World Wide Suicide
Episódio 1 - Ícaro na Trilha das Aberrações

Prezados leitores,

Assolado por uma estiagem criativa, aproveito para revisar e aqui reproduzir, o primeiro capítulo de uma série, ou seja lá o que é isso, que escrevi há cinco anos, pelo menos. A idéia era escrever um conto que pudesse ser adaptado como uma série de animação. É o maior conto que já escrevi, deve ter umas 30 páginas. Naquela época, eu estava bastante empolgado com o realismo fantástico e abusava da possibilidade de escrever histórias com ênfase no fabuloso. Eu me divertia nisso, como nunca.

Então, segue o primeiro episódio de “Ícaro Alado na Trilha das Aberrações”!

Episódio 1 – A Origem

 

            Nascer em uma cidade pequena não é fácil. Nascer com asas nas costas em uma cidade pequena, é pior. E, a partir do momento em que aquele bebezinho apareceu para fora da barriga da mãe, sua vida começou a se tornar difícil. Bons eram os tempos dentro do útero! Alguns minutos depois de seu nascimento, ele já era a figura mais popular da cidade de Ruanéz. Podia até ser a pessoa certa para desbancar o atual prefeito, e eterno candidato a reeleição, Sr. Alfredo Vieira.

            O parto foi fácil. Entender o que acontecia ali, entretanto, não. O médico correu logo ao seu Manual de Medicina para constatar se era um caso normal. O pai, vendo aquela criança com duas asas perfeitamente instaladas nas costas, começou a se questionar sobre a fidelidade da esposa. Será que ela estaria de affair com algum daqueles pombos que insistiam em ficar em cima do seu telhado? Ou será que algum anjo safado veio à Terra colocar-lhe um par de chifres? Preferiu não falar nada enquanto não tivesse provas. Enfermeiras, faxineiras, os pedreiros, que estavam construindo a churrasqueira da casa do Dr. Albuquerque, há poucos metros dali (a clínica era na sua casa), todos os presentes estavam surpresos. Só a mãe que não. Afinal, fosse o que fosse, tinha vindo de sua barriga e era o que importava.

            A explicação veio logo a seguir: Patrício e Patricina, os pais do bebê, eram primos. E casamento entre primos sempre dá problema. Difícil foi cuidar da criança com toda a agitação em torno de sua pessoa. Em uma semana, dez circos pediram que os pais cedessem a criança para alguns espetáculos. Fanáticos religiosos achavam que era o anjo do apocalipse (se é que existe disso).

Polêmicas à parte, a criança era muito viva. Suas asas, que eram perfeitamente proporcionais com seu corpo, pareciam com as pinturas de anjos. Possuíam penas, também, e davam a impressão que seriam capazes de levantar o garoto, quando ele ensaiasse algum vôo. Aliás, esse assunto merece um parágrafo só para ele...

            Quando tinha seus seis anos, foi decidido que era hora de Ícaro – batizado com esse nome para homenagear a mitologia grega, mesmo seus pais não fazendo idéia do que fosse isso. Mas quem ensinaria o pequeno Ícaro a voar? Seus pais não conseguiriam, até por que Patrício chegou a tentar, mas percebeu que sem asas seria difícil. E ensinar alguém a voar não basta dizer “bata as asas com força e sai do chão”. Tem toda uma arte. Ícaro, que até então vivera uma vida tranqüila, feliz, sem amolações, pois ele ignorava a curiosidade das pessoas, agora se via com uma missão delicada. Ficava o dia inteiro mexendo as asas sem conseguir nada, só levantar a poeira do chão. E não era esse o objetivo. Foi então que Seu Patrício teve a idéia: o filho podia aprender com os pombos que moravam em seu telhado! Até porque ele já havia superado a desconfiança que tinha das aves, pois o nariz do Ícaro era exatamente igual ao seu. Sendo assim, tiveram início as aulas. Ícaro ficava horas sobre o telhado com os pombos. Em alguns momentos ele achou que não conseguiria. Depois de algumas quedas, ele não queria mais.

