O varal, um café e o infinito...
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terça, 10 maio, 2011
CULTURA: “O MATADOR DE REALENGO”


Apresentação no CENTRO CULTURAL VERGUEIRO

Projeto Vinagrete toca Projeto Vinagrete.


O Facebook me pergunta:
-No que você está pensando?
Estou pensando na barbárie carioca. Estou consternado. Sou professor e vivo com aquelas crianças, isso mesmo, iguais aquelas do Rio de Janeiro. Esta semana no intervalo do noturno, numa Escola muito parecida com a da tragédia, só que em São Paulo, ligamos a TV na secretaria e juntos, secretários, professores, funcionários compartilhamos lágrimas e revolta.
A pergunta é: Por quê?
Loucura? Tirando essa possibilidade que cabe as instituições competentes no que diz respeito a um fato isolado vale lembrar algumas coisas que as pessoas no afã do luto acabam desconsiderando.
Falo do inconsciente coletivo da violência que se estabelece no Brasil há muito tempo. Desta vez surge mais um personagem, com outra gênese. Desta vez, não deu pros “caveiras” do BOPE. Não é mesmo, Capitão Nascimento? (super-herói de araque). Desta vez não foram os bandidos, tipo social marcadamente dicotômico ao primeiro exemplo. O lado ruim, o vilão nesse maniqueísmo é construído para romanticamente tornar razoável a limpeza étnica e social dos morros e favelas, constituindo assim esse outro personagem da historinha da vida real criada nas entrelinhas e maquiando o carnaval da corrupção e dos ditames elitistas.
Porém, desta vez a lógica maniqueísta fugiu ao controle dos “bonzinhos pacificadores” que usam a faca na caveira. Desta vez as caveiras furadas foram as das crianças de Realengo.
E eis que nasce a terceira via, um terceiro personagem: “O louco, fundamentalista e matador de criancinhas”.
Era a pimenta de vingança para a historinha da tragédia brasileira. O problema é que essa historinha de personagens bem ao estilo Marvel Comics, não é ficção.
Este “louco” precisa de um antídoto muito mais complexo do que uma polícia competente ou de um tanque de guerra urbano docilmente chamado de “caveirão”. É preciso acabar com a ideologia do crime presente no inconsciente coletivo da sociedade, isto significa mudar degrau por degrau, ideias pequenas sobre pacificação.
Especificamente no Rio de Janeiro, antiga corte opressora, o caso é mais grave. Desde sempre a síndrome da malandragem, o dito mal de Zé carioca, há muito constrói uma persona de que o melhor é o mais malandro (Leia o artigo publicado sobre a estética da malandragem neste memo blog). Além disso, a criminalidade se desenvolve desde a década de 60, 70 e 80 muito bem retratada pelo filme “Cidade de Deus” e na década de 90 e início do século com “Tropa de elite I e II”. O crime tornou-se parte da cultura carioca, tiros, sequestros, guerras entre organizações criminosas estão logo ali no morros cercando a cidade.
A classe média acostumada com esta lógica criou filhos “bolados”, fisiologicamente moldados em academias e treinados nas mais diversas artes marciais que acham “cult” ir ao Castelo das pedras (balada funk carioca) e “descer até o chão” rebolando a vida com músicas “proibidonas” com apologia direta ao crime.
Até onde não deveria. Ídolo do esporte, repito, do esporte, impera em fotos nos jornais portando metralhadora ou fazendo símbolo em alusão à organizações criminosas.
No Brasil, numa das poucas oportunidades ideológicas de paz o resultado foi de derrota. No referendo contra as armas de alguns anos atrás a vitória foi da violência. O Brasil disse “SIM”, nós somo à favor da comercialização das armas.
Arma é um objeto que serve para matar, logo é um objeto que atenta contra a vida. Comercializá-la, significa dizer que somos a favor de que pessoas que não são responsáveis pela segurança da sociedade portem este objeto da morte. Esta é uma postura ideologicamente violenta, é claro que não resolve, que o bandido vai continuar armado, mas o degrau da paz foi alcançado e assim aos poucos mudamos este inconsciente comportamental de violência.
Assim, quem sabe numa sociedade menos violenta, o assassino de Realengo tivesse sofrido menos preconceito na infância, tivesse tido oportunidade de tratamento mental (se é que este o caso), viveria num mundo onde a moral não seria pautada por empresários bem vestidos com bíblias debaixo do braço que se aproveitam da carência existencial dos oprimidos.
Estas doze crianças fazem parte do meu dia-a-dia, estas doze criança infelizmente já estão sendo utilizadas politicamente, mas as lágrimas que derramei por fazer parte desse meio, dessa desmesura que vive a educação no nosso país, não serão em vão. Vou pegar a história destas doze crianças e estampar uma bandeira, um estandarte de luta por um amanhã se não melhor, pelo menos totalmente diferente do que vivemos nessa semana.
§

Lucas Limberti

Texto original da leitura dramática que fiz na abertura do show histórico do Projeto Vinagrete no Centro Cultural Vergueiro (março de 2011).

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postado por 35821 as 09:40:46 # 3 COMENTÁRIOS "estendidos"
segunda, 21 fevereiro, 2011
CUMPLICIDADE: “Adiposidade burguesa”


“Um punhal serviu a janta do novo amanhã”

Tem dias que a vida parece estar em desassossego com a paz. Filme de suspense em que a trama termina antes que ela realmente nos conduza ao que parece, mas não é.

Nada constrói o manto da desatenção ao apego. A cada nova pisada, um caminho neutro, mas também criterioso.

O exercício livre trás a expectativa do além da veste do bispo.

Amo o transcendente, o transeunte o Pablo Picasso com seu traço no espaço quadrado.

Sem querer rimo o próprio pulso do não dito: amo a nuvem de véspera.

Vem! Vem pra cá que aos poucos te conto o resto.

Cuspi na cara do medíocre de sotaque soberbo. Empunhei e apunhalei a fala do poderoso para que no seu sangue conheça seu próprio veneno.

A vermelha mancha de seu descaso é bandeira que sacode aos quatro ventos. A cada apunhalada sinto o gosto do novo amanhã à cavalo.

Um seio á mostra, um martelo enterrado nas costas do sujeito gordo que jantara purê de batatas.

Isso me faz avesso, e assim atravesso o desfiladeiro. §

Lucas Limberti

A seção CUMPLICIDADE refere-se a retratos abstratos e espasmos cerebrais não-noticiáveis do autor que vos fala.

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postado por 35821 as 10:28:13 # 2 COMENTÁRIOS "estendidos"
CUMPLICIDADE: “Chuva, terremoto e calçadas”


“Pasteurização da morte e do cidadão banal”

Relincho azedo o calor dos dias que cada vez são mais ardidos. Claro, também pudera. No passado as calçadas concebiam a metade dos arrotos do mundo.

A cada canto uma nova moradia. A cada dia, um dia a menos pros que se acantam nas corredeiras.

O passo adiante pode ser o mais curto. Não há mais espaço, nem para onde ir. Cada sonho pode ser pago no mínimo em trinta primaveras. Pode não, deve. E cada vez que se espera a próxima florada, o que se tem é inverno. Inferno das caixas onde habitam formas duvidosas que nem se quer se dão conta da conta que se perde.

Outro Silva que nasceu na maternidade da antiga rua do Adeus não quer ser um. Aos poucos a aos muitos o novo se faz igual. Cada manha não pode ser apreciada como tal, pois pouco importa. Tudo é pouco.

O pouco... bom, este é o que resta. §

Lucas Limberti

Foto: boanoticia.com/.../2010/04/enchentes-rio.jpg

A seção CUMPLICIDADE refere-se a retratos abstratos e espasmos cerebrais não-noticiáveis do autor que vos fala.

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postado por 35821 as 10:06:59 # 3 COMENTÁRIOS "estendidos"
quinta, 22 julho, 2010
DIÁRIO DE BORDO: “I Amsterdam”


“Impressões da capital predileta do irmão de Napoleão”

Na brecha da calçada brotam cogumelos coloridos. Nas escadas rolam latas de cerveja. Todas vazias. Um rato cruza a rua desafiando a vida. Desnudando o mistério do medo. O por de trás. Vez ou outra a escuridão dá as caras. Feia. O porteiro tem tempo de ser poeta. A puta adora as segundas-feiras. A igreja dá as costas. Tudo o que cabe em sua cabeça é do tamanho de sua crença. O drops de anis foi substituído por uma pastilha antiácida. A montanha-russa não tem freio e gira em oito deitada. A arrogância germânica vende o corpo didaticamente. Provoca. Arrota o hálito da crise. Senta os lábios no falo gozador. No campo da reflexão ausente e que se propõe ousado. Desafiador. 35 turistas iluminaram-se da luz vermelha, três foram atropelados pelo bonde. Duas inglesas foram para o espaço. Cozinharam os miolos em doses saborosas de bolo de vanilla. Um homem enlouqueceu. Surdo. Surreal sem brincos. Barba ruiva pontilhada. É dia de orgulho e de guerra. Os homens amarelos se vestem de frutífera vitamina C. Emitem intermitentes sinos ciclísticos e grunhidos de liberdade. Esta, cotidianamente pouca.§

Lucas Limberti

Na seção DIÁRIO DE BORDO “O varal, um café e infinito...” coloca o pé na estrada.

Leia também o texto: "Brasília, uma miragem no cerrado"

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postado por 35821 as 10:52:30 # 2 COMENTÁRIOS "estendidos"
quarta, 21 julho, 2010
DIÁRIO DE BORDO: “A Grécia em canção”


Olhos de Athenas

Azul mediterrâneo,
medita, me dita
do antigo ao contemporâneo.

Azul mediterrâneo,
medica, me indica,
contempla, me faz conterrâneo.

Azul, mede o que minto
a mim, mesmo sujeito
regresso ao instinto.

Azul, mede o destino,
a média do índigo olhar
montanhoso e íntimo.

Azul, muda o destino,
traz a tona o tom do olhar,
precioso, preciso.

precioso, preciso.
precioso, eu preciso.

(Feliperas FranÇa / Lucas Limberti)

A Grécia pulsou em nossas vidas de maneira profunda e misteriosa. Mimetizar a emoção em forma de letra de música foi o mínimo que eu e meu parceiro Felipe França, companheiro de viagem, pudemos fazer. Cruzar o mundo para chegar aos primórdios da civilização causou um impacto existencial quase religioso. Ao escrever a canção, inusitadamente, surgiam metáforas religiosas, talvez pela grandiosidade da beleza sagrada do azul, mas também pela presença imaterial dos deuses. O vocabulário desconhecido, os homens e mulheres de narizes pontiagudos e certeiros nos guiaram para a maravilha das águas Mediterrâneas em Santorini e Mykonos. No entanto, o berço da democracia e dos pensamento político em Athenas, também nos ofereceu surpresas ao vivenciarmos o combate campal na praça Omonia entre manifestantes e a polícia local.

Inesquecível e surpreendente!

Afgaristo! §

Na seção DIÁRIO DE BORDO “O varal, um café e infinito...” coloca o pé na estrada.

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postado por 35821 as 08:34:32 # 2 COMENTÁRIOS "estendidos"
quarta, 25 março, 2009
MELP: "Conheça a Revista de Metodologia do Ensino de Português"


Apresentação

“Porque há para todos nós um problema sério...
Este problema é o do medo”.
(Antônio Candido,
Plataforma de uma geração ).


A Revista MELP é uma publicação que reúne artigos elaborados a partir da experiência de pesquisa nos estágios da disciplina Metodologia do Ensino de Língua Portuguesa I e II na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo - USP.

No estágio, o aluno de Letras deve cumprir um período de observação e um período de regência. Naquele ele faz anotações sobre as aulas, sobre os métodos do professor, sobre a relação dentro da sala; já nesta, deve intervir no processo de aprendizagem, assumindo a condição de professor e desenvolvendo atividades com os alunos anteriormente observados.

A revista se coloca então, como um meio de divulgar tais experiências, de modo a contribuir para a reflexão da formação do aluno de Letras e, para a reflexão do processo ensino-aprendizagem, publicizando trabalhos que antes seriam potenciais acumuladores de poeira.

Além destas possibilidades mais nobres, o aluno de graduação tem a oportunidade de publicar um artigo na e sobre a graduação. Experiência que o coloca diante de situações-chave para sua formação: elaboração de texto científico, resgate de reflexões já passadas, exposição de suas idéias, políticas de publicações etc.

Procuramos ver nos textos selecionados (e priorizar na seleção) o que entendemos como sendo o caráter do processo de aprendizagem e, qual postura deva ter o futuro e o atual professor. Sendo assim, é possível encontrar nesta publicação textos que tratam da potencialização de mudanças sociais as quais atravessam o indivíduo numa fase de extrema importância em sua vida: a escola.

Os textos escolhidos têm um movimento similar, ao passo que relatam experiências positivas na escola, procuram propor alternativas às experiências negativas. Nada inovador tal processo, no entanto este óbvio (elementar) muitas vezes nos escapa, ora porque se dilui nas queixas, ora é abafado pelas condições precárias de trabalho e de formação profissional. §

Lucas Luciano Limberti
Rafael Barreto do Prado

(Comitê editorial – 2ª. Ed)

VISITE: 

http://www2.fe.usp.br/~lalec/MELP/arevista.htm

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postado por 35821 as 05:49:32 # 0 COMENTÁRIOS "estendidos"
sexta, 03 outubro, 2008
ASSASSINATO: “Sangue sem juízo, sem carnaval”


Forçosa, chegou até mim e apunhalou-me de surpresa. Enquanto empurrava o aço contra meu ser, me olhou nos olhos. Eram aqueles antigos olhos de janela para o desconhecido. O sofrimento dela ia sumindo à medida que minha respiração soluçante agravava-se com o fim. O toque de sua mão firme nos meus braços era sensual e destrutivo. Senti saudade, senti vontade de morrer.

Todas as histórias que ocupavam a cabeça dos antigos amantes passaram como filme. Um segundo em mil. A faca, os braços e o estômago materialmente representando o infinito daquele momento último.

A calçada preta e branca da Avenida Paulista ganhou novo colorido: Vermelho rubro.

Agachando. De joelhos. Respirei com dificuldade. Sua mão continuava tênue sobre as vísceras. De surpresa. Lenon arrefecido.

Curiosos agruparam. Uns aplaudiram. Outros enganaram.

A sirene rompante formou a sinfonia catártica que emoldurou o fim. O suor frio e o sangue espesso tomaram lugar da antiga praça de paralelepípedos.

Sem resistência a vi partindo na carruagem de seu merecimento com as mãos para trás.

O ar acabou.

Mas, a falta de juízo tornou meu assassinato um reencontro. §

Lucas Limberti

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postado por 35821 as 07:14:11 # 2 COMENTÁRIOS "estendidos"
segunda, 08 setembro, 2008
PRECONCEITO: “Os vários lados de uma mesma moeda”


Falar em preconceito significa olhar para a sociedade como um todo, invertendo as lógicas de pensamentos precipitadas e pensar em soluções efetivas que atuem na base de sua estrutura.

Todas as leis têm seus lados e interpretações. Destinar cotas para negros em universidades e empresas pode ser ato-destrutivo, ou seja, uma vez que é definida uma porcentagem para determina instância considerada alvo de preconceito, ela se torna vulnerável às amarras deste limite. Praticamente isto significa que se uma empresa segue uma lei, hipotética, que destina 20% de suas vaga a negros, azuis, amarelos, enfim, isso delimita um espaço do qual não se pode ultrapassar. Nestas condições significa dizer que 80% das vagas são destinadas ao cidadão branco, sem nenhuma deficiência e formado no exterior. Os 20% são como se voltássemos aos limites da senzala.

Para cada caso o olhar deve ser direcionado com sua especificidade. É óbvio que momentaneamente as leis de cotas em universidades, por exemplo, são aceitáveis até que se restabeleça um equilíbrio social que apague as execrárias leis de escravatura tão presentes nos procedimentos da sociedade que vivemos. Mas, uma geração adiante a cota surgirá como um autopreconceito. Este procedimento deve ter delimitado a exata temporalidade de sua existência.

Pensar em saídas práticas e legislativas, sobretudo em curto prazo pode ser perigoso. Como por exemplo, a nova lei de proibição de algemas caso o preso não resista à prisão. A lei é maravilhosa e leva em consideração os direitos humanos, mas se não analisada com cuidado pode significar um grão de areia verso a uma estrutura de poder estatal que no fundo não vai mudar. A algema moral talvez seja mais cruel.

Quando falamos em soluções para moralizar e evitar abusos da polícia, temos que tomar cuidado com o discurso inocente que pensa que as medidas superficiais vão surtir efeito de mudança. A polícia funciona como um tentáculo do poder do Estado, e em nossa sociedade exerce um papel de repressão e não de proteção. Repito, repressão e não de proteção. Partindo desta premissa, qualquer lei ou solução imediata apenas reformará um estado de coisas que é rígido e arraigado como o preconceito aos negros dito no exemplo anterior.

Em uma reportagem sobre as infrações de trânsito, após a jornalista ter entrevistado vários cidadãos, questionou alguns policiais dirigindo sem cinto em flagrante, sobre este procedimento que feria a legislação do trânsito. E o que mais choca é a resposta do suposto defensor da lei: “Eu não uso cinto porque se eu precisar descer do carro e trocar tiro com vagabundo fica mais fácil”.

Bom, diante de um polícia que troca tiro com vagabundo em pleno trânsito e se nega a cumprir a lei que ela mesma defende fica difícil legislar algo que atue na superfície. Já me falaram em fazer banheiros específicos para homossexuais. Um primeiro pensamento leva a crer que é uma conquista, uma medida contra a homofobia em que os coloca em estado de direito. No entanto, isto nada mais é que excluir do convívio social e negar a condição de ser humano. Seja qual for a sexualidade não muda o gênero, masculino ou feminino.

A última é: a lei de licença maternidade que passará ser executada a partir de 2009, onde o período de afastamento aumentará para seis meses. É a mesma coisa das algemas, enquanto a sociedade não entender que esta é uma lei que legitima a cidadania em seu nível mais nobre, é uma lei que defende nossas crias, nossas crianças, nosso bem-estar, nosso laço afetivo e formador. Mas, se isso não ficar bem claro, sublinhado na cultura e repetido aos quatro cantos teremos um efeito inverso perigoso. Os RH’s vão coibir e estreitar a contratação de mulheres, até aí se queremos lutar contra  preconceito esta deve ser uma bandeira hasteada e tremulante com ventiladores bucais se for o caso. E pense no caso de uma gestante, será obviamente persona non grata em qualquer âmbito da contratação empregatícia.

É preciso negar uma ação imediata e inferir em práticas que promovam a cidadania. Muitas vezes o discurso de cidadania e revolução pela educação é pinchado de retórico e clichê, mas porque os que o proferem não saem do âmbito teórico e muitas vezes reformam um estado de coisas que convém.

O mesmo acontece com determinada camada dita revolucionária e presa às barbas de Che, que defendem a luta armada, mas muitas vezes nem lavam seus lençóis. Pegar em armas talvez seja a solução, mas com a sociedade cada vez mais autoritária e com idéias de falsa liberdade hipnotizam os pobres homens pobres e pasteurizados. Por isso a revolução dever ser reflexiva, a arma do argumento age no cerne do adversário, luta de igual pra igual. A arma e capital perdem somente para a educação, cidadania e arte.

Temos a paciência e procedimento revolucionário? Espero que sim.

Lucas Limberti

Foto: Paul Strand (EUA, 1890-1976), Blind, 1916.

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postado por 35821 as 02:53:57 # 3 COMENTÁRIOS "estendidos"
quarta, 13 agosto, 2008
CARIOCAS: “Era uma vez um pobre povo da gema podre”


“Cariocas são espertos, cariocas nascem bambas, não gostam de sinal fechado”.              

(Adriana Calcanhoto)

Sem fígado para esponjar os dramas da violência coletiva

Admira-me muito o jogo de cintura dos cariocas, a segurança verbal e o positivo ecletismo vertical que criou o samba e bossa-nova. No entanto, sem generalizações, irrita enormemente a mania de querer se dar bem, se safar ilesos de falcatruas e depois contar aos colegas de botequim com ares de superioridade. Uma espécie de “Zé carioca” encarnado num inconsciente coletivo pautado na legislação de Gerson.

Pela manhã ligo noticiário e surge algemado o médico Joaquim Ribeiro Filho também professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).  Seu crime: tráfico de órgãos, no período entre 2003 e 2007, preterindo a lista nacional de transplantes de fígado em Hospital Público.

