
"O azul é como o vento no rosto quando andamos de bicicleta"
Após assistir o filme “Vermelho como o céu” cujo personagem principal é um menino italiano cego, resolvi criar uma situação hipotética em que me coloco como um professor que deveria preparar uma aula para ele. Acompanhe o bom ensaio de Miguel Barbieri Jr. para imergir no contexto do enredo do filme e em seguida o planejamento da aula!
O filme segue a fórmula certeira das encantadoras películas italianas que sempre contam com bela fotografia, trilha marcante e um bambino carregado de lirismo.
De vultos e sombras
Miguel Barbieri Jr.
Um ensaio sobre a cegueira no drama Vermelho como o Céu
O prêmio do público de melhor filme estrangeiro na Mostra Internacional do ano passado comprovou a força de Vermelho como o Céu junto às platéias. Inspirado numa edificante história verídica, esse drama italiano traz a fórmula certa do encantamento. Lá estão as boas atuações do elenco infantil, a poética leitura da cegueira e um desfecho capaz de levar os mais sensíveis às lágrimas. A trama tem início em 1970, num vilarejo da Toscana. Mirco (Luca Capriotti), de 10 anos, adora brincar com os amigos e acompanhar o pai nas idas ao cinema. Um acidente muda drasticamente o destino do garoto, após um tiro de rifle atingir seu rosto. O menino passa a enxergar apenas vultos e, por isso, é transferido para um colégio especial em Gênova. Já cego, faz novas amizades, paquera a filha da faxineira da escola e, teimoso, recusa-se a aprender o método Braile para poder ler. Às escondidas, apossa-se de um gravador e sai à procura de sons da natureza a fim de produzir uma radionovela. Foi desse modo que Mirco Mencacci passou a infância. Adulto, tornou-se músico, compositor e um reconhecido editor de som, que trabalhou para os cineastas Marco Tullio Giordana (em O Melhor da Juventude) e Ferzan Ozpetek (A Janela da Frente).
(http://vejasaopaulo.abril.com.br/red/trailers/vermelho_como_o_ceu.html )
-----------------------------
Uma aula para Mirco Balleri.
Analisar o filme em questão é interessante, pois ele retrata e discute a realidade dos métodos empregados para o ensino de crianças especiais, no caso cegas, na Itália da década de 70.
No filme, que é uma história verídica, o menino é um elemento chave da transformação na educação de crianças especiais neste período. Por isso, pensar em uma aula dedicada a ele surge como desafio, especialmente por se tratar de um ensino especializado e muito discutido.
Não cabe aqui tentar propor algo que seja novo e revolucionário, já que o conhecimento prévio das teorias e discussões a respeito destas formas de educação são dados específico e cabíveis de serem discutidos profundamente apenas por profissionais balizados e com tempo de pesquisa na área.
No entanto, o menino como elemento chave desta rearticulação do sistema de ensino permite uma discussão interessante não só no campo da educação especial, mas também como ponto de partida para a reflexão sobre todos os tentáculos da educação.
Partindo da premissa de que o professor em questão não é um especialista em educação de crianças especiais, o viés adotado no planejamento segue um pressuposto que nega a educação sob o ponto de vista tecnicista e engessado.
No filme, as aulas dadas no colégio especial para cegos formavam cidadãos para serem excluídos da sociedade, ou seja, o planejamento das aulas formavam técnicos em serviços mecânicos normalmente manuais e que não exigiam reflexão sob a ação. Por exemplo, a tecelagem de roupas ou conserto de cadeiras.
Uma aula para um cego deve estimular justamente os outros sentidos que ele possue, e que normalmente são mais aguçados e potencialmente trabalhados.
O uso da imaginação pode surtir efeitos inimagináveis. Como em uma passagem do filme em que Mirco explica para o colega como era a cor azul: “O azul é como o vento no rosto quando andamos de bicicleta”
Portanto, propor atividades que estimulem a imaginação deve balizar todo o planejamento. Uma aula interessante pode propor que este aluno conte uma história (começo, meio e fim), já trabalhando os conceitos teóricos da estrutura de uma narrativa, seja por meio de uma redação, seja ela com escrita em braile, ou por meio de gravação da voz.
A escolha do tema é importante também, pois deve ser um que leve o aluno a desenvolver mecanismos de defesa em relação a sua defasagem visual e o inclua no mundo como um sujeito capaz de realizar algo superior aos demais, e assim o coloque numa posição de dignidade e equilíbrio no mundo competitivo que vivemos.
Um bom tema seria escrever sobre música, pedir par que o aluno decifre e descorra em uma história as possibilidades de se dizer algo através de tons e melodias. Outro tema interessante seria a construção de poesias, levar o aluno ao conhecimento das figuras de linguagem, como por exemplo, a enorme possibilidade imaginária que pode se chegar com a metáfora.
Estas propostas feitas com direcionamento pedagógico do ponto de vista teórico podem surtir efeitos interessantes partindo sempre da premissa que leva em consideração a imaginação e a reflexão sobre a ação. §
Lucas Limberti
-------------------------
Vermelho Como o Céu
de Cristiano Bortone (Rosso come il Cielo, Itália, 2006, 96min).
Foto: Divulgação
- Leia sempre o Varal do infinito e estenda seu comentário -
"Os textos publicados podem sem utilizados para outros fins desde que se respeite autoria"