Foi um mês complicado, mas ele conseguiu. Havia todo um impulso que se dava com os joelhos que ele não percebia. E quando conseguiu, foi uma festa. As pessoas diziam: “É um pássaro? É um avião? É o Superman? Não, é o Ícaro Alado!”. E Ícaro se tornou uma criança sem fronteiras. Todo lugar era perto e ele tinha que ir a todos! Vivia aventuras dignas de um garoto com asas. Descobria lugares secretos, conhecia espécies diferentes de aves, inventava manobras no ar... Tornou-se o garoto alado mais feliz do mundo.

O problema foi que, sem querer, acabou se afastando das demais crianças. Na verdade, poucos não levavam em conta o fato de ele ter asas. E, agora, isso fazia diferença. As pessoas gostavam dele, mas era como se fosse um animal bonzinho. Não que o tratassem mal, só não viam-no como uma pessoa igual. Assim, Ícaro cresceu como uma pessoa à parte em Ruanéz. A sensação de que ele estava fora da sua realidade era cada vez maior. Ele tinha que encontrar pessoas semelhantes a ele. Tinha que existir alguém alado! Ás vezes, longe dali, havia uma moça alada solitária, também. E era isso que ele tinha que fazer! Criar uma nova espécie! Não nascera com asas tão perfeitas em vão, tinha que ter um sentido e o único que ele encontrou foi esse.

Com todas essas afirmações em formação em sua mente, Ícaro procurou o jornalista Renato, um dos poucos amigos dele. Está certo que Renato tinha lá seus interesses com Ícaro, pois volta e meia estava fazendo entrevistas com ele, com títulos como “A vida com asas”, “A visão do mundo de alguém que pode ver tudo de cima” e uma porção de coisas do tipo. Mas Ícaro não se importava. Queria saber se Renato sabia alguma coisa sobre alguma outra criatura com asas que não fosse pássaro ou morcego. E claro, nem insetos. Os jornalistas têm que saber de tudo, ele devia conhecer a resposta. No entanto, Renato disse que esse tipo de assunto era difícil de se conseguir no meio jornalístico. Porém, disse que passaria uma informação importante se Ícaro prometesse dar uma entrevista exclusiva para ele depois de sua aventura. A proposta foi aceita e Renato passou para Ícaro uma notícia importante: no rio Amazonas havia um ser que muitos diziam ser meio animal, meio humano. Ele não sabia ao certo o que era, mas podia afirmar que existia. Passou para Ícaro uma localização aproximada e foi o que pode.

Então, com vinte anos, Ícaro decidiu que ia sair em procura de mais seres de sua espécie. Não dava para continuar vivendo em um lugar onde ninguém o olhava como igual. Mesmo que não encontrasse mais seres como ele, queria aprender como viviam aqueles que também eram diferentes. Despediu-se emocionadamente da sua família. A outra aberração estava na Amazônia. Para lá ele iria, então.

Ícaro estava ansioso. Sabia que viveria uma aventura, e isso seria fantástico. Ele adorava voar e, olhando para o pôr-do-sol ele pensou: “O que vai acontecer? Eu não sei. Aliás, não sei nada do meu destino. Mas venha o que vier, eu estou aqui”.

postado por 35202 em 09:50:39 :

2 comentários:Comente este post!
em 24/07/2009 19:10:33 , Gelly escreveu:
Legal voltar nos escritos, mexer nas gavetas virtuais... faz bem.

E a experiência dos capítulos, a reação do público, também...

Cuidado, Icaro, fuja do sol!

Bisous!
em 18/07/2009 12:56:31 , Alexei fausto escreveu:
Estou ansioso pelo prosseguimento das aventuras de Ícaro.

Achei realmente muito doido.
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