Parece piada, mas não é. Pois, “contra piadas não há argumentos” (Kafka, O castelo). E o argumento no caso, é um descaso ético de dupla má utilização do recurso público. A ironia continua no nome dado à investigação do Ministério Público Federal (MPF): Operação Fura-Fila. Que, principalmente quem é de São Paulo, deve ligar ao escândalo de desvio de dinheiro da sociedade pelo então prefeito Celso Pitta na construção do VLP (Veículo Leve Sobre Pneus) apelidado

de Fura-Fila: mais uma furada, sem contar que nessa história tem o dedo de Paulo Maluf. Bom mais isso é uma outra história...

Posso estar equivocado quanto minha perseguição aos “malandros” fluminenses, mas no mesmo telejornal surgem notícias de poderes paralelos, violência gratuita dos zoomorfizados jovens pit-boys, milícias que dominam áreas esquecidas pelo Estado e ações de policiais corruptos, este último, salvo exceções, soando lingüisticamente como um pleonasmo.

O bom malandro que acorda cedo, trabalha e chacoalha no trem da Central ficou esquecido nas partituras de Chico Buarque ou então lembrado pelo personagem “Dé”, no filme recém-lançado “Era uma vez...” do diretor Breno Silveira que é constituído imerso na estética da pobreza como a vítima.  O caricato personagem é um honesto trabalhador de quiosque da praia que mesmo morador da favela do Canta Galo luta incessantemente para fugir do determinismo social proposto por Comte, mas perde a guerra. A derrota da honestidade neste caso, mesmo que involuntária, carrega e mantém o estigma do mau malandro que “ignorantemente” é mantido por um círculo vicioso e “marrento” guiado pela elite e classe média, que diga-se de passagem é a que mais se ilude e apanha no limbo existente entre o morro e o asfalto.

Até quando essa elite carioca vai continuar mantendo a pose colonial, esquecendo que os bigodes da capital brasileira ficaram para trás no ano de 1960. A herança deste período incrustado no comportamento dessa sociedade, sobretudo, repito: das elites, cega os olhos para o óbvio. Tão quanto à expressão “cegar o olho”.

O óbvio, meus caros, esta lá, refletido na retina dilatada de todos, cercando e esmagando as areias da praia, enchendo as narinas e pulmões dos que vivem no asfalto.

Os porteiros, faxineiros, motoristas, flanelinhas e todos os empregos que fazem a manutenção da estrutura social que os cariocas da elite se negam a fazer, é um barril de pólvora, é um bafo quente e sonoro que penetra perto. E parece que o homem do asfalto esquece que está cercado por uma cortina de terra alta e dura. Dura no sentido de que lá, o regimento dos homens vai na contramão do proposto pela sociedade civil, a lei é outra. É outra: pá, pá, pá!

E aí meu amigo: rebele-se, mude-se para o nordeste ou...

Salve-se quem puder! §

Lucas Limberti

Foto: Divulgação

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postado por 35821 as 10:42:39 # 5 COMENTÁRIOS "estendidos"
terça, 17 junho, 2008
POESIA: “Do verso ao gerúndio telemarketing”


Caros leitores,

Fico feliz em poder me comunicar com vocês, mas quando mandarem correspondências em minha caixa de correio, por favor, assinem, identifiquem seu eu...

De qualquer maneira, encaro com bons olhos as manifestações poéticas que retratam o cotidiano de um profissional como você. Sim, de ‘Você’ que me escreveu:

Se identifique na próxima, quem sabe não possamos trocar experiências comuns, versos e afetos.

E para você que não me escreveu segue a experiência deste legítimo poeta, deste anônimo que me tocou e fez em palavras uma demonstração verídica do dia-a-dia do poeta:

Lucas Limberti

Ego sum anonimous:

Eu perdi uma porcaria de uma poesia por causa de uma ligação do provedor Terra...

Veramente meu caro, as pessoas não entendem os poetas que lidam intensamente com a discriminação.

Nós trabalhamos com o sopro de Baco ao pé do ouvido, com trago de uva ao canto da boca. Sem aspiração de reconhecimento próximo, apenas a certeza de que as palavras transformam, mudam, não reformam.

Mas, de qualquer forma é como se fossemos ao escritório, engravatados nas cordas da sociedade. Portanto, o que nos diferencia é o verdadeiro estado de vida, é Marte mostrando a verdade que joga vendaval nas furtivas ondas navegáveis, como se fossemos portugueses em busca das índias, das ninfas... De Vênus.

É escolha por poucos entendida.

Miro-me na poesia como liberdade do meu fogo prisioneiro, do sol que raia beijos em sonho no cosmo conhecido.

Mas, se você ainda acreditar que eu estou brincando, um simples telefonema pode jogar minha inspiração na fossa de sua enfermidade social.

E mesmo assim, perdida a idéia inicial, mostro as garras do meu esforço diário em apertar parafusos de palavras que fazem do acaso um causo.

Reclamo-te, mas não inflamo. Faço do distúrbio, poesia em seu correio.

Cante, Chiante... Que saudades da Toscana. §

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postado por 35821 as 09:27:35 # 1 COMENTÁRIOS "estendidos"
segunda, 16 junho, 2008
ESCOLA: “Lembranças do agora”


Dignificar a opção é preciso.

A Escola sempre foi a vida. Aqui e lá, amei, dei meu primeiro beijo, briguei, dei meu primeiro soco no olho, joguei bola, botão, figurinha. Ganhei um concurso de redação, fiz teatro, capoeira e visitei o MST.

Fui do Grêmio Paratodos em que montamos um dossiê que conclui na demissão do corrupto vice-diretor. Organizei campeonatos, excursões, jornais, feiras e protestos.

Estudei Letras, Jornalismo, vivi, convivi e construí o alicerce de minha vida.

Hoje mudei a instância, de discente a docente, mas não ultrapassei o “portal mágico” que separa estes pólos que no fundo deveriam interagir como um só.

Hoje sou o mesmo de ontem, que mais aprende do que ensina e procura fazer da Escola um caldeirão de reflexão, construção do conhecimento e sabedoria.

A Escola é a minha vida. Por isso, resolvi desde sempre nunca mais sair dela. §

Lucas Limberti

Leia também - EDUCAÇÃO: "A dor que deveras sente"

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postado por 35821 as 08:18:46 # 3 COMENTÁRIOS "estendidos"
quinta, 22 maio, 2008
CINEMA: “Indiana vovô frustra expectativas”


Rock o lutador, Rambo e agora Indiana Jones revelam a falência do novo.

Dezenove anos depois de “A última cruzada” a Paramount lança “Indiana Jones e o Reino da Caverna de Cristal”. A expectativa era grande e na estréias desta quarta-feira, 21 de maio, as salas de cinema estavam lotadas para ver as aventuras do famoso professor de chapéu e chicote na mão. Mas não demoraram a esvaziar.

Indiana Jones, vivido pelo ator Harrison Ford está fora de forma e as cenas de ação, me perdoe Spielberg, beiram o bufonismo. Além disso, o filme é explicativo e cansa os telespectadores com um emaranhado de inúmeros fios narrativos que parecem tentar suprir a falta de um bom enredo. Depois das pedras sagradas, arcas e do Santo Graal, desta vez Indy procura caveiras de cristal de incrível poder magnético e de origem extraterrestre, pois é até ET’s aparecem nas mãos dos russos que, para variar, querem destruir o mundo.

A tendência de filmes que retomam os heróis dos anos 80 parece encontrar um público novo em busca de novas aventuras e heróis que contemplem um ideal renovado de futuro que corresponda os anseios e indagações coletivas contemporâneas. O novo mundo já se cansou das histórias onde o bem figura-se nos EUA e o mal nas nações que se opõe ao imperialismo. O “reino da caveira de cristal” se passa em 1957 e levanta a mumificada relação de enfrentamento de Guerra Fria entre americanos e russos.

Sinceramente. Não sei como o filme termina, na metade da película muitos entediados, como eu, abandonaram a aventura que deveria ter se resumida a última (cruzada). §

Lucas Limberti

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Indiana Jones e o Reino da Caverna de Cristal

de Steven Spielberg (EUA, 2008, 122min).

Foto: Divulgação

Leia também - CINEMA: “Imag(in)em Koyaanisqatsi”

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postado por 35821 as 11:16:03 # 2 COMENTÁRIOS "estendidos"
sexta, 25 janeiro, 2008
SÃO PAULO: “Uma crônica de aniversário”*


Não seio o que ela fazia às 23hs daquela terça-feira num ponto de ônibus da avenida Raposo Tavares. Talvez estivesse ali esperando uma condução para casa após alguma daquelas intermináveis festinhas e calouradas da Universidade de São Paulo.

O ponto estava cheio de gente e ela lá com uma cara um tanto quanto ocupada. De repente, estaciona um coletivo apressado e a massa se desfaz. Um a um vão subindo aliviados, a maioria e logo todos.

A cada pessoa que tomava seu destino naquele esperançoso expresso da meia-noite transformava seu rosto ocupado em um receio e ao que de pronto num olhar amedrontado pela repentina solidão que se intensificava com aquela garoa fina e gelada que a escuridão expirava.

Medo. Ela estava notadamente guiada pelo assombro de ficar sozinha naquele canto ermo da esquecida cidadania empinada paulistana.

-Dá o dinheiro! Grita um maninho que na companhia de um comparsa a ameaça com uma suposta faca no moletom.

Ela ficou em pânico, entregou tudo, bolsa, carteira e implorou por sua vida. Nem havia tanto dinheiro em sua carteira e era bem possível que não houvesse uma faca na mão daquele ameaçador distúrbio social.

Como ela parecia prever aquele assalto, seu senso de culpa começou a causar uma espécie de nó na sua concentração. Os bandidos percebendo o suor frio e o aspecto de choque da garota devolveram o dinheiro da condução e pediram calma.

Aquele pedido de calma surgiu como um signo verbal afetivo e misturou-se a embriagues sensacional daquela situação limítrofe.

Os dois elementos já iam se encaminhando para a fuga quando ela grita:

-Hei, vocês podem ficar comigo até o ônibus chegar? Estou com medo, aqui é perigoso! §

Lucas Limberti

*Baseado em fatos reais

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postado por 35821 as 03:20:52 # 5 COMENTÁRIOS "estendidos"
segunda, 26 novembro, 2007
CINEMA E EDUCAÇÃO: “Vermelho como o céu”


"O azul é como o vento no rosto quando andamos de bicicleta"

Após assistir o filme “Vermelho como o céu” cujo personagem principal é um menino italiano cego, resolvi criar uma situação hipotética em que me coloco como um professor que deveria preparar uma aula para ele. Acompanhe o bom ensaio de Miguel Barbieri Jr. para imergir no contexto do enredo do filme e em seguida o planejamento da aula!

O filme segue a fórmula certeira das encantadoras películas italianas que sempre contam com bela fotografia, trilha marcante e um bambino carregado de lirismo.

De vultos e sombras

Miguel Barbieri Jr.

Um ensaio sobre a cegueira no drama Vermelho como o Céu

O prêmio do público de melhor filme estrangeiro na Mostra Internacional do ano passado comprovou a força de Vermelho como o Céu junto às platéias. Inspirado numa edificante história verídica, esse drama italiano traz a fórmula certa do encantamento. Lá estão as boas atuações do elenco infantil, a poética leitura da cegueira e um desfecho capaz de levar os mais sensíveis às lágrimas. A trama tem início em 1970, num vilarejo da Toscana. Mirco (Luca Capriotti), de 10 anos, adora brincar com os amigos e acompanhar o pai nas idas ao cinema. Um acidente muda drasticamente o destino do garoto, após um tiro de rifle atingir seu rosto. O menino passa a enxergar apenas vultos e, por isso, é transferido para um colégio especial em Gênova. Já cego, faz novas amizades, paquera a filha da faxineira da escola e, teimoso, recusa-se a aprender o método Braile para poder ler. Às escondidas, apossa-se de um gravador e sai à procura de sons da natureza a fim de produzir uma radionovela. Foi desse modo que Mirco Mencacci passou a infância. Adulto, tornou-se músico, compositor e um reconhecido editor de som, que trabalhou para os cineastas Marco Tullio Giordana (em O Melhor da Juventude) e Ferzan Ozpetek (A Janela da Frente).

(http://vejasaopaulo.abril.com.br/red/trailers/vermelho_como_o_ceu.html )

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Uma aula para Mirco Balleri.

Analisar o filme em questão é interessante, pois ele retrata e discute a realidade dos métodos empregados para o ensino de crianças especiais, no caso cegas, na Itália da década de 70.

No filme, que é uma história verídica, o menino é um elemento chave da transformação na educação de crianças especiais neste período. Por isso, pensar em uma aula dedicada a ele surge como desafio, especialmente por se tratar de um ensino especializado e muito discutido.

Não cabe aqui tentar propor algo que seja novo e revolucionário, já que o conhecimento prévio das teorias e discussões a respeito destas formas de educação são dados específico e cabíveis de serem discutidos profundamente apenas por profissionais balizados e com tempo de pesquisa na área.

No entanto, o menino como elemento chave desta rearticulação do sistema de ensino permite uma discussão interessante não só no campo da educação especial, mas também como ponto de partida para a reflexão sobre todos os tentáculos da educação.

Partindo da premissa de que o professor em questão não é um especialista em educação de crianças especiais, o viés adotado no planejamento segue um pressuposto que nega a educação sob o ponto de vista tecnicista e engessado.

No filme, as aulas dadas no colégio especial para cegos formavam cidadãos para serem excluídos da sociedade, ou seja, o planejamento das aulas formavam técnicos em serviços mecânicos normalmente manuais e que não exigiam reflexão sob a ação. Por exemplo, a tecelagem de roupas ou conserto de cadeiras.

Uma aula para um cego deve estimular justamente os outros sentidos que ele possue, e que normalmente são mais aguçados e potencialmente trabalhados.

O uso da imaginação pode surtir efeitos inimagináveis. Como em uma passagem do filme em que Mirco explica para o colega como era a cor azul: “O azul é como o vento no rosto quando andamos de bicicleta”

Portanto, propor atividades que estimulem a imaginação deve balizar todo o planejamento. Uma aula interessante pode propor que este aluno conte uma história (começo, meio e fim), já trabalhando os conceitos teóricos da estrutura de uma narrativa, seja por meio de uma redação, seja ela com escrita em braile, ou por meio de gravação da voz.

A escolha do tema é importante também, pois deve ser um que leve o aluno a desenvolver mecanismos de defesa em relação a sua defasagem visual e o inclua no mundo como um sujeito capaz de realizar algo superior aos demais, e assim o coloque numa posição de dignidade e equilíbrio no mundo competitivo que vivemos.

Um bom tema seria escrever sobre música, pedir par que o aluno decifre e descorra em uma história as possibilidades de se dizer algo através de tons e melodias. Outro tema interessante seria a construção de poesias, levar o aluno ao conhecimento das figuras de linguagem, como por exemplo, a enorme possibilidade imaginária que pode se chegar com a metáfora.

Estas propostas feitas com direcionamento pedagógico do ponto de vista teórico podem surtir efeitos interessantes partindo sempre da premissa que leva em consideração a imaginação e a reflexão sobre a ação. §

Lucas Limberti

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Vermelho Como o Céu

de Cristiano Bortone (Rosso come il Cielo, Itália, 2006, 96min).

Foto: Divulgação

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postado por 35821 as 12:24:56 # 3 COMENTÁRIOS "estendidos"
terça, 13 novembro, 2007
TRÓPICO: “Si Hay Camino”


Estética não-estática do meio.

No meio, a encruzilhada impõe caminhos. Não é fácil chegar ao meio. O meio é a certeza de que há caminho, de volta, de ida.

Ou não.

Pode haver quebra na respiração que liga o mundo. Negar o passo que vai ou que vêm pressupõe revolução. Desconstrução do gesso cartográfico é surgimento do novo ponto eqüidistante que, mesmo matematicamente impossível, liga trópicos paralelos no infinito das translações e rotações embriagantes.

Desplanejar a rota soa como se os rumos afetivos se dissolvessem aos conformes do padrão imposto.

Portanto, surpresa: é aí que se descobre a liberdade, palavra irmã da imaginação alada que transforma chão em imensidão, padrão em nudez.

E diante do cabresto que bifurca, se a escolha for o caminho estático, sucumbir ao passo se torna caminho.

E no meio do caminho, caminho.§

Lucas Limberti

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postado por 35821 as 08:44:58 # 4 COMENTÁRIOS "estendidos"
sexta, 02 novembro, 2007
DIÁRIO DA LUA: “Só falta água oxigenada na pinga”


Misturaram água oxigenada no meu leite, fiquei burro e com azia. Estão misturando tudo, só quem passa ilesa é a 51 que faz CaipiRinha pros gringos que vêm consumir nossas belezas naturais e infantis. Porto Seguro, na Bahia, foge a regra no caso da pinga, lá até o capeta é batizado contrariando a lei de que um capeta, dois capeta, três capOta!

Brasileiro capota sem dinheiro no banco, a CPMF segue devorando o saldo e as armas continuam a ser vendidas no Brasil que nas cartilhas de Geografia norte-americanas não é mais dono da Amazônia que virou território internacional. O Bush continua poluindo, o Greenpeace faturando e o Lula querendo que a Copa seja no Brasil em 2014, o futuro ano-feriado.

E viva o feriado, e viva o Maradona que deveria se candidatar a presidente da Argentina. Depois da ex-primeira dama Evita Perón subir ao poder da nação a candidata governista considerada a “Hillary Clinton argentina”, Cristina Kirchner, peronista social-democrata se elege usando a máquina do governo. Está valendo a pena ser primeira-dama na Argentina, mas ainda sou mais o Maradona que tatuou o Che Guevara no braço e o Fidel na canela, além de declarar crítica aos seus ex-colegas, dizendo que "Platini é o chefe mafioso da Uefa", o Beckenbauer "conseguiu para a Alemanha a sede da Copa do Mundo” e que Pelé “é um capacho da Fifa”.

E se for pra ser de “mulher pra mulher” que seja pela fórmula H2SOL, uma bombástica mistura alagoana chamada Heloísa Helena.

Por falar em bomba, vocês viram? Explodiu mais uma no Iraque. Ora bolas, dizer que explodiu algo no Oriente Médio é o mesmo que dar a notícia de mais uma conta bancária clandestina do Maluf.

E para fugir do óbvio, a última do esporte é que o Palmeiras disputa uma vaga na Libertadores!

Daqui de cima sigo despejando pétalas em uns e urina em outros. §

Lucas Limberti

Esse é o “Diário da Lua”, uma nova seção do ‘Varal do Infinito’ que analisa o hoje lá de cima, do plano cartesiano da Lua.

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postado por 35821 as 09:52:04 # 7 COMENTÁRIOS "estendidos"
quarta, 31 outubro, 2007
CUMPLICIDADE: “Autocrítica ao vácuo ”


Quando o tempo me falta aos compromissos faço o suficiente para respirar e tiro um cochilo para ver se passa. Quando acordo eles ainda estão lá, mas não sei, parece que estão encobertos por uma poeira atenuante. Resolvo encostar meus compromissos num café, fecho as horas da semana e mesmo ela estando na metade me arrisco arisco ao verso descompromissado para a assertiva de uma poesia simples.

E é aí que me engano.

A poesia simples é um parto sem anestesia. Dói mais que o compromisso, mas sem que haja a repulsa do sono.

Poesia que encanta é dose viciante de prazer que dilacera e esconde suor e engrenagem por de trás do lirismo marcante.

O palhaço é sujeito triste no açougue ou no lençol.

No descompromisso das horas enforcadas a tinta borra e rabisca muitas vezes o intangível para, quem sabe, atingir a maturidade do óbvio.

Com o tempo se descobre que a poesia simples não vem do sono que empoeira ou das horas no café. A poesia simples vem do banco de horas na indústria, do sem descanso do suor na construção. Do trabalho que não cochila, que não se engana.

O poeta não morreu, foi num café: Já voltou. §

Lucas Limberti

Imagem: Parto (2005) - Acrílico sobre tela – Ricardo Passos

A seção CUMPLICIDADE refere-se a retratos abstratos e espasmos cerebrais não-noticiáveis do autor que vos fala.

Leia também: CUMPLICIDADE: "Descaminhos de uma sexta-feira"

.

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postado por 35821 as 12:41:02 # 1 COMENTÁRIOS "estendidos"
quarta, 26 setembro, 2007
INCIDENTE: "Rubro furto de pétala viva"


Na mesa da vida veio até mim uma jovem com rosas a vender. Neguei. Estava

acompanhado do amor. Dividia a ceia informal com o calor de minha mulher e a

negação daquela oferta de humor comprado, de rosas tristes e açucaradas por

desodorante barato.

Havia comigo algo além, um trunfo incidental que secou a saliva insistente do

sentimento enlatado.

Havia o frescor do sublime em perfume áureo. Meu botão vermelho escuro

orvalhado carregava algum espinho e nenhum ornamento plástico.

O vinho, a rosa e o tango eram rubros como meu amor triste. Ela, a rosa que

roubara, superou a gramática.

Te digo eufórico, Peter Pan embebido de orgulho frente ao ardil da façanha:

-  Só eu era capaz daquilo!

Em furto piscar eu era Rei, Casanova, Neruda e Che Guevara descompassado em

pausa veloz.

Uma flor nasceu em mim.

Linda. Eterna.

Roubada.§

Lucas Limberti

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postado por 35821 as 04:28:05 # 2 COMENTÁRIOS "estendidos"
quarta, 19 setembro, 2007
LUTO: "O Palhaço e o Tenor"


O luto

O Varal do Infinito declara luto verso ao recente desaparecimento de Luciano Pavarotti e Pedro de Lara por considerar que os palhaços e os cantores de ópera nunca deveriam morrer.

Pedro de Lara, o incansável turrão cômico e filósofo popular, durante toda sua vida e por 26 anos no Show de calouros do programa Silvio Santos na TVS, atual SBT, buscou na vaia seu maior aplauso. A vaia era sinal de que alcançara seu objetivo de incomodar, protestar, o que para muitos teóricos é a essencial função da arte. E pra quem não sabia o jurado pernambucano revelado por Chacrinha e nascido em 1925 era também astrólogo.

Luciano Pavarotti, a caricatura da Itália, nascido na cidade de Modena foi um apreciador do melhor da pasta e do vinho do seu país. O tenor é considerado maior cantor de ópera de seu tempo e grande interprete das obras de Donizetti, Puccini e Verdi.

Ambos vítimas do mesmo algoz.

O algoz

O cantor e o palhaço tiveram a mesma causa mortis: o câncer.

Palavra indigesta que amargura. Palavra que tomara Deus e a Ciência valha apenas para o trópico e para o signo.

Vinicius de Moraes dizia em nome de seu amigo Jayme Ovalle que “o câncer é a tristeza das células”. E por que nossos heróis da alegria e do entretenimento entristecem?

Deve ser porque a doem com tanta força que se esquecem de guardar para si. Mas é assim, não tem jeito, por isso são eternos e desfilam em homenagem de luto póstumo no infinito do varal. §

Lucas Limberti

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postado por 35821 as 01:02:03 # 3 COMENTÁRIOS "estendidos"
domingo, 16 setembro, 2007
EDUCAÇÃO: “A dor que deveras sente”


 Pacto, ritual e sedução.

O efeito de encantamento da poesia pretende criar uma relação de sedução através de estímulos sensacionais. Os leitores que apreendem o significado das palavras, reproduzem certo tipo de resposta e, na maioria dos casos, atribuem juízo de valor, à respeito da emoção do poeta e não do eu – lírico. E este é o segredo de um profissional que despende duras horas de trabalho imerso na fabricação de idéias e emoções se valendo de um honesto fingimento, de um blefe milimetricamente planejado. Cria um “eu” que ao particularizar sua emoção por meio de técnicas específicas se universaliza.

O educador enquanto mola propulsora do conhecimento deve se valer destas premissas poéticas para a criação de um pacto, previamente planejado, que traga (ou leve) ao aluno para a sensação de seu blefe, para a “poesia” de sua disciplina.

No entanto, surgem indagações sobre como seduzir, motivar e desafiar alunos imersos num contexto em que a preocupação com a quantidade de conteúdo e informação sobrepõe-se à formação, mediados por professores predominantemente reprodutores.

Cabe ao professor identificar este contexto em que está inserido e ir na contramão do pensamento engessado que nega as transformações que a reflexão sobre ato de ensinar proporcionam.

O ritual consiste em estabelecer um pacto propulsor do ato de aprender, criar e refletir. No entanto, deve-se ficar atento ao caráter contraditório do pacto e não tomá-lo como uma verdade absoluta e sim como um ponto de partida para atenuar automatismos coercivos, sobretudo quanto à disciplina. Neste caso, o pacto deve ser uma construção coletiva que estimule e dê sustentáculo para a convivência criativa entre as instâncias em sala de aula.

O árduo trabalho de planejamento por parte do professor deve se dar em um ambiente consistente e previsível, para que a reflexão e a mudança de planos sejam possibilidades previamente consideradas, como um ator que ensaia veementemente os mecanismos de improvisação nas artes dramáticas.

O blefe milimétrico e planejado do poeta em seu verso deve ser tomado como exemplo para o planejamento, ou melhor, fabricação das aulas com ações técnicas de aproximação às realidades discentes para apropriar-se de elementos que os motivem e a partir da sedução (fingimento sensacional) desafiá-los para obter o complexo, o imprevisível e o mutável. §

Lucas Limberti

Foto: Lucas Limberti - Título: Poesia da cor livre

Leia também - LER E ESCREVER: “Toda a força no Primeiro ano”

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postado por 35821 as 01:51:59 # 5 COMENTÁRIOS "estendidos"
sábado, 18 agosto, 2007
A crônica sonata de Doralice


Seis, sete, oito... Doralice conta os paralepípedos do caminho de sua escola até em casa. Pensa que são miniamarelinhas e vem lá, imponente, de mãos dadas com sua irmã mais velha encarregada de buscá-la todos os dias.

Quando vira a esquina naquele fim de tarde de junho ensolarado e frio, escuta o barulho do porta-malas da Variant azul de seu pai se fechar certeiro. Ela solta das mãos da irmã, esquece dos paralelepípedos e vai correndo até o pai para abraçá-lo.

-Papai, papai vamos passear de Variant?

Encurvado com o pulo de Doralice, Evanir coloca tenso a filha no chão, longe de seus braços.

Doralice se dá conta que o pai estava de saída, com o carro cheio de coisas.

-Papai, aonde você vai? Por que está levando a vitrola?

-Papai vai viajar filha, entre que sua mãe te espera. Evanir beija a testa de sua pequena filha e com um olhar se despede da irmã mais velha. Entra no carro. Dá a partida.

De longe se ouvia o escapamento daquela Variant azul do papai. Aqui na nossa rua todo mundo sabia certinho a hora que ele chegava e a hora que saia. Mas, não foi sempre assim, antes a Variant azul era do Coca, um pintor carioca que morava no sobrado da frente.

Coca vivia enroscado com pincéis, dívidas e com meu pai, este, sempre atraído por essa gente cheia de problemas.

Atrasado com o aluguel e outras coisas mais, Coca bateu lá em casa e foi ter-se com meu pai no quintal. Na manhã seguinte a Variant azul estava lá na nossa garagem. Eu adorei.

Eu adorava passear com aquele carro, era um barulhão que todo mundo olhava, parecia uma nave espacial, sem contar que nos primeiros meses depois da compra tínhamos que entrar pelo porta-malas porque as portas dianteiras vieram emperradas do Coca.

Mas, quem realmente pegou fama do motor foi papai que rodava “até” pelo bairro e se divertia com o barulho particular daquele escapamento furado. Ai, ai...

Uma lágrima cai sorrateira e molha o colo do namorado de Doralice, agora com vinte e seis anos.

Doralice, a menina imaginativa dos paralelepípedos, vira uma exímia publicitária. Independente, alta, forte é do tipo que paga o cinema pro namorado e recria seu mundo com aparente descontração e felicidade.

O som do vinil acompanha à tarde que cai, o céu de junho embebe de esperança os olhos de Doralice que se levanta do colo de seu namorado e abre o vitral da janela de sua casa. Entra o frio.

Ao que de repente entra também um barulho que parece se aproximar. Doralice sente outro frio, agora na barriga:

-É o som da Variant azul!

O barulho vira a esquina de paralelepípedos. O olhar afoito encontra uma Brasília bege que passa veloz diante de sua hipnose desfeita.

Vira-se para o namorado e murmura embargada:

-Quando escuto esse tipo de motor sinto um aperto. As coisas não soam... Não são como antes, o Caco não mora mais aqui, mamãe ora por nós lá no céu... E faz dezoito anos que espero meu pai voltar de viagem. §

Lucas Limberti

Foto: Helena Bowel

Lei também 1º DE MAIO: "O Menino, o feriado e o Piloto”

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postado por 35821 as 03:22:34 # 5 COMENTÁRIOS "estendidos"
quinta, 12 julho, 2007
CRÔNICA: "O casamento do porteiro"


(baseado em fatos reais)

www... Como é mesmo o endereço daquele site que coloca currículos grátis na Internet? Deixa pra lá, volto ao trabalho autônomo nesta segunda-feira, sete horas da manhã. Ser escritor demanda certa dose de audácia anticorporativa, mas com uma famigerada disciplina por vezes nula.

Já arrumado. De banho e café tomado, me ponho a digitar um artigo sobre educação para uma revista anual de uma das melhores faculdades do país. Bom para o currículo, não tão bom para o bolso.

No meio de um parágrafo... Dim dom, uma vez. Dim dom, uma segunda vez... Dim dom, uma terceira vez em ritmo longo e descompassado.

Encosto o fio de raciocínio no canto da tela do computador, me levanto e vou até a porta. De súbito fico incomodado, mas no curto caminho do escritório até a porta mudo de opinião e apresso o passo.

Deve ser algo sério. Pensei. Quem quase derreteria minha campainha as sete e pouco da manhã?

Sem olhar pelo olho mágico abro a porta em ritmo de alarme de incêndio.

-Bom dia Dona Matilde, posso ajudar? Aconteceu alguma coisa?

Dona Matilde é uma daquelas moradoras que costumamos chamar de móveis e utensílios da casa, ou melhor, do condomínio. Do alto dos seus oitenta e poucos anos, presumo, ela cuida de como os jardineiros lidam com as flores do condomínio, dos pássaros do condomínio e da vida dos moradores do condomínio. Praticamente uma alma penada incorporada... Do condomínio.

-Estou passando para pegar a sua contribuição para o casamento do porteiro que que trabalha no período da manhã, o Seu João, sabe? Interpela-me em tom ameaçador.

Meio sem jeito com o turno de fala certeiro e anestésico, pergunto a ela a quantia do donativo que eu deveria desembolsar.

- O senhor deve doar uma quantia mínima por apartamento de vinte reais. Note a mudança no tempo verbal: o meu futuro do pretérito toma forma de um seco imperativo.

Meto a mão no bolso, encontro uma nota dez reais amassada e algumas moedas que vieram de troco do pãozinho da padaria.

- Desculpa dona Matilde... É só isso que me resta.

Ela toma os doze reais e vinte e cinco centavos da minha mão, joga dentro da estufada sacolinha de supermercado. Tão logo lança mão de uma pranchetinha e anota em trêmula letra de forma: APT 132 FICOU FALTANDO 8 REAIS.

Passa pela minha cabeça dizer que faltam 7 reais e setenta e cinco centavos, mas...

-Chega! Até mais ver dona Matilde.

Sem se despedir ela sai e derrete a campainha do apartamento ao lado.

Fecho a porta, olho o relógio que aponta sete e meia da manhã. Volto ao meu artigo. Na verdade não volto. O olho caído da dona Matilde me tirou o fôlego. Começo a remontar o acontecido na minha cabeça.

-Como essa mulher consegue me deixar sem jeito, que petulância, ela é tão... Ela é tão...

-Formidável! Agora em voz alta. Isso mesmo, grande dona Matilde.

Vinte reais por apartamento, oito por andar em um condomínio de dez prédios... Hum... Oito vezes vinte, cento e sessenta... Vezes 14 andares... Dois mil duzentos e quarenta reais por prédio. Vezes dez prédios que o condomínio possui... Chegamos a vinte e dois mil e quatrocentos reais.

-Vinte e dois mil e quatrocentos reais! Grito.

Entro num site de casamentos virtuais, arrumo uma noiva em três horas, em seguida deleto meu artigo e mando um currículo para a administração do meu próprio condomínio escrito em letras garrafais: “Cargo almejado: PORTEIRO”. §

Lucas Limberti

Leia também CRÔNICA: “I speak português...”

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postado por 35821 as 12:06:23 # 7 COMENTÁRIOS "estendidos"
segunda, 09 julho, 2007
REVISTA MALAGUETA: Pimenta na 'Divina bandidagem'


Caros navegantes,

Misturaram pimenta no divino da bandidagem. Nas ondas da vida virtual o pessoal da revista Malagueta aportou no aconchego do Varal do Infinito e levou para seu cais os frutos de nossos laços contemporâneos.

Leiam também o conto ‘Divina bandidagem’na Revista Malagueta!

O ardido do resultado se vê em deliciosas poesias, contos, artigos e resenhas na 5a. edição da revista virtual.

Vale a pena conferir e saudar o autor que vos fala por aquelas passagens. Fiquem à vontade por lá, nossos limites dispensam burocracias alfandegárias e se apresentam com irmãos ideológicos.

Salve salve a extensão de nossos tentáculos. E com a palavra eles:

Revista Malagueta

Sobre a pimenta

Não basta escrever, ficar sentado e esperar que algum editor bata à sua porta. Este pensamento também se associa às revistas virtuais de literatura. Se alguém escreve e não é conhecido no âmbito literário, é preciso muita luta e força de vontade para conseguir um espaço entre gente boa. E o que mais se vê na internet é uma grande elitização, não mais a preocupação em publicar o bom, mas sim os bons. Há uma enorme diferença entre publicar a coisa boa e a pessoa boa e, infelizmente, algumas revistas visam justa e primordialmente a pessoa, seu status, suas publicações e sua influência na literatura contemporânea.

A Revista Malagueta é uma revista mensal que surgiu da idéia de querer expandir o núcleo de escritores conhecidos com outros de grande talento que ainda estão sob páginas empoeiradas de ótimas letras. Páginas inexistentes no concreto, mas belamente idealizadas no imaginário de quem quer publicar e ser reconhecido pela sua obra.

Antes de tudo, a Revista Malagueta quer publicar o novo, além do conhecido. Quer peregrinar novos territórios, novas visões, sempre com a extrema qualidade que requer uma revista séria como esta pimenta ardida, que já é trincada por dentes de novos artistas.

Hodiernamente, a literatura não só precisa de idéias, gente nova ou publicações desenfreadas, mas sim de valorização, de saber sentir que a cultura é fundamental na vida das pessoas. Ela afasta a mente da estagnação e, quase sempre, de um mundo mais cinzento, que a cada dia se concretiza mais frio e sanguinário. Cultura é a abstração do ser humano, é a forma de ele poder respirar vida, de saber-se vivo, de alma intensa. É isso o que a Revista Malagueta procura: pessoas de alma intensa, que vêem na arte um idôneo futuro, tanto para si como para a humanidade. §

www.revistamalagueta.com

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postado por 35821 as 05:33:10 # 3 COMENTÁRIOS "estendidos"
sábado, 07 julho, 2007
CUMPLICIDADE: "Lições da gente do teatro"


Lição para vida toda

Caminhando pelos espaços vazios tem-se a sensação de completar a si mesmo se apropriando das extensões de seu corpo em função da geografia do mundo. Aos poucos a apropriação ganha asas e se liberta para movimentos maiores que coreografam uma dança desritmada e solta.

Batuques arabescos completam um ciclo de significações que tem início no visível que é o corpo e fim no invisível que são as ondas sonoras.

O invisível parece ser tão forte como o que se tateia, inclusive funcionando como uma mola propulsora não só da motricidade física, mas da emocional.

O cosmo criado se amplia para a interação entre as instâncias do coletivo e do sensível com a voz. Com o grito. Com a respiração.

A energia se renova e se transforma à medida que se aquecem as percepções de si mesmo. O auto-conhecimento surge como uma meditação.

O barulho caduco do mundo contemporâneo não permite que os seres da megalópole escutem a si mesmo, respirem, sintam suas extensões e limites.

Limitar-se com os giros em volta de si mesmo. A tontura tira seu centro e faz esquecer das impostas certezas incertas que o equilíbrio te adestra. Foco num ponto, um abraço em si mesmo e tudo volta tragicamente ao normal. Pudera o mundo continuar em montanha russa sem que se perca o equilíbrio. Mas, falta mais conhecimento de si.

A fuga do cabresto te permite quente e aberto para juntar num momento a produção do som conjugada a letra falada sem interpretação. E eis que surge o texto. A palavra morta é pronunciada sem sentido determinado pela semântica e sim ganha forma pelo tom da instância invisível chamada voz.

Um bêbado, um mantra, um político, um narrador de futebol mastigam as palavras mortas para que se crie intimidade, para que deite a palavra nua no afã de sentí-la sem amá-la. Pois, só conhecendo-a profundamente surgirá a interpretação e dela o sublime do amor.

E assim se tem uma lição para a vida toda. §

Lucas Limberti

A seção CUMPLICIDADE refere-se a retratos abstratos e espasmos cerebrais não-noticiáveis do autor que vos fala. Neste caso são apreensões de uma aula de teatro para professores realizada na Faculdade de Educação da USP.

Leia também:

CUMPLICIDADE: "Descaminhos de uma sexta-feira"

e CUMPLICIDADE: "Ecos da existência"

Foto: Bryon Paul MacCartney

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postado por 35821 as 12:29:50 # 2 COMENTÁRIOS "estendidos"
quarta, 04 julho, 2007
TEATRO: Macunaíma encena Homem Elefante, Frankenstein e Corcunda de Notre Dame


“Uma flor brota no concreto. Áspera.

Torta. Disforme. Mas é uma flor...” (C. Drummond de Andrade)

Muito além da aparência, quando o coração fala mais alto...

Imagine juntar Frankenstein, o Corcunda de Notre Dame e o Homem Elefante numa única história. Pois é, numa trama bem elaborada o elenco do PA4 do Teatro Escola Macunaía encena a peça “Além da aparência” que emociona a platéia cruzando criaturas que estão a mercê da estética pré-estabelecida. As situações desafiam o olhar do espectador que encontra o sublime no avesso do aspecto turvo. A razão da existência e o julgamento do bem e do mal através do aspecto físico são experiências que envergonham o preconceito em função da percepção das verdades internas, do campo de significações invisíveis que se encontram nos limites e curvas do coração.

A diretora do espetáculo Simone Shuba cuidou de montar uma teia significativa que conferiu magia aos três núcleos que representavam cada personagem.

“Além da aparência” personifica um embate bravio verso aos seres pasteurizados e é um acalento ao deserto de retinas cansadas de tanta futilidade exterior.

Um viva ao sentimento, ao espírito e ao amor.§

“Um salve para trupe, foi bacana trabalhar na sonoplastia de “Além da aparência”

Lucas Limberti

Adaptação coletiva dos textos:

Frankenstein – Mary Shelley

O Corcunda de Notre Dame – Vitor Hugo

O Homem Elefante - Bernard Pomerance

Montagem PA4 Eldorado

Direção – Simone Shuba / Sonoplastia: Lucas Limberti / Iluminação: Caio Franzolin / Corpo: Eduardo de Paula / Voz: Ariel Mosh / Elenco: Amanda Klein, Bruna Brasetti, Bruna Trevenzoli, Carla Nogy, Carolina Preto, Carolina Watanabe, Drica Oliv, Ivi Becker, Guto Almeida, Juliana Jordão, Keferson Oliveira, Lyandri Borges, Marana Almeida, Marília faria, Murilo Lopes, Nara Bressan, Renata Leite, Vivian Abud e Nathália Lopes

Teatro Fortaleza 6 - R. Fortaleza, 68 Bela vista – Sala 6

Dias 2,3 e 4 de julho de 2007 – Sessões às 19 e 21hs.

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postado por 35821 as 02:06:44 # 7 COMENTÁRIOS "estendidos"
sexta, 15 junho, 2007
CONCURSO LITERÁRIO: "Conto Divina Bandidagem e os 5.000 acessos"


Caros leitores,

É com imenso prazer que convido vocês a comemorarem duas coisas: A primeira é que “O Varal do Infinito” acaba de ultrapassar a casa dos 5.000 acessos. Agradeço aos leitores que se arriscam a tomar um cafezinho por aqui, na busca por idéia estendidas que secam ao sabor dos comentários, episódios poéticos, críticas noticiáveis, arte e prazer.

A segunda é que acabo de ganhar em primeiro lugar em concurso literário na categoria melhor conto. Anualmente com o apoio das editoras Saraiva, Cia. Da letras, Cosacnaify, Cortez, Moderna, Scipione e Casa de Livros, a “Escola CAMB – Caminho Aberto” promove um concurso literário abrindo espaço para tornar pública idéias de escritores brasileiros. E para comemorarmos juntos ofereço a leitura do conto campeão como prato principal.

Apreciem sem moderação!

Divina bandidagem

Lucas Limberti

Meu Deus! Socorro.

Corro. Corro muito. A ladeira íngreme e úmida cresce aos olhos. Escorrego. Senti o bafo quente de meu predador. Molhado pela garoa cortante fujo entre as vielas. Meu corpo sedento e culpado não agüenta mais. Ouço um disparo. Corte na respiração. A bala veloz impede a remissão dos pecados da vida inteira. Dor. Muita dor. O metal frio no osso do tórax recua a pulsão. Tensão, o cão ajoelhado, escuridão e muitas buzinas...

