
Quando o tempo me falta aos compromissos faço o suficiente para respirar e tiro um cochilo para ver se passa. Quando acordo eles ainda estão lá, mas não sei, parece que estão encobertos por uma poeira atenuante. Resolvo encostar meus compromissos num café, fecho as horas da semana e mesmo ela estando na metade me arrisco arisco ao verso descompromissado para a assertiva de uma poesia simples.
E é aí que me engano.
A poesia simples é um parto sem anestesia. Dói mais que o compromisso, mas sem que haja a repulsa do sono.
Poesia que encanta é dose viciante de prazer que dilacera e esconde suor e engrenagem por de trás do lirismo marcante.
O palhaço é sujeito triste no açougue ou no lençol.
No descompromisso das horas enforcadas a tinta borra e rabisca muitas vezes o intangível para, quem sabe, atingir a maturidade do óbvio.
Com o tempo se descobre que a poesia simples não vem do sono que empoeira ou das horas no café. A poesia simples vem do banco de horas na indústria, do sem descanso do suor na construção. Do trabalho que não cochila, que não se engana.
O poeta não morreu, foi num café: Já voltou. §
Lucas Limberti
Imagem: Parto (2005) - Acrílico sobre tela – Ricardo Passos
A seção CUMPLICIDADE refere-se a retratos abstratos e espasmos cerebrais não-noticiáveis do autor que vos fala.
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