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quinta, 12 julho, 2007
CRÔNICA: "O casamento do porteiro"


(baseado em fatos reais)

www... Como é mesmo o endereço daquele site que coloca currículos grátis na Internet? Deixa pra lá, volto ao trabalho autônomo nesta segunda-feira, sete horas da manhã. Ser escritor demanda certa dose de audácia anticorporativa, mas com uma famigerada disciplina por vezes nula.

Já arrumado. De banho e café tomado, me ponho a digitar um artigo sobre educação para uma revista anual de uma das melhores faculdades do país. Bom para o currículo, não tão bom para o bolso.

No meio de um parágrafo... Dim dom, uma vez. Dim dom, uma segunda vez... Dim dom, uma terceira vez em ritmo longo e descompassado.

Encosto o fio de raciocínio no canto da tela do computador, me levanto e vou até a porta. De súbito fico incomodado, mas no curto caminho do escritório até a porta mudo de opinião e apresso o passo.

Deve ser algo sério. Pensei. Quem quase derreteria minha campainha as sete e pouco da manhã?

Sem olhar pelo olho mágico abro a porta em ritmo de alarme de incêndio.

-Bom dia Dona Matilde, posso ajudar? Aconteceu alguma coisa?

Dona Matilde é uma daquelas moradoras que costumamos chamar de móveis e utensílios da casa, ou melhor, do condomínio. Do alto dos seus oitenta e poucos anos, presumo, ela cuida de como os jardineiros lidam com as flores do condomínio, dos pássaros do condomínio e da vida dos moradores do condomínio. Praticamente uma alma penada incorporada... Do condomínio.

-Estou passando para pegar a sua contribuição para o casamento do porteiro que que trabalha no período da manhã, o Seu João, sabe? Interpela-me em tom ameaçador.

Meio sem jeito com o turno de fala certeiro e anestésico, pergunto a ela a quantia do donativo que eu deveria desembolsar.

- O senhor deve doar uma quantia mínima por apartamento de vinte reais. Note a mudança no tempo verbal: o meu futuro do pretérito toma forma de um seco imperativo.

Meto a mão no bolso, encontro uma nota dez reais amassada e algumas moedas que vieram de troco do pãozinho da padaria.

- Desculpa dona Matilde... É só isso que me resta.

Ela toma os doze reais e vinte e cinco centavos da minha mão, joga dentro da estufada sacolinha de supermercado. Tão logo lança mão de uma pranchetinha e anota em trêmula letra de forma: APT 132 FICOU FALTANDO 8 REAIS.

Passa pela minha cabeça dizer que faltam 7 reais e setenta e cinco centavos, mas...

-Chega! Até mais ver dona Matilde.

Sem se despedir ela sai e derrete a campainha do apartamento ao lado.

Fecho a porta, olho o relógio que aponta sete e meia da manhã. Volto ao meu artigo. Na verdade não volto. O olho caído da dona Matilde me tirou o fôlego. Começo a remontar o acontecido na minha cabeça.

-Como essa mulher consegue me deixar sem jeito, que petulância, ela é tão... Ela é tão...

-Formidável! Agora em voz alta. Isso mesmo, grande dona Matilde.

Vinte reais por apartamento, oito por andar em um condomínio de dez prédios... Hum... Oito vezes vinte, cento e sessenta... Vezes 14 andares... Dois mil duzentos e quarenta reais por prédio. Vezes dez prédios que o condomínio possui... Chegamos a vinte e dois mil e quatrocentos reais.

-Vinte e dois mil e quatrocentos reais! Grito.

Entro num site de casamentos virtuais, arrumo uma noiva em três horas, em seguida deleto meu artigo e mando um currículo para a administração do meu próprio condomínio escrito em letras garrafais: “Cargo almejado: PORTEIRO”. §

Lucas Limberti

Leia também CRÔNICA: “I speak português...”

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"Os textos publicados podem sem utilizados para outros fins desde que se respeite autoria"


postado por Lucas Limberti as 12:06:23 #
8 Comentários

Luiza (Liza) Cantto:
Oi, Lucas.
vi vc na comunidade "Pagu, do orkut.
Li um tópico seu e não me contive,
vim lhe fazer uma visitinha.
Estou saindo feliz por tudo que li.
Voltarei mais vezes e com mais vagar.
Bjaum. Sucesso. sorte!
quinta, agosto 16, 2007 11:16 

Tati Nunes:
O seu blog é PERFEITO, não canso de ler...
sábado, agosto 11, 2007 09:58 

Lia:
Meu Deus!! Vou largar o Jornalismo já!! (risos)
sexta, agosto 10, 2007 01:42 

Lucas Marques:
E ae, td bem?
Andei ausente mais estou de volta.
Bela crônica...Fantástico...
segunda, agosto 06, 2007 12:08 

Lucas Marques:
E ae, td bem?
Andei ausente amis estou de volta.
Bela crônica...Fantástico...
segunda, agosto 06, 2007 12:07 

bob:
legal moleke!
sexta, julho 27, 2007 07:40 

Lucciana Marya:
Não ficção...
Outro dia meu pai me ligou indignado com um artigo que acabara de ler num dos principais jornais de Natal- RN. O artigo falava sobre a revolta de um porteiro de um prédio que não conseguia ser mandado embora do emprego, e que então decidiu fazer uma greve "solitária". Seu argumento era muito coerente e inteligente, levando-se em consideração a "corência" de certas legislações de nosso país..defendida por nosso "presidente"..
Fazendo poucos cálculos simples, que nem precisaram de regra de três, ele concluiu que não precisava mais trabalhar e que já passara da hora de se aposentar, já que seu salário se equiparava ao auxílio "Bolsa-família", com o qual ele continuaria a pagar os estudos de sua filha, a sustentar sua casa, e ainda teria mais tempo livre...
Precisamos rever nossos conceitos..heheheh
Baci
quinta, julho 12, 2007 11:13 

Magda:
Bárbaro!
Aliás, sempre entro pra dar aquela olhadinha.
quinta, julho 12, 2007 09:29 

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que partem do coração deságuam lúcidos
nas secas mãos do poeta.
Ávido descubro segredos de rodapé.
Ondas furtivas que remetem ao ainda.
Quanto mais se descobre,
mais sinto os respingos de suor
cobertos pelo convite do que virá.
Tramo planos e junto pistas
para destravar o universo
e vê-lo girar, solto, hipnótico,
ao meu alcance.
As cores aladas que se projetam
dos abissais limites de minha retina
são resposta calada do grito do mundo.
Dos sons almejo sinfonias
Das cores, arco-íris.
Do ouro, alquimia.
Do amor refuto.
Lucas Limberti


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