. Para marcar o lançamento, os livros e CD’s vendidos durante os três dias do Verão Poesia serão embrulhados com as embalagens.

      Os saquinhos de papel trazem obras de artistas plásticos e de poetas, como: Adriana Versiani; Alice Ruiz; Arnaldo Antunes; Fabrício Marques; José Ouverney; Marcos Fabrício; Marcelo Dolabela; Paulo Franchetti; Paulo Urban; Sebastião Nunes e Wilmar Silva, entre outros (ver relação abaixo) . Soma-se aos trabalhos dos 32 poetas/artistas plásticos convidados e homenageados, 108 textos selecionados por meio de inscrição via internet. Os desenhos usados como marca d’água nos versos das embalagens são da artista plástica Iara Abreu.

      Em sintonia com as causas ambientais, as 120 mil embalagens foram impressas no conceito Carbo-Neutro, neutralizando assim as possíveis emissões de gases de efeito estufa (GEE). As mesmas serão doadas, preferencialmente, às padarias das periferias da Capital e das cidades da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH).

      Realizado em parceria com o Instituto Aprender Profissionalizar (ONG), o projeto foi viabilizado pelo Ministério da Cultura (MINC) após ser o grande vencedor, na categoria local/estadual, do 1º Prêmio Pontos de Mídia Livre do Programa Cultura Viva do referido órgão.   

 

Poetas homenageados: José Ouverney, Paulo Franchetti, Paulo Urban e Sebastião Nunes.  

Artistas plásticos homeageados : Eduardo Vilela, Gilberto de Abreu, Guido Boletti e Jair Leal.  

Poetas convidados: Adriana Versiani; Alan Rodrigues de Carvalho; Alberto Murata;  Alice Ruiz; Arnaldo Antunes; Clevane Pessoa; Chris Herrmann; Conceição Parreiras Abritta; , Christiano Sotero; José Fabiano;  Fabrício Marques; Gustavo Felicíssimo; Leonardo de Magalhaes; Luiz Carlos Abritta; Marcelo Dolabela; Marcos Fabrício; Ronaldo Werneck; Maria Lúcia de Godoy Pereira; Oswaldo Soares da Cunha;Tânia Diniz; Teruko Oda;Thereza da Costa Val e Wilmar Silva.  

Somam-se nesta edição, 108 textos selecionados por meio de inscrição via internet.  

Serviço:

Data: 10 de fevereiro 
Horário: 10h às 12h 
Local: Teatro João Ceschiatti - Palácio das Artes

Endereço: Avenida Afonso Pena, nº 1.537, Centro - Belo Horizonte

Ingresso: R$ 2,00 (inteira) e R$ 1,00 (meia)


 

Informações :

3Caravelas - Assessoria de Imprensa

Jornalista Helenna Dias – MTB 11.912/MG

Contato: (31) 9972-0233




postado por Lecy Pereira Sousa as 05:49:38  0 comentários
sábado, 23 janeiro, 2010
Espiral é livro minimal

Em Espiral de Luiz Otávio Oliani, o mais será sempre menos  


 

                                           Por Rogério Salgado*  


 

Vivemos numa época de correrias, onde seres humanos não encontram tempo para ler. Por isso o melhor da modernidade poética é enxugar poemas, ou seja,  mais será  sempre menos.

Em Espiral (Editora da Palavra) Luiz Otávio Oliani usa e abusa do minimalismo. Sua poesia é restrita a poucas palavras e muitas reflexões. Vejamos: “quando eu me for/ficarão as palavras/- aprendizado em surdina/no fundo do peito/dos ancestrais/entre lírios e versos/lição guardada:/engenho fincado à terra” . Sua poesia fala com a consciência dos sábios quando diz: “não serei o poeta do passado/embora dele me alimente/canto o presente/que Drummond não vê/nada de serafins/cartas de suicida/- os homens aterraram/a palavra amor/num canteiro de obras/as mãos desunidas/traduzem:os espinhos/inda sufocam as flores” . Também há a filosofia dos grandes poetas: “inútil viver/o que será pó/o tempo é madeira batida/a alimentar cupins” . numa interligação poética, responde a um antigo poema de Patrícia Blower, afirmando: amar, verbo transitivo?/amar é verbo de ligação/entre dois sujeitos”.

