“Confesso que lamentei ter que matar o cara, ele tinha caráter”, palavra do protagonista do romance policial mais recente de Rubem Fonseca, O Seminarista, que li quase de uma única sentada. Não foi de uma, mas foi de duas: na primeira, li do capítulo 12 ao último, 23; na segunda e última, do capítulo 1 ao 11. Não raro, começo ler o livro do meio para fim; às vezes, também do fim para o começo. Tenho também a mania de, para variar, ler vários livros ao mesmo tempo. Talvez isso não seja muito proveitoso, mas, há muitos anos, o faço e já me acostumei.
Gostei do livro, embora seja natural que haja quem tenha lido e não gostou, ou venha a ler e não gostar. Gostos e cores não se discutem (de gustibus et coloribus non est disputandum). O livro, aliás, é recheado de citações latinas, postas propositadamente por Rubem Fonseca, dado ser o protagonista egresso de um seminário de padres. Essa aí não está lá, mas estão várias outras.
“Saí do seminário por ser um sujeito libidinoso”, diz o personagem. Não foi ser padre e, além de libidinoso, tornou-se matador profissional, mas continuou gostando de latim. Gozadoramente, o autor faz que outra personagem, outro matador, diga em determinado momento: “Essa tua mania de falar latim enche o saco.”
Pois é. Atividades da pós-graduação e o desânimo que me tem achacado afastaram-me do blogue. Fiquei uns dias sem escrever minhas crônicas meias-tigelas. Motivos para escrever até tive muitos, pois sempre os tenho, sempre os vejo no dia a dia. Aliás, esse dia a dia – que era dia-a-dia e deixou de ser por causa do acordo ortográfico – já é um motivo interessante para escrever.
Eu tinha o prazer (até posso dizer: orgulho mesmo) de saber empregar corretamente o substantivo composto dia-a-dia, distinguindo-o com segurança da locução adverbial de tempo dia a dia, que nunca foram nem jamais serão a mesma coisa, embora sejam agora escritos da mesma forma. É por causa disso e por vários outros motivos que sou contra o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, embora o tenha adotado logo em 1.º de janeiro de 2009, quando ele entrou em vigor no Brasil.
O acordo ortográfico é falho, omisso e obscuro, e, como se isso não bastasse, a Academia Brasileira de Letras o interpretou açodada e equivocadamente no que diz respeito ao emprego do hífen. Em relação ao hífen e a outros assuntos, a redação do acordo é defeituosa e a academia cometeu disparates e desatinos como, por exemplo, tirar o hífen de onde jamais deve sair, de palavras como dia-a-dia, mão-de-obra, pão-de-ló, pé-de-cabra, pé-de-chinelo, pé-de-moleque, testa-de-ferro, tomara-que-caia, dentre muitas outras. Foi, data venia, um erro grosseiro de interpretação.
Sou contra o acordo, mas o adotei logo na primeira hora. E o fiz não por encontrar nele algo que lhe justifique a necessidade de existir, ínfima que seja. Não. Ele, além de desnecessário, saiu malfeito, mal-acabado, porque foi mal redigido. Mas eu aderi a ele, porque, ao menos por enquanto, ele é irreversível. Precisa ser mudado, alterado, melhorado e muito (o ideal mesmo seria revogá-lo totalmente), mas qualquer mudança demandará muito tempo, consumirá anos e mais anos.
Ah!... Queria falar do blobfish, o peixe mais feio do mundo, que, tal qual o hífen, está quase sendo extinto desnecessária e absurdamente, mas por hoje não vai dar: já se foram o tempo e o espaço de uma crônica. Fica para outro dia. Blobfish é o P. marcidus, indivíduo cuja semelhança com o H. pylori é tão somente o habitar em profundezas. Hum?... Fôrma sem forma?... Ah, sim!... É o acordo!













