World Wide Suicide
Episódio 2 – Flúvio, O Menino do Rio

            Ícaro passou por uma verdadeira prova de resistência. Nunca tinha feito uma jornada como essa. No máximo voava entre cidades e ia sempre parando. Mas não era o caso. A distância era longa e ele não podia se dar ao luxo de pausas. Entretanto até que ele estava se divertindo. Era bem empolgante ver todas aquelas cidades de cima, toda aquela gente, toda aquela bagunça. E Ícaro visitava muitas delas, pois carregava, entre as poucas roupas que colocara em sua pequena mala, uma capa que encobria suas asas. Usando-a, Ícaro pôde passar despercebido nas cidades em que parava, já que sabia que iria ter problemas se as pessoas reparassem nele.

            À noite, quando o cansaço vinha, nosso herói procurava um bom ponto, fora do alcance de curiosos, e dormia o bom sono merecido. Era uma jornada solitária, mas ele estava gostando. Os pássaros sempre estavam dispostos a fazer companhia a ele, nem que fosse por alguns quilômetros, pois eles não têm preconceito. Chato era ter que roubar. E Ícaro se via obrigado a fazer isso, pois, se não tinha muito dinheiro, apresentava muita fome. No entanto sua consciência não pesava tanto, pois era só algumas verduras, frutas ou legumes, uma vez que ele é vegetariano. Claro que ele procurava as grandes plantações para fazer seus delitos. Não queria ser injusto.

            Aliás, não só de roubo vivia Ícaro. Nas suas costas, além das asas, havia seu inseparável violão. Pois o garoto alado é um músico! Não só toca como também compõe ao violão! Sendo assim, em algumas cidades ele descia até alguma praça e fazia algumas apresentações, recebendo alguns trocados, que não eram muitos, mas ajudavam nas suas pequenas despesas.

            Passaram-se duas semanas de sobrevôo no Brasil e Ícaro chegou até o ponto do Amazonas em que deveria estar a outra aberração. Para ele já nem importava achar ou não o tal ser, pois estava maravilhado com toda aquela floresta. Todas aquelas árvores que possuíam tonalidades tão particulares de verde! Que ar puro elas proporcionavam! Sentia-se renovado naquele lugar.

Fora os animais que viviam por ali. Todos tão interessantes que dava vontade de se estabelecer para sempre naquela floresta. Ele ainda teria a oportunidade. Até porque certa noite ele encontrou uma onça e resolveu adiar por alguns tempos essa sua mudança imediata. Felinos são muito mal-humorados. Já com as aves ele fizera muitas amizades. As garças eram agradáveis e ele prometeu que, sempre que possível, iria visitá-las.

E o rio Amazonas! Parecia mais um mar do que um rio. Tão gigantesco, tão uniforme, parecia hipnotizá-lo. Aquele ambiente era fascinante, desde o barulho das águas fluindo, até o visual daquela floresta toda fechada, com árvores que se emendavam e, no fim, eram uma coisa só, passando por todos aqueles som dos animais, que a noite pareciam até gritos sombrios.  

            Espetacularidades à parte, Ícaro estava ali para encontrar um ser diferente daqueles ali presentes. E era algo que nem ele sabia o que era. Portanto ficou três dias por lá fazendo o máximo de observações. Ele estaria às margens do Amazonas, pois era o que tinha sido mencionado por Renato. E como ele estava interessado em fazer uma reportagem sobre aquilo, com certeza era verdade. Já os animais pareciam receosos sobre o assunto. Nunca diziam conhecer, mas abortavam subitamente o assunto. Dava a impressão de não quererem revelar o segredo. Mas Ícaro foi até ali para isso e não sairia sem encontrar o tal ser.

            Foi numa manhã, enquanto lava o rosto nas águas do rio, que o garoto alado viu, bem longe, algo pulando da água. Não era um peixe. Parecia delírio, mas Ícaro teve a impressão de que tinha visto um garoto. Ficou indeciso, duvidando de sua vista, até que outro salto, mais ou menos no mesmo lugar, voltou a chamar sua atenção. Agora não havia dúvidas, era um menino.

            Batendo suas asas silenciosamente, Ícaro foi até o local aproximado e ficou a espera de uma nova aparição. Minutos depois, saía da água novamente o garoto, e Ícaro segurou-o no ar.

            __Garoto, como você nada em um rio tão perigoso?   

            Nesse momento Ícaro acabou tendo a resposta com os próprios olhos: o menino era metade peixe. Estava ali, então, a tal aberração. Perplexo, não pôde segurar o menino que, deslizando por seus braços, escorregou para água. No entanto, não fugiu, ficou na água observando Ícaro. Foi então que esse último percebeu que, tão estranho o menino-peixe era para ele quanto ele para o menino-peixe. Passando o momento de surpresa, perguntou:

            __O que você é?

            __Vou te responder, mas me dá um chocolate? Você tem um chocolate, né?

            Ícaro ficou meio assustado com a reação do garoto, pois apesar da surpresa anterior, agora ele agia naturalmente, como se fosse um velho conhecido seu que estivesse ali.

