Suite das Letras
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terça, 07 julho, 2009
A alma concreta

sobre o poema A ALMA DOS BAIRROS (2004)

do escritor Vinicius Fernandes Cardoso

 

 

A Cidade enquanto espaço de Política

 

 

Ao fim das Utopias, com as quedas de muro e cortina

de ferro, com o declínio da Crítica Política,  a Estética

passou a imperar sobre a Ética, sobre a discussão dos

males sociais, voltando a um esquema ‘arte pela arte’

(se é que isso existe...), deixando pouco espaço para

uma crítica, exceto nas sufocadas margens, por jovens

ainda sem consciência dos limites da Cidadania.

 

Aliás, fala-se muito em Cidadania e Cidadão, mas

pouco se esclarece o aspecto da vida em sociedade,

os Direitos e Deveres, coisa que não é disciplina escolar.

Esclarecer por exemplo a importância de ser “Cidadão”,

pois o próprio termo ‘política’ vem da “Polis” grega,

a Cidade-Estado, onde todas as decisões importantes

eram decididas em reuniões de Cidadãos, apenas os

homens com família e rendas, não as mulheres e

escravos. (Com o tempo, e muito sangue derramado, a

Democracia ampliou as esferas de poder) Daí o sábio

Aristóteles dizer que “o homem é um animal político”,

isto é, exerce um poder na “Polis”, a Cidade.

 

Que poder exercemos hoje na nossa “Polis”? Qual é,

aliás, a ‘nossa’ “Polis”? Aqui, no poema de VFC, é a

cidade de Contagem, nas bordas de Belo Horizonte,

mas poderia ser qualquer outra cidade às margens

de metrópole/capital. Um espaço urbano com um

grau de dependência, de falta de identidade, em relação

a cidade mais desenvolvida, política e economicamente.

É o caso de Contagem, espalhada, em identidade.

Grande demais e suburbana, dispersa e provinciana.

 

Tanto que o Partido no poder (qualquer que seja) cria

e recria a Cidade ao bel-prazer: quem ganha as eleições

vai logo re-pintar os espaços públicos, com as cores do

Partido vencedor (ainda mais quando o dono da empresa

de tintas é parente do candidato eleito!)

 

“A política fez uns nomes e feitos e sujou a cidade

nas cores do partido vigente.

 

Resultado visual e não-estético da Politicagem, sem

mais nem menos. (o que mostra que os políticos não

‘acham’ que o povo é idiota, eles têm certeza!) Daí a

indignação do Autor de “A Alma dos Bairros”, um ser

a auto-intitular-se ‘poeta andejo’ ou ‘operário do ócio’,

que percorre as ruas e praças a procurar então uma

identidade, uma ‘alma’ dos bairros, do mesmo modo

que o escritor carioca Paulo Barreto, o “João do Rio” 

vivia à busca da ‘alma das ruas’. E o que o poeta

vai encontrando?

 

Fotos, retratos embaçados, restos de casarões,

imagens políticas, outdoors, templos faraônicos,

religiosos anacrônicos, jovens sem rumo, excesso

de luzes artificiais, tudo de metrópole, mas ao mesmo

tempo, um provincianismo, um retraimento de cidade

do interior, onde a cultura não acompanha o crescer

de fábricas e edifícios, onde o povo não se identifica,

não sente sequer saudade.

 

“A história fala de fazendas e casarões que pouco

inspiram saudades”, além de “títulos honoríficos”,

nomes de ancestrais e fundadores, mas são

“nomes que olhamos com tédio”. Essa triste

indiferença invade os jovens diante das imagens

do passado – não gera identificação. Quem serão

os ilustres desconhecidos? (Quem se lembra que

João César de Oliveira, lembrado no nome da

longa avenida-arterial a ligar os dois corações de

Contagem, foi um mascate, e o pai do nosso JK,

Juscelino Kubitschek?)

 

Essa falta de identificação é notória, mesmo em BH.

Mas em Contagem é até absurda (ainda mais se

compararmos com Betim, Caetés, Sabará, outras

cidades nas beiradas, mas com identidades formadas,

com história própria) a ponto de justificar a busca

do Autor, mais linguística do que geográfica,

“nesta tessitura de luminares e sensações, com

limitada linguagem, o pensamento divaga sobre

Contagem”. Mostrando bem que a Cidade é aqui

re-criada enquanto Entidade Poética, não objeto

de aula e estudos.

 

É justamente esta liberdade poética de ser livre, e

livre observar, a possibilitar a Expressão, o devaneio,

que um Cidadão não se permitiria devido aos recalques

da vida normatizada, das burocracias hodiernas, como

bem apontou Kafka, com seus personagens imersos

em absurdos que não podem entender, apenas pode

vivenciar e sofrer, passivos e desnorteados. Essa

“gente de plástico em série” que vive e anda, mas

escravos da Alienação, da produção em massa de

mercadorias, a busca do “lucro burro”, onde até a

Educação e a Cultura está à venda (quem quer, quem

pode, comprar??) É a Culture Industry (Indústria Cultural)

analisada por Adorno e Horkheimer, em “A Dialética

do Esclarecimento”(Die Dialektik der Aufklärung, 1947),

no capítulo 4,

 

“Os despertos da caverna foram para o guetto,

comercialiaram o guetto”, e “Pujante a indústria da

banalidade, enojam-me os artistas vendidos / Tudo à

venda, nenhum poema”, onde denuncia que até a

rebeldia foi enlatada e comercializada, os artistas se

venderam ao Deus Mercado e se deixaram escravizar

também pelo “lucro burro”, porque o Mercado assim exige!

E onde o espaço de Resistência? “Nossa boca porca,

com ela nos salvamos? resistimos? / Há resistência?

Há ataques-bomba.” O espaço do terrorismo imagético

e explosivo?

 

A banalidade da Arte: pra quê? Fazer festa, gravar

disco, pintar quadros, pra quê? pra vender? Assim,

os artistas entram na ciranda do Capital, não são mais

subversivos, ou marginais, são rapidamente

‘assimilados’, viram mercadoria e geram mercadorias

(camisetas, posters, CDs piratas, revistas para os

adolescentes ‘rebeldes’, etc) movimentando um dito

‘segmento de mercado’ em nome de uma dita

‘pluralidade de escolhas’, desde que o ‘rebelde’ possa

pagar pela ‘rebeldia’.

 

E nessa “leviatânica aldeia” (um trocadilho sombrio

com a “Global Village” (aldeia global) midiática e o

poderoso Leviathan de Hobbes, como uma imagem

monstruosa do poder e suas coerções) nem os nossos

intelectuais escapam, são meros scholars vendidos,

renomeados “acumuladores de informação”, que

recebem salários para defenderem o Mercado,

assim do mesmo modo que funcionários públicos,

policiais, juristas, publicitários, jornalistas, políticos,

autoridades (in)competentes, todos à serviço de

um sistema mercenário que não deixa espaço para

a inovação, a não ser que gere lucro, um “lucro burro”,

a cavar o nosso túmulo.

 

 

Este (A Alma dos Bairros) é um poema que não

sacrifica o Discurso em nome da Estética, nem a

Poética em nome do Panfleto, ou seja, coisa rara

de se ver (e ler) hoje em dia. Vida longa a Escrita

engajada do nosso poeta andejo VFC!

 

 

julho/2009

 

 

por Leonardo de Magalhaens

 

 

http://leoliteratura.zip.net

http://leoleituraescrita.blogspot.com


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