-Seu maluco, poderia ter matado alguém!

O sol quente do meio dia se misturava a fumaça do motor que entrava pelas janelas da Perua Kombi ano 74 enfiada no poste. O pastor Amadeu dormiu ao volante e se salvou daquele sonho que o levaria ao juízo final.

Ainda um pouco tonto e com algum sangue descendo às ventas ele sobrevive ao acidente, mas não se livra daqueles pensamentos que o perseguem.

-Afasta senhor, que sonho errado, num piscar de olhos quantos pesadelos, mas entre a bala nas costas de Macalé, prefiro o concerto da minha Kombi, glória a Deus aleluia! Pensou aliviado.

Uma viatura da polícia se aproxima. Apreensivo Amadeu checa o documento do carro e a carteira de habilitação. Tudo certo.

-Ai meu Deus... O porta-malas!

Amadeu volta no tempo se lembrando do acontecido daquela manhã.

-“Derrama senhor, derrama senhor, derrama todo o seu amor”, canta o coro de fiéis em um culto improvisado no antigo salão de dispensa do presídio municipal.

-Irmãos, com a glória de Jesus vos entrego este folheto com os Dez mandamentos sagrados de Deus. Pronuncia Amadeu a seus fiéis do claustro.

De mão em mão o pastor entrega sua palavra. Entre os fiéis o olhar fixo de Macalé, o chefe da organização criminosa que comandava o presídio, o acompanha afirmativamente. Intimidado o pastor tira os óculos remendados com arame do bolso da camisa e começa a leitura em voz alta dos dez mandamentos. A leitura se fazia obrigatória já que ele não recordava todos aqueles ditames cristianos. A atmosfera tensa se dava pelos negócios tratados por de trás daquela cerimônia.

Durante toda a noite anterior os presos escreveram em folhas de caderno o estatuto da organização. Cada um escreveu a sua cópia e levou as escondidas para o culto.

Na saída os presos entregaram os folhetos com os dez mandamentos a Amadeu que estava parado na porta. Junto com eles os estatutos do da organização.

Das mãos de Macalé o pastor recebeu um envelope coberto pelo folheto dos Dez mandamentos. O dente de ouro no sorriso irônico do bandido refletia o rosto acuado do vigário que engoliu a saliva viscosa e pensou:

-Preto carvão, capoeira, macumbeiro, você vai queimar no fogo do inferno.

Amadeu era um sujeito que escondia atrás de uma fala dócil e afetiva uma personalidade ambiciosa e obscura. Antes de se dedicar às atividades religiosas era um vendedor livre, vendia de tudo pelas praças, muambas, cigarros paraguaios, doces, chaveiros, emplastos, de tudo podia se encontrar no porta-malas de sua perua Kombi. Certo dia descobriu que muitos faziam riqueza pregando nome e Jesus. Comprou duas caixas de som e um microfone pôs-se a pregar em praça pública. Logo já tinha sua própria igreja e sustentava sua casa, sua mulher e os dois filhos com o dinheiro do dizimo dos fiéis.

Começou a pregar no presídio, pois certa vez quando transportava uns produtos trazidos do Paraguai foi pego pela fiscalização. As muambas foram apreendidas, e a responsabilidade recaiu sobre dele. Os policiais não quiseram fazer o “acerto” e ficaram com todos os videocassetes sem nota fiscal que ele carregava. Os trâmites da negociata foram feitos com um sujeito asqueroso chamado Wilson Ramos que era irmão daquele que viria a ser o chefe da maior organização criminosa do país, o Macalé Ramos. Ele não tinha como restituir a dívida ao destinatário. Como pagamento, Amadeu deveria ser o pastor da igreja interna do presídio e funcionar como um “avião”, que na linguagem do crime significa aquele que transita informações entre os membros da organização de dentro e de fora da prisão.

Já no estacionamento do presídio, Amadeu abre o envelope e lê os seguintes dizeres:

“Os estatutos devem ser entregues no final do culto de hoje à noite, sem falta aos membros da organização que estão em liberdade. Aquele que não contribuir com os irmãos que estão na cadeia, serão condenados à morte sem perdão. Lealdade, respeito, e solidariedade acima de tudo a organização”.

Cansado e tenso, o pastor separa em seu porta-malas de um lado os Estatuto dos criminosos de outro os folhetos com os Dez mandamentos.

A noite anterior ele havia passado acordado. Recebeu vários telefonemas anônimos dizendo que sua casa seria alvejada caso não comparecesse no culto daquela manhã. No caminho do presídio à sua igreja ele dorme ao volante. No farfalhar da colisão os estatutos e os mandamentos se misturaram. O suor de Amadeu escorria orelha a baixo com a aproximação dos policiais.

- Documentos do veículo, por favor, disse o policial.

-Está aqui, responde Amadeu concertando o arame dos óculos.

-O que aconteceu aqui? O que você carrega nessa perua velha. Por favor, abra o porta-malas. Perguntaram a dupla de policias.

- Eu perdi o controle do carro, acho que o freio falhou e... No porta-malas carrego os folhetos com as canções e os mandamentos da minha igreja, eu sou pastor evangélico da. “Divina Santidade”, respondeu Amadeu labioso.

-“Divina Santidade”? Pois então você é Amadeu Batalha perguntou atônito um dos policiais que conferia sua carteira de motorista.

-Eu mesmo Amadeu Batalha, pastor fundador.

-Pois minha mãezinha te adora, diz que o senhor é um santo homem. Tome, pegue este lenço e limpe o sangue do nariz. Completa o policial que do próprio celular liga para um guincho.

-Fique tranqüilo Seu Amadeu o guincho de minha confiança vai deixar você e seu automóvel em casa, vai com Deus, glória aleluia.

Mais aliviado com a lei estatal, o pastor agora se preocupava com a outra lei, a dos fora lei, que estavam manuscritas em seu porta-malas. Olhando aquele monte de folhas, tentava separar os papéis: não conseguia distinguir o que era do crime e o que era de Deus.

Separou como pôde; o nervosismo causado pelo medo das ameaças de Macalé prejudicava mais ainda a lida com aquela papelada. Não havia mais tempo: tinha que realizar o culto na sua igreja no horário previsto, pois ao final um segundo “avião” pegaria os estatutos e daria conta de redistribuí-los para a bandidagem. Jogou tudo em uma caixa e correu para a igreja.

As imagens daquele sonho que causara o acidente não saiam de sua cabeça. Chega esbaforido na sua igreja e abre a caixa com os papéis. Pensava no discurso que tinha de fazer, da importância dos dez mandamentos, "Amar a Deus sobre todas as coisas", mas ele amava a si mesmo a cima de qualquer coisa, seu pensamento estava cego, o reflexo do dente de ouro do bandido reluzia sua memória.

Sobe no pequeno púlpito da igreja, lá de cima avista o cenário do culto: as caras formando uma paisagem impenetrável. Não ligava para isso. Eles fingiam, ele também fingia e todos viviam em suas pequenas ilhas existenciais.

Com a confusão do acidente, os Estatutos se misturaram aos Mandamentos. Todos na mesma caixa, Amadeu atrapalha-se e acaba distribuindo para seus fiéis o Estatuto da organização e para o bandido no final da missa os Dez mandamentos de Cristo.

Tudo confuso. 

Agora a bandidagem estava com a folha da igreja e os fiéis com a folha da organização. O que ocorreria? Amadeu sentiu um frio na espinha. Agora já não tinha nada a fazer.

Ali perto um dos integrantes lia atônito sem saber o que fazer e pensava consigo mesmo: - Seriam mesmo aquelas as ordens? Não matar, não roubar... Estava tudo estranho, muito estranho.

Tinha tanto medo da organização, estava duvidando... Mas não! Iria fazer aquilo que estava escrito: Nunca mais iria matar.

Um outro antes de invadir uma loja num assalto que havia tramada há meses lê o tal folheto trocado. Como assim, o que está escrito? Não poderia mais roubar? Ia viver do quê? Depois desses anos todos roubando para a organização e ela agora lhe roubava o sustento. Sentiu medo e na dúvida optou por seguir o que o suposto estatuto postulava. Ele não roubou.

Poderia ser verdade? Honrar pai e mãe, aqueles que ele abandonara para ter a organização como madrasta? Muitas coisas passavam pela cabeça dos bandidos, mas o medo das retaliações vindas das ordens internas os cegavam na prática dos mandamentos. Para eles, a organização talvez quisesse se moralizar. Mas não vinha ao caso, há um juramento.

-Eu jurei seguir as ordens, sejam elas quais fossem e agora não ia ser diferente, conclui um advogado da organização que retirou a defesa de um dos integrantes junto ao Fórum, pois não levantaria falso testemunho. De repente, os criminosos começaram a trabalhar durante seis dias da semana e no sétimo dia, no sábado sagrado dedicado ao Senhor Deus conforme o 4º mandamento apareceu toda a malandragem daquelas passagens na sede da igreja de Amadeu, a “Divina santidade”.

Em bando, vários sujeitos mal encarados da organização entram no templo. O pastor fica aterrorizado. - Vão me matar! Não Acredito!

Já ia se arrependendo do que fizera, aquela fria sensação de morte que o perseguia tomou seu corpo todo que tremia. O líder olha pra ele e diz:

- Toca a cerimônia em frente, nós só estamos seguindo ordens.

O pastor entrou em pânico, pela primeira vez rezou verdadeiramente, clamou a Deus em forma de orações coletivas pela vida: – Seria agora meu fim, na frente de todos fiéis, não posso acreditar na ousadia deles, pensou Amadeu em desespero.

“Pai nosso que estás no céu, santificado seja o vosso nome...” , atônito o pastor ouviu, não o barulho da bala em sua direção, mas um som mais familiar. O bando de Macalé estava rezando. O que era aquilo?

Porque rezavam para aquele altar que eles tanto desprezavam? Meio sem jeito disse:

- Vocês estão rezando?

- Sim, ordens da organização.

- Como assim?

- Devemos amar a Deus sobre todas as coisas, e é isso que estamos fazendo.

O pastor quase riu, pois se deu conta do que havia feito. Da confusão dos papéis no acidente nascia a conversão. Mesmo assim, teve medo: - E quando Macalé descobrisse? Será que até seu irmão Wilson acatou aos ditames da divina bandigem?

Pois é, a informação de que o crime mudara de lado chegou até os limites do presídio. Macalé viu que seu rebanho se perdia, de repente estavam todos louvando a Deus aleluia. Ficou furioso e mandou matar o pastor. Mas, ninguém atendeu sua ordem, todos acharam que era balela, pois agora era proibido matar.

Enlouquecido Macalé esbravejava aos quatro cantos:

- Eu é que mando nessa droga aqui!

Ao que de pronto respondiam que agora Deus está acima de todas as coisas.

Conforme as ordens da quadrilha eram difundidas, o crime desaparecia. Certo dia então, por força daquele estatuto bendito os bandidos entregaram suas armas, os juízes e advogados seguiram as leis, policiais se converteram, enfim o crime sumiu de vez.

Amadeu sorria tranqüilo, ele tinha contribuído para aquele estado de coisas, para a paz. Mas de repente se intrigou: - Ai Deus... Os fiéis.

O crime voltaria, seus fiéis estavam com o Estatuto da maior organização criminosa do país e eu as entreguei como os Mandamentos de Deus.

Voltando ao estado de desespero inicial, Amadeu é abordado por uma senhora de cabelos longos e com um vestido cumprido azul turquesa que diz:

- O seu folheto estava muito bonito pastor.

Nos dias que se seguiram o pastor percebeu que os fiéis que leram o estatuto não haviam mudado a conduta, outros fingiram também que leram e elogiavam os escritos do pastor e os mandamentos de Deus.

Estupefado o pastor gargalhando pensa: Santa hipocrisia!

(Agradecimento especial a Guilherme Carvalho e Carol Garcia que contribuíram na gênese genética do enredo do conto.)

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postado por 35821 as 05:00:24 # 19 COMENTÁRIOS "estendidos"
terça, 12 junho, 2007
DIA DOS NAMORADOS: “Dai morte cruel à mulher morena”


Comemorar o amor, eis a questão...

A crueldade cosmopolita que incide violentamente sobre nossa existência revela por meio de datas comemorativas a pasteurização das relações em efusivos calendários mercadológicos.

Sim, o mercado atrapalha o amor!

Comemorar datas as banaliza e comemorar o amor em tempos de caduques e decepção moral é negar uma sensação superior, é negar o frio na barriga pueril que a chama do amor causa em nossas digestões. E assim, ‘desconjugar’ alguns verbos como “ficar”, que hoje já está obsoleto ao emprego do ácido “pegar” alguém, é levantar uma bandeira que refuta a imatura superficialidade das relações que regem a vida do homem contemporâneo.

O “Varal do Infinito” apóia o amor puro e por isso ‘descomemora’ solteiro a banalização do mais sublime dos sentimentos humanos. Para tal convida os que compartilham o “amor solteiro” para um “Jantar da solidão” (Título da foto publicada) regado ao sabor da lírica ébria de um trago de uísque do poeta que sabe traduzir um pouco de tudo isso: Uma salva de palmas a boa bossa de “A volta da mulher morena”, num dia em que a opção forçada é o Vinícius way of life... §

Lucas Limberti

A volta da mulher morena

(Vinícius de Moraes)
Meus amigos, meus irmãos, cegai os olhos da mulher morena
Que os olhos da mulher morena estão me envolvendo
E estão me despertando de noite.
Meus amigos, meus irmãos, cortai os lábios da mulher morena
Eles são maduros e úmidos e inquietos
E sabem tirar a volúpia de todos os frios.
Meus amigos, meus irmãos, e vós que amais a poesia da minha alma
Cortai os peitos da mulher morena
Que os peitos da mulher morena sufocam o meu sono
E trazem cores tristes para os meus olhos.
Jovem camponesa que me namoras quando eu passo nas tardes
Traze-me para o contato casto de tuas vestes
Salva-me dos braços da mulher morena
Eles são lassos, ficam estendidos imóveis ao longo de mim
São como raízes recendendo resina fresca
São como dois silêncios que me paralisam.
Aventureira do Rio da Vida, compra o meu corpo da mulher morena
Livra-me do seu ventre como a campina matinal
Livra-me do seu dorso como a água escorrendo fria.
Branca avozinha dos caminhos, reza para ir embora a mulher morena
Reza para murcharem as pernas da mulher morena
Reza para a velhice roer dentro da mulher morena
Que a mulher morena está encurvando os meus ombros
E está trazendo tosse má para o meu peito.
Meus amigos, meus irmãos, e vós todos que guardais ainda meus últimos cantos
Dai morte cruel à mulher morena!

Leia também ENGATE: “A crueldade cosmolpolita”

Foto: Lucas Limberti – Título: Jantar da solidão

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postado por 35821 as 11:28:00 # 28 COMENTÁRIOS "estendidos"
terça, 22 maio, 2007
SANTA ALIANÇA: “Ratzinger e o Império”


“O sistema marxista deixou uma triste herança de destruições econômicas e ecológicas como também uma dolorosa destruição de espírito”

                                                              (Ratzinger, o Papa Bento 16)

Moralismo impõe valores ético-individuais versus político-sociais.

“Deus é a realidade fundadora, portanto anterior a qualquer realidade econômica, social e política”. Com este discurso o Papa Bento 16 se vale de uma espécie de “religiosismo” para colocar os interesses do clero em nome de Deus acima dos outros poderes que regem a sociedade.

O catolicismo se transformou em uma religião de pessoas que não ligam para religião e, portanto, aborto, métodos anticoncepcionais e castidade são polêmicas ultrapassadas do ponto de vista prático e configuram-se apenas como veste instrumental de uma ambição maior. São artifícios doutrinadores que corroboram para uma disputa de poder, a igreja vem a séculos tentando voltar ao controle da sociedade, mas entende que durante a história negar o Estado não deu grandes frutos, por isso alia-se ao mais forte, é a chamada “Santa Aliança” com o império.

Por mais que negue o discurso político ao afirmar que identidade de seu discurso é a ênfase nos dogmas católicos de ação unicamente religiosa, fica claro no discurso oficial do Papa na “5a. Conferência do Episcopado da América Latina e do Caribe” sua posição nos ataques as lideranças sul americanas que negam o império estadunidense como é o caso de Hugo Chaves na Venezuela e Evo Morales na Bolívia: “Há motivos de preocupação diante de formas de governo autoritárias ou sujeitas a certas ideologias que se acreditavam superadas.”, afirma Bento 16.

Ratzinger opta pelo ultra conservadorismo e maquia a ambição proselitista por poder através de práticas que negam o social em função da pregação moralista que se foca em fortalecer a unidade e identidade da igreja, da disciplina que assemelha-se ao cunho regrado da igreja calvinista e para os mais radicais uma alegoria ao “nazismo” do conterrâneo papal, o Hitler.

Isso se explica pelo cominho conservador que a igreja tem tomado no decorrer dos anos, por exemplo, após o Concílio do Vaticano 2º em 1968 formalizou-se um “opção preferencial pelos pobres”, já no pontificado de João Paulo 2º a opção foi a “pastoral social”, e agora Bento 16 endurece na opção por um monoteísmo puro e estritamente religioso.

É esperar pra ver. Apesar de que algumas coisas nem é preciso esperar, a previsão de fiéis na missa Campal no Santuário Nacional de Aparecida no dia 13 de maio era de 600 mil fiéis, mas o que se viu foi frustrante público de apenas 150 mil pessoas.

Óbvio. O Papa perdeu para o feriado no Brasil.

Do ponto de vista individual, mas também ético e social...

O Papa veio para reensinar conceitos ultrapassados. O povo brasileiro não quer aprender essa doutrina antiquada às demandas existências do mundo contemporâneo, o povo queria apenas a válida benção do líder religioso e em alguns casos o interesse era fazer parte do show midiático, das milhares de câmeras que seguiam o papa-móvel e reportagens sobre a dieta alimentar das receitas servidas ao pontífice no Brasil. Quem assistiu a Rede Bandeirantes pode acompanhar a cômica “narração” do âncora José Luis Datena que gritou emocionado parecendo estar numa final de copa do mundo quando o Papa aportou no estádio lotado. Já quem assistiu a Record, que é da Igreja Universal viu uma série de discussões que apoiavam o aborto.

Parece piada, e na verdade eu acho que é.

Enfim... Voltamos a disputa de poder!

Minha avó me ligou do interior perguntando se eu não iria me juntar aos jovens para ver o Papa no Pacaembu, mas felizmente eu não poderia ir, pois estava ocupado ocupando a reitoria da USP (Universidade de São Paulo) em protesto contra os decretos “inconstitucionais” do prefeito José Serra, bom mais isso é uma outra história.

É, parece que no fundo cada um defende seu interesse, inclusive do outro lado na "curvatura da vara" os discursos também são retrógrados, um cartaz colado pela ala feministana na parede da reitoria ocupada dizia: “Papa Bento 16, irmãs católicas lésbicas também se amam”.

E Deus... Bom, quem é esse cara? §

Lucas Limberti

Imagem:

Eduardo Baptistão é ilustrador no mercado editorial desde 1985. Já colaborou em revistas como Globo Ciência, Vogue, Veja, Bundas, Quem, entre outras. Também fez ilustrações e capas para discos e livros. É ilustrador do Jornal da Tarde desde 2003 e colaborador da revista Carta Capital desde 1995

E-mail: ebaptistao@uol.com.br    /   Contacto do Sergeicartoons.com

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postado por 35821 as 04:22:56 # 12 COMENTÁRIOS "estendidos"
quarta, 02 maio, 2007
1º DE MAIO: "O Menino, o feriado e o Piloto"


1º de Maio de 1994.

Dia do trabalho? Não.

Acordo pela manhã do domingo e já vou logo ligando a televisão. Ayrton Senna vai correr em Ímola na Itália em sua nova temporada, agora na Willians. Grande expectativa e... Minha mãe grita da cozinha: - Filho vá rápido se aprontar pra missa, já está quase na hora e você sabe que não pode faltar senão não consegue terminar o catecismo!!!

Alguma coisa me diz que eu não devo ir à missa e que não posso tirar os olhos da pista e da companhia de meu pai no sofá. Mas a contra gosto vou, por sorte que moro na mesma rua de frente para a igreja. Calculando o tempo acho que dá pra ver o final da corrida e óbvio o Senna no alto do podium.

Passo toda a duração do sermão do padre imaginado as curvas, mas algo me dizia que deveria estar em casa.

Mal o padre acaba o falatório já engato uma primeira e saio cantando os pneus pela escadaria da igreja que dá quase no portão da minha casa.

Quando entro em casa, silêncio. Minha mãe na cozinha prepara alguma coisa pro almoço e meu pai me olha com ares de desgosto, com boca de má notícia.

