
(baseado em fatos reais)
www... Como é mesmo o endereço daquele site que coloca currículos grátis na Internet? Deixa pra lá, volto ao trabalho autônomo nesta segunda-feira, sete horas da manhã. Ser escritor demanda certa dose de audácia anticorporativa, mas com uma famigerada disciplina por vezes nula.
Já arrumado. De banho e café tomado, me ponho a digitar um artigo sobre educação para uma revista anual de uma das melhores faculdades do país. Bom para o currículo, não tão bom para o bolso.
No meio de um parágrafo... Dim dom, uma vez. Dim dom, uma segunda vez... Dim dom, uma terceira vez em ritmo longo e descompassado.
Encosto o fio de raciocínio no canto da tela do computador, me levanto e vou até a porta. De súbito fico incomodado, mas no curto caminho do escritório até a porta mudo de opinião e apresso o passo.
Deve ser algo sério. Pensei. Quem quase derreteria minha campainha as sete e pouco da manhã?
Sem olhar pelo olho mágico abro a porta em ritmo de alarme de incêndio.
-Bom dia Dona Matilde, posso ajudar? Aconteceu alguma coisa?
Dona Matilde é uma daquelas moradoras que costumamos chamar de móveis e utensílios da casa, ou melhor, do condomínio. Do alto dos seus oitenta e poucos anos, presumo, ela cuida de como os jardineiros lidam com as flores do condomínio, dos pássaros do condomínio e da vida dos moradores do condomínio. Praticamente uma alma penada incorporada... Do condomínio.
-Estou passando para pegar a sua contribuição para o casamento do porteiro que que trabalha no período da manhã, o Seu João, sabe? Interpela-me em tom ameaçador.
Meio sem jeito com o turno de fala certeiro e anestésico, pergunto a ela a quantia do donativo que eu deveria desembolsar.
- O senhor deve doar uma quantia mínima por apartamento de vinte reais. Note a mudança no tempo verbal: o meu futuro do pretérito toma forma de um seco imperativo.
Meto a mão no bolso, encontro uma nota dez reais amassada e algumas moedas que vieram de troco do pãozinho da padaria.
- Desculpa dona Matilde... É só isso que me resta.
Ela toma os doze reais e vinte e cinco centavos da minha mão, joga dentro da estufada sacolinha de supermercado. Tão logo lança mão de uma pranchetinha e anota em trêmula letra de forma: APT 132 FICOU FALTANDO 8 REAIS.
Passa pela minha cabeça dizer que faltam 7 reais e setenta e cinco centavos, mas...
-Chega! Até mais ver dona Matilde.
Sem se despedir ela sai e derrete a campainha do apartamento ao lado.
Fecho a porta, olho o relógio que aponta sete e meia da manhã. Volto ao meu artigo. Na verdade não volto. O olho caído da dona Matilde me tirou o fôlego. Começo a remontar o acontecido na minha cabeça.
-Como essa mulher consegue me deixar sem jeito, que petulância, ela é tão... Ela é tão...
-Formidável! Agora em voz alta. Isso mesmo, grande dona Matilde.
Vinte reais por apartamento, oito por andar em um condomínio de dez prédios... Hum... Oito vezes vinte, cento e sessenta... Vezes 14 andares... Dois mil duzentos e quarenta reais por prédio. Vezes dez prédios que o condomínio possui... Chegamos a vinte e dois mil e quatrocentos reais.
-Vinte e dois mil e quatrocentos reais! Grito.
Entro num site de casamentos virtuais, arrumo uma noiva em três horas, em seguida deleto meu artigo e mando um currículo para a administração do meu próprio condomínio escrito em letras garrafais: “Cargo almejado: PORTEIRO”. §
Lucas Limberti
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