Luiz Otávio Oliani cursou Letras e Direito. Consta em mais de trinta antologias de literatura. Participação intensa em eventos literários, jornais, revistas do País e do exterior. Recebeu mais de 50 prêmios. Publicou em 2007 Fora de órbita (Editora da Palavra) com orelhas de Teresa Drummond e prefácio de Igor Fagundes; livro recomendado pelo Jornal de Letras, editoria dos acadêmicos Arnaldo Niskier e Antonio Olinto, em outubro de 2007. Em 2008, teve o poema "Teresa" musicado por Maury Santana no CD Música em Poesia, volume 1. "

Luiz Otávio Oliani é um poeta dos melhores que surgiram neste final de século XX e início de XXI. Escreve com sabedoria e lucidez, dessas que atingem o leitor em cheio, levando-o a pensar e repensar. Por isso Espiral é um livro que merece ser lido por quem gosta de poesia de qualidade. E quem diz: “no dicionário/a palavra vale/o que é/fora dele/cabe ao poeta/o sentido/que a mão lhe dá” e encerra com “(...)/escrevo/porque sou instrumento/da palavra que Deus sopra/em meus ouvidos” merece mais do que respeito: merece admiração.

Contatos com a Editora: helenaortiz22@gmail.com . Contatos com o autor: oliani528@uol.com.br

            *Poeta e jornalista  



postado por Lecy Pereira Sousa as 02:15:58  0 comentários
quinta, 21 janeiro, 2010
Em favor da poesia
POESIA NO PONTO


Pois é. A praxe do poeta mineiro Diovvani Mendonça www.diovmendonca.blogspot.com  é fazer tudo em favor da poesia num mundo cada vez mais arredio.
Partilhando essa ideia o artista plástico italiano Guido Bolleti  http://www.guidoboletti.net/ , dono de um trabalho internacionalmente conhecido abraçou e pintou o Poesia no Ponto.
A proposta do Diovvani é sempre alternar poesias de poetas de qualquer região do Brasil para que pessoas comuns possam ler enquanto esperam o lotação. Tudo é válido para quebrar o senso comum.
Onde começa essa atitude?
RODOVIA LMG, 808 - KM 15 ESMERALDAS - MG   35740-900
 
-É a estrada que leva para Esmeraldas.
-Logo após o ponto final do ônibus Novo Retiro.
-É o primeiro ponto à esquerda.
 -Pronto, você chegou ao Poesia no Ponto
 
Os poemas começam a ser fixados no ponto na segunda quinzena de fevereiro. Toda semana haverá poemas novos a espera dos passageiros. 
Quer saber onde esse ponto existe no mundo? Veja a imagem de satélite:
No blog, algumas imagens de Guido e Diovvani fazendo arte.


 



--
O site gratuito da Academia Contagense de Letras - ACL:

www.academiacontagensedeletras.webs.com

OPA! O futuro está nas artes:
www.opart.org.br







postado por Lecy Pereira Sousa as 10:01:48  0 comentários
quarta, 20 janeiro, 2010
Livro de papel

Sobre “Livro de Papel” (BH, 2009)
da poeta Adriana Versiani dos Anjos
driarroba@hotmail.com


Entre a prosa poética e o poema-em-prosa


Mesmo que ainda não tenhamos uma definição positivista
para o termo “poesia”, temos uma definição quase-positivista
do termo “prosa”. Desde Bakhtin (que os professores
idolatram...) temos mil e umas definições de Prosaico.
(Como se definir demais fosse definir em definitivo!) Prosa
para diferenciar de Poesia, e de “Poema em Prosa”
(imortalizados pelos textos clássicos de Baudelaire,
Rimbaud, Lautréamont, etc) nos momentos de transição
(recriando o Romantismo nas sutilezas do Simbolismo,
em contraponto ao neoclassicismo dos sonetos parnasianos)