- E aí pai, como está a corrida, o Senna ganhou? Chego gritando e jogando pro alto o papel com as canções da igreja.

Meu pai me olha e diz com a voz trêmula pra que eu olhasse para a televisão.

Frustração. Vi a equipe de salvamento, o carro destruído e a cabeça do herói caída para o lado sem movimento.

Segunda-feira. Pego o corretivo com lágrimas nos olhos e escrevo em letras garrafais na carteira da escola: “Ayrton Senna: Morre um ídolo”.

O choro da nação parece verdadeiro.

Mesmo que infantil, o sentimento inocente clama não só pela perda de um ídolo de um país carente destes, mas pelo vazio causado nas manhãs de domingo.

É o fim do ritual, a esta altura já não há mais emoção com o tema da vitória, eu não moro mais na casa perto da igreja, há mais de dez anos as corridas sem Senna são insossas e eu já não tenho mais a companhia de meu pai no sofá aos domingos de manhã.

Depois daquele primeiro de maio, o dia do trabalho continuou diminuído justamente por ser comemorado. Mas, pensei muito nas causas que levaram meus rituais embora, talvez fosse o carro, Senna nunca deveria ter deixado o vermelho e branco da Maclaren, talvez a culpa fosse dos mecânicos, talvez da pista, dele mesmo acho que não, mas a sensação que tenho é que nunca deveria ter deixado aquele sofá durante a corrida.

Ps. Alguns meses depois saí do catecismo. Assisti todos jogos da Copa do Mundo de futebol nos EUA. Não perdi sequer uma partida. Fomos tetracampeões! §

Lucas Limberti

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postado por 35821 as 11:34:28 # 26 COMENTÁRIOS "estendidos"
sábado, 28 abril, 2007
IMPRENSA: “Criptonita, Sistema GL-581, Fraternidade e Educação”


- Outro planeta - Elite do berço e do sobrenome - “S” de Sérvia -

Caros,

Apesar de o mundo midiático ser repetitivo com mesmices burras e rotinas que não surpreendem, alguns dias parecem amanhecer diferentes e noticiáveis. Pois é, a manhã desta última quarta-feira (25/04/2007) saltou-me aos olhos com manchetes relevantes e não com figurinhas repedidas como “Carros bomba explodem no Iraque”, ou “Criança é baleada em tiroteio entre bandidos e policias na favela da Rocinha no Rio de Janeiro”, ou mesmo “George W. Bush nega assinar contrato de preservação da biosfera”...

As manchetes eram:

Achado o 1º planeta habitável fora do Sistema Solar.

Observatório Europeu encontrou corpo celeste semelhante à Terra ao redor de estrela mais fraca que o Sol. Um grupo de astrônomos diz ter detectado o primeiro planeta capaz de abrigar vida fora do Sistema Solar. (...)

Mineral parecido com a criptonita do Super-Homem é descoberto na Sérvia

O encanto acabou. Pesquisadores do Museu de História natural de Londres confirmaram ontem a existência de um mineral muito semelhante à criptonita, material que costuma aterrorizar a vida do Super-Homem. (...)

Escola que melhorar terá mais dinheiro do governo

Além de destinar R$ 1 bilhão neste ano aos mil municípios com piores indicadores no setor, o Plano de Desenvolvimento da Educação apresentado ontem pelo governo premiará escolas publicas que conseguirem melhorar o desempenho.

 (Fonte: Folha de São Paulo)

A INCRÍVEL Quarta-feira, 25 de abril de 2007.

Não é todo dia que abrir o jornal significa se deparar com a possibilidade de habitar um outro planeta que tem órbitas estelares próximas e temperaturas apropriadas para a existência de água líquida. Não é todo dia que se desmascara, na realidade, a fórmula para destruir um super herói do quilate do Super-Homem. Criptonita = Sódio, Lítio, Boro, Silicato e Hidróxido. O mineral encontrado perto da cidade de Jadar virou motivo de orgulho, até dizem por lá que o “S” no uniforme do mais famoso dos heróis é uma alusão à Sérvia. Vale dizer também que não é todo dia que sociólogo propõe fraternidade para combater crises, pois é, no Editorial deste mesmo dia o jornalista Clóvis Rossi comenta que em meio a “autoflagelação” da França com a socialista Ségolène Royal o sociólogo Edgard Morin propõe solidariedade e combate ao consumo desenfreado como solução para mudar o mundo. Isso é relevante se pensarmos que há pouco tempo atrás os sociólogos só matutavam guerrilhas e formas de estruturar e desestruturar o poder.

E pra terminar com mais reluzente e surpreendente chave de ouro, não é todo dia que se anuncia por parte do governo um investimento de R$ 1 bilhão em educação seguido de uma das pérolas discursivas do nosso presidente Lula, mas que neste caso soa muito positiva: “O tempo da elite do berço ou do sobrenome fica para trás”.

"O Varal, um café e o infinito..." tem orgulho e responsabilidade de comentar um dia como esse, observando os passos da imprensa e secando idéias para mudar o mundo. §

Lucas Limberti

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postado por 35821 as 10:00:15 # 2 COMENTÁRIOS "estendidos"
domingo, 22 abril, 2007
CONTO: "A Bailarina e o Pierrot"


Foi assim:

O dia amanheceu como nunca antes houvera, havia um perfume diferente nas flores que circundavam as calhas de roda daquela pequena cidade praiana. Um calor, um clima perfeito. As ruas da cidade eram todas de pequenos paralelepípedos encaixados um a um pelos primeiros moradores daquela província. A praça central ficava de frente pro mar e de costas pruma igrejinha. E eu cheguei ali maravilhado pelo lugar, mas de repente toda aquela beleza foi diminuída diante de uma imagem que se fez presente em minhas pupilas que estarrecidas se dilataram.

Era ela, a menina dos meus sonhos, a mesma que há dias eu vinha sonhando noite após noite. Ela estava ali, dançando no meio da praça de paralelepípedo, sozinha, de frente para o mar azul e de costas para a igrejinha.

E ela girava, era um calendoscópio multicolorido, sua saia vermelha manchada rodava e descobria aquelas pernas torneadas e fortes, seu cabelo dourado enchia de energia seu entorno e seus cachos vivos eram como seu sorriso hipnotizante. Mas, o que realmente chamava a atenção era seu jeito, a forma com que dançava. Buscava não sei de onde uma ternura a cada giro, a cada passo com sua sapatilha impecavelmente branca.

Nos olhamos. Cheguei até ela sem nada falar, nos olhamos de um jeito quente como quem se vê pela primeira e última vez. Nossos olhos entraram nos do outro e se tornaram um só. Começamos a dançar, ela bailarina, eu pierrot. Eu desritmado, ela perfeita. Dançamos sem parar. A tarde ameaçou cair, mas antes que a fizesse, uma força atraiu meu lábio até o dela e um beijo aconteceu.

Nesse momento os dois músicos que da sacada de um antigo sobrado tocavam a mais sublime das músicas aumentaram a força de seus acordes e do céu uma forte chuva de verão caiu sobre a praça.

A chuva refrescante misturava-se aos raios do sol que a essa altura já se despediam. Era coisa de pele, uma química nunca antes vista. A cidade parou para ver aquele beijo. Era erótico, nossos corpos molhados se entrelaçavam numa ousada dança da vida, ao mesmo tempo que o beijo era verdadeiro, cheio de um sentimento tão grande que fizera brotar nos jardins da praça rosas vermelhas e azuis. Os sinos da igrejinha anunciavam os anseios do cosmo. O amor se particularizou nos nossos lábios amantes, como em nenhum outro ser humano.

A natureza não satisfeita fez com que as estrelas primeiras que despertavam no berço crepuscular começassem a cair. Caia a chuva e junto com ela estrelas cadentes e incandescentes que inundaram nossa volta. Dando a sensação de estarmos no céu com as estrelas, ou no mar com a chuva.

Não se sabe quanto tempo durou aquele beijo. Muitos palpites foram dados, horas, dias, meses...

Sabe-se que fora uma pausa de mil compassos, matutos do local pressupuseram que durou cerca de 30 dias. Ininterruptos. Durante todo esse tempo, a chuva não parou, os músicos com suas flautas e rabecas não arredaram pé dali, as rosas não pararam de brotar cada dia mais lindas, os sinos de tocar e as estrelas de cair.

De repente o dia não amanheceu em paz.

Um deslize e os lábios momentaneamente se soltaram. Os populares que dia a dia embeberam-se naqueles loucos beijos e que os fizeram apaixonados também emudeceram sem rumo.

O mundo compreendeu que aquilo estava em desalinho e respondeu a altura. A chuva parou. Uma ventania seca começou a desintegrar meu corpo. O sino parou. O mar ressacou. Ouviu-se gritos e as rosas secaram. Os músicos sentiram que sua música perdera a razão de ser. Escureceu e aquela ventania levou as estrelas e meu corpo em pó espalhados céu a fora.

A menina bailarina se mostrou forte, mas sozinha olhou aquilo tudo e sentiu-se apaixonada. Caiu no chão de paralelepípedos de joelho e chorou. Culpou-se pela partida, devia ter beijado com mais força.

Meu pó dissolvia-se mais e mais na via-láctea longínqua e a bailarina sem saber o que fazer gritou por ajuda. O sombrio silêncio fez seu coração apaixonado agarrar-se magicamente e com toda força na última estrela que estava por ali. Subiu ao céu nebuloso. Tinha esperança. De lá nunca mais voltou. Foi dada por todos como morta.

Muitos anos mais tarde os velhos contadores de histórias contam que todas as noites ouviam-se sons de loucos beijos pelo céu daquele povoado. Que os amantes se encontram lá em cima e toda as noites sentados ora na cauda de cometas ora em pontas de estrelas se amavam plenamente.

Bom, eu daqui de cima te digo que valeu a pena ela ter agarrado aquela última estrela. Os beijos aqui do alto são ainda melhores. §

Lucas Limberti

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postado por 35821 as 05:28:37 # 11 COMENTÁRIOS "estendidos"
terça, 17 abril, 2007
REDUNDÂNCIA: “O eterno em miúdos”


REDUNDÂNCIAS
Ferreira Gullar

Ter medo da morte
é coisa dos vivos
o morto está livre
de tudo o que é vida

Ter apego ao mundo
é coisa dos vivos
para o morto não há
(não houve)
raios rios risos

E ninguém vive a morte
quer morto quer vivo
mera noção que existe
só enquanto existo

Difícil como a morte fácil

Se falas da vida, retruco com a morte. Não ser visto não significa o insensível. A atmosfera fantasmagórica é sempre humana e corrupta. O além, no trampolim do sem fim das estrelas, como diria Drummond, é o invisível sensível e energético. Chame do que quiser. Ondas, raios, sopros divinos, enfim, a roupagem da vida pressupõe a morte se é para soar redundante. Mal sabe e bem sabe o poeta que livre desta veste você se encontra mais vivo e onisciente do que nunca, onde o existir é um verbo que se conjuga no infinito para todos, crentes e descrentes no eterno.

Deslizando a vida como um jato, o fluxo de si é rápido e é grão. O eterno, já que por aqui nos aconchegamos em metáforas do infinito, é a certeza. O espectro do além é o banquete servido para o relâmpago daquele que atinge sabedoria e entende o segredo. Daí em diante ir embora significa voltar amanhã e desfilar alegoria em alas de guerrilha do bem. Pois é. O difícil é entender que guerra é bem quando é do contra. A palavra guerra vem do germânico werra inicialmente significando simples discórdia e não de um evento sangrento como observamos hoje em dia. E vale quem discorda da escuridão e esguio plana nos éticos encaixes positivos do universo.

E neste sentido o duelo de si mesmo com as adversidades e quiçá com a morte é o efeito divino da centelha que rege a existência do homem.

E se poetar é ser eterno, se contradizer e redundar, aquele Ferreira que diz que existe só enquanto existe é o mesmo Gullar que fala da força estranha de Marquinhos sorrindo das estrelas para sempre.

Pois é, a morte para Marquinhos não foi redundante. §

Lucas Limberti

MARQUINHOS

Ferreira Gullar

Marquinhos era um menino especial: acreditava em gnomos e fadas e achava que os bichos todos, especialmente os da floresta — jacarés, tamanduás, antas, capivaras e onças — eram encantados. Na verdade, para ele o mundo era um sonho de que ele fazia parte com seus pais, seus irmãos e o gato da casa. Nada o impressionava mais que o céu estrelado.

Talvez por isso, quando foi passar alguns dias no campo, teve um espanto: lá o céu era ainda mais fantástico, mais fervilhante de astros do que na cidade. Passava as noites deitado no meio do campizal, de cara para o céu e assim adormecia. Certa noite, sonhou que caía na direção das estrelas e quando acordou (se acordou) viu que não era sonho, não. Ainda tentou agarrar-se nos talos do capim para não despencar no abismo celeste, mas uma força estranha o sugou e o arrastou vertiginosamente pelo espaço. Seu pai, sua mãe, seus irmãos, ao vê-lo sendo sugado para o céu, aflitos, gritaram por seu nome, mas desistiram ao ver que ele ria feliz e lhes acenava alegremente até misturar-se à poeira luminosa dos astros.

Ainda hoje, nas noites estreladas, eles olham para o céu à procura de Marquinhos que — essa é a impressão deles — os espia, sorrindo, de entre as estrelas.

Clique e leia uma outra análise sobre a poesia Redundâncias de Ferreira Gullar no site “A procura da poesia”.

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postado por 35821 as 11:48:53 # 5 COMENTÁRIOS "estendidos"
terça, 03 abril, 2007
CUMPLICIDADE: "Quinta-frames"


Uma receita vencida. Um anti-Herói.

1 quilo de carne moída. Meia dúzia de batatas, um tempo no relacionamento que existiu, o Rio Pinheiros, lágrimas e risos, risos e lágrimas, lágrima e lágrimas. Um dedo quebrado e um ovo de páscoa feito de amendoim. Mães reclamam da linguagem de alguém que a estuda, algumas mexericas de casca lisa completam a lista, helicópteros circundam o aeroporto que tem suas imediações intrafegáveis, 25 quilos de cada lado no supino, Caetano e O Rappa ilustram os sons, uma bochecha inchada e repouso forçado para mãe, um teste para um curta, um papel de zelador, o trem e o ônibus normalmente lotados, um Peugeot 206 cinza, muitos sms’s, um PIS da previdência, um currículo para revisor, a mão e o coração pulsando para a escrita, as dunas de cá são mais afiadas, uma livraria, um prefeito malandro, um dicionário português-italiano e o Hospital Alvorada. A praia próxima e o coração distante, ambos em equilíbrio para suportar a prova, bonecos etiquetados por logotipos, mãos infantis ligam a práxis ao poeta Drummond, o professor emociona-se com o mínimo lapso da descoberta, 8 polenguinhos para não mastigar, reunião pedagógica, um chocolate Lancy de sobremesa e o livro “Os criminosos vieram para o chá” como um romance de enigma, a biblioteca de Bin Laden, a ulcera, a paixão. Convites para uma breja, provas para ela corrigir, químicas para ela estudar. A luz acabou para o diretor de arte que chegará mais tarde. Uma pergunta: - Será que o Biscoito consegue vender o celular para acampar? Não sei, nem para onde ir quando o destino é um só. Quando o acaso teima em mostrar a rosa mais fugidia. O Centro Cultural lotado, igual ao trem que já mencionei. 1 pote de margarina com sal. Doce ou amargo é melhor que carne seca. Um recado-comentário pela garçonete, seis séries de cem para o abdômen agüentar o nervoso, pai da fome, do frio na barriga, dono do meu tanque, dispensa, fogão e lavanderia. 1 quilo de açúcar, 1 lata de cerveja, 2 poesias, uma ponte de intermédio que leve a uma  meia-noite onde talvez um sorriso largo me presenteie. Estamos quase lá. Ele não veio.

Às vezes terça tem cara de quinta e abril cara de setembro.§

Lucas Limberti

A seção CUMPLICIDADE refere-se a retratos abstratos e espasmos cerebrais não-noticiáveis do autor que vos fala.

Leia também: CUMPLICIDADE: "Descaminhos de uma sexta-feira"

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postado por 35821 as 11:32:17 # 9 COMENTÁRIOS "estendidos"
terça, 27 março, 2007
PALHAÇO: "A ressurreição do palhaço no dia do circo"


Hoje tem marmelada. Tem sim senhor.

O "Varal do Infinito" comemora hoje o maior espetáculo da Terra. Hoje é o dia do circo. As homenagens renascem o palhaço.

Viva a magia!

------------------------------------

O circo voltou.

Hoje tem marmelada, tem sim senhor.

As fábricas fecharam mais cedo. O pai organizou o domingo para sentar com o filho na primeira fileira e a mãe se perfumou toda. A madrinha desmarcou a reunião, o irmão comprou maçã do amor e o vizinho ofereceu carona.

Era a utopia do sonho. Por um momento todos compactuaram em se ludibriar pela magia. Pois é, no circo você assina um contrato de cavalheiros com a magia, você aceita se levar pelo belo da emoção. Diferente dos ladrões, embusteiros e ratos de rapina que te seqüestram a razão do controle sem o pacto. Diferente da tristeza. Diferente da morte.

Explode alegria de novo. Entra o mestre de cerimônia, o elefante, as irmãs siamesas, o cospe-fogo, a mulher barbada e as motocicletas no globo da morte.

Gritos, assovios, aplausos e uma dúvida. Onde estaria o palhaço?

O espetáculo rumava para seu fim e nada do romântico pateta dar ares de sua graça. Alguns engoliram seco, outros angustiaram os olhos e o estomago.

Surge um anúncio extraordinário. O circo perdera seu palhaço num disparo febril da última estação. Senhoras e Senhores desculpem, mas o palhaço já não encanta mais por estas bandas terrenas. Confundido sem as palmas no espetáculo da temporada passada ele disparou contra sua existência.

Silêncio.

A platéia consternada se equilibra no escuro das sensações. Era o inatingível.

-Pois ora. Levantou-se um senhor poeta da arquibancada esbravejando em tom emocionado: Se as coisas são inatingíveis... ora! Não é motivo pra não querê-la... Que tristes os caminhos, se não fora a mágica presença da estrelas!*.

Palmas e palmas fortificavam o entorno do ressoar daquelas palavras. De súbito cai do alto da lona do circo uma cartola colorida no centro do picadeiro. Intensificam as palmas e as lágrimas de emoção ao ver entrar por cada espaço daquele circo estrelas de verdade, pela porta, pelos fundos, pelo furo da lona. Uma chuva de estrelas cadentes rumava para a cartola colorida. O público inebriado embeveceu-se por aquela magia e bateu mais palmas.

Palmas, palmas, palmas, palmas...

O palhaço como fênix renasce e grita:

-Hoje tem marmelada, tem sim senhor.

Desta vez...

O circo não fechou, rumou para o infinito da alegria. §

Lucas Limberti

Leia a primeira parte desta história em: PALHAÇO: "Uma pirueta, duas piruetas, bravo, bravo"

Leia também: CIRQUE DU SOLEIL: “O maior espetáculo da terra” 

*DAS UTOPIAS – Mário Quintana

- Texto baseado em um comentário deste post -

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postado por 35821 as 11:13:10 # 4 COMENTÁRIOS "estendidos"
domingo, 18 março, 2007
CRASH: “Bush in Brazil”


“A semente da intolerância produz frutos envenenados de dor”

Após a visita de Lula ao Uruguai com o intuito de fortalecer os laços do Mercosul, imediatamente aportou no Brasil em uma missão energética o presidente dos Estados Unidos George W. Bush. Ele veio pra São Paulo e não para Brasília como costumam fazer as comitivas presidenciais. Viram! Até o Bush fugiu da esplanada...

Crash: Um filme sobre a América

Um macaco chamado George W. Bush é a representação de um sistema cretino que suja uma sociedade inteira.

Pausa.

Elevemos o léxico e não deixemos contaminar pelo ódio, pelo dente por dente, pela mesma moeda. Não caiamos na armadilha. A engrenagem da sociedade está devastada, o ódio corroe as relações que se permeiam pelo medo. As pessoas desconhecidas são “estranhos em que não devemos confiar”, ninguém se olha, ninguém se toca. Latinos são mexicanos, árabes são terroristas, brasileiros são mulatas, negros são bandidos e os americanos civis são vítimas. Vítimas de si mesmo, de um sistema intolerante e racista.

Vale a pena conferir o filme “Crash – No limite” do diretor Paul Haggis que mostra a viscosa e perturbadora complexidade das relações humanas no que diz respeito a intolerância racial da América contemporânea. Com uma ótima trilha sonora, o filme encadeia uma série de tensas situações urbanas em que as pessoas se deixam levar por um drama social marcado por fobias ideológicas que cada vez mais sufocam os filhos do Tio Sam. Se me permitem o chavão, o filme é um emocionante e explosivo “murro no estômago”.

