“Sentimos-nos como se carregássemos um fardo, esse fardo é a culpa do querer, há a necessidade de nos sentir, e de novo nos encontrar nus de alma”. YAS
E-MAIL: yendisasorsaid@hotmail.com
Da grande obra Diário de um Louco:
A TEORIA DA NUDEZ
De Yendis Asor Said
“Vejo as almas protuberantes decaírem por seu fardo...”
TEORIA DA NUDEZ (DIÁLOGO)
Encontram-se Vinícius e Yendis Asor Said numa praça. VINÍCIUS: — Oi Yendis! Já tão cedo a descansar? YENDIS: — Sim, meu amigo, terminei o trabalho e logo sentei aqui na praça para observar o movimento. VINÍCIUS: — Já sei, você está bolando daqueles seus problemas de doer a cabeça, não é? YENDIS: — Não, caro amigo, estou aqui apenas para descansar, pois depois da refeição não queremos nada além de ficar quietos. VINÍCIUS: — Mas o que é isso em suas mãos? Parece-me um rascunho. YENDIS: — Não há forma de esconder algo de ti, astuto amigo. Estava escrevendo, ou para ser mais claro, brincando com as idéias, de modo que escrevi uma teoria, mas não é nada sério e acho que não vai quer ouvi-la. VINÍCIUS: — Yendis, sua humildade tão grande que me comove que fico até lisonjeado de estar perto de você. Se me sinto assim com sua presença, imagine ouvir suas idéias. Não me mate de curiosidade, diga-me logo que teoria é essa, que direi se é boa ou se é má, se devemos conversar sobre ela ou jogá-la ao limbo. YENDIS: — Pois bem, direi o que venho rabiscando nesses papéis.
Introdução à teoria
YENDIS: — Sentado nesse banco a observar o movimento das pessoas há muito que venho notado certa inibição, tanto dos homens quanto das mulheres. Os homens parecem tão preocupados com o trabalho que se esqueceram de si, da beleza das mulheres e de tudo belo que realmente importante ao seu redor. Enquanto as mulheres parecem que neste corriqueiro mundo em que vivemos, deixaram-se levar e esqueceram-se o que são. Neste mundo de espinhos elas se esqueceram que são as rosas, neste lodo de mundo elas esqueceram-se que são as águas cristalinas de um rio que passa, mas deixa a beleza por todo o seu leito. Esqueceram-se de si, apressam-se para a igualdade de direitos e se esquecem que são os pilares deste mundo. Elas estão se desrespeitando —para se igualarem a nós, monstros bárbaros... Gladiam-se para estar dominando, sem ter conhecimento que, neste sentido, estão perdendo o domínio. Caro amigo, parece que foi só isso que rabisquei.
VINÍCIUS: — Sei que não! Olhe no bolso de sua jaqueta, parece ser outro rascunho. Mas antes de continuar, diga-me: — Por que acha que elas estão perdendo o domínio se elas gladiam-se para tanto se imporem?
YENDIS: — Amigo, olhe para aquela garota que está de vestido vermelho, sentada naquele outro banco. Descreva-a para mim para que assim eu possa te explicar melhor.
VINÍCIUS: — Pois bem. Pelo que vejo, ela deve ter uns vinte anos de idade, um metro e setenta por aí, olhos castanhos claros, cabelos ruivos, como disse, um vestido vermelho, medindo uns dois dedos abaixo do joelho, e um salto alto. Assim a vejo.
YENDIS: — Completando, não se vê no seu rosto abuso de maquiagem; as unhas feitas, mas discretamente pintadas; os cabelos soltos e bem cuidados; o vestido inteiramente vermelho mas com um singelo bordado perto do seio esquerdo que, ao meu ver, realça a beleza natural. No vestido, um decote de um palmo; um salto não muito alto e uma tatuagem de um beija-flor beijando uma rosa, atrás do pescoço, correto?
VINÍCIUS: — Fico feliz de estar ao seu lado! Pensei que havia feito uma completa descrição da mulher e você me provou que havia nela lindos pontos que admiramos e raramente notamos. Peço-lhe agora, depois desta visão, a explicação do que lhe pedi, ou seja, elas estão perdendo o domínio, por quê? YENDIS: — Calma amigo que logo entenderá do que falo. Por enquanto ouça. Olhe essas mulheres que estão perpassando por nós. O que elas têm em comum com a ruiva?
VINÍCIUS: — São todas lindas, companheiro!
YENDIS: — Sim! Mas nelas faltam algo, dá para notar amigo?
VINÍCIUS: — Sim. Mas de imediato não sei dizer.
YENDIS: — Esperto amigo! Dize assim sabendo que te responderei de qualquer forma as tuas dúvidas. Olhe aquela linda morena que estás atravessando a rua. Belas coxas, lindos cabelos, lindos olhos, mas parece, ao meu ver, que, como nós, ela acordou de manhã e apenas colocou um boné, uma camiseta e o pior de teus deslizes, uma calça de palhaço.
VINÍCIUS: — Entendi onde você quer chegar, as mulheres estão perdendo a feminilidade, é isso?