No Brasil, lembramos agora de Raul Pompeia (o autor de
“O Ateneu”) com suas “canções sem metro”, onde não há
versos em estrofes, mas também não há propriamente
narrativa, mas um fluxo de confidências líricas. Também
encontramos textos que no Modernismo transitavam na
fronteira entre 'poesia' e 'prosa' (um exemplo clássico é o
“Memórias Sentimentais de João Miramar”(1924), de Oswald
de Andrade) em textos ambíguos, em retalhos de fragmentos,
em formato prosaico, mas em fluxo lírico, pulsando além
das amarras da prosa. (1)


“Amarras da Prosa”? Sim. Visto que a escrita prosaica,
mais racional e formalista, considera algumas normas precisas
(início, meio e fim; argumentação; lógica; síntese e conclusão;
uso de conectivos, conjunções, etc;) mesmo que não acompanhe
as 'amarras' da Poesia (tais como ritmo, versos, silabas métricas,
rimas, aliterações, assonâncias, etc) No mais, a Prosa objetiva
explicar algo, explicitar, narrar, coordenar fatos na descrição,
convencer o interlocutor, influenciar uma conclusão (para
futura concordância), enquanto a Poesia espera atenção e
projeta emoção, sem precisar deter-se em explicações e
argumentações.


A concluir, o que distingue a Poesia não é apenas o formato
(versos, estrofes, métrica, rimas, assonâncias, etc) mas
sobretudo que a Poesia é espanto é ritmo é re-inventar o
olhar gerando novas emoções. O suporte principal da Poesia
é a linguagem, a fala, que pode ser escrita, copiada, impressa,
divulgada. (Ainda que muitos defendam uma 'poesia visual',
à la Concretismo, mas seria mais um exemplo de Artes Plásticas
do que de Poesia - que sabemos surgiu dos cânticos, das elegias,
das baladas, etc)


São questões que pululam em nossa mente quando diante
da obra “Livro de Papel”, nos dois sentidos do termo 'obra':
o objeto livro e o texto. Quase artesanal, em multicores,
ofertando o prazer de ser folheado, manipulado, o objeto já
seduz. Depois, encontramos o texto. Seria Prosa? Seria Poesia?
De fato, um livro difícil de classificar, ainda mais por sua
pluralidade de personas e estilos – até porque é uma 'obra 2 em 1',
contendo “Biografias de Vocês que não Existem” e “Madrágora”.


Biografia de inexistentes


É uma poesia que 'narra' algo, precisa contar uma história, a
equilibrar-se na fronteira entre o lírico e a narrativa, ora no
fluxo poético ora na contenção prosaica. Portanto, essa
'indefinição': é poema em prosa ou conto escrito em versos?
Há uma ausência de versos e estrofes, mas há um ritmo, uma
fluência, que encontramos nos poèmes em prose de Baudelaire
e Rimbaud, nas 'canções sem metro' de Pompeia. (2)


Objeto que fala sem palavras:


O que é que não tem língua e fala, que fala e não tem palavras? O que
é que está guardando além do que está guardado? O que é que nos faz
querer estar com coisas e pessoas? O que é que não me deixa abandonar
essa caixa?


O segredo.


/p.11/


Há realmente um segredo aqui. Antes, um mistério. A cativar o
Leitor para testemunhar confidências de outrem, como bons
voyeurs que somos. Sempre 'dando uma espiadinha' nas
biografias de vizinhos e celebridades. Mas aqui trata-se de
uma biografia de inexistentes – fragmentos de inexistências –
de 'possíveis personas' que somente existem enquanto
'seres-textuais'.


Ou seja, biografias de Ninguéns. Numa poesia que não fala do
existente, mas uma fala poética que inventa a realidade, que
pretende tecer um corpo textual para o inexistente (igualzinho
aos 'contos de fadas'...), mas poesia não é simplesmente 'mentira'
(como muitos dizem que “Literatura é ficção, é mistificação”,
se assim fosse, o Paulo Coelho seria o nosso guru...)


Eu, esquecida delirante, pastora da igreja invisível, tenho andado em
estado alterado de consciência.
Vivo entre papéis, trouxas, retalhos, restos deixados por meu irmão aqui
no quartinho dos fundos onde ele tocava blues.


