O varal, um café e o infinito...
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quarta, 02 maio, 2007
1º DE MAIO: "O Menino, o feriado e o Piloto"


1º de Maio de 1994.

Dia do trabalho? Não.

Acordo pela manhã do domingo e já vou logo ligando a televisão. Ayrton Senna vai correr em Ímola na Itália em sua nova temporada, agora na Willians. Grande expectativa e... Minha mãe grita da cozinha: - Filho vá rápido se aprontar pra missa, já está quase na hora e você sabe que não pode faltar senão não consegue terminar o catecismo!!!

Alguma coisa me diz que eu não devo ir à missa e que não posso tirar os olhos da pista e da companhia de meu pai no sofá. Mas a contra gosto vou, por sorte que moro na mesma rua de frente para a igreja. Calculando o tempo acho que dá pra ver o final da corrida e óbvio o Senna no alto do podium.

Passo toda a duração do sermão do padre imaginado as curvas, mas algo me dizia que deveria estar em casa.

Mal o padre acaba o falatório já engato uma primeira e saio cantando os pneus pela escadaria da igreja que dá quase no portão da minha casa.

Quando entro em casa, silêncio. Minha mãe na cozinha prepara alguma coisa pro almoço e meu pai me olha com ares de desgosto, com boca de má notícia.

- E aí pai, como está a corrida, o Senna ganhou? Chego gritando e jogando pro alto o papel com as canções da igreja.

Meu pai me olha e diz com a voz trêmula pra que eu olhasse para a televisão.

Frustração. Vi a equipe de salvamento, o carro destruído e a cabeça do herói caída para o lado sem movimento.

Segunda-feira. Pego o corretivo com lágrimas nos olhos e escrevo em letras garrafais na carteira da escola: “Ayrton Senna: Morre um ídolo”.

O choro da nação parece verdadeiro.

Mesmo que infantil, o sentimento inocente clama não só pela perda de um ídolo de um país carente destes, mas pelo vazio causado nas manhãs de domingo.

É o fim do ritual, a esta altura já não há mais emoção com o tema da vitória, eu não moro mais na casa perto da igreja, há mais de dez anos as corridas sem Senna são insossas e eu já não tenho mais a companhia de meu pai no sofá aos domingos de manhã.

Depois daquele primeiro de maio, o dia do trabalho continuou diminuído justamente por ser comemorado. Mas, pensei muito nas causas que levaram meus rituais embora, talvez fosse o carro, Senna nunca deveria ter deixado o vermelho e branco da Maclaren, talvez a culpa fosse dos mecânicos, talvez da pista, dele mesmo acho que não, mas a sensação que tenho é que nunca deveria ter deixado aquele sofá durante a corrida.

Ps. Alguns meses depois saí do catecismo. Assisti todos jogos da Copa do Mundo de futebol nos EUA. Não perdi sequer uma partida. Fomos tetracampeões! §

Lucas Limberti

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postado por Lucas Limberti as 11:34:28 #
24 Comentários

Lucciana Marya:
O Brasil foi Tetra e recebeu homenagem dos céus com a música de Senna..
Ainda morávamos em Tatuí e "Seu" Ayrton, como costumavam chamá-lo seus funcionários, tinha uma fazenda aos arredores da cidade, e fazia questão de cortesias como mandar ingressos das corridas para a gerente de seu banco na cidade...(Acelera Ayrton!!!!)
Linda lembrança...baci!

quarta, agosto 29, 2007 07:59 

EXTREMA ON LINE:
Conheça a cidade de Extrema MG.
Extrema é conhecida pelos esportes radicais ali praticados, tais como: Asa Delta, Rafting, Paraglider, Motocross e outros.
Extrema possui lindíssimas paisagens e cachoeiras.
Para ver as fotos da cidade, dos esportes citados e muito mais, visite o site:
http://www.extremaonline.com
Obrigado
sábado, julho 21, 2007 12:17 

Renanzim Silva:
Parabens pelo texto cara!
quarta, junho 20, 2007 08:13 

Daniel Macarenco:
Legal sua coluna cara, gostei da matéria sobre esse dia fatidico
quarta, junho 20, 2007 08:09 