YENDIS: — Sim, meu amigo. E me parece que um dia ouviremos nessa praça mulheres arrotando exageradamente e fazendo outras coisas destas que nós sabemos quem é que fazem. Tinham o domínio, que era a singeleza e a singularidade, mas estão buscando o domínio pelo dinheiro e pela brutalidade consigo mesmas. Nota-se, vendo os carros passando, que 70% dos carros novos são dirigidos por mulheres, e, que ao contrário, 70% dos velhos são dos homens. Não tiro delas o merecimento mas elas estão perdendo o domínio para serem dominadas pelo dinheiro.
VINÍCIUS: — Como, caro amigo, elas poderiam se igualar a nós sem que fossem como nós?
YENDIS: — É parte da base de minha teoria. Minha teoria é que, para acabar com essa cobiça, a qual julgo ser protagonista de todos os problemas, todos deveriam estar em nus. Minha teoria é a teoria da nudez geral. Englobando as cidades mais populosas, onde o estresse é maior.
VÍNICIUS: — Como seria isso Yendis?
YENDIS: — Vou te explicar usando uma hipótese. Digamos que a partir de hoje, fossem abolidas as vestimentas, que todas as pessoas tivessem que andar nuas pelas ruas. E, deste modo, você acha que seria normal?
VINÍCIUS: — Claro que não! Imagino e logo fico logo, pois penso nesta morena mostrando tudo.
YENDIS: — Creio eu que nos primeiros dias haveria uma desordem geral, mas logo todos se acostumariam. Tire base pela praia de nudismo onde a nudez é normal ou nas tribos indígenas amazonenses que desconhecem a vestimenta e mesmo assim vivem em paz. Simplória, é claro.
VINÍCIUS: — Não sei amigo.As praias de nudismo geralmente são afastadas da população...
YENDIS: — Sim! São afastadas porque são diferentes. Geralmente, Vinícius, as coisas quando são diferentes são estigmatizadas, e isso se dá também em relação pessoas: quando conhecemos uma pessoa diferente das quais somos acostumados, não a aceitamos de imediato, mas com o tempo, sendo a pessoa de qualidade, caro dizer, de boa índole, bom coração, nós a aceitamos, e nem ligamos para as suas diferenças. Ao contrário, nós nos enganamos por aparências, aparências das quais se vivem hoje em dia, pessoas bem apresentadas, com sorrisos, alegres, boa conversa e por dentro os mais terríveis que poderíamos ter com os quais nos enganamos.
VINÍCIUS: — Mas na sua teoria, pelo que vejo, haveria homens que andariam como cães atrás das mulheres, sendo que quem estaria sempre no cio seriam os homens, pois me incluo entre estes homens. Não resistiria ver ao todo tempo essas mulheres nuas...
YENDIS: — Amigo, dize isso mas por empolgação do imaginar do que pela razão... Veja bem, estamos aqui e imagine a teoria já em prática. Nós, como todas as pessoas em volta nuas. Você acha que o maior problema seria não resistir a vê-las passando? Lembre-se que elas nos veriam como somos e nós como elas são, e te garanto, já é provado que a mulher é mais adaptável que o homem a mudanças de comportamento. Elas seriam mais bem desinibidas do que nós. Elas, em pouco tempo, já se adaptariam a essa mudança; tudo teria que mudar, até o nosso comportamento que se diz evoluído. No princípio seria um caos, mas logo se tornaria paz.
VINÍCIUS: — Mas Yendis, e no frio ou na chuva, como ficaríamos?
YENDIS: — Na minha teoria seriam abolidas as roupas mas haveria o livre-arbítrio. Acabaria com a vergonha sem que nos tornássemos sem-vergonha.
VINÍCIUS: — Como poderia perder algo sem perder?
YENDIS: — Simples meu amigo, às vezes, criamos algo que realmente não existe e se perdermos isso não estaremos perdendo nada, porque nunca tínhamos e nem ganhamos nada porque isso não existir.
VINÍCIUS: — Está me dizendo que a vergonha não existe?
YENDIS: Sim, a vergonha foi criada para desculpas, feito “eu não vou fazer isso, tenho vergonha!”, “você fez isso porque é sem vergonha!”, vê Vinícius, simples desculpas? Porque o indivíduo não quer dizer “eu não farei isso porque eu não quero!” ou “você fez isso porque quis”. É fácil não assumir responsabilidades e colocar a culpa em uma palavra ou em qualquer coisa inventada.
VINÍCIUS: — Pelo que me conheço, ficaria doido se visse aquela dama de vermelho nua... ô trem xonado, trem que pula!
YENDIS: — Até eu, caro amigo, mas e se todas estivessem nuas? Como ficaríamos? Como elas ficariam?
De repente...
VINÍCIUS: — Olha Yendis! Não é o seu amigo, aquele que é crente? Como ele se chama mesmo? Redgur? Olha aí...
YENDIS: Sim, é ele... Redgur, aqui!
REDGUR: — Yendis, está tu a fazeres nessa praça?
YENDIS: — Estava a conversar com meu amigo Vinícius sobre uma teoria...
REDGUR: — Que teoria é essa?
YENDIS: — Amigo, é a teoria da nudez, que consiste em abolir todas as vestimentas das pessoas...
REDGUR: — Ta queimado! Cruz credo! Vou-me embora, pois este não me interessa!
Voltando... YENDIS: — Vê Vinícius, como as pessoas temem o que não entendem?
VINÍCIUS: — Mas você o assustou indo direto ao assunto?
YENDIS: — Foi de propósito amigo, foi para mostrