
Falar em preconceito significa olhar para a sociedade como um todo, invertendo as lógicas de pensamentos precipitadas e pensar em soluções efetivas que atuem na base de sua estrutura.
Todas as leis têm seus lados e interpretações. Destinar cotas para negros em universidades e empresas pode ser ato-destrutivo, ou seja, uma vez que é definida uma porcentagem para determina instância considerada alvo de preconceito, ela se torna vulnerável às amarras deste limite. Praticamente isto significa que se uma empresa segue uma lei, hipotética, que destina 20% de suas vaga a negros, azuis, amarelos, enfim, isso delimita um espaço do qual não se pode ultrapassar. Nestas condições significa dizer que 80% das vagas são destinadas ao cidadão branco, sem nenhuma deficiência e formado no exterior. Os 20% são como se voltássemos aos limites da senzala.
Para cada caso o olhar deve ser direcionado com sua especificidade. É óbvio que momentaneamente as leis de cotas em universidades, por exemplo, são aceitáveis até que se restabeleça um equilíbrio social que apague as execrárias leis de escravatura tão presentes nos procedimentos da sociedade que vivemos. Mas, uma geração adiante a cota surgirá como um autopreconceito. Este procedimento deve ter delimitado a exata temporalidade de sua existência.
Pensar em saídas práticas e legislativas, sobretudo em curto prazo pode ser perigoso. Como por exemplo, a nova lei de proibição de algemas caso o preso não resista à prisão. A lei é maravilhosa e leva em consideração os direitos humanos, mas se não analisada com cuidado pode significar um grão de areia verso a uma estrutura de poder estatal que no fundo não vai mudar. A algema moral talvez seja mais cruel.
Quando falamos em soluções para moralizar e evitar abusos da polícia, temos que tomar cuidado com o discurso inocente que pensa que as medidas superficiais vão surtir efeito de mudança. A polícia funciona como um tentáculo do poder do Estado, e em nossa sociedade exerce um papel de repressão e não de proteção. Repito, repressão e não de proteção. Partindo desta premissa, qualquer lei ou solução imediata apenas reformará um estado de coisas que é rígido e arraigado como o preconceito aos negros dito no exemplo anterior.
Em uma reportagem sobre as infrações de trânsito, após a jornalista ter entrevistado vários cidadãos, questionou alguns policiais dirigindo sem cinto em flagrante, sobre este procedimento que feria a legislação do trânsito. E o que mais choca é a resposta do suposto defensor da lei: “Eu não uso cinto porque se eu precisar descer do carro e trocar tiro com vagabundo fica mais fácil”.
Bom, diante de um polícia que troca tiro com vagabundo em pleno trânsito e se nega a cumprir a lei que ela mesma defende fica difícil legislar algo que atue na superfície. Já me falaram em fazer banheiros específicos para homossexuais. Um primeiro pensamento leva a crer que é uma conquista, uma medida contra a homofobia em que os coloca em estado de direito. No entanto, isto nada mais é que excluir do convívio social e negar a condição de ser humano. Seja qual for a sexualidade não muda o gênero, masculino ou feminino.
A última é: a lei de licença maternidade que passará ser executada a partir de 2009, onde o período de afastamento aumentará para seis meses. É a mesma coisa das algemas, enquanto a sociedade não entender que esta é uma lei que legitima a cidadania em seu nível mais nobre, é uma lei que defende nossas crias, nossas crianças, nosso bem-estar, nosso laço afetivo e formador. Mas, se isso não ficar bem claro, sublinhado na cultura e repetido aos quatro cantos teremos um efeito inverso perigoso. Os RH’s vão coibir e estreitar a contratação de mulheres, até aí se queremos lutar contra preconceito esta deve ser uma bandeira hasteada e tremulante com ventiladores bucais se for o caso. E pense no caso de uma gestante, será obviamente persona non grata em qualquer âmbito da contratação empregatícia.
É preciso negar uma ação imediata e inferir em práticas que promovam a cidadania. Muitas vezes o discurso de cidadania e revolução pela educação é pinchado de retórico e clichê, mas porque os que o proferem não saem do âmbito teórico e muitas vezes reformam um estado de coisas que convém.
O mesmo acontece com determinada camada dita revolucionária e presa às barbas de Che, que defendem a luta armada, mas muitas vezes nem lavam seus lençóis. Pegar em armas talvez seja a solução, mas com a sociedade cada vez mais autoritária e com idéias de falsa liberdade hipnotizam os pobres homens pobres e pasteurizados. Por isso a revolução dever ser reflexiva, a arma do argumento age no cerne do adversário, luta de igual pra igual. A arma e capital perdem somente para a educação, cidadania e arte.
Temos a paciência e procedimento revolucionário? Espero que sim.
Lucas Limberti
Foto: Paul Strand (EUA, 1890-1976), Blind, 1916.
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