Sim, eu os percebo. Eles estão comigo.
/p.17/


A voz lírica não sendo única, una e onisciente, é mais uma 'legião'
de personas dispersas, habitando desde o mundo interior até
longínquas paragens do possível (ou do impossível, onde somente
a imaginação pode ir...) Mil imagens de seres oníricos, fadas,
feéricas criaturas feitas de brisas, ou bruxas demasiadamente
siamesas (ou o contrário), ou então, vidas bem prosaicas, cotidianas,
como testemunham as confissões de esposas traídas (que vivem do
que compartilham com o marido), conversas francas entre amigas,
visões místico-ecológicas, os duelos entre os homens e as mulheres
(estas prolixas, estes reticentes – até serem devorados), ou seja,
a pluralidade é a única unanimidade aqui.


mandrágora: poema-veneno


A mandrágora é uma planta cercada de lendas mágicas,
esotéricas, envoltas em poções de amor, venenos, encantamentos,
alucinações... Ou então a abir os olhos da persona para uma
'realidade outra', abrindo as 'portas da percepção', afastando
os veús,


“move o véu e o que há por trás das palavras” /p.79/


Uma coletânea de imagens fortes, rubras, inflamadas, de
palavras em folhas laranja-chama, pois é paixão ardente que
move a Voz lírica, “Como você sabe, sou movida a paixões”, e
assim este leitmotiv leva ao próprio ato da escrita, a vontade de
gritar, desabafar o cataclisma íntimo nos ouvidos de alguém
(ainda bem que inventaram o psicanalista...)


Aconteceu de um dia de ele lamber minha orelha, assim do nada, em público
e foi dramático cheio d'água e saliva e enzima digestiva. Não entenderam.
Tudo gratuito, desnecessário. Talvez não pareça uma passagem importante,
não mereça nem relato, mas senti que dez metros são diferentes de dois
centímetros. Foi um segundo, previ tudo, comecei a adoecer.
/p.53/


Não é tão-somente uma 'voz feminina' – reduzir ao gênero é
diminuir a multiplicidade da fala poética, assim como parcializar
em cor, etnia, classe social, etc – que adoeceu com 'uma língua
no ouvido', e pois sente saudades da mesmíssima 'língua no
ouvido', como a desejar e temer o que deseja, mas a apresentação
da contradição humana – oscilando entre a repressão e a
libertinagem, entre o desejo e a culpa.


Encharcada de suor gelado desmaiei e levantei e fiquei ereta e olhei em volta e
cuspi e aqui estou eu acordando animada, nessa manhã fria de outono,
morrendo de saudade da sua língua em meu ouvido.
/p.57/


Destacam-se os poemas da Ana (Uns dos Muitos Sonhos de Ana,
Telhado Azuis – as cartas de Ana e Girassóis Dourados – a última
morada de Ana) dotados de uma beleza ímpar : levam a 'carga
prosaica' ao ápice na tentativa de fazer desabrochar o 'poema',
mas as contenções da própria prosa (frases longas, conectivos, etc)
diminuem a 'força poética' que precisa ser concentrada (o próprio
Edgar A Poe, autor de The Raven, dizia que 'mesmo o poema longo
é feito de vários poemas curtos') Sendo 'prosa' e não conjunto
de 'poemas', o tom lírico se perde.


Os sonhos de Ana são dignos da atenção psicanalítica, com suas
infindas imagens, relembranças, referências, citações, num
cubismo lírico, que quase 'corporifica' a persona Ana, apenas um
nome a concentrar um ser esfumaçado, feito de linhas escritas
num papel Offset 240 g/m2, color orange.


Se quiséssemos, poderíamos virar pedra.
Não esculturas de sal ou granito como se tivéssemos cometido algum pecado
ou, se sem espelho, olhássemos no fundo da pupíla da bruxa.
Não, era só se quiséssemos.


