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quinta, 09 março, 2006
Viagem de ônibus

Eu saí de Santa Vitória do Palmar para Rio Grande no direto das seis e meia da manhã. Entrei no ônibus chuleando que ninguém viajasse ao meu lado, era a oportunidade de transformar a dupla de assentos do coletivo numa espécie de mini-cama. Depois era viajar mais folgado do que "aquilo" em bombacha,  viajar tranquilito no más até o destino.

Entrou uma meia dúzia de tauras, um xirú que outro chegou a fazer a menção que ia arriar os pelegos ao meu lado, meneou as cadeira, mas no último momento, por la suerte, conferiam o número do assento e acabavam indo pra outros outros lugares dentro do coletivo. Passado aquele tempo de expectativa, entrou o motorista, fechou a porta e eu respirei mais aliviado, estava com a "cama livre".

Ala maula! Tinha esquecido do entroncamento na saída da cidade. O ônibus era direto, mas fazia uma gentileza para quem morava retirado do centro da cidade, coisa de meia dúzia de quilômetros, no "Povinho", o ônibus parava e, se tivesse, pegava passageiro. Tinha! Adivinha? O xirú veio direto pro meu lado, puxei as pernas pro meu lado, terminando com a minha confortável cama, fazer o quê? Nem sempre a gente consegue.

O cara deu um "buenas" que eu devolvi na hora, e se aboletou no banco. Pela aparência devia estar meio que mal de vida, a roupa batida, com alguns furos e rasgos, e do seu lado vinha um cheiro que não dava pra dizer do que era, mas era bem ruim. Aquela história do antes só, mas como eu disse, tem coisa nessa vida que o índio não escolhe, depende da sorte.

Quando o ônibus venceu metada da jornada, na altura da Quinta, me deu fome, que eu tinha saído cedo e só deu tempo de tomar o mate, que desgastou o que eu não tinha no bucho. O ônibus não parava, era direto, mas eu havia levado um pacote de bolacha vovó-sentada, aquelas macanudas que enche bem. Ofereci, por educação, pra meu companheiro de viagem que não aceitou, ainda bem!

Passou mais uns quilômetros e eu fiquei sabendo o porquê o homem não tinha aceitado. Pegou num alforge um saco feito com jornal. Abriu e dentro havia um monte de ossobucos, já com a graxa endurecida. Me ofereceu o "petisco", eu agradeci a oferta. A partir dali o taura foi comendo o tutano frio daqueles ossos. Enfiava o dedo no buraco dos ossos, retirava o sebo, e enfiava na boca.

Tem dias que a gente não dá sorte mesmo...
Copyright - 2006 - Ronaldo Souza

postado por Tchê as 11:06:10 #
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