
Pacto, ritual e sedução.
O efeito de encantamento da poesia pretende criar uma relação de sedução através de estímulos sensacionais. Os leitores que apreendem o significado das palavras, reproduzem certo tipo de resposta e, na maioria dos casos, atribuem juízo de valor, à respeito da emoção do poeta e não do eu – lírico. E este é o segredo de um profissional que despende duras horas de trabalho imerso na fabricação de idéias e emoções se valendo de um honesto fingimento, de um blefe milimetricamente planejado. Cria um “eu” que ao particularizar sua emoção por meio de técnicas específicas se universaliza.
O educador enquanto mola propulsora do conhecimento deve se valer destas premissas poéticas para a criação de um pacto, previamente planejado, que traga (ou leve) ao aluno para a sensação de seu blefe, para a “poesia” de sua disciplina.
No entanto, surgem indagações sobre como seduzir, motivar e desafiar alunos imersos num contexto em que a preocupação com a quantidade de conteúdo e informação sobrepõe-se à formação, mediados por professores predominantemente reprodutores.
Cabe ao professor identificar este contexto em que está inserido e ir na contramão do pensamento engessado que nega as transformações que a reflexão sobre ato de ensinar proporcionam.
O ritual consiste em estabelecer um pacto propulsor do ato de aprender, criar e refletir. No entanto, deve-se ficar atento ao caráter contraditório do pacto e não tomá-lo como uma verdade absoluta e sim como um ponto de partida para atenuar automatismos coercivos, sobretudo quanto à disciplina. Neste caso, o pacto deve ser uma construção coletiva que estimule e dê sustentáculo para a convivência criativa entre as instâncias em sala de aula.
O árduo trabalho de planejamento por parte do professor deve se dar em um ambiente consistente e previsível, para que a reflexão e a mudança de planos sejam possibilidades previamente consideradas, como um ator que ensaia veementemente os mecanismos de improvisação nas artes dramáticas.
O blefe milimétrico e planejado do poeta em seu verso deve ser tomado como exemplo para o planejamento, ou melhor, fabricação das aulas com ações técnicas de aproximação às realidades discentes para apropriar-se de elementos que os motivem e a partir da sedução (fingimento sensacional) desafiá-los para obter o complexo, o imprevisível e o mutável. §
Lucas Limberti
Foto: Lucas Limberti - Título: Poesia da cor livre
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