E eram ágatas de superfície lisa e colorida onde refletia uma nesga de luz.
/p.81/


As cartas de Ana possuem um odor de 'romance epistolar',
daqueles que os Românticos adoravam (quem ainda não leu
“Sofrimentos do Jovem Werther”, “Ligações Perigosas”,
“Frankenstein”, ou “Drácula”? Todos arquitetados na forma
de correspondência...) Nas cartas líricas encontramos várias
vozes femininas, as várias personas de Ana, desmembrada
na comunicação com vários remetentes, as projeções de Ana,
nos mais variados lugares, numa mescla dos desejos turísticos
e das idealizações literárias – ainda que Leningrado não se
chamasse assim em 1807, mas é a São Petersburgo de Pushkin,
Gógol, Dostoiévski, Blok, Bély – em datas díspares, numa
coletânea de possíveis existências, ou (esoteriacamente falando)
vidas passadas.


Vou contar-lhe um segredo:
-peguei esquizofrenia da flor de lírio branco, agora sou dona da minha
dor.
/p.89/


e


Querida, nosso mistério me assombra.


Não se preocupe com os outros, eles não sabem que existimos.
Afinal de contas, somos de papel.
/p.93/


Portanto, daí referir-se a uma 'multidão' de Anas possíveis, cada
uma a retratar uma época, um espírito de época (“Zeitgeist”),
um delírio, um desejo de transmutação alquímica (voltamos ao
esotérico...), para ousar uma superação da condição humana,
confinada ao imperativos prosaicos de uma vida rotineira, quando
exercendo 'funções sociais' a pessoa humana esquece de si-mesma.


Na consciência de ser um corpo, de despertar desejos e acalentar
desejos, sendo um sujeito num mundo de 'objetos' (inclusive as
outras pessoas...), os conflitos do amar e ser amada, mais que um
idílio neoromântico vem gerar uma realidade de entrechoques,
de mal-entendidos, que desloca o ser de si-mesmo (ele precisa
aceitar as 'máscaras'), como evidencia o 'testamento' de Ana:


Anna estou a luz que cega inteira e que fere as retinas possíveis.
Nada preenche tempo e espaço, vácuo, Anna sou o que é dado.
Anna longe de Anna, sonho que se desmancha sobre o telhado.
/p.99/


Mas não é novidade para Ana (ou quem quer que seja a Voz lírica),
pois antes sua mão escrevera sobre o papel da carta, num
lampejo visionário da realidade humana (no e fora do papel),
num grito mudo de fatalidade, o que deveria ser a frase final
desta obra ambígua “Livro de Papel”,“Lu, a tragédia humana
não tem fim”.


dez/09/jan/10


Leonardo de Magalhaens
http://leoleituraescrita.blogspot.com
http://desencontrosgrafados.blogspot.com


notas:


(1)Hoje em dia, temos o romance em 'prosa poética', com imensos fluxos de consciência, como são exemplos “Ulisses”, de J. Joyce, “As Ondas”, de V. Woof, e os contos de Clarice Lispector, mas com narrativas densas, personagens em duelo, como mostram as obras ímpares de Raduan Nassar, os inclassificáveis “Lavoura Arcaica”(1975) e “Um copo de cólera” (1978), com uma prosa-fluxo, transpondo fronteiras líricas e prosaicas.


(2)A prosa poética de Baudelaire e Rimbaud são célebres, estão na mídia. Mas poucos conhecem as 'canções sem metro' do nosso Pompeia (parece que a gente gosta mesmo é de estrangeiros...) Então eis uma pequena amostra.


Vibrações
Comme des longs échos qui de loin se confondent
Dans une ténébreuse et profonde unité,
Vaste comme la nuit et comme la clarté,
Les parfums, les couleurs et les sons se repondent.
C. BAUDELAIRE
Vibrar, viver. Vibra o abismo etéreo à música das esferas; vibra a convulsão do verme, no segredo subterrâneo dos túmulos. Vive a luz, vive o perfume, vive o som, vive a putrefação. Vivem à semelhança os ânimos.
A harpa do sentimento canta no peito, ora o entusiasmo, um hino, ora o adágio oscilante da cisma. A cada nota, uma cor, tal qual nas vibrações da luz. O conjunto é a sinfonia das paixões. Eleva-se a gradação cromática até à suprema intensidade rutilante; baixa à profunda e escura vibração das elegias.
Sonoridade, colorido: eis o sentimento.
Daí o simbolismo popular das cores.



postado por Lecy Pereira Sousa as 04:29:12  0 comentários
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