
Forçosa, chegou até mim e apunhalou-me de surpresa. Enquanto empurrava o aço contra meu ser, me olhou nos olhos. Eram aqueles antigos olhos de janela para o desconhecido. O sofrimento dela ia sumindo à medida que minha respiração soluçante agravava-se com o fim. O toque de sua mão firme nos meus braços era sensual e destrutivo. Senti saudade, senti vontade de morrer.
Todas as histórias que ocupavam a cabeça dos antigos amantes passaram como filme. Um segundo em mil. A faca, os braços e o estômago materialmente representando o infinito daquele momento último.
A calçada preta e branca da Avenida Paulista ganhou novo colorido: Vermelho rubro.
Agachando. De joelhos. Respirei com dificuldade. Sua mão continuava tênue sobre as vísceras. De surpresa. Lenon arrefecido.
Curiosos agruparam. Uns aplaudiram. Outros enganaram.
A sirene rompante formou a sinfonia catártica que emoldurou o fim. O suor frio e o sangue espesso tomaram lugar da antiga praça de paralelepípedos.
Sem resistência a vi partindo na carruagem de seu merecimento com as mãos para trás.
O ar acabou.
Mas, a falta de juízo tornou meu assassinato um reencontro. §
Lucas Limberti
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