
Seis, sete, oito... Doralice conta os paralepípedos do caminho de sua escola até em casa. Pensa que são miniamarelinhas e vem lá, imponente, de mãos dadas com sua irmã mais velha encarregada de buscá-la todos os dias.
Quando vira a esquina naquele fim de tarde de junho ensolarado e frio, escuta o barulho do porta-malas da Variant azul de seu pai se fechar certeiro. Ela solta das mãos da irmã, esquece dos paralelepípedos e vai correndo até o pai para abraçá-lo.
-Papai, papai vamos passear de Variant?
Encurvado com o pulo de Doralice, Evanir coloca tenso a filha no chão, longe de seus braços.
Doralice se dá conta que o pai estava de saída, com o carro cheio de coisas.
-Papai, aonde você vai? Por que está levando a vitrola?
-Papai vai viajar filha, entre que sua mãe te espera. Evanir beija a testa de sua pequena filha e com um olhar se despede da irmã mais velha. Entra no carro. Dá a partida.
De longe se ouvia o escapamento daquela Variant azul do papai. Aqui na nossa rua todo mundo sabia certinho a hora que ele chegava e a hora que saia. Mas, não foi sempre assim, antes a Variant azul era do Coca, um pintor carioca que morava no sobrado da frente.
Coca vivia enroscado com pincéis, dívidas e com meu pai, este, sempre atraído por essa gente cheia de problemas.
Atrasado com o aluguel e outras coisas mais, Coca bateu lá em casa e foi ter-se com meu pai no quintal. Na manhã seguinte a Variant azul estava lá na nossa garagem. Eu adorei.
Eu adorava passear com aquele carro, era um barulhão que todo mundo olhava, parecia uma nave espacial, sem contar que nos primeiros meses depois da compra tínhamos que entrar pelo porta-malas porque as portas dianteiras vieram emperradas do Coca.
Mas, quem realmente pegou fama do motor foi papai que rodava “até” pelo bairro e se divertia com o barulho particular daquele escapamento furado. Ai, ai...
Uma lágrima cai sorrateira e molha o colo do namorado de Doralice, agora com vinte e seis anos.
Doralice, a menina imaginativa dos paralelepípedos, vira uma exímia publicitária. Independente, alta, forte é do tipo que paga o cinema pro namorado e recria seu mundo com aparente descontração e felicidade.
O som do vinil acompanha à tarde que cai, o céu de junho embebe de esperança os olhos de Doralice que se levanta do colo de seu namorado e abre o vitral da janela de sua casa. Entra o frio.
Ao que de repente entra também um barulho que parece se aproximar. Doralice sente outro frio, agora na barriga:
-É o som da Variant azul!
O barulho vira a esquina de paralelepípedos. O olhar afoito encontra uma Brasília bege que passa veloz diante de sua hipnose desfeita.
Vira-se para o namorado e murmura embargada:
-Quando escuto esse tipo de motor sinto um aperto. As coisas não soam... Não são como antes, o Caco não mora mais aqui, mamãe ora por nós lá no céu... E faz dezoito anos que espero meu pai voltar de viagem. §
Lucas Limberti
Foto: Helena Bowel
Lei também 1º DE MAIO: "O Menino, o feriado e o Piloto”
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