Enquanto não se considerar uma diplomacia pacífica entre os povos, o elefante branco de desentendimentos tende crescer e explodir, o esfacelamento vem sendo escrito por recados em metrôs repletos de assombros explosivos e em torres a espreita de aviões. E o Bush...bom este está interessado no petróleo do Oriente Médio e da Venezuela.

Como de costume, o “Varal do Infinito” abre as portas para ampliar a rede de contemporâneos. Atentem para o texto abusado e irônico que escreveu o historiador e meu amigo Renato Fontes de Souza sobre a expectativa da passagem de Bush pelo Brasil. §

Lucas Limberti

E O BUSH VEM AÍ, OLÊ-OLÊ-OLÁ!!! E O BUSH VEM AÍ, OLÊ, OLÊ, OLÁ!!!

É isso mesmo, povão, o grande mentor do Eixo do Mal vem pra favela em pessoa, exalando todo seu fedor! Para quem ainda duvidava da escatologia plena, o Apocalipse chegou! Primeiro foram as Guerras e as imposições comerciais. Depois o aquecimento global e um calor infernal. Agora vem o Darth-Vader em pessoa trazendo a peste! O mais legal é saber que o Diabo retornará na figura do Hatzinger daqui há pouco! ESCATOLOGIAAA!! É O FIM DOS TEMPOS!! CAAAOOOSSS!!!! CAOS TOTAL E IRRESTRITO. Protejam as drogas e estoquem as criancinhas!! HÓR HÓR HÓR

Se a ONU condena o Nazismo, por que o Bush é presidente? Se o tal do Bulshit não fosse sujeira, precisava mesmo de tanto pulícia atrás dele? Precisava montar um bunker à céu aberto pra fazer reunião? É só para encher o saco mesmo que ele vem. Com seus super-poderes, bastava ele dar um telefonema lá da Red House (Casa Branca manchada de sangue)!! Fico imaginando como seria essa ligação:

"(BUSH, sentado, ajeitando a braguilha) – Não!! Não!! Eu tracei um plano e ele tem de ser seguido!..... Oh, fuck! Não tem nem mais, nem menos! É assim que eu quero que seja e assim que tem de ser! Ordens são ordens! Você deveria saber disso, you asshole!..... E não me telefone mais, stupid bastard!! Estou trabalhando, ouviu?! I'm fucking working!!......... Tsc... Shit!!

(CONDOLEEZZA RICE, de joelhos, limpando os cantos da boca) – Quem era, my darling Mr. President?

(BUSH, colocando novamente a mão na nuca da Rice) - ... The motherfucker Lula!..... now, do your job!"

.... é, minha gente, ser dono do mundo é bem duro.....

Em sua turnê pela Sudamérica (Uruguai, a Colômbia, a Guatemala e o México), o Bulshit vem pessoalmente ao Cárcere Brasil para ver se está ocorrendo tudo direitinho. UÉ?! Precisa?! É mesmo necessário pisar aqui para ver que tudo está indo direito? Ou o Super-Homem não consegue ver da Sala de Justiça que está tudo indo pra DIREITA? Com sua visão de Raio-transgênico-X ele já deveria ter visto isso. Com sua super-audição espião-vigilância-BigBrother e ele já deveria ter ouvido e gravado todas as conversas. Enfim, com sua super-força atômica ele já esmaga todo mundo que não está indo para direita!  Precisa mesmo vir aqui pessoalmente dar seu super-peido? KRIPTONITA (resistência nele) NELE!!

Em todos os países são organizados protestos contra a visita do ditador yankee. No Uruguai, 4 ativistas foram detidos sábado por espalharem propaganda e pixações anti-Bush por Montevidéu. A mídia latina faz estardalhaço sobre o esquema de segurança, em um esforço conjunto dos meios de comunicação, governos e aparato repressivo para intimidar as esperadas mega-manifestações anti-Bush. Mas que se foda esse aparato de que guerra que o essa besta apocalíptica traz com ele. Os movimentos sociais pretendem realizar diversas manifestações pelo "Fora Bush!", com uma mega-mobilização central em São Paulo na quinta-feira, dia 8, na Avenida Paulista, com concentração na Praça Oswaldo Cruz às 15hs. As mobilizações ocorrerão junto com os atos do dia internacional das mulheres.

Renato Fontes de Souza é meu amigo de infância e historiador  

Contato: recafontes@hotmail.com

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Ficha Técnica 

Título Original: Crash
Gênero: Drama / Tempo de Duração: 113 minutos / 2004 (EUA)
Site Oficial: www.crashfilm.com

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postado por 35821 as 10:36:40 # 3 COMENTÁRIOS "estendidos"
domingo, 11 março, 2007
CINEMA: “O mágico sopro de vida da ilusão”


O embate entre o mágico e o cético

A magia de um truque encanta até os mais céticos e duros aristocratas, a poesia da arte da mágica nos torna vencidos. O ilusionista domina sua platéia desconstruindo a razão e revertendo os labirintos da lógica com o óbvio.

Um sorriso no rosto de um bruto é o completo senso de submissão aos orquestrais tilintares dos dedos daquele o domina. A platéia se inebria aos lascivos laços do invisível fantástico criado pelo condutor da verdade, o mágico. Senhor dos movimentos ele é apaixonante e sob a égide do estamento que dá a ilusão do sobrenatural ele se torna poderoso.

Todo esforço para subverter a lógica do esperado torna o “sorriso surpreso” no elemento fantástico que alimenta o fazer da cartola e simplesmente cria a sensação de que vale a pena estar vivo.

O filme “O ilusionista” do diretor Neil Burger conta a história do famoso ilusionista Eisenheim (Edward Norton) que assombra as platéias de Viena com seu impressionante espetáculo. A história é surpreendente como mágica, destaque para o sorriso do Inspetor-chefe Uhl (Paul Giamatti) em uma das cenas finais. Seu sorriso conclusivo e catártico representa todo encantamento com a magia do ilusionismo onde os truques da vida real são alumbramentos de satisfação e sopros de vida. §

                                                                                        Lucas Limberti

Ficha Técnica
Título Original: The Illusionist
Gênero: Drama / Tempo de Duração: 110 minutos / 2006 (EUA/República Tcheca)
Site Oficial:
www.theillusionist.com

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postado por 35821 as 01:52:49 # 3 COMENTÁRIOS "estendidos"
terça, 13 fevereiro, 2007
TEATRO: “O ator e seus mecanismo sagrados”


"Cada ser humano é um abismo e a gente tem vertigens quando se debruça sobre eles"
(Büchner na peça Woyzeck)

O peixe dourado, o medo do abismo, o espelho e o infinito do teatro.

O medo e suas defesas:

O ator deve regar um jardim de artifícios que o protejam quando exposto ao risco, condição esta intrínseca a qualquer jogo cênico. A proteção que nega o medo do fundo do abismo é justamente o espelhamento. O sagrado e a magia do teatro se fazem do contato com o infinito metaforizado pelo jogo de espelhamento das vertigens. Ou seja, no momento em que a vertigem surge, e ela vai surgir, o ator deve criar condições para que ela seja inversamente refletida. Para tal é necessário um corpo moldado a este propósito, que a melodia do reflexo do espelho esteja afinada para as ilimitadas possibilidades do vazio. E assim sendo o vazio não surge como um lugar desconhecido, mas como um espaço onde existirá o reflexo infinito do ator enquanto abismo-espelho.

A rede de pesca:

A pesca do peixe dourado em uma cena teatral é o resultado de um trabalho metaforizado no ato de tecer a rede de pesca, o cuidado como os detalhes de cada nó individualmente, para que quando lançada ao mar alcance o objetivo maior e coletivo de se chegar ao peixe dourado. A única diferença com a pesca convencional é que a “pesca-teatral” não leva em conta o fator sorte, ou seja, o peixe é pescado de acordo com a qualidade da confecção da rede. O trabalho do ator é a mesma coisa, se forem trabalhadas com zelo todos os tentáculos de seu ser, o peixe dourado está garantido na mesa do jantar. Preservar e moldar os tentáculos significa proteger o cálice de cristal que permeia os princípios e convicções, fortalecer as estruturas de apoio e a fé representadas pela figura do cavalo e do fogo e principalmente liberar a inocente liberdade do músculo do futuro chamado menino.§                              

Lucas Limberti

Apreensões percebidas no processo seletivo teórico 2007 da ELT (Escola Livre de teatro) a respeito do texto “A porta aberta” de Peter Brook e “O cálice, cavalo, fogo e menino” de Rubens Corrêa.

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postado por 35821 as 10:34:19 # 4 COMENTÁRIOS "estendidos"
sexta, 09 fevereiro, 2007
VOYERISMO: Blog, Orkut e Big Brother


Informação, formação e fingimento.

O que move a leitura de um blog alheio?

É o inusitado-interessante.

Mas, o que há de tão interessante na vida de uma pessoa comum?

Na verdade nos encantamos por um falso “eu” criado pelo “outro”. Hoje o homem quer se colocar no mundo e cada vez mais a internet promove instrumentos para tal. Informações não faltam. Falta ação sobre a forma, falta formação de sujeitos que a transformem a informação.

O fenômeno de audiência Orkut é um exemplo disso. Neste site de relacionamento a pessoa cria um perfil que não é ela, mas a imagem que ela faz de si mesma e que interessa para que os outros apreendam. A não ser que este seja o propósito, todos aparecem em fotos bonitas, com dizeres empolgantes e così via. Sendo que na realidade as pessoas fora do Orkut não possuem essa atmosfera priápica como demonstram, não são tão inteligentes, fortes e belas.

É o mesmo processo que ocorre em romances autobiográficos. Oswald de Andrade, por exemplo, cria um personagem de sua pessoa em sua autobiografia narrando os fatos ao seu sabor, adjetivando e descrevendo de acordo com “seu interesse”. (clique e leia o artigo sobre o livro de Oswald publicado aqui no “Varal do Infinito”)

Pelo viés psicanalítico poderíamos pensar em um voyeurismo freudiano coletivo de observar sem ser visto. Prova disso é o lucro que a rede Globo leva com o reality show Big Brother em que um único “paredão” (dia em que as pessoas são eliminadas do programa), segundo o jornalista José Neumani Pinto da Radio Jovem Pan a emissora recebe cerca de 29 milhões de ligações com um preço do 0300 a R$0,30 e logo um lucro por final de semana de oito milhões e setecentos mil reais.

Em um único paredão a emissora ganha oito vezes o valor do prêmio que oferece ao vencedor.

Portanto, em todos esses meios, a propósito de nossos ideais, conjugamos o verbo “fingir”. §

Lucas Limberti

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

(Trecho de Autopsicografia –Fernando Pessoa)

Como ninguém é de ferro... Meu perfil no Orkut (clique aqui)

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postado por 35821 as 11:11:16 # 4 COMENTÁRIOS "estendidos"
quinta, 08 fevereiro, 2007
ANTI-MATÉRIA: “Não leiam este texto”


Caro leitor,

Não leia o texto a seguir. Ele vai na contramão do que você está acostumado. Talvez ele não te respeite e não te agrade. Se ele te destratar não ligue.

 “O varal, o café e o infinito...” seguirá sempre servindo episódios poéticos, críticas noticiáveis, poesia e arte.

Mas hoje parece ser feriado aqui, ou melhor, briga do “varal” com ele mesmo, coisa de família.

Agora eu era herói e meu cavalo só falava inglês - a noiva do cow-boy era você além das outras três eu enfrentava os batalhões, os alemães com seus canhões, guardava o meu bodoque ensaiava o rock para as matinês...

HOJE É O INÍCIO DOS ÚLTIMOS DIAS DO RESTO DE MINHA VIDA CARNAVALIZADA PELO QUE CHAMO DE LOUCURA E ESTAFA...

Acho que o trânsito me deixou assim.

Vesgo vê pelo avesso, eu cego - não me encontro no espelho...
Eu sou um pergaminho de soluções para problemas sem necessidade de resolução.

Sou dono do meu próprio mundo aqui pelo menos meu cachorro me obedece.

Meu criado é mudo com ele rusgas jamais aconteceram.

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Nada
Vale
Nada
Vale
quem não tem
nada no
Vale
Tchibummmm

Post-modern

Dada

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Emperrada as engrenagens mentais, acho que sou um velho reclamão.
Mas...e você...? Vai procurar o que fazer! Deixa-me conversar comigo mesmo... E curtir minha loucura que amanhã cedo, sem falta, eu me interno.
Vai...vai...
§

Lucas Limberti

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postado por 35821 as 01:56:44 # 1 COMENTÁRIOS "estendidos"
terça, 06 fevereiro, 2007
EUÉTHEIA: “Espetáculo encena loucura”


“Mas louco é quem me diz, que não é feliz”

(Mutantes)

A loucura elogiada

Redimensionar as regras em um mundo particular é considerado pelo ajuste caótico do mundo em que vivemos como loucura. Mas o claustro interior significa o contrário, o homem ligado a uma atmosfera psíquica diversa é livre da imposição padronizada, portanto considerado louco, pinóia, insano, doido, demente, bexiga, virado...

Subverter a lógica também significa estabelecer regras e seguir agindo sob a luz de um filtro de ações que segue outros paradigmas muitas vezes interessantíssimos.

Euétheia significa loucura em grego e é título de um espetáculo teatral que descreve o dia da vida de um homem que cria e recria seu mundo inventando seus próprios limites. Personagem de si mesmo, o homem inside com inocência e força sob a realidade que o circunda produzindo asas de papel, urros arrepiantes e singelos sons em ritmadas óperas com sotaque italiano. Um violoncelista acompanha ao vivo a técnica apurada dos vôos acrobáticos em corda indiana.

O espetáculo é baseado na obra Elogio à loucura, de Erasmo de Roterdan.

Vale a pena conferir! §

Lucas Limberti

Euétheia
grupo: Cia. Paraladosanjo - concepção: Marcos Becker - direção: Adelvane Néia
Elenco: Marcos Becker  -  Drama. (45 min, 14 anos)

http://www.centrocultural.sp.gov.br/programacao/teatro.htm

Leia também CUMPLICIDADE: “Descaminhos de uma sexta-feira” e descubra labirintos de uma cabeça cheia de ligações perigosas.

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postado por 35821 as 11:05:11 # 0 COMENTÁRIOS "estendidos"
sábado, 03 fevereiro, 2007
IMPRENSA MARROM: Parabéns Sampa sem tragédia banalizada


“São São Paulo meu amor “

(Tom Zé)

No último dia 25 comemoramos o aniversário de São Paulo

Faço aqui um questionamento: - Quantas vezes, você caro leitor, foi assaltado? Pegue o resultado e tire a média com a sua idade. Por exemplo, se você tem 20 anos e foi assaltado duas vezes, isso quer dizer que você é assaltado uma vez a cada década. Sendo este um morador de São Paulo, no “frigir dos olhos” a cidade não é tão perigosa quanto apregoa aos quatro cantos a “imprensa marrom”. É um custo benefício que vale a pena: um assalto a cada dez anos em função dos benefícios que a metrópole oferece.

Essa pesquisa dá certo. Faça com os seus e confira o caráter pacífico do mundo que vivemos. Esta amostragem pauta-se muito mais em um sentimento que afasta o discurso pronto e as fobias coletivas, o alarde ao crime só favorece a audiência dos jornais sensacionalistas, a manutenção do crime, logo da polícia e das ‘políticas’ que priorizam investimento em segurança como método emergencial e não em educação, por exemplo, que infere na raiz do problema.

O contexto midiático em que estamos inseridos transforma o cotidiano da vida do brasileiro em um filme de ação e terror. Ávidos helicópteros com nomes aventureiros tipo “Águia 1”, “Flecha de prata” acompanham viaturas na esperança de uma perseguição, mas a ação não vem.

A ação “ao vivo” não vem! Só aparece nas montagens e edições dos telejornais que repetem e repetem qualquer surto social normal a grandes cidades.

É tudo a construção de um ethos que atende a interesses. Para o jornal que só noticia crimes é óbvio que interessa a manutenção da criminalidade. Se não houver crime, não há matéria, não há jornal.

Por isso a exaltação de figuras do crime, do inimigo comum da sociedade. Uma espécie de história em quadrinhos onde os maus precisam existir para que se tenha o embate, a “notícia”.

Criam-se grandes anti-heróis (Beira-Mar, Marcola, Maníaco do parque, Chico picadinho, Bandido da Luz vermelha...etc) e perpetuam maniqueísmos que fazem da vida real um show em que o roteiro segue pressupostos carregados de parcialidade. E o que se percebe é uma realidade em que a tragédia é banalizada, uma espécie de ode a João Gostoso... §

Poema tirado de uma notícia de jornal

João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.

(Manuel Bandeira - Estrela da vida inteira)

 “A paz paulistana é mais plausível do que negligências metroviárias”

- Feliz Aniversário São Paulo –

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postado por 35821 as 12:15:25 # 0 COMENTÁRIOS "estendidos"
quinta, 01 fevereiro, 2007
SEMANA DE 22: “O amor e os reflexos dos contemporâneos”


Ampliar a rede de contemporâneos é palavra de ordem.

Veja a notoriedade que o movimento dá ao movimento:

Semana de 22 em algumas palavras:

Oswald casava com Tarsila que pintava Mário que criticava Lobato e coaxava junto a Bandeira no Municipal. Bopp se dói com Pagú que descasou o Oswald e escapou para Rússia, esta que negou o futurismo de Marinetti e criticou o burguês. A Ode de Mário dá mãos para a crítica citadina de Oswald lidas por Graça Aranha. Lobato achincalha a atitude estética forçada de Malfati que junto a Brecheret e Del Picchia formam um Nós, título de Guilherme de Almeida e assim sendo constituem uma rebuscada órbita de si mesmo. Enfim, em outras palavras, falem bem, falem mal, mas falem de mim!

Dito isso vamos agora falar de amor. Pois é. Não pense que mudo de assunto assim abruptamente, apenas vou ampliar minha rede de contemporâneos. A exemplo do que fiz no post anterior em que agraciei minha leitora com uma homenagem, também fui homenageado como leitor no blog 'Exercícios de leitura' de um amigo, escritor e contemporâneo. Sirvam-se com a “Dor Oculta” de Ailton Pereira Liberal e leiam a seguir o post publicado com minha resposta clicando sobre o texto:

“Não revelamos a ninguém, muitas vezes, o mal que nos atormenta. Ou talvez porque saibamos que ninguém (nem o ser amante) se importa com a dor que sentimos. Ou… talvez porque saibamos a dor de amar a quem fingimos não conhecer, — ao ser amante que nos pune com um olhar de pura malícia…Mas a dor purifica ferindo as profundezas do coração. E o suspiro, que profundo! É a angústia abrindo o corpo, e o corpo libertando a alma. O resto é fingimento… e silêncio. Não há razão para choro e pânico. Ainda existe esperança de realização muito além da eternidade…” §

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postado por 35821 as 04:14:59 # 3 COMENTÁRIOS "estendidos"
quinta, 18 janeiro, 2007
METABLOG: "Homenagem ao leitor"


O “Varal do Infinito” abre este espaço em nome de tão aura caracterização. Coisa gostosa é receber um comentário deste. E neste início de 2007 a Cecília, que não deixou sobrenome nem e-mail, ganha um post assim... só pra ela.

Cecília:

Cheguei aqui, nem sei como. Mas é lugar que dá vontade de puxar uma estrela e sentar. Coisa boa é saber quer tem pano pra estender neste varal do infinito. Assuntos universais. Gente que traz universo dentro do peito é assim. Só sabe expandir.Queria dizer que é coisa rara um blog que dê vontade de ficar.Espaço de transcender.
E como esse ano espera pra se fazer novo, desejo que vc o faça com mt luz e amor.

domingo, janeiro 14, 2007 01:19

De quebra, para que o assento estelar acomode sempre com mais prazer, o “Varal do Infinito” continua as comemorações de Ano Novo e serve um outro trecho de um outro poema, mas do mesmo autor. §

PASSAGEM DO ANO – Carlos Drummond de Andrade

O último dia do ano
Não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
E novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
Farás viagens e tantas celebrações
De aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com

                                                                 [sinfonia e coral,  

Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa, já se expirou, outras espreitam a morte,
Mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
E de copo na mão
Esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
O recurso da bola colorida,
O recurso de Kant e da poesia,
Todos eles... e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
Lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

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postado por 35821 as 01:03:29 # 6 COMENTÁRIOS "estendidos"
sexta, 05 janeiro, 2007
2007: "O Varal do Infinito veste branco"


O “Varal do Infinito” veste branco para desejar a todos um 2007 cheio de alegria, música, poesia, livros, paz, conquistas, beijos pra quem é de beijo, abraços pra quem prefere. Que o dinheiro aumente na mesma proporção que a fé em Deus. Que os afetos, praias e acordes façam parte do cotidiano. Que razão e emoção se equilibrem em versos soltos, que se corrijam erros e se cometam inevitáveis outros.