            __Tudo bem, daqui a pouco eu pego na minha mala um chocolate para você.

            __Olha lá, pega mesmo, ein? Meu nome é Flúvio. E você nunca ouviu falar de sereias, não? Eu não sou sereia, mas sou sereio.

            Um pouco impressionado com o garoto, que aparentava ter uns seis anos, mas falava com uma segurança enorme, Ícaro se sentia um pouco decepcionado, pois tinha a esperança de encontrar um outro representante de sua espécie, ou seja, um outro alado. É lógico que, no fundo, ele queria era achar uma alada, mas enfim... E, na verdade, ele importante saber como as espécies alternativas vivam. Seria interessante saber como era a vida de seres que, como ele, enfrentavam o fato de ser estranhos ao mundo.

            __Como é que você surgiu, Flúvio?

            __Ô, primeiro você não quer usar essas suas asas e ir buscar o chocolate, não?

            Ícaro foi buscar o chocolate do garoto e assim que trouxe pôde perceber que o menino ficou interessado em relatar sua história.

            __Como é seu nome? Ícaro? Minha mãe é famosa por aqui, Seu Ícaro. Ela chama Iara e existe toda uma lenda em torno dela. Ela tem uma voz muito bonita e quando cantava deixava muitos pescadores loucos e eles iam atrás dela que, fugindo para o fundo do rio, se salvava, mas os pescadores morriam afogados. E é verdade, mas ela não tem culpa de ter uma voz bonita. Os pescadores, ou qualquer outro que escutasse ela cantar, ficavam tão apaixonados que perdiam a razão e acabavam ignorando a lógica. Minha mãe se tornou odiada por muitas viúvas e temida como se fosse maldosa. Mas não é, coitada, só gosta de se pentear cantando! Bom, a verdade é que, certa vez, enquanto lavava seus cabelos em certa rocha aqui perto, ela começou a cantar uma de suas belas canções. E nesse momento passava o meu pai, que é um fotógrafo. Ele escutou o canto da minha mãe e foi atrás dela. Mamãe pulou para o rio, mas papai foi atrás e não morreu, pois estava com roupa de mergulho. Desse dia, nasci eu...

            __E sua mãe, onde está?

            __Ultimamente ela tem ficado sempre no fundo do rio. Andou tendo alguns problemas de garganta e já não se interessa em vir até a superfície.

            __Mas por quê? Ela não era desinteressada em atrair os pescadores? É até melhor para ela...

            __É...Bem, é que ela gosta muito de cantar e,... é difícil para ela vir até aqui e não se lembrar que não pode mais cantar como antes...

            __ Existem mais sereios como você?

            __Ô, você tem mais chocolate? Tem? Ah, me dá mais um? Ótimo! O que perguntou? Ah, é mesmo... Não, somos só nós. Somos seres folclóricos, sabe como é, coisa rara...   

            __Não se incomodam com isso? E a convivência com os seres humanos como é?

            __Pega o chocolate primeiro... __Ícaro foi pegar mais um chocolate. É ótimo ser os únicos aqui, não tem problema não. Os peixes são bons amigos e boa refeição, também... Os humanos não gostam de nós, mas como eles têm medo minha mãe, não nos incomodam.

__Você sabe da existência de algum outro ser estranho aqui perto?

__Já está indo, Ícaro? Me dá mais um chocolate, antes?

Ícaro que, prevenidamente já tinha levado um terceiro chocolate, entregou ao menino sereio.

__É, tem sim. Mas é bem mais longe daqui. Se você sobrevoar esse rio, vai notar que ele faz algumas curvas. Conta umas nove delas e deverá achar o outro.

Aquele “outro” deixou Ícaro empolgado. Deveria ser outro alado! Como, apesar do interesse nos chocolates, o menino parecia querer ir embora, resolveu acabar mesmo com a conversa. Já descobrira bastante. Ficou feliz por encontrar um garoto-peixe tão feliz com sua vida isolada. Talvez era essa a solução para conseguir viver sem se sentir diferente. Se conformar com sua particularidade e pouco se importar com os humanos.

Ícaro, ao se despedir do menino acabou dando mais alguns chocolates. Tinha muito o que aprender, pois sua jornada estava se tornando um verdadeiro ensaio sobre a vida de anomalias. Continuaria, pois, sobre o rio Amazonas, rumo a conhecer um novo ser particular...

postado por 35202 em 10:27:01 :

1 comentários:Comente este post!
em 04/08/2009 19:51:33 , Alexei fausto escreveu:
Vamos Ícaro! voe!

Qual será o próximo ser?

Espero que logo seja revelado.
CRIAR BLOG GRATIS   
..