Para quem porventura (não confundir com por ventura) ainda não sabe, sou cardiopata, ou seja, padeço de doença cardíaca. Aliás, gosto de dizer que estou cardiopata e não que sou. Estar é uma coisa, ser é outra, a despeito de, em muitas línguas, o verbo ser e o verbo estar serem designados pela mesma palavra. Bom, eu disse palavra e não vocábulo. E, em homenagem a Rafael Porto, meu irmão de ideal maçônico, leitor e amigo lá do Rio de Janeiro, vou, sem querer usurpar a autoridade dos linguistas, registrar a distinção de uma coisa da outra.
Vocábulo e palavra são geralmente empregados como sinônimo, mas – como ensinam os doutos, dentre eles Edmundo Dantès Nascimento, na sua Linguagem Forense – tecnicamente falando, existe diferença. Palavra tem conotação semântica, enquanto vocábulo tem apenas aspecto fônico. Assim, Lia é uma palavra, ao passo que li-a é vocábulo, composto de duas palavras.
Feita essa rápida digressão gramatical, volto ao assunto: minha cardiopatia, para falar das minhas porções diárias de drogas medicamentosas. Por recomendação do médico e exigência da vida, tomo todos os dias, ainda em jejum, logo após o despertar: 0,125 mg de digoxina, 3,125 mg de carvedilol e 6,25 mg de captopril. Depois, ao correr do dia (e até a noite, quando tomo a última dose de carvedilol), vou tomando outros medicamentos, de forma que tomo remédio seis ou sete vezes por dia, pois um deles, a furosemida, agora tomo dia sim, dia não.
São drogas fortíssimas, quase veneno, como se vê pela quantidade de miligramas prescritos pelo médico. Aliás, tanto o cardiologista, Dr. César Antonio Rodriguez Montes, quanto o Dr. Nagib Mutran Neto, médico meu amigo e Vereador da Câmara Municipal de Marabá, avisaram-me da toxicidade da digoxina, por exemplo.
Isso me fez lembrar hoje, quando tomava as doses matutinas, o meden agan da Filosofia grega e o modus in rebus da linguagem jurídica a que tanto estimo e admiro, ou seja, em ambos os casos, o senso de moderação, o cuidado com o extremos. Todo extremo é perigoso. E no caso de medicamentos também não é diferente. O medicamento, se tomado aquém da medida, não será eficaz; se tomado além, será letal. O mesmo princípio ativo pode servir de remédio e de veneno, de pretexto para a vida ou para morte, a depender da quantidade ingerida! Em outras palavras, como alguém já disse (não sei se com ou sem sabedoria), “o mesmo cubo pode servir de pretexto para efeitos de sombra e de luz”.
Jesus Cristo ensinou aos discípulos o que serve para todos nós, cristãos do passado, do presente e do futuro, a oração dominical (dominical, não de domingo, mas do latim dominus, que quer dizer senhor), na qual pedimos o pão nosso de cada dia. Daí a necessidade de eu pedir também a droga minha de cada dia. Brincadeiras com coisas sérias à parte, a Deus minha profunda gratidão por continuar vivendo normalmente, conquanto tenha que tomar muitos remédios todos os dias.
Ao leitor meu sincero preito de gratidão e profundo respeito, com votos de feliz 2010!













