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terça, 10 maio, 2011
CULTURA: “O MATADOR DE REALENGO”


Apresentação no CENTRO CULTURAL VERGUEIRO

Projeto Vinagrete toca Projeto Vinagrete.


O Facebook me pergunta:
-No que você está pensando?
Estou pensando na barbárie carioca. Estou consternado. Sou professor e vivo com aquelas crianças, isso mesmo, iguais aquelas do Rio de Janeiro. Esta semana no intervalo do noturno, numa Escola muito parecida com a da tragédia, só que em São Paulo, ligamos a TV na secretaria e juntos, secretários, professores, funcionários compartilhamos lágrimas e revolta.
A pergunta é: Por quê?
Loucura? Tirando essa possibilidade que cabe as instituições competentes no que diz respeito a um fato isolado vale lembrar algumas coisas que as pessoas no afã do luto acabam desconsiderando.
Falo do inconsciente coletivo da violência que se estabelece no Brasil há muito tempo. Desta vez surge mais um personagem, com outra gênese. Desta vez, não deu pros “caveiras” do BOPE. Não é mesmo, Capitão Nascimento? (super-herói de araque). Desta vez não foram os bandidos, tipo social marcadamente dicotômico ao primeiro exemplo. O lado ruim, o vilão nesse maniqueísmo é construído para romanticamente tornar razoável a limpeza étnica e social dos morros e favelas, constituindo assim esse outro personagem da historinha da vida real criada nas entrelinhas e maquiando o carnaval da corrupção e dos ditames elitistas.
Porém, desta vez a lógica maniqueísta fugiu ao controle dos “bonzinhos pacificadores” que usam a faca na caveira. Desta vez as caveiras furadas foram as das crianças de Realengo.
E eis que nasce a terceira via, um terceiro personagem: “O louco, fundamentalista e matador de criancinhas”.
Era a pimenta de vingança para a historinha da tragédia brasileira. O problema é que essa historinha de personagens bem ao estilo Marvel Comics, não é ficção.
Este “louco” precisa de um antídoto muito mais complexo do que uma polícia competente ou de um tanque de guerra urbano docilmente chamado de “caveirão”. É preciso acabar com a ideologia do crime presente no inconsciente coletivo da sociedade, isto significa mudar degrau por degrau, ideias pequenas sobre pacificação.
Especificamente no Rio de Janeiro, antiga corte opressora, o caso é mais grave. Desde sempre a síndrome da malandragem, o dito mal de Zé carioca, há muito constrói uma persona de que o melhor é o mais malandro (Leia o artigo publicado sobre a estética da malandragem neste memo blog). Além disso, a criminalidade se desenvolve desde a década de 60, 70 e 80 muito bem retratada pelo filme “Cidade de Deus” e na década de 90 e início do século com “Tropa de elite I e II”. O crime tornou-se parte da cultura carioca, tiros, sequestros, guerras entre organizações criminosas estão logo ali no morros cercando a cidade.
A classe média acostumada com esta lógica criou filhos “bolados”, fisiologicamente moldados em academias e treinados nas mais diversas artes marciais que acham “cult” ir ao Castelo das pedras (balada funk carioca) e “descer até o chão” rebolando a vida com músicas “proibidonas” com apologia direta ao crime.
Até onde não deveria. Ídolo do esporte, repito, do esporte, impera em fotos nos jornais portando metralhadora ou fazendo símbolo em alusão à organizações criminosas.
No Brasil, numa das poucas oportunidades ideológicas de paz o resultado foi de derrota. No referendo contra as armas de alguns anos atrás a vitória foi da violência. O Brasil disse “SIM”, nós somo à favor da comercialização das armas.
Arma é um objeto que serve para matar, logo é um objeto que atenta contra a vida. Comercializá-la, significa dizer que somos a favor de que pessoas que não são responsáveis pela segurança da sociedade portem este objeto da morte. Esta é uma postura ideologicamente violenta, é claro que não resolve, que o bandido vai continuar armado, mas o degrau da paz foi alcançado e assim aos poucos mudamos este inconsciente comportamental de violência.
Assim, quem sabe numa sociedade menos violenta, o assassino de Realengo tivesse sofrido menos preconceito na infância, tivesse tido oportunidade de tratamento mental (se é que este o caso), viveria num mundo onde a moral não seria pautada por empresários bem vestidos com bíblias debaixo do braço que se aproveitam da carência existencial dos oprimidos.
Estas doze crianças fazem parte do meu dia-a-dia, estas doze criança infelizmente já estão sendo utilizadas politicamente, mas as lágrimas que derramei por fazer parte desse meio, dessa desmesura que vive a educação no nosso país, não serão em vão. Vou pegar a história destas doze crianças e estampar uma bandeira, um estandarte de luta por um amanhã se não melhor, pelo menos totalmente diferente do que vivemos nessa semana.
§

Lucas Limberti

Texto original da leitura dramática que fiz na abertura do show histórico do Projeto Vinagrete no Centro Cultural Vergueiro (março de 2011).

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postado por 35821 as 09:40:46 #
3 Comentários

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quarta, julho 25, 2012 06:24 

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Cláudia:
Sua voz é a voz de todos os professores, obrigada por ela!
terça, maio 17, 2011 10:56 

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Lucas Limberti


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