Enfim, que o amor prevaleça frente às provas e dificuldades.

Muitas sensações e sorrisos a todos!

Em 2007 Seguiremos  “estendendo” o verso que vê do avesso, servindo reflexões aromáticas, prazer e arte. Aliás, segue um trechinho da “Receita de Ano Novo” de Carlos Drummond de Andrade. §

Lucas Limberti

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Imagem: Reveillon du Coiset by Jean-Gabriel Domergue

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postado por 35821 as 12:18:56 # 6 COMENTÁRIOS "estendidos"
domingo, 17 dezembro, 2006
CUMPLICIDADE: "Descaminhos de uma sexta-feira"


Labirinto de mim

Passo meses, estações questionando minha sanidade. Será que sou louco ou lúcido quando quero que tudo vire música. Poetas cantam o pecado de se desprezar quem lhe quer bem... Certo: mas até aí quem sou? E se sou, o que sou? Acho que reminiscência do que fui e só existo nos raros átimos de alumbramento que surtam nas cardíacas oscilações de meu juízo, estes, por hora em voga, revelam a busca pelo não dito, pela respiração perdida e pelo sono que sonha flores vivas e ousadas por mim...
Às vezes numa noite de sexta-feira, só me resta "eu", uma ponte de intermédio e as miúcias das minhas eternas e confiáveis companheiras: As Palavras.

Cabeça cheia de ligações perigosas... Meus pensamentos são nitroglicerina, mais dia menos dia as combinações e espasmos cerebrais apagam e esqueço tudo. Talvez seja a solução mais salubre para minha gana de ser onisciente. §

Lucas Limberti

A seção CUMPLICIDADE refere-se a retratos abstratos e espasmos cerebrais não-noticiáveis do autor que vos fala.

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postado por 35821 as 10:01:13 # 5 COMENTÁRIOS "estendidos"
quarta, 13 dezembro, 2006
PALHAÇO: "Uma pirueta, duas piruetas. Bravo! Bravo!"


O circo chegou.

Explode alegria, corre a criança, a cidade empolvoroza ouve o desfile:

-Atenção comunidade chegou o maior espetáculo da terra!!

Saltos, mágicas e palhaçadas.

O povo sorri com o coração cheio de vida vendo o desfile. Estouram foguetes, sobem balões, passam elefantes e mulheres barbadas. Na frente de todos está ele, o grande palhaço, o malandro inocente, o triste maquiado de alegria.

Alvoroçados todos correram para as bilheterias, lotaram o espetáculo, compram pipocas doces e salgadas e até fim do espetáculo esqueceram-se da dor de ser o que eram.

Passou a temporada. A magia do circo é um sopro. Quem viu viu, quem não viu que junte seus pacotes e corra atrás da trupe.

O choro da criança alarmou, mas aos poucos cessou.

Neste farfalhar de emoções, esqueceram  de avisar o palhaço da partida. Com a lona ainda montada ele foi, como deveria ser, pra sina de sua cena. Sorriu melancólico.

A maquiagem do palhaço só vale no palco, sentado no camarim ele se despede da tristeza. Afasta-se do pó e empunha seu violino para cena de seu dom e de seu tom. Mal sabe ele que hoje a platéia não vem. O circo fechou, a trupe se arrancou. E mesmo assim o palhaço apresentou-se como se aquela fosse a última vez pisasse em um picadeiro.

Após o espetáculo, sem palmas, sem risos, na companhia dos grilos o palhaço sacou um revólver da cartola colorida. Empunhou contra a o centro de seu pensamento.

Disparou. Sem a magia do aplauso o místico som do disparo explodiu sua alegria.
O circo se foi. §

Lucas Limberti

Laia a continuação desta história em: PALHAÇO: " A ressurreição do palhaço no dia do circo"

Leia também: CIRQUE DU SOLEIL: “O maior espetáculo da terra”

Imagem: O artista plástico e escritor Ray Respall Rojam nasceu em Havana, Cuba, no dia 17 de abril de 1987. É estudante da "Academia de Artes San Alejandro", chefe de redação da revista "La Edad de Oro en Nosotros" e colabora com revistas eletrônicas de diversos países, inclusive Espanha e Argentina.

Contato: ortiz@ff.oc.uh.cu

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postado por 35821 as 01:34:35 # 6 COMENTÁRIOS "estendidos"
sábado, 02 dezembro, 2006
CINEMA: “Imag(in)em Koyaanisqatsi”


A ausência da palavra na poesia das imagens

Koyaanisqatsi é um desafio aos olhos viciados e ansiosos.

A anti-palavra dá o contexto visual da pastelaria midiática e publicitária que respiramos, da velocidade banal que nos impede de pensar pela imagem. A inquietude no sentido de não concentração é um artifício hipnotizante que interessa ao arrebanhamento normatizante de receptores, de clientes.

Da natureza ao concreto permeado pelos inúmeros carros da via expressa.

A onda do mar e a onda de carros cortados pelo avião.

Cada carro com uma só pessoa.

Carros, tanques, caças.

O universo ganha proporções imaginéticas do micro e ao macrocosmo.

E=MC2 , fogo, explosão, mísseis e velocidade, Rosa de Hiroshima...Silêncio.

A sombra das nuvens sobre a cidade cobre o silêncio em contraste ao caos. O concreto, o construído e o destruído, da natureza ao estado de coisas por ora tocado, por ora infectado pelo homem.

Assim é Koyaanisqatsi. §

Lucas Limberti

(Koyaanisqatsi - Life out of Balance - 87 min.) Um filme de Godfrey Reggio

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postado por 35821 as 12:58:28 # 5 COMENTÁRIOS "estendidos"
domingo, 26 novembro, 2006
ITÁLIA: "Berlusconi e o estrangeirismo lexical"


“Il mio rapporto con Silvio Berlusconi non è personale, ma è strategico ed è importante per i nostri popoli, ed è importante per gettare le fondamenta della pace" George W. Bush    

Hamburguer della mama!!

Tenho grande interesse pela língua e cultura italiana,  pois trago laços sanguíneos “mezzo” calabrêse, “mezzo” toscano...

A língua de um país carrega consigo uma genética semântica que é viva e sujeita a influências do balanço financeiro dos que a carregam no colo.

Tantos anos de Berlusconi no poder do “país da macarronada” deixou os que lá vivem com um “sotaque” estadunidense.

O Berlusconismo levou a Itália a uma política externa que se empenhou em estabelecer relações de cabresto ao laço do cawboy texano George W. Bush.

Com isso, não só absorveram a cultura do medo impregnada nos americanos, como demarcaram o american way of life em seu léxico.

É incrível. Existem no idioma italiano uma série de palavras que foram, sem motivo aparente, trocadas por palavras em inglês. A natureza do empréstimo linguístico, normalmente se dá por uma falta de correspondência lexial no momento da tradução, mas no caso dos italianos a natureza  destes empréstimos é meramente passional às influencias do dedo gordo do tio Sam.

Repare nestes exemplos. Em todos os casos a  correspondeência em italiano existe e foi praticamente esquecida por seus falantes:

Chiclete em italiano é Gomma da masticare, com o tempo virou cingomma e atualmente é chewing gum. Babá um dia foi Balia asciutta, mas agora só seu ouve babysister. Um sujeito solteiro seria traduzido como Celibe ou scapolo, mas lá todos o chamam de single. Final de semana seria fine di settimana, mas Weekend é mais estiloso. E o semáforo que seria semaforo parou em Stop.

Para terminar, repare nesta versão virtual do jornal "La Repubbica":

La Repubblica

“Trattandosi di moda per il prossimo inverno, era ovvio che l’ispirazione veniva dai tanti locali che reclamizzano dark room, naked party, labyrinth, hot strip, torture garden, la notte della monta e, ultima novità, il medical fetish.” (17 gennaio 2005)www.larepubblica.it

Enfim, não se admire se um dia seu vinho vier com gosto de Coca-cola! §

Lucas Limberti

Lei mais sobre "estrangeirismo" em CRÔNICA: "I speak português..."

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postado por 35821 as 02:16:05 # 3 COMENTÁRIOS "estendidos"
segunda, 20 novembro, 2006
H2O: “Pra que economizar água?”


Sem culpa: Não economize água!

Balela essa história que devemos economizar água. A água, como o ar, é um bem natural e de direito da humanidade.

Há dez anos... Nem tanto, há cinco anos atrás era inconcebível comprar água. Eu mesmo que sempre achei um disparate essa história de te que comprar algo que é meu, já me vi deixando um, dois até três reais em uma ínfima garrafinha com 250ml de água.

Segundo a Eng. Química Eloiza Lutero Alves Rodrigues a cobrança pelo uso da água foi o meio encontrado para internalizar o conceito de capitalismo no recurso hídrico e mineral (solo), não se deve considerar o conceito da produtividade neste casos e sim deve-se criar maneiras de gerar essa riqueza e não economizá-la.

Vivemos em uma sociedade da culpa. “Economize água” é um conceito que além de incutir a culpa no inconsciente coletivo da massa, agrega valor monetário a água.

A água: duas unidades de hidrogênio e uma de oxigênio é algo vital, é um direito.

Daqui a pouco estarão vendendo ar, engarrafando em embalagens “bonitinhas”, e você estará lá, todo feliz comprando ar puro. Aliás, não vai ser daqui a pouco, isso já acontece, vá a qualquer imobiliária e pergunte quanto mais caro custa para morar em lugares arborizados e com baixos índices de poluição. Muito mais!

A água não acaba, é uma questão lógica. Quem se lembra do “ciclo da água” nas aulas de biologia do colégio?

O sol aquece os rios e faz evaporara a água que sobe em forma de vapor, condensa, precipita e cai de novo em forma de chuva para o lugar de onde saiu.

Ou seja, meus caros, a quantidade de água existente no planeta Terra é a mesma sempre. Diminuir nunca, o que pode acontecer, inclusive, é aumentar na sua forma líquida.

Você que tem casa no litoral beirando a praia, cuidado, estima-se que em pouco tempo teremos um avanço expressivo do mar sobre a terra causado pelo derretimento das geleiras. E porque derretem as geleiras? Por conta daquelas mesmas indústrias que patrocinam as campanhas psicologizantes que o culpam pelo mau uso da água, que sujam os rios e a terra e também emitem poluentes que destroem a camada de ozônio, esta desprotegida possibilita o derretimento das geleiras.

Viu de quem é a culpa? Não é sua.

Aliás, ao contrário do que todos pensam, a poluição dos rios é culpa do lixo industrial que além ser volumoso, contém elementos químicos, detritos contagiosos, etc. O esgoto caseiro, por incrível que pareça, é o que menos polui os rios.

Defendo o desenvolvimento de tecnologias de tratamento da água (despoluição, reciclagem, desimpermeabilização do solo, dessalinização) e a não poluição dos rios e destruição da camada de ozônio por parte das indústrias, mas, por favor, parem de dizer que a seca do nordeste não tem solução e não interfiram na duração do meu banho...splash!!  §

Lucas Limberti

§ Artigo 2 § DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS DA ÁGUA: A água é a seiva do nosso planeta. Ela é a condição essencial de vida e de todo ser vegetal, animal ou humano. Sem ela não poderíamos conceder como são a atmosfera, o clima, a vegetação, a cultura ou a agricultura. O direito à água é um dos direitos fundamentais do ser humano: o direito à vida, tal qual é estipulado no Art. 30 de Declaração Universal dos Direitos Humanos.

(Fonte: uniagua.org.br)

Eng. Química Eloiza Lutero Alves Rodrigues eloiza@ambiental-e.com.br

Imagem: ga.water.usgs.gov

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postado por 35821 as 01:31:47 # 10 COMENTÁRIOS "estendidos"
quinta, 16 novembro, 2006
ENGATE: “A crueldade cosmopolita”


Ode à fidelidade...

A oferta de possibilidades da cidade grande incide violentamente sobre as vidas daqueles que habitam eu seus limites, sua geografia, suas esquinas estão repletas do “outro”, este, cada vez mais lindo, cada vez mais variado e ao alcance.

São corpos a solta, sem busca e nem parada, onde o “outro” não é “meu” e nem “eu” sou  do “outro”.

Rumando nas incertezas do abismo o homem questiona sua existência veloz e múltipla. Um relacionamento sério e exclusivo pode custar um arrependimento? Quem sabe o próximo copo ou lançamento de cigarro, ou quem sabe o próximo corpo ofertado a mim seja mais saboroso, mais barato, mais belo e inteligente.

O avanço tecnológico oprime uma geração, onde mais e mais se constrói um labirinto estrutural que cerca e obriga o cidadão contemporâneo a cada “frame” de vida atualizar-se mecanicamente, como se fossem computadores, celulares, eletrodomésticos, etc. Incutindo no inconsciente coletivo a sensação de que a “vida real” é um artefato sujeito a “up-grades” e atualizações. O que na verdade causa um grande mal estar, um descontentamento com a própria condição a cada segundo, a cada movimento, a cada nova oferta.

A insônia, a embriagues e as incertezas são os sintomas da falta de olhares ternos e verdadeiros, os “engates” cada vez mais superficiais são espectralmente mudos e ocos. Vão na contramão da sublime sensação que o amor causa em nossas digestões.

E a esse ponto o questionamento que surge é: Quem eu sou? Não pra teorizar minha existência, mas sim como uma saída à melancólica solidão que renega o “eu” para identificar-se no "outro" e assim, quem sabe, entendê-lo, enterrando as incertezas e não mais vendendo seu corpo já usado. §

Lucas Limberti

“Engate” é o título de uma poesia portuguesa de Al Berto que em Portugal quer dizer um “caso”, um “rolo”, um início de “namoro”, mas também o ato sexual em si.

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postado por 35821 as 01:21:21 # 4 COMENTÁRIOS "estendidos"
sábado, 11 novembro, 2006
ANABOLIZANTES: “Poder e apologia à Apolo”


Quem pode pode, eis o capitalismo...

A economia como extensão do corpo, e o corpo com grandes extensões.

A sociedade em que vivemos é um jogo, onde os que têm mais poder sempre vencem, compram os juízes e as regras, compram as mentes, compram os corpos.

Os pobres homens sem poder sobrevivem como podem, lutam e tentam chegar a algum lugar.

Sem sucesso, colocam no jogo da vida a única coisa que ainda tem livre arbítrio: seu próprio corpo.

Tentam estender seu poder com a distensão de seus músculos, transformando-se em super-homens, realizando o sonho de ser um He-man, um Hulk, e na pele deles afogar a dor de não poder ter poder.

A idéia de que o maior e o mais forte sempre vencem leva muitos aos esteróides anabolizantes, surge então uma retórica cíclica e histórica chegando a ser mítica. Quem não quer ter a aparência de um filho de Zeus, a própria “apologia à Apolo”.

Porém, deixa-se de lado o ideal grego de “mente sã, corpo são”, pois com as chamadas bombas o sujeito apenas explode com seu corpo, não usa os anabolizantes com acompanhamento profissional, e seus prazeres, sua estrutura e seu poder são momentâneos, já suas conseqüências são eternas e o medo do infinito completa a destruição afetando o psicológico, ou seja, neste ponto já são obsoletos mente, corpo e principalmente seu pseudo-poder. §

Lucas Limberti

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postado por 35821 as 03:40:19 # 4 COMENTÁRIOS "estendidos"
sexta, 10 novembro, 2006
CRÔNICA: "I speak Português..."


Uma crôniqueta sobre o estrangeirismo...

Acordei cedo, acendi o abajour, comi alguns snacks de cheedar e fui pro trabalho bem cedo, sou um workhollic.

No caminho vi muitos outdoors, no rádio tocava rock’ in roll, mas logo começaram os jingles de propaganda, um marketing tamanho que me fez deletar a idéia de ouvir música.

No trabalho mandei alguns e-mails e vi notícias do football e do basktball. Entrei num site de busca, o google para ver preços de videogames e um skate para meu filho e logo fiz um cofeebrake.

Na hora do almoço fui ao shopping center, como estava com pressa optei por um fast food, só fiquei em dúvida entre um hot-dog ou um croissant, mas ao fim acabei mesmo com o de sempre: Um hamburguer do MC Donald’s.

Ao final do dia coloquei um shorts e um tennis e fui com meus brothers para um pub, só para tirar um relax, num happy hour. Bati meu record de drinks e acabei ficando até mais tarde na night.

De repente um homem chegou até mim e perguntou minha nacionalidade: eu disse, oras o que você acha? Sou totalmente Made in Brazil.

Sem entender muito bem, o homem se distanciou e se foi. §

Lucas Limberti

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postado por 35821 as 02:26:08 # 11 COMENTÁRIOS "estendidos"
quinta, 09 novembro, 2006
PAGU: "Mulher de ferro com zonas erógenas e aparelho digestivo"


“Patrícia, mulher inteligente, independente, audaciosa, insubordinada, num Brasil ainda pouco modernista para tão imensa oferta”

                                           (H. David Jackson, Yale University – 20 de dezembro de 2004.)

Sou um canal...

A lenda revolucionária com nome de mulher transformou a pequeno burguesa Patrícia Galvão em Pagu. “Paixão Pagu” retrata a paisagem contraditório do seu ser, e assim sendo percorre toda sua vida mascarada pelas desilusões. Escrito em 1940 o livro é uma autobiografia nada convencional em forma de uma carta que ela escreve ao homem que amava, o escritor e jornalista Geraldo Ferraz.

A construção de um “eu” rotulado com a negação das normas foi adotado por ela a principio mascarado por um ímpeto transgressor, mas que acaba por ser tomado como passividade diante da imagem que a sociedade construiu dela e que de alguma forma ela assume.

Inquieta, Pagu vestiu profundamente a máscara revolucionaria transcendendendo seu próprio “eu” na adoção e constituição de um “eu-social” ligado a um ideal político que se esgota na realidade.

Presa mais de vinte vezes, a garota dos olhos do movimento antropofágico (mais um rótulo) lutou contra a ditadura getulista e militou no Partido Comunista iniciada pelo camarada Luis Carlos Prestes.

O texto sincero e corajoso desnuda Pagu sob um apanhado disfórico de sofrimento e visão negativa dos acontecimentos configurando-se em um “inventário de perdas”, ela contraria a face capitalista do gênero memorialista que tradicionalmente resgata grandes feitos de homens, burgueses e brancos, fazendo um balanço de suas perdas.

Aos poucos seu mundo vai se desconstruindo, primeiro a perda do status social quando vira proletária e abandona o círculo familiar construído sobre a tradição burguesa. Neste sentido vale ressaltar a perda do filho que tem com o escritor Oswald de Andrade que abandonou a pintora Tarsila do Amaral para ficar com ela de apenas 19 anos (Fato este que é um dos grandes rótulos machistas a biografia de Pagu). Além disso, se vê eternamente atormentada com o dilema de ter tido que escolher entre o Partido e o outro filho com Oswald, Rudá de Andrade. A escolha pela vida política a deixou para sempre culpabilizada percebida pelas recorrentes auto-ironias e ataque a instituição familiar.

Isso tudo venha com um nome de família
Instituição abalizada
Que atrapalha a vida de quem nada quer saber
Com ela.
Ela, ela, ela.

(Trecho do poema “Fósforos de segurança” 1960)

O Partido também a frustra na destruição de seu ideal fazendo com que ela perca o seu papel intelectual quando se desencanta com o regime soviético ao encontrar uma menininha que pedia esmola na Praça Vermelha na Rússia ao lado do túmulo de Lênin. Além da abdicação da dignidade quando é forçada a se prostituir em nome do partido.

Seu ideal era tão forte que camuflado por uma bandeira política desencadeou um processo de autodestruição que culminou em seu suicídio.

Valente, corajosa, interessante e genial: Pagu sempre cumpriu o papel que a descrevia. Sua empolgante história marcou a vida política e cultural brasileira, mas segundo ela seria melhor que tudo fosse deglutido e jogado fora. §

Lucas Limberti

___________________________________________________________________

Título: Paixão Pagu – A autobiografia precoce de Patrícia Galvão. Agir Editora, 2005

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postado por 35821 as 01:23:40 # 51 COMENTÁRIOS "estendidos"
segunda, 06 novembro, 2006
METABLOG: 'O varal do infinito' completa 1.000 acessos


‘O varal, um café e o infinito...’ comemora hoje o seu milésimo acesso, e serve aos leitores, como canapé da festa, uma poesia:

O arco-íris, tão bonito,
  e de tão finos arranjos,

é só o varal do infinito
         secando a roupa dos anjos.
                                                         
(Amália Max)

                                      

Seguimos  “estendendo” o verso que vê do avesso, servindo reflexões aromáticas, prazer e arte. §

Lucas Limberti

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“Episódios poéticos, críticas noticiáveis e um cafézinho estendidos no varal do infinito..." 