Ricardo Paduano:
Estava no interior, assistindo a corrida na casa de parentes, e todos estavam na sala no INFELIZ momento.
Eu chorei muito. Que dia horrível, um dos mais tristes que eu passei.
Confesso que continuei acompanhando a F1 apesar disso, já que sou fã do esporte desde os tempos de Emerson Fittipaldi, mas já não tem o mesmo sabor de antes.
Ele, "The Best Pilot of Word", fazia a diferença!!

sexta, junho 01, 2007 01:21 

Carlos Takatuji:
Cara, ler seu texto me fez relembrar as manhãs de domingo em frente a tv.
Belas palavras as suas, e como vi em um comentário, melhor compreendidas por quem presenciou o Ayrton correndo.

ps. Escutar o tema da vitória me faz lembrar desse grande ídolo que deixou milhões de pessoas como nós órfãos de um grande ídolo.

Abraços! Ow o blog é show!
sexta, junho 01, 2007 01:20 

Fabiano César:
Muito legal o texto cara!
Parabéns!

Tristeza...
Eu estava numa fazenda e tinha saído com meus pais para comprar pão...
Quanto eu voltei, o acidente já tinha acontecido e o pessoal que tinha visto tinha falado que tinha sido grave...
Todos ficaram preocupados porque o Rubinho tinha se machucado na sexta e o Ratzberger tinha morrido no sábado...
Depois fomos embora para casa e na estrada paramos em um posto de gasolina só para ter notícias... foi quando descobrimos o pior...
Na hora, mesmo que tentássemos, não conseguimos acreditar...

Abraços!!
quinta, maio 31, 2007 08:37 

Rafael Scultori:
Lindo texto! Simples, porém profundo...

Impossível ficar indiferentes com as suas palavras pois nós, fãs verdadeiros, sempre carregaremos esse sentimento nostálgico e muitas vezes doloroso. Os "se" são sempre carregados de um certo e cruel arrependimento, mesmo tendo ciência que não poderíamos ter feito nada.

Um grande abraço!
quinta, maio 31, 2007 08:31 

PROFETA MACUBA:
Um tiro no peito esse texto! Já é tempo de assistirmos aos jogos do palestra juntos, trará boas novas, tenho certeza!
quinta, maio 17, 2007 01:24 

PROFETA MACUBA:
Um tiro no peito esse texto! Já é tempo de assistirmos aos jogos do palestra juntos, trará boas novas, tenho certeza!
quinta, maio 17, 2007 01:10 

Lucas Limberti:
Rafael,
Viva o trabalhador! Concordo plenamente. Não devemos sucumbir aos interesses que maquiam a realidade. Tanto pros que usam o Senna, quanto para os que usam os trabalhadores e fazem da vida um espetáculo cujo roteiro é escrito por mãos interesseiras, peludas e capitalizadas.
Já entrei no seu blog, vou “favoritar” por aqui.
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Sr. Bob,
a receita para tocar os corações está na máxima: "Olhe para seu quintal e descubra o mundo". A descrição dos sentimentos meus tem peculiaridades técnicas próprias, mas que almejam o universal partindo do ponto de vista íntimo.
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Cláudia,
Que prazer degustar seus elogios e observações. Como é lema aqui por estas passagens o factual surge como testemunha do mundo caduco em que vivemos. Mas para o bem viver, misturamos (nós todos) nesse caldeirão de idéias o essencial para vida que é a reflexão, a emoção e o amor.
Sirva-se sempre destes sopros aromáticos que sirvo com tanto prazer.
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Júnior,
Valeu pelo elogio. Eu melhoro sempre por você e para você.
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Eduardo,
Bom te ver por estas passagens! Que bom que deixou por um momento as nuvens de sua asa-delta e se dependurou no “Varal do Infinito”. O bom é que tanto nas nuvens quanto aqui seus pés estão livres, soltos no ar...!
Obrigado pela presença.
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Liessa,
Como eu disse ao Sr. Bob, todos nós temos aquele dia marcado.
Acho suas reflexões sempre muito interessantes, você agrega grande valor por aqui.
Com certeza o adjetivo “bege” descreve os ares daquela manhã. Prum país tão carente de heróis, cercado de corruptos um “Ayrton” faz falta. Pra mim o Senna era uma espécie de James Bond brasileiro, como você lembrou: Imbatível!
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Ana Lucia,
O TEMPO é um sujeito intrigante. Mas vale a pena domá-lo! Quem sabe para dizer ou ouvir que algo é DIVINO. E isso é bom sempre, e sempre é toda hora, e toda hora é o infinito do tempo que, de novo, temos que domar.
Muito obrigado pela presença e elogio. Volte sempre!
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Belle de Jour (K),
Muito bonitas suas palavras, sobretudo porque tem as mesmas características do que você elogia. Transborda sentimento. A magia dos sentimentos latentes em meus olhos vem daquilo que aprecio e almejo. Ser dialético, intelectual ou politizado de nada vale se não tiver o tempero da alma.
Saudade dos seus comentários. Te espero aqui mais vezes.
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Enxaqueca,
Aceito tudo! Que se tempere o caldeirão!
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Cláudia Renata,
obrigado pelo comentário. A saudade também tempera né? Fazer o que? Falemos, pensemos e sintamos. Volte mais e solte o verbo!
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Flávia,
Obrigado pelo comentário. Mas, antes de morrer, se almejas o infinito, espere o próximo canapé. Ele pode valer a pena.
Obrigado pelo comentário “lindo de morrer”.
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Duda,
Todas aquelas cenas do Senna foram marcantes. Lembremos das que mais nos alegram: Do Podium!
Quanto a empreitada cinematográfica eu fico feliz com possibilidade, conversemos a respeito. Entro em contato!
Muito prazer. Espero que volte e se encante sempre.
-----------------------------------------------------------------------------
Muito Obrigado pela presença de todos.
Os comentários são combustível e tempero para este “Varal do Infinito”.
Voltem sempre!

