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domingo, 31 janeiro, 2010
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Uma fôrma sem forma
“Confesso que lamentei ter que matar o cara, ele tinha caráter”, palavra do protagonista do romance policial mais recente de Rubem Fonseca, O Seminarista, que li quase de uma única sentada. Não foi de uma, mas foi de duas: na primeira, li do capítulo 12 ao último, 23; na segunda e última, do capítulo 1 ao 11. Não raro, começo ler o livro do meio para fim; às vezes, também do fim para o começo. Tenho também a mania de, para variar, ler vários livros ao mesmo tempo. Talvez isso não seja muito proveitoso, mas, há muitos anos, o faço e já me acostumei. Gostei do livro, embora seja natural que haja quem tenha lido e não gostou, ou venha a ler e não gostar. Gostos e cores não se discutem (de gustibus et coloribus non est disputandum). O livro, aliás, é recheado de citações latinas, postas propositadamente por Rubem Fonseca, dado ser o protagonista egresso de um seminário de padres. Essa aí não está lá, mas estão várias outras. “Saí do seminário por ser um sujeito libidinoso”, diz o personagem. Não foi ser padre e, além de libidinoso, tornou-se matador profissional, mas continuou gostando de latim. Gozadoramente, o autor faz que outra personagem, outro matador, diga em determinado momento: “Essa tua mania de falar latim enche o saco.” Pois é. Atividades da pós-graduação e o desânimo que me tem achacado afastaram-me do blogue. Fiquei uns dias sem escrever minhas crônicas meias-tigelas. Motivos para escrever até tive muitos, pois sempre os tenho, sempre os vejo no dia a dia. Aliás, esse dia a dia – que era dia-a-dia e deixou de ser por causa do acordo ortográfico – já é um motivo interessante para escrever. Eu tinha o prazer (até posso dizer: orgulho mesmo) de saber empregar corretamente o substantivo composto dia-a-dia, distinguindo-o com segurança da locução adverbial de tempo dia a dia, que nunca foram nem jamais serão a mesma coisa, embora sejam agora escritos da mesma forma. É por causa disso e por vários outros motivos que sou contra o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, embora o tenha adotado logo em 1.º de janeiro de 2009, quando ele entrou em vigor no Brasil. O acordo ortográfico é falho, omisso e obscuro, e, como se isso não bastasse, a Academia Brasileira de Letras o interpretou açodada e equivocadamente no que diz respeito ao emprego do hífen. Em relação ao hífen e a outros assuntos, a redação do acordo é defeituosa e a academia cometeu disparates e desatinos como, por exemplo, tirar o hífen de onde jamais deve sair, de palavras como dia-a-dia, mão-de-obra, pão-de-ló, pé-de-cabra, pé-de-chinelo, pé-de-moleque, testa-de-ferro, tomara-que-caia, dentre muitas outras. Foi, data venia, um erro grosseiro de interpretação. Sou contra o acordo, mas o adotei logo na primeira hora. E o fiz não por encontrar nele algo que lhe justifique a necessidade de existir, ínfima que seja. Não. Ele, além de desnecessário, saiu malfeito, mal-acabado, porque foi mal redigido. Mas eu aderi a ele, porque, ao menos por enquanto, ele é irreversível. Precisa ser mudado, alterado, melhorado e muito (o ideal mesmo seria revogá-lo totalmente), mas qualquer mudança demandará muito tempo, consumirá anos e mais anos. Ah!... Queria falar do blobfish, o peixe mais feio do mundo, que, tal qual o hífen, está quase sendo extinto desnecessária e absurdamente, mas por hoje não vai dar: já se foram o tempo e o espaço de uma crônica. Fica para outro dia. Blobfish é o P. marcidus, indivíduo cuja semelhança com o H. pylori é tão somente o habitar em profundezas. Hum?... Fôrma sem forma?... Ah, sim!... É o acordo!
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domingo, 10 janeiro, 2010
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Em cima do muro? Eu, hein!
Recebi de um leitor, ipsis litteris, no blogue http://valdinar.zip.net, o seguinte comentário à crônica “Macaxeira ensoada, ovo encruado”, publicada nos meus blogues: “Dr. Valdinar, por favor, desça do alto de sua sapiencia, e dê, a nós, mortais comuns, a sua opinião sobre os Prefeitos, anterior e atual, bem como, o que vê e ouve nessas sessões da CMM. Ou melhor, não continue em cima do muro. Haja visto, em seu Blog, o professamento de seu amor incondicional por esta terra que tão bem o acolheu. Em 10.01.10, Marabá-PA.” Embora reconheça que o leitor está me gozando, quando fala em sapiência e mortais comuns, e sendo injusto, quando diz que estou em cima do muro, sinceramente sou muito grato a ele: pelo comentário, que serviu de assunto para uma crônica, embora uma crônica muito simples e, talvez, sem graça, e principalmente por ler meu blogue. Meus leitores têm para mim valor inestimável. Gostaria mesmo de homenageá-lo, citando-lhe o nome nesta crônica, mas deixo de fazê-lo, com o receio de, em vez de um giro, fazer um jirau. Ou seja, fiquei com medo de, querendo agradá-lo, desagradar. Eis, contudo, nos parágrafos seguintes, a resposta que lhe dei: “Muito obrigado por ler meu blogue! Espero que este comentário, que é o primeiro, não seja o último. Preciso, contudo, fazer-lhe duas correções. Primeira: Sou filho de Marabá; quando nasci, São Domingos do Araguaia pertencia a Marabá, juntamente com São João do Araguaia, novamente emancipado em 1961. Segunda: Nunca estive em cima do muro, posição que talvez seja a sua. Se