
A TEORIA DA NUDEZ II Em um bar da cidade, encontraram-se Yendis e VinÃcius. YENDIS: — Olá VinÃcius! Como anda? O que tem feito de novo? VINÃCIUS: — O de sempreYendis, muito trabalho, sempre muito a que fazer! YENDIS: — Essa é nossa vida, essa vida corrida em que vivemos,o tempo nos castiga cada vez mais, e se reparar, verá que não sobra tempo nemmesmo para nós. VINÃCIUS: — É, vivemoscorrendo atrás do tempo. YENDIS: — Quer tomar algo, uma cerveja? VINÃCIUS: — Sim,obrigado. YENDIS: — Hoje o tempo é que nos convida para descansar. VINÃCIUS: — Hoje ésábado, Yendis. YENDIS: — Sim, mas mesmo nesse dia há milhões de pessoas quenão têm descanso, nem hoje nem dia algum. VINÃCIUS: — É, a vida écruel para muitos, mas se lembra naquele dia na praça em que me prometeu falarmais sobre sua teoria? Lembra? Aquela da nudez? YENDIS: — Esperto amigo veio com suas voltas para chegar ondequeria. Sim, me lembro da promessa e de lhe contar mais sobre o assunto, se éque agora quer ouvir mais sobre isso ou aproveitar o sol e tomar uma cerveja. VINÃCIUS: — Podemosfazer isso ao mesmo tempo. YENDIS: — Sempre acumulando tarefas, né VinÃcius? Não sabe quepara tirar proveito das coisas deve senti-las ao máximo? VINÃCIUS: — Sim,Yendis, tem razão, mas diga-me então sobre sua teoria. Por que esse medo em quenós vivemos? Tem algum motivo isso? YENDIS: — VinÃcius, já reparou porque animais mal-tratados seretraem como se estivessem sendo castigados? Crianças quando apanham fazem amesma coisa, fechando-se no seu mundo. Nós porque crescemos tomamos váriasatitudes, umas diferentes das outras, mas pelo mesmo motivo, a agressão quesofremos dia-a-dia, ou por exploração familiar, empregatÃcia ou por pressão daspessoas envolta. Nos retraÃmos como animais, e, à s vezes, nos revoltamosperdendo o equilÃbrio, o que é chamado distúrbio bipolar, ou uma ou outracoisa, mas pelo mesmo motivo: a não-aceitação do mundo envolta ou por nósmesmos. VINÃCIUS: — Mas isso sóacontece quando alguma sofreu algum tipo de dor, não é? E nas pessoas normais,digo, as que não tiveram grande sofrimento? YENDIS: — Você, caro VinÃcius, conhecealguma pessoa que tenha chegado a idade adulta sem nenhum constrangimento? Você conhece alguém que não tenha tido algumaexperiência de infelicidade? VINÃCIUS: — Talvezhaja. YENDIS: — Crê que algum adolescente tenha passado pelapuberdade sem experimentar a dor do conhecimento e do desconhecido? VINÃCIUS: — É,realmente, olhando por esse lado, não consigo ver alguma pessoa assim, mas hápessoas que sofreram somente um pouco enquanto há outras que sofreram muito, enessas primeiras, por esse pequeno sofrimento – se assim podemos chamar oscontratempos que passaram – não se retraÃram, essa passaram ilesas para a idadeadulta. YENDIS: — Esperto amigo, fala com a astúcia de monge tibetano!Mas, você consegue medir a dor de uma alfinetada em uma pessoa? E de uma pessoapara a outra? Teria diferença a mesma alfinetada? Conseguiria medir osofrimento dessas duas pessoas? VINÃCIUS: — Acho queseriam iguais. YENDIS: — Crê? Quanto de sangue pingará de cada um? Quantaslágrimas caÃram de seus olhos? VINÃCIUS: — Astuciosoamigo, sabe que não há como saber. YENDIS: — Você acha que um homem forte sentiria uma picada de agulha? VINÃCIUS: — Creio quenão. YENDIS: — E um fraco homem? VINÃCIUS: — Essesentiria. YENDIS: — O homem forte choraria? VINÃCIUS: — Claro quenão, uma vez que não tenha sentido. YENDIS: — E o fraco, esse choraria? VINÃCIUS: — Esse sim,pois sentiu a dor. YENDIS: — Então a mesma alfinetada foi sentida diferente poreles, não é? VINÃCIUS: — Por Zeus,Yendis! Está correto. Mas me diga, por que as mulheres se sujeitariam a sercomo nós? YENDIS: — Amigo, vivemos em um mundo que busca o interesse detodos, da população. Mas na mÃdia televisiva é mostrado um outro mundo, ummundo de conquistas, de perfeições, de iguarias: é como se ordenassem para quetodos busquem isso. VINÃCIUS: — Mas o queas mulheres e nós, homens, ganharÃamos se alcançássemos tudo o que nos émostrado? YENDIS: — Nada. O desejo é sempre infinito. O que prometem comisso é a felicidade, mas essa felicidade é passageira. VINÃCIUS: — Mas então,não são só as mulheres que buscam a felicidade, mas todo ser humano! YENDIS: — Sim, mas a felicidade é um estado de espÃrito.Alguns a consideram como prazer de comprar, de possuir, de beber, mas no fim detudo isso passa e o que fica é somente nós mesmos. VINÃCIUS: — Mas comoa sua teoria beneficiaria esse ser, que você mostra tão corruptÃvel? YENDIS: — Imagine