
“Cariocas são espertos, cariocas nascem bambas, não gostam de sinal fechado”.
(Adriana Calcanhoto)
Sem fígado para esponjar os dramas da violência coletiva
Admira-me muito o jogo de cintura dos cariocas, a segurança verbal e o positivo ecletismo vertical que criou o samba e bossa-nova. No entanto, sem generalizações, irrita enormemente a mania de querer se dar bem, se safar ilesos de falcatruas e depois contar aos colegas de botequim com ares de superioridade. Uma espécie de “Zé carioca” encarnado num inconsciente coletivo pautado na legislação de Gerson.
Pela manhã ligo noticiário e surge algemado o médico Joaquim Ribeiro Filho também professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Seu crime: tráfico de órgãos, no período entre 2003 e 2007, preterindo a lista nacional de transplantes de fígado em Hospital Público.
Parece piada, mas não é. Pois, “contra piadas não há argumentos” (Kafka, O castelo). E o argumento no caso, é um descaso ético de dupla má utilização do recurso público. A ironia continua no nome dado à investigação do Ministério Público Federal (MPF): Operação Fura-Fila. Que, principalmente quem é de São Paulo, deve ligar ao escândalo de desvio de dinheiro da sociedade pelo então prefeito Celso Pitta na construção do VLP (Veículo Leve Sobre Pneus) apelidado
de Fura-Fila: mais uma furada, sem contar que nessa história tem o dedo de Paulo Maluf. Bom mais isso é uma outra história...
Posso estar equivocado quanto minha perseguição aos “malandros” fluminenses, mas no mesmo telejornal surgem notícias de poderes paralelos, violência gratuita dos zoomorfizados jovens pit-boys, milícias que dominam áreas esquecidas pelo Estado e ações de policiais corruptos, este último, salvo exceções, soando lingüisticamente como um pleonasmo.
O bom malandro que acorda cedo, trabalha e chacoalha no trem da Central ficou esquecido nas partituras de Chico Buarque ou então lembrado pelo personagem “Dé”, no filme recém-lançado “Era uma vez...” do diretor Breno Silveira que é constituído imerso na estética da pobreza como a vítima. O caricato personagem é um honesto trabalhador de quiosque da praia que mesmo morador da favela do Canta Galo luta incessantemente para fugir do determinismo social proposto por Comte, mas perde a guerra. A derrota da honestidade neste caso, mesmo que involuntária, carrega e mantém o estigma do mau malandro que “ignorantemente” é mantido por um círculo vicioso e “marrento” guiado pela elite e classe média, que diga-se de passagem é a que mais se ilude e apanha no limbo existente entre o morro e o asfalto.
Até quando essa elite carioca vai continuar mantendo a pose colonial, esquecendo que os bigodes da capital brasileira ficaram para trás no ano de 1960. A herança deste período incrustado no comportamento dessa sociedade, sobretudo, repito: das elites, cega os olhos para o óbvio. Tão quanto à expressão “cegar o olho”.
O óbvio, meus caros, esta lá, refletido na retina dilatada de todos, cercando e esmagando as areias da praia, enchendo as narinas e pulmões dos que vivem no asfalto.
Os porteiros, faxineiros, motoristas, flanelinhas e todos os empregos que fazem a manutenção da estrutura social que os cariocas da elite se negam a fazer, é um barril de pólvora, é um bafo quente e sonoro que penetra perto. E parece que o homem do asfalto esquece que está cercado por uma cortina de terra alta e dura. Dura no sentido de que lá, o regimento dos homens vai na contramão do proposto pela sociedade civil, a lei é outra. É outra: pá, pá, pá!
E aí meu amigo: rebele-se, mude-se para o nordeste ou...
Salve-se quem puder! §
Lucas Limberti
Foto: Divulgação
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