todos pensassem e agissem como eu, Marabá não teria em postos importantes determinadas pessoas que tem. Tenho só um voto; minha influência como eleitor é igual à sua. No mais, entrei na Câmara Municipal por concurso público, classificado em primeiro lugar e, conquanto meu cargo jurídico seja em comissão, dou parecer nos processos sem me preocupar em agradar ou desagradar ao Prefeito ou a qualquer um dos Vereadores. Agora, se os Vereadores, às vezes, não seguem os pareceres jurídicos, paciência! Fiz o que posso fazer. Meu blogue não é jornalístico; pretende ser literário, posto que não seja. Mesmo assim, minhas crônicas são críticas. Basta lê-las com a devida atenção. Os Prefeitos - tanto os anteriores, quanto o atual - não têm sido bons administradores, conquanto tenham em comum o que eu mais detesto em qualquer pessoa: a arrogância. Os Vereadores também deixam a desejar (e muito!), principalmente porque não discutem os projetos de lei como deveriam discutir nem fiscalizam o Poder Executivo como deveriam fiscalizar. Mas eu sempre disse isso a eles mesmos. Logo, fiz mais uma vez, o que posso fazer. Muito obrigado e volte quando quiser. Abraço!” De fato, não sei por que o leitor disse isso, mas as minhas crônicas são críticas. Em quase todas elas, se não em todas, há sempre uma crítica, notadamente contra o Estado: ora ao Poder Judiciário, ora ao Poder Executivo, ora ao Poder Legislativo, ora ao povo, pois este tal de povo, como um dos elementos que formam o Estado, também não é flor que se cheire. Procuro, contudo, criticar sem ser deselegante, embora até exista quem me ache deselegante. É normal. Quem consegue agradar a todos? Ninguém, lógico! Um dia desses, aliás, fiquei muito lisonjeado quando uma colega advogada (que, por sinal, foi minha professora de Direito Penal) me disse: “Gosto muito dos artigos que você escreve no jornal e leio todos. Você escreve muito bem! E, para mim, o mais importante é que você é muito crítico, sem ser deselegante. Parabéns!” Puxa vida, ouvir isso de uma leitora é o máximo! E quando essa leitora é uma ex-professora, vale dobrado. Ganhei o dia!
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quarta, 06 janeiro, 2010
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Macaxeira ensoada, ovo encruado
Lendo a crônica “Homens & Mulheres”, de Carlos Heitor Cony, no site da Academia Brasileira de Letras, encontrei o adjetivo “encruado” (na verdade, particípio passado do verbo “encruar”). E, um pouco antes, ao ler o pensamento número 260 do livro 501 Pensamentos do Pe. Antônio Vieira, encontrara a locução “tujupar de pindoba”. Aí, não deu outra: bateu uma saudade imensa do meu avô materno, José Monteiro da Silva, e do meu pai, João Belizário de Souza, ambos falecidos, bem como de outros parentes e, ainda, da vida que levei na roça, no passado que irremediavelmente se torna cada vez mais distante. O leitor, por acaso, lembrar-se-ia da minha crônica “Tijitica, Jitirana e Tijupá”? “Tujupar” é variação de “tijupá”. “Encruado”, “ensoado”, “macaxeira”, “pindoba” e “tijupá”, dentre outras tantas, eram palavras comuns ao linguajar da minha família, quando morávamos na roça, onde fui criado, na zona rural de São Domingos do Araguaia. “Macaxeira ensoada” é aquela que, mesmo cozida, continua dura. E, meu avô não comia traíra, porque – dizia ele – era igual à macaxeira ensoada. Ele também não comia alguns outros alimentos e explicava sua rejeição com afirmações do tipo dessa que usava para não comer traíra. Por causa disso, meu pai, na liberdade de genro, o acusava de ser “cheio de nó pelo espinhaço”, outra expressão muito comum para nós. Meu pai era piauiense, de Canto do Buriti, lugar de onde saiu a pé, para o Maranhão, em 1952 e aonde nunca mais voltou. “Cheio de nó pelo espinhaço”, na linguagem do nordestino, é o indivíduo cheio de idiossincrasias, ou seja, mutatis mutandis, um sujeito rabugento, como chamam em outras regiões do país. Mas meu avô – que, por sinal, também era piauiense e até filho de cearenses – não era rabugento; preferências culinárias à parte, era uma pessoa muito boa; homem simples, mais interessante. Deixo de dar o significado das outras palavras e, propositadamente, remeto o leitor aos bons dicionários. Registro, contudo, que acalento o desejo de ainda escrever um dicionário com as palavras do linguajar do meu povo da roça: meus pais, meus tios e as demais pessoas do nosso convívio ao longo da minha infância e adolescência, na zona rural. Amo as minhas raízes e, por isso, gosto de conversar com o Dr. Sebastião de Jesus Souza Castro e a Zuleide, meus colegas da Câmara Municipal de Marabá, que apreciam usar, propositadamente, o mesmo palavreado. Com frequência, digo a eles: “Opa! Essa aí veio de longe e me lembrou do meu pai.” Ou do meu avô, ou da minha mãe, conforme o caso. Encruado e ensoado não são sinônimos nem cognatos, é claro. Mas, por fim, apenas para lembrar os falsos cognatos, informo que ambas as palavras, em nosso linguajar, eram contextualmente empregadas quase como sinônimo. “Carne encruada” era a que, mesmo depois de muita cocção, continuava dura, da mesma forma que “mandioca ensoada” era a que não amolecia. Dizíamos, da mesma sorte, que a roça ficara encruada, quando não queimara direito e precisava ser encoivarada. Aliás, “coivara” era outra palavra comum para nós. Puxa vida, que saudade!
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