Dr. Valdinar Monteiro de Souza
Dr. Valdinar Monteiro de Souza
terça, 15 dezembro, 2009
O macaco sem pelos e sua fêmea natural

Resolvi reler Como Tratar as Mulheres, de William Camus, traduzido do original Comment  s’Accomoder des Femmes por C. Luz e publicado pela Editora Artenova S. A., a qual, salvo engano, deixou de existir. Comprei-o em maio de 1978 e li com avidez, recém-saído da adolescência, com exacerbada curiosidade sobre sexo. Depois o esqueci, por quase trinta anos, entre os muitos outros livros que possuo, acudindo-me somente agora a ideia da releitura. É muito agradável e altamente proveitoso, naturalmente com visão diferenciada pela formação universitária e a experiência de vida adquirida, reler agora os livros que li há lustros e décadas.

Como Tratar as Mulheres é uma obra interessante, que ensina a amar e admirar a mulher, muito embora uma leitura desavisada possa fazer parecer o contrário, por ser entremeado de rasgos espirituosos, sem embargo do resgate histórico-científico da evolução dos humanos ao longo dos tempos. É um livro sério, mas escrito de forma brincalhona, sem a sisudez.

São 199 páginas e seis capítulos, cada um deles começando com epígrafe e terminando, da mesma forma, com um pensamento filosófico. O primeiro tem como epígrafe o pensamento: “Estamos quase acordando quando sonhamos que estamos sonhando.” E termina com este, de Tristan Bernard: “Os otimistas e os pessimistas têm um defeito em comum: têm medo da verdade.” William Camus é, sem dúvida, um baita brincalhão que faz questão de registrar, expressa e solenemente, que não é misógino.

Começa a vivacidade já no primeiro parágrafo do primeiro capítulo, a que, com letras garrafais, deu o título de “Advertência”, onde ele diz solenemente: “Senhores, este livro é de vocês. Confiem-no a sua companheira e perderão imediatamente as vantagens que dele podem retirar.” Logo mais à frente, no mesmo capítulo, dispara: “O homem é simplesmente um macaco sem pelos, a mulher é a sua fêmea natural.” E, para não fechar diferentemente, no último parágrafo do último capítulo conclui de forma grave, mas sem abrir mão da ironia tão peculiar ao longo da obra: “Conscientes de nossas possibilidades evolutivas momentâneas, continuemos então a viver como macacos superiores; o mais difícil será persuadir nossa fêmea que ela é uma macaca.” É, de fato, um gozador!

Isso aqui, contudo, não é resenha: é uma crônica simplória com que busco homenagear as mulheres, expressando o carinho, respeito e admiração que sempre tive pela nossa fêmea natural. Quero também, como homenagem, declinar a principal razão da releitura. É que na bela crônica “Chris não está no Google”, meu amigo Guilherme José Purvin de Figueiredo, ao evocar episódio de 26 de março de 1977, no último parágrafo, faz sobre a moça a quem chama de “musa da esquerda na São Francisco”, uma afirmação que me lembrou algo dito no livro.

Guilherme  Purvin diz, brincalhonamente: “Naquela manhã aprendi muita coisa, menos a dar um beijo na Chris. Na verdade, o Umberto, o Tatuí e o Marcelo também não. Azar o nosso, pois na reunião seguinte ela já namorava um alienado frequentador da Atlética. Resumindo: O quadro de Dom Pedro II, assinado por Benedito Calixto, está desaparecido. Assim como a Chris, que sequer aparece no Google. Esperava identificá-la como alguma pesquisadora gorda, descabelada e pretensiosa, com os dentes amarelos de nicotina, falando de Joyce e Proust. Deve ter se casado com algum boçal, saradão e de direita. Ou, quem sabe, com o Geraldo Vandré?”

A expressão “pesquisadora gorda”, de Purvin, lembrou-me o que disse alguém identificado no livro por William Camus apenas com as iniciais O. B.: “ A única vez que um homem se sente bem com um excesso de peso é quando o constata na mulher com a qual quase se casou.” Daí resolvi reler o livro. Registro, todavia, minha discordância desse observador citado por William Camus, pois há muitas gordinhas que são lindas ao extremo.   

   


postado por Dr. Valdinar Monteiro de Souza as 01:50:47 #
4 Comentários

Valdinar Monteiro de Souza:
Agradeço, meu caro Professor Gerson, pela leitura e comentários. Vale a pena ler o livro. Bom, eu o acho interessante.

Transcrevo mais um parágrafo do primeiro capítulo:

"Os capítulos que se seguem poderiam suscitar dúvidas sobre minha interpretação do verbo 'amar'. Alguns espíritos fortes se espantarão pelo fato de que uma análise exaustiva, colocando em destaque numerosos defeitos, possa nos levar a gostar do ser estranho que vamos examinar. Uma paralela iluminará o fenômeno e, como em todo homem dormita um centauro, logo os cavaleiros compreenderão."

Abraço e tudo de bom!
16/12/2009 03:34:00  

Professor Gerson:
Já ouvi falar desse livro. Muitos o consideram um livro de autoajuda mas acredito mesmo que seja um tipo de tratado psicológico sobre "as macacas". (rs)
Já está na minha lista com asterisco, isto é, ler com urgência.
Quando iniciei a leitura da crônica pensei no "existencialista" Alber Camus ( L´Étranger) mas logo percebi meu engano.
Grato por me dar o prazer de após um dia de trabalho, poder deliciar-me com seus escritos tão brilhantes.

Abraço.
15/12/2009 22:43:29  

Valdinar Monteiro de Souza:
Jaqueline, muito obrigado, querida pela gentileza da leitura e comentários. Também me sinto muito honrado ter você como amiga!
Beijos

15/12/2009 11:59:59  

Jaqueline Alves Souza:
O que eu gosto nos comentários de livros é que nos instiga a querer lêr, e o Sr. fez um comentário maravilhoso a respeito do livro. Concordo plenamente quando diz que, a mulher gordinha tem os seus encantos, infelismente somos moldados por padrões de beleza pré-estabelecidos, onde, ser bonita é ser magérrima e, nos sabemos que não é isso, temos que romper essas barreiras universalistas, sem respeitar as particularidades de cada um.

Beijos,

Sinto-me honrada em ser sua amiga!

Jaqueline
15/12/2009 09:45:11  

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