Lucas Limberti
O varal, um café e o infinito...
www.varaldoinifinito.uniblog.com.br

terça, maio 15, 2007 03:07 

Duda:
eu e um grupo de amigos estamos começando uma empreitada de modelagem 3d e cinema amador. Nos interessamos na possibilidade de fazer um curta 3d do teu conto "o pierrot e a bailarina"

te interessa?

se sim, entra em contato, ok?

abração...
terça, maio 15, 2007 01:45 

Duda:
comentário tardio....

tenho saudades do senna. Minha última visão dele foi no helicóptero do resgate...


sábado, maio 12, 2007 10:15 

Flávia Merigue:
Querido,

seu conto é lindo de morrer. amei.

Parabéns.

beijos!
sexta, maio 11, 2007 03:31 

Cláudia Renata:
Parabéns Lucas, você também me fez recordar aquele fatídico dia, parece-me que foi dias atrás, suas emoções transcendem épocas e nos deixam com um gostinho de "saudade". Parabéns por esta delícia de café virtual.
sexta, maio 11, 2007 12:45 

Enxaqueca:
Puta, você aceita textos dos outros?? me responde por mail...
quinta, maio 10, 2007 12:01 

Belle de Jour:
Um sensação de lagrimas chegou aos meus olhos... Passou rapidamente pelo coração, de um jeito que fez doer, que fez sentir... Hoje, agora, eu não to nem um pouco afim de ser dialética, intelectual, politizada, critica ou ocupante. Apos ler seu texto, fiquei com saudades das minhas meninices, do cheiro verde da cidade natal, dos cachos que não são mais os mesmos, do sofá ocupado... Do sofá ocupado por pai e por mãe. Já pensou em sofá duplamente vazio?? SAUDADES... Lucas, vc sempre enchendo o meu coração com a MAGIA da vida... Transbordemo-lo, então, de amor! Um brinde a esse sentimento tão latente em seus olhos, em sua alma, no seu jeito de viver...
quarta, maio 09, 2007 05:56 

ANA LUCIA B F LUCIANO:
Lucas,
sempre peço TEMPO,.., TEMPO pra muitas coisas... hoje para ler seus textos! Parabéns, você é DIVINO!
Você me levou pra uma viagem distante, com boas e difíceis lembranças, mas valeu a pena, valeu o texto...

beijos com carinho.

quarta, maio 09, 2007 05:26 

Liessa:
Realmente, o domingo já foi mais do que a monotonia do bege, aqueles aplausos apáticos..
Recordo-me, quando criança, da carne assada do domingo, da tia berrando na cozinha, primos e eu esparramados com brinquedos na sala... Tudo isso em frente a televisão. Senna desfilava na pista, como majestade, estendia a bandeira..

