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quarta, 13 agosto, 2008
CARIOCAS: “Era uma vez um pobre povo da gema podre”


“Cariocas são espertos, cariocas nascem bambas, não gostam de sinal fechado”.              

(Adriana Calcanhoto)

Sem fígado para esponjar os dramas da violência coletiva

Admira-me muito o jogo de cintura dos cariocas, a segurança verbal e o positivo ecletismo vertical que criou o samba e bossa-nova. No entanto, sem generalizações, irrita enormemente a mania de querer se dar bem, se safar ilesos de falcatruas e depois contar aos colegas de botequim com ares de superioridade. Uma espécie de “Zé carioca” encarnado num inconsciente coletivo pautado na legislação de Gerson.

Pela manhã ligo noticiário e surge algemado o médico Joaquim Ribeiro Filho também professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).  Seu crime: tráfico de órgãos, no período entre 2003 e 2007, preterindo a lista nacional de transplantes de fígado em Hospital Público.

Parece piada, mas não é. Pois, “contra piadas não há argumentos” (Kafka, O castelo). E o argumento no caso, é um descaso ético de dupla má utilização do recurso público. A ironia continua no nome dado à investigação do Ministério Público Federal (MPF): Operação Fura-Fila. Que, principalmente quem é de São Paulo, deve ligar ao escândalo de desvio de dinheiro da sociedade pelo então prefeito Celso Pitta na construção do VLP (Veículo Leve Sobre Pneus) apelidado

de Fura-Fila: mais uma furada, sem contar que nessa história tem o dedo de Paulo Maluf. Bom mais isso é uma outra história...

Posso estar equivocado quanto minha perseguição aos “malandros” fluminenses, mas no mesmo telejornal surgem notícias de poderes paralelos, violência gratuita dos zoomorfizados jovens pit-boys, milícias que dominam áreas esquecidas pelo Estado e ações de policiais corruptos, este último, salvo exceções, soando lingüisticamente como um pleonasmo.

O bom malandro que acorda cedo, trabalha e chacoalha no trem da Central ficou esquecido nas partituras de Chico Buarque ou então lembrado pelo personagem “Dé”, no filme recém-lançado “Era uma vez...” do diretor Breno Silveira que é constituído imerso na estética da pobreza como a vítima.  O caricato personagem é um honesto trabalhador de quiosque da praia que mesmo morador da favela do Canta Galo luta incessantemente para fugir do determinismo social proposto por Comte, mas perde a guerra. A derrota da honestidade neste caso, mesmo que involuntária, carrega e mantém o estigma do mau malandro que “ignorantemente” é mantido por um círculo vicioso e “marrento” guiado pela elite e classe média, que diga-se de passagem é a que mais se ilude e apanha no limbo existente entre o morro e o asfalto.

Até quando essa elite carioca vai continuar mantendo a pose colonial, esquecendo que os bigodes da capital brasileira ficaram para trás no ano de 1960. A herança deste período incrustado no comportamento dessa sociedade, sobretudo, repito: das elites, cega os olhos para o óbvio. Tão quanto à expressão “cegar o olho”.

O óbvio, meus caros, esta lá, refletido na retina dilatada de todos, cercando e esmagando as areias da praia, enchendo as narinas e pulmões dos que vivem no asfalto.

Os porteiros, faxineiros, motoristas, flanelinhas e todos os empregos que fazem a manutenção da estrutura social que os cariocas da elite se negam a fazer, é um barril de pólvora, é um bafo quente e sonoro que penetra perto. E parece que o homem do asfalto esquece que está cercado por uma cortina de terra alta e dura. Dura no sentido de que lá, o regimento dos homens vai na contramão do proposto pela sociedade civil, a lei é outra. É outra: pá, pá, pá!

E aí meu amigo: rebele-se, mude-se para o nordeste ou...

Salve-se quem puder! §

Lucas Limberti

Foto: Divulgação

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postado por 35821 as 10:42:39 #
5 Comentários

Rafael Ferreira:
Valeu pela conselho!
Estou me mudando para o Nordeste...
domingo, agosto 24, 2008 08:20 

Thiago Okada:
Texto interessante Lucas. Mostra uma postura firme sobre um tema polêmico. O único ponto em que não concordo é o fato de você botar a culpa na elite. Parte da culpa do problema no RJ pode até ser deles mesmo, mas a maior parte não seria o próprio "povão" que vota sempre nos mesmos políticos (corruptos)?

No mais, parabéns.

T+
sexta, agosto 22, 2008 08:57 

Esther Dallari:
Lucas,vc finaliza seu texto com a seguinte frase:"...E aí meu amigo: rebele-se, mude-se para o NORDESTE ou...Salve-se quem puder!"Saiba que a canalhice,infelizmente,é generalizada.Moro no Nordeste,precisamente em João Pessoa,e o ex-prefeito daqui desviou verbas de um viaduto para o seu próprio bolso.O viaduto foi feito,mas mal-feito(rsrs),pois ficou estigmatizado como "O VIADUTO SORRISAL"(rsr).Por quê?Porque não pode entrar em contato com a água,no caso a chuva,que se desmancha.Hoje em dia,esse mesmo prefeito se encontra em palanques,não discursando,mas apoiando nossos futuros candidatos para as elições municipais.Então,o que falta realmente é o POVO brasileiro ter um pouco de CONSCIÊNCIA POLÍTICA.
quinta, agosto 14, 2008 07:04 

Esther Dallari:
T

quinta, agosto 14, 2008 06:39 

Esther Dallari:
Texto fabuloso,Lucas!Parabéns por ter CORAGEM de escancarar a realidade de forma tão elegante.
Em matéria na rebvista Época,foi abordado esse tema do tráfico de órgãos,fiquei impressionada com a ganância do médico citado por vc.Ele e sua equipe ganharam numa faixa de 120 mil reais p/ furar a fila e fazer a cirurgia de três pacientes,dentre estes o irmão do Secretário de Transporte do Rio,do governo de Antony Garotinho;o filho do ex-governador de Pernambuco,Miguel Arraes;e outro paciente não indentificado pela Polícia Federal,mas q com certeza deve ter muito dinheiro no bolso.Como brasileira fico INDIGNADA com essa situação.Agora,imagino quem está esperando um transplante durante anos,como não ficam?
quinta, agosto 14, 2008 06:38 

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