um desejo especÃfico. Depois, imaginetodos a sua volta realizando este desejo, inclusive você. Como se sentiria? VINÃCIUS: — Seriaestranho. YENDIS: — Seria porque o desejo é pessoal. Eliminando-osobraria somente nós mesmos, com todas as nossas imperfeições, da mesma formaos outros. Na minha teoria, se fossem abolidos os desejos Ãntimos, não sófÃsicos, assim como a roupagem que carregamos, seria um grande passo em buscada felicidade, como já fazem os Ãndios amazonenses. VINÃCIUS: — Masnecessitamos do desejo para poder viver, senão, o que nos moveria? YENDIS: — O desejo o qual o falo é o desejo de se comunicarcom seu semelhante, de interagir. Esse desejo deve ser cultivado. Devemoseliminar o falso desejo, o que leva a acreditar em aparências e nos matadia-a-dia. O desejo da posse. Eliminando-o nós voltarÃamos a ser nós mesmos, eassim aceitarÃamos os outros, pois assim também eles seriam. Devemos, além de eliminaras nossas vestimentas, como também destituir nossa armadura, essa quecarregamos e que nos cansa. A distância, a discórdia, o desdém, o ódio, e todotipo de vaidade que nos pesa, estaremos nus de corpo e alma, principalmente dealma. VINÃCIUS: — Você nãoacha que se acontecesse de sua teoria estar em prática não haveria umadesordem geral? YENDIS: — Não. No princÃpio, tudo de novo não é aceito, masquando percebemos as vantagens, solvermos nossos próprios desejos e assimconseguiremos viver conosco mesmo e com os outros, que também sentiram essadiferença. Cairá a roupagem da vergonha em nós. VINÃCIUS: — Eu melembro de quando disse que a vergonha não existia. Como ela poderia cair se nãoexiste? YENDIS: — Realmente perspicaz amigo, ela não existefisicamente, é mais como uma fantasia criada por nós, para explicar motivos, aoinvés de aceitá-los. Assim sendo, ilusão criada por nós, de nós mesmos deve-sefazer sua destruição, destituindo-a de nosso pensamento para assim tomarmosrédea de nós mesmos e depois do convÃvio humano. VINÃCIUS: — Você achaque só o fato de estarmos nus nos liberta dessa sua chamada “vergonhaâ€? YENDIS: — Não, caro amigo, mas já é um caminho a sepercorrer, pois ao meu ver, quem não enxerga esse mundo de egoÃsmo, de desejode posse, não tem nenhum caminho a sua frente, só imitam uns aos outros. VINÃCIUS: — Você nãoacha que com isso não haveria uma promiscuidade entre as pessoas? YENDIS: — Amigo, essa promiscuidade já existe entre nós; sónão há vê quem não quer abrir os olhos, pois, quem os tem aberto, enxerga essavaidade em todos. VINÃCIUS: — Então,segundo você, Yendis, vivemos em uma loucura? YENDIS: — Sim, e é pior do que isso, pois se reparar, osloucos não têm consciência de que estão loucos. Nós não temos consciência dotamanho de nossa loucura, mas a conhecemos, intimamente e convivemos com elacomo por acordo. VINÃCIUS: — Comoassim? De que loucura está falando? YENDIS: — O egoÃsmo, a avareza, a sujeição, o descaso, avergonha (já dita anteriormente), e tantas outras coisas que temos dentro denós, e fingimos como atores para todos envoltos, sempre nos mostrando homenspuros e honrados. VINÃCIUS: — Mas issoestá como disse, dentro de nós, também estará a alegria, a bondade, o amor etodas as coisas boas? YENDIS: — Sim, existe essa dualidade em nós e devemos semprereprimir uma e cultivar a outra, mas com a consciência de que a temos dentro. Oque acontece é que nós, no mais puro egoÃsmo, sempre estamos querendo o nossobem, não nos importando com o bem dos outros, e no fim, o que precisamos é denós mesmos e dos outros, do convÃvio. VINÃCIUS: — Mas játemos esse convÃvio, e ainda queremos consumir. YENDIS: — Nós, à s vezes vivemos uma vida inteira semconhecer o nosso vizinho. Você acha que isso é convÃvio? VINÃCIUS: — Por Zeus,não! YENDIS: — Então, talvez agora entenda que conviver édiferente de convÃvio. VINÃCIUS: — Mas,Yendis, a sua teoria traria esse convÃvio? YENDIS: — Sim, porque o medo é o nosso maior inimigo, asaparências formas de vida inúteis. Com minha teoria em prática não haveriaaparências nem medo, seria como Adão e Eva no ParaÃso. VINÃCIUS: — Mas,Yendis, no ParaÃso houve a tentação. YENDIS: — Ela sempre existirá, mas se soubermos quem somosde verdade, nos conhecermos plenamente, não haveria o que temer. VINÃCIUS: — Sim,agora compreendo. Mas queria continuar essa conversa sobre se conhecer? YENDIS: — Depois, caro amigo, agora eu quero apenasdesfrutar desse sol, dessa vista e dessa cerveja gelada. VINÃCIUS: — Comoqueira, Yendis.
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