Como nessas poucas horas se sente o que em muitas deveriam se sentir.. Aquela bandeira tremulava mais bravamente do que na cerimônia de independência do sete de setembro. Digo representa, no presente, pois o piloto fez sua última corrida naquele primeiro de maio de 94, e seu primeiro capítulo que herói nacional, e esses são cultuados aqui depois da morte. Como deveria ser bom ser brasileiro naquelas épocas.. sempre surpreendidos com aquele pequeno rapaz, enorme "do tamanho de seus sonhos", de sorriso juvenis de promessas ... Nossa bandeira, pelo menos naqueles domingos, triunfava sob céus escuros de nossa realidade.. Durante a semana, jornais noticiavam um cenário brasileiro de crises econômicas, escândalos..Inflação? Corrupção? Impeachment de Collor? Nada parecia ser tão ruim, pois era domingo..! Nesse dia a bandeira nas mãos de Senna nos faria orgulhar com uma tímida contastação, semelhante a que Pelé nos dava. No íntimo, cada brasileiro vendo Senna deslizar nas pistas, inigualável, imbatível, mas com uma humildade típica de nossos heróis da seleção de 70, sentia: "como é bom ser dessa bandeira..". Mais uma vez, vem do esporte a redenção das massas..
E minha tia, minha mãe e pai se juntaram na frente da televisão.. daquela vez não ouvi o grito de alegria de todos.. Apenas a cara de algo que nunca havia visto neles, algo que depois aprenderia a palavra.. Eu continuava a brincar de carrinhos, mas sabia que aquele homem tinha se ido à curva e que não tinha mais aquela bandeirinha no final com a musiquinha.. E, apesar de não saber realmente o que aquilo significaria, eu senti que havia uma perda naquele domingo, mas do que poderia em minha ingenuidade de seis anos entender..

quarta, maio 09, 2007 03:31 

Eduardo Ellery:
Lucas, quanto tempo hein. Já se vai quase um ano daquela carona na Chapada dos Veadeiros.
Ontem mesmo, sem ao menos me dar conta disso, fiz a programação de minhas férias aqui no trabalho. Estou indo novamente à Brasília no próximo julho, e espero ótimos dias com os amigos, voando pelas nuvens, e nadando nos rios e cachoeiras da chapada.

Grande abraço.

eduardo ellery
terça, maio 08, 2007 05:04 

Júnior Limberti:
O varal está muito interessante, sua cara! Você cada dia, melhor!!!
terça, maio 08, 2007 04:03 

Cláudia:
Lucas,
Emocionante seu texto, mas , como disse seu leitor: o Sr Bob, todos as pessoas da sua idade , ou geração que vivenciaram esse dia do trabalho vão entender melhor o seu texto do que outras. Ele é universal porque relata fatos, é fundamental porque testemunha emoções, importante porque faz sentir e refletir, coisa difíííííííííííííí´cil de se ver contemporâneamente, assim como o jeito de ser do Senna, como disse seu leitor Rafael Morales. A maioria dos autores acham que essas duas nuances do conteúdo de uma idéia são excludentes e você...ah as serve juntas, saborosamente num sopro de vento , nesse varal... do infinito, brindemos mais esse cafezinho!
sábado, maio 05, 2007 10:42 

Sr. Bob:
engraçado, mas pergunte a qualquer garoto da nossa geração, e dúvido que a grande maioria não tem recordações daquele fatídico dia.


sábado, maio 05, 2007 02:37 

rafael morales:
o dia do trabalho merecia outro titulo "o dia do trbabalhador", pois esse merece ser comemorado...o senna foi um dos maiores, mas morreu e foi unico...pena que poucos entendam isso...preferem usa-lo como mercadoria e também aqueles que conseguem qualquer exito esportivo.

abs

ps: eu e o reca voltamos com o nosso blog dá uma entrada lá.
sexta, maio 04, 2007 02:36 

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nas secas mãos do poeta.
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mais sinto os respingos de suor
cobertos pelo convite do que virá.
Tramo planos e junto pistas
para destravar o universo
e vê-lo girar, solto, hipnótico,
ao meu alcance.
As cores aladas que se projetam
dos abissais limites de minha retina
são resposta calada do grito do mundo.
Dos sons almejo sinfonias
Das cores, arco-íris.
Do ouro, alquimia.
Do amor refuto.
Lucas Limberti


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