
Não podemos discriminar as diversas utilizações que as pessoas fazem da música. Alguns a querem para embalar suas atividades, outros para não escutar seus pensamentos, uns para dançar ou para acompanhar dores de cotovelo. A música e sua utilização são livres (ao contrário do que dizem os executivos de gravadoras) e é preciso respeitar isso.
Porém, a música pode ser mais. Ela pode, através de sua audição, inundar os demais sentidos e, através de suas combinações sonoras, levar a percepção do ouvinte para diversos caminhos. Pode ser transcendental, catártica em alguns momentos.
Ok, esse discurso de ”abrir a percepção” ou transcender não é inovador. Todavia, depois de presenciar um show do Radiohead, não há explicação mais adequada para cobrir o que houve. Porque, no palco, aqueles cinco músicos praticaram algo muito distinto do que se vê por aí dito como “tocar música”. É uma compreensão muito mais complexa desse ato. Ali, eles não estão executando canções, e, sim, construindo uma atmosfera a partir delas. O que ocorre, também, nos últimos discos do grupo, inrotuláveis e impalpáveis para críticos limitados. O trabalho deles é para se sentir, ser absolvido, muito mais do que somente escutar.
Para ser perfeito, um show não precisa estar repleto de notas conhecidas pelo público. Não necessita de estar calcado em sons de fácil assimilação. Isso se estamos falando de um concerto que ultrapasse o superficial. Pois é o que se faz na grande maioria dos casos: música superficial, descartável, com carga grosseira de emoção, para se berrar, “se acabar” escutando-a. E só. Como eu disse antes, nada contra, cada um com sua música e fazendo dela o que quiser. Mas caso queira ultrapassar o rasteiro, não se limitar ao plano da pele e ultrapassá-la, eu sugiro: não perca a próxima vez em que o Radiohead vier ao Brasil. Perto deles, o U2 é a “maior banda do mundo” só no plano de palcos megalomaníacos e superexposição na mídia; o Coldplay, que até tenta ser sensível, soa infantil e repetitivo; nenhuma suposta “banda de vanguarda” pode ser levada a sério; e Mallu Magalhães, bom, ela continua sendo ela mesma: uma menina brincando de fazer música.