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postado por 35821 as 11:44:24 # 26 COMENTÁRIOS "estendidos"
sexta, 03 novembro, 2006
DIÁRIO DE BORDO: "Brasília, uma miragem no cerrado"


Brasília é uma ilha

Cheguei! Brasília ao entrar já me fez saltar aos olhos as antigas páginas da cartilha de geografia da escola que descreviam o relevo e o clima. Sim, as árvores são pequenos arbustos de troncos retorcidos caracterizando o cerrado, o ar é seco e quente, e é tudo plano. É um plano arquitetado a cada rua, a cada ponto de ônibus.

Ao chegar espanta-se com a educação européia dos motoristas que param antes das faixas de pedestres sem que haja semáforo.

Mas com alguns dias no planalto descobre-se que em Brasília nem tudo é o que parece. A cidadania dos motoristas foi conseguida a duras penas com fiscais multando a cada faixa. Escutei um comentário que normalmente paulistas em Brasília são responsáveis pela maioria dos atropelamentos em cima da faixa. Encanta-se com a arquitetura do mestre Oscar Niermyer, com a organização e limpeza das estruturas. Mas, o planejamento e limpeza restringem-se aos limites do avião (vista de cima a cidade planejada são em formato de um avião), principalmente nas áreas ministeriais e no “pontão”, ponta do lago Paranoá onde a elite se reúne com suas possantes lanchas em torno de requintados bares.

O céu de Brasília é encantador, um espetáculo a parte que não atrai só aqueles que apreciam um belo crepúsculo para a poesia ou canção (como cantou Djavan: "Céu de Brasília, traço do arquiteto, gosto tanto dela assim..."), os ares alí são propícios para a prática de esportes aéreos como a asa-delta. Segundo o piloto de asa-delta e meu amigo brasiliense Eduardo, o "Edu", em Brasília se encontram as melhores termais do país. Edu e sua namorada Fabi Marin, que faz as buscas por terra, estão sempre com a "cabeça nas nuves" e de olho no céu: Privilégio planáltico!

Espanta-se com a recorrente postura do povo que diz que o brasiliense não tem sotaque nem raízes culturais. Engano. O brasiliense tem sotaque sim. Eles não percebem, mas o “R” é fricativo como o dos cariocas, há um “invólucro” caipira dos goianos e fortes puxadas nordestinas, também pudera, nos anos de Kubischek nos idos da construção de Brasília, brasileiros de todos os cantos rumaram para lá em busca de trabalho, os chamados “candangos”. O que a maioria não percebe é que com os anos criou-se uma cena cultural interessante e regionalmente marcada.

Estava participando do ENEL, Encontro Nacional de Estudantes de Letras na Universidade Federal de Brasília e tive oportunidade de conhecer um pouco da massa pensante da região e caracterizar a cidade-distrito como um importante celeiro de manifestações artístico-culturais. Assisti ali um balé de alto nível no Teatro Nacional (arquitetura de Oscar Niermeyer e jardinagem de Burle Marx), além disso, inúmeros músicos e bandas de rock nasceram no distrito federal, como Os Paralamas, o Raimundos, Cássia Eller, Natiruts, Capital Inicial, Legião Urbana, Plebe Rude, entre outros. Talvez por isso se observe na cidade um número acima do normal de jovens reunidos em torno de rodas de violão. Legado interessante.

Mas, o que é marcante é o que não se vê. O arraigado coronelismo político intrínseco a genética comportamental dos candangos, principalmente no que diz respeito a informação.

O terminal de ônibus da cidade é a Meca da balburdia, desordenado possui poucos postos de informação e nos poucos carrega sujeitos desconfiados e resistentes a dividir informação. Senti na conduta dos populares uma postura carregada de uma atmosfera do cabresto advinda dos traços corruptíveis que regem uma região cercada de politicagens, segredos, sigilos, que inconscientemente se refletem na postura dos seus.

Dissabores a parte vale lembrar que o pôr do sol na esplanada dos ministérios é de fazer chorar, e além disso, a alguns quilômetros de Brasília encontra-se o “Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros”...

Bom, mas isso é uma outra história. §

Lucas Limberti

Na seção DIÁRIO DE BORDO “O varal, um café e infinito...” coloca o pé na estrada.

Foto: Carolina Lomba

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postado por 35821 as 04:01:55 # 18 COMENTÁRIOS "estendidos"
quinta, 02 novembro, 2006
LER E ESCREVER: “ Toda a força no Primeiro ano”


Desafio e sedução como resposta

Em um diálogo na sala dos professores escutei um comentário acerca da função do professor dentro da escola que acima de tudo me fez pensar na validade do projeto “Ler e Escrever” da prefeitura de São  Paulo não só como um mecanismo de alfabetização nas primeiras séries, mas com um objetivo maior, que pensa na escola como um todo, discutindo sua estrutura e o papel de cada personagem que contribui para que aquele espaço seja um caldeirão de futuros homens.

Em uma das eternas reclamações comuns à sala dos professores, uma das professoras se levanta, lava as mãos e em um ato de pseudo-heroísmo conclui a discussão dizendo que o problema da educação está nos pensadores da mesma que não encontram uma resposta para os problemas do dia-a-dia. E foi taxativa em dizer: “Nós professoras somos meras EXECUTORAS”.

Tal comentário me instigou ainda mais a encontrar respostas, inclusive que atendiam a auto-indagações sobre qual era meu papel ali. E só de pensar a respeito desta colocação me vi avesso ao que disse a professora. A remissão de seus pecados atribuindo a outrem a responsabilidade de uma solução é uma prática que descaracteriza por completo não só o professora, mas toda a estrutura da escola que é um espaço de reflexão e construção do conhecimento por excelência.

Bom, olhei para aquilo como alguém que pensa na educação e encontrei ali um dos seus maiores problemas. Já que eu considerava minha presença ali, não como de um mero executor, me coloquei na posição de alguém que está refletindo sobre a alfabetização no projeto “Ler e Escrever” e, com toda educação, expus para ela que se quisesse, então, seguir um ponto de vista de um pensador da educação que começasse simplesmente repensando o seu papel. §

Lucas Limberti
O Programa Toda força ao 1º. Ano – TOF cria condições adequadas para que todos os alunos leiam e escrevam já ao final do 1º ano do Ciclo I - para isso, a SME/DOT coloca junto a cada professor do 1º ano um auxiliar de ensino, que será um estudante universitário de Pedagogia ou Letras, para ajudar o professor na alfabetização. http://www.prefeitura.sp.gov.br/portal/a_cidade/noticias/index.php?p=7831

Resposta

QUIZ INTERATIVO (25/10)

-  Descubra "quem" falou "o que" sobre as cotas nas universidades  - 

1-C

2-B

3-A

4-E

5-D

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postado por 35821 as 12:43:00 # 13 COMENTÁRIOS "estendidos"
quarta, 25 outubro, 2006
QUIZ INTERATIVO: Descubra "quem" falou "o que" sobre as cotas nas universidades


‘O varal, um café e o infinito’ lança um desafio:

Descubra as falas que se encaixam a cada candidato na campanha para o governo de São Paulo. O Jogo é fácil. Ligue o número do candidato a letra correspondente ao pensamento (Ex. 6-Z, 9-T, etc.).

Selecionei a opinião sobre o tema das COTAS NAS UNIVERSIDADES.

ATENÇÃO: Publique seu resultado nos comentários. (Muito importante!)

A resposta será publicada no próximo post. §                            Lucas Limberti

Legenda das Fotos:

1-Mercadante - PT

2-Orestes Quércia. PMDB

3-Carlos Alberto Apolinário - PDT

4-Plínio Arruda Sampaio - PSOL

5-José Serra – PSDB-PFL

A-) “Eu não acho que as cotas deveriam ser por raça, até por que não existem duas raças. O branco e o negro são uma raça só. Existe uma raça humana, de cor branca, de pele negra, amarela, então quer dizer, nós somos uma única raça. Muito mais do que uma cota por cor, deveria ser uma cota social, em nível de poder aquisitivo ou de escola pública.”

B-) “Eu sou favorável a política de cotas no aspecto social que envolva pobres, negros e índios; mas no sentido social mais do que racial, porque o pobre também sofre da mesma maneira que o negro e o índio. Seria também vindo da escola pública, as pessoas mais pobres, brancas também, negros e índios, eu acho que deveriam ter uma cota de 20% desde que venham da escola pública (...). Isso é uma experiência que deu resultados positivos nos Estados Unidos, por exemplo. É uma questão de justiça”.

C-) “Numa sociedade profundamente desigual como a nossa, políticas de ações afirmativas cumprem o papel de resgatar a imensa dívida social para com os menos favorecidos. A política de cotas tem essa função. É evidente que, se tais ações simplesmente se transmitirem de assistencialismo perdem seu objetivo. Mudanças sociais, econômicas e políticas de cotas sejam transitórias como aconteceu em outros países. As políticas de cotas devem ser acompanhadas por programas sociais que permitam que o aluno universitário ingressante pelas cotas possa ter condições de estudar.”

D-) Espaço concedido ao candidato foi mantido em branco devido à ausência de resposta.

E-) “Essa é uma conversa psicodélica. Na verdade um governador te quatro anos. Eu gostaria de fazer, já que vai fazer, uma porcentagem de trinta por cento [para cotas], para mudar a cara da universidade. Nós precisamos desequilibrar para equilibra melhor, pois nós temos um equilíbrio ruim, entendeu? Se puser mais trinta por cento de meninos que vêm por cotas, você obriga a universidade a se refazer.. É um outro mundo. Isso é importantíssimo.”

----------------

Entrevistas realizadas em setembro de 2006  pelo “Jornal do Campus” – Escola de Comunicação e Artes da USP. - www.eca.usp.br/jc

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postado por 35821 as 03:15:28 # 3 COMENTÁRIOS "estendidos"
terça, 24 outubro, 2006
XEROCAR UM LIVRO: "Pena de um a quatro anos de prisão"


Uma rajada de luz e tinta sobre o papel em branco, um toque sobre o mouse do computador, uma célula ligada à outra e num instante tem-se folhas xerocadas, músicas, fotos e filmes baixados da internet até alimentos transgênicos e clones de seres humanos.

De honesto a criminoso num “click” de modernidade, e no meio disso tudo, estudantes que se quiserem levar a academia a sério devem fazer leitura diária de no mínimo 100 páginas.

Cabe aqui discutir a viabilidade dos cursos universitários em função de uma lei que determina que só podem ser xerocados 10% de cada obra. E os outros 90%? Terei que enfrentar mais nove vezes aquelas intermináveis filas repletas de calouros sedentos por cópias. Ou será que daqui alguns dias eu “rompo a barreira da ética e da moral” tornando-me um criminoso dando um “jeitinho brasileiro”.

Isso interfere na engrenagem de uma faculdade de Letras, por exemplo, que sempre teve na fotocópia uma solução para as demandas de leitura tão diversas e extensas. Além do que, as bibliotecas não comportam a demanda de solicitações, sobretudo em época de prova ou trabalho. É como ir a feira de domingo à tarde, só encontra fruta passada e traduções do que quer em grego ou sânscrito.

E tem outra coisa, o alto preço do livro fomenta a indústria da pirataria. Enquanto não forem barateados e disseminados em todas as camadas da sociedade, especialmente as mais necessitadas, “a verdade neles guardada continuará envenenando”, como diria o filósofo Nietzsche. 

Alguém pode dizer: Você quer gozar com idéia dos outros e não pagar nada por isso?

 Pois quem não quiser sua obra lida que guarde para os seus. §

Lucas Limberti

Arte: diegodesign (diegolimberti@gmail.com)

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postado por 35821 as 01:54:10 # 4 COMENTÁRIOS "estendidos"
domingo, 22 outubro, 2006
FÓRMULA 1: "Interlagos é sempre Interlagos?"


Da janela do meu quarto vejo toda a reta oposta do autódromo de Interlagos e em época de corrida tudo muda por aqui negando a recorrente máxima do locutor Galvão Bueno: “Interlagos é sempre Interlagos”.

Na verdade não é sempre assim. Nesta época do ano todas as avenidas da região são recapeadas, a iluminação pública reformada, frota de coletivos aumentada, há um desfile de policiais, bases comunitárias, guardas-de-trânsito, etc. Organização de primeiro mundo mesmo. Mas é tudo fantasia de circo, do “Circo da Fórmula 1”. Assim que o piloto cruza a linha de chegada parece que o feitiço se desfaz, que a carruagem vira abóbora, se vão os policiais, os ambulantes e o trio elétrico cheio de garotas de programa que aproveitam a data para lucrar, afinal cada uma das 11 equipes trazem a São Paulo centenas de mecânicos com os bolsos cheios de dólares.

A população daqui já aguarda ansiosa ano que vem. E eu já decidi, nas eleições 2006 meu voto vai para aquele que mais corridas de Fórmula 1 fizer por aqui...quem sabe uma por mês resolveria o problema! Vrummmmm.....

Enfim emoção

Há tempos não se via uma corrida de Fórmula 1 tão emocionante como a etapa de Interlagos hoje aqui no Brasil. Os ingredientes foram deliciosos, última corrida do ano, decisão de campeonato, despedida de Schumacher das pistas e principalmente vitória do brasileiro da Ferrari, Felipe Massa como a 13 anos não acontecia. O último a ganhar por aqui foi o ídolo máximo Ayrton Senna em 1993.

Schumacher mostrou que é grande, largou em 10º, furou o pneu, fez ultrapassagens emocionantes e chegou em quarto. Quando perguntado por um repórter da Globo se ele seria o Pelé do automobilismo, respondeu secamente: “I’m Michael”. Aliás, o Pelé foi porta voz de uma homenagem sem graça e subserviente antes da corrida.

O campeão Fernando Alonso fez a parte dele, terminou a corrida e sagrou-se bicampeão da F-1 na temporada 2006.

A emoção mais forte foi da vitória de ponta a ponta de um brasileiro em terras tupiniquins, a nação tão carente de heróis pode ver Felipe Massa, o “jungle boy” como é conhecido pelas suas origem amazonense, no alto do podium e com um macacão verde e amarelo em homenagem as cores da bandeira nacional.

Enfim, uma tarde feliz para o automobilismo brasileiro, mas como algumas coisas não mudam nunca, tivemos nosso Rubinho Barrichello largando em quinto e chegando em sétimo. §

                                                                                       Lucas Limberti

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postado por 35821 as 07:33:22 # 1 COMENTÁRIOS "estendidos"
ESCRITOR: "Entre o sonho e a realidade"


Corredor literário na paulista discute o papel do escritor e o mercado editorial

O corredor literário na Av. Paulista aconteceu de 2 a 8 de outubro e tinha como o slogan: “Em vez de escritórios escritores”. Como acontece sempre em eventos culturais o “corredor literário” teve pouca divulgação na mídia em função das atenções estarem voltadas ao primeiro turno das eleições 2006.

Na quarta-feira dia 04 a Conecta Brasil propôs um debate no MASP com o tema: “Escritores: Entre o sonho e a realidade” com personagens do mercado editorial debatendo com o público o papel do escritor no contexto atual. Estavam presentes na mesa de debate mediada pelo escritor Norian Segatto, os escritores Carlos Seabra, George Patrão e Alberico Rodrigues, o jornalista Eduardo Maretti e o livreiro João Scortessi.

-Praticamente o mesmo número de pessoas que estavam na platéia. -

Escritor: Um homem sem profissão

O que se percebe por parte dos palestrantes é um destacamento da realidade, cobra-se medidas do governo, abertura das editoras e multiplicação do público. Defende-se a formação de leitores, mas na verdade se detecta que os debates são formas de iluminar as publicações. As ferrenhas críticas à profissão podem em algum momento serem entendida não só como uma crítica a falta de uma cultura dos livros, mas como uma postura recorrente que desencoraja o futuro escritor.

Alguns questionamentos importantes partiram da platéia, como o da agente literária e também autora Maria Esther Mendes Perfetti que falou da importância das oficinas literárias propostas por algumas editoras na formação técnica do escritor. Partiram da platéia também questões como a presença do autor na escola, a formação de leitores em um país tropical e o mercado editorial brasileiro na mão de poucos.

Segue alguns posicionamentos.

O papel e o digital.

Carlos Seabra, o criador de jogos.

“O governos tem que ser o grande cliente, toda a publicação deveria por lei fazer parte de toda biblioteca do país” Carlos Seabra.

O autor aposta nas medidas legislativas estatais para impulsionar o mercado.

Segundo ele o digital leva ao papel, prova disso é a publicação de seu livro “Hai cais e que tais” na íntegra em um blog na internet apostando no papel como uma mídia confiável num contexto em que se discute muito a questão da superação das tecnologias digitais em confronto com o livro de papel. “Você nunca presenteia sua namorada com um livro impresso em html”, continua.

Já que discutimos a figura do escritor, segue um Hai Cai de Seabra sobre o poeta.

PRISÃO

corda de versos,

janela da prisão:

foge o poeta!

Eu não sou escritor

George Patrão, o corporativo.

O escritor que se declara consultor de empresas George Patrão autor de “As bruxas... e seus lobos” refuta a proposta de que só escrever bem já garante ao escritor sucesso no mercado editorial: “O escritor é ingênuo, não adianta escrever bem, há outro trabalho, o de colocar o livro nas editoras e depois trabalhá-los nas livrarias”. Ele, que só fala de si na terceira pessoa, não se apresenta como escritor e diz que os mesmos são heróis, pois segundo ele, é impossível sobreviver com a venda de livros no Brasil.

Jogador ou técnico?

João Scortecci, o livreiro.

“O patrão acordou poeta... Aí os negócios vão mal”, afirma Scortecci retratando situações de seu cotidiano no comando do Grupo Editorial Scortecci.

A semântica deste posicionamento coloca o profissional das letras distante dos negócios, entende-se que para se dar bem nos negócios deve-se negar a poesia. Para Scortecci devemos caminhar em retorno à literatura. No entanto, perguntei a ele no debate se não achava incongruente propor uma solução para a falta de leitores no Brasil voltada à literatura, mas publicar um livro que é uma espécie de manual, uma solução de auto-ajuda para escritores iniciantes. Enfim, como esperava a resposta não veio. A máscara da luta por formação de leitores esta aí ao alcance de todos, mas na hora do baile editorial se dança conforme a música de mercado.

Quanto se gasta para manter um poodle?

Eduardo Maretti, o jornalista.

“Com a provação continuada o governo Alckmin forma uma legião de ‘semi-analfabetos’ ao passo que devemos formar leitores”, opina o jornalista que reforça a tecla de que a falta de leitores está ligada primordialmente à escassez de métodos políticos eficientes aplicados no Brasil. Para ele deve-se investir no leitor que é a perna manca da tríade formada com o autor e o livro. Maretti combate os que dizem que a falta de leitores está ligada aos altos preços dos livros uma vez que a sociedade é cercada de gastos fúteis e denuncia que a crítica literária no jornalismo é subjetiva e funciona ao sabor da opinião da ideologia do jornal.

Zé batalha e a batalha do marketing

Alberico Rodrigues, livreiro e batalhador.

“Em cinco anos o mercado vai saturar”, constata o escritor que configura mais um posicionamento que detecta uma realidade, mas que afasta os que querem lançar-se na profissão, é uma espécie de auto-proteção contra a concorrência. Segundo o editor Scortecci chegam a seu e-mail por dia cerca de 2.000 e-mails com propostas à publicação.

Para Alberico todo mercado tem suas regras e o ponto primordial é a educação. Ele que é o maior marqueteiro de seu livro o Zé Batalha e se gaba por ter um leitor sem rosto.

Lucas Limberti

-“Guia do Profissional do livro” - João Scortecci & Maria Esther Mendes Perfetti.

- “As bruxas... e seus lobos” – George Patrão

-“Zé Batalha - O herói da minha infância.” – Alberico Rodrigues

- www.haicaisequetais.blogspot.com.br  - Carlos Seabra.

-www.conectabrasil.art.br

-www.corredorliterario.com.br

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postado por 35821 as 07:04:16 # 2 COMENTÁRIOS "estendidos"
 
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As vibrações harmônicas e pulsos poéticos
que partem do coração deságuam lúcidos
nas secas mãos do poeta.
Ávido descubro segredos de rodapé.
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Quanto mais se descobre,
mais sinto os respingos de suor
cobertos pelo convite do que virá.
Tramo planos e junto pistas
para destravar o universo
e vê-lo girar, solto, hipnótico,
ao meu alcance.
As cores aladas que se projetam
dos abissais limites de minha retina
são resposta calada do grito do mundo.
Dos sons almejo sinfonias
Das cores, arco-íris.
Do ouro, alquimia.
Do amor refuto.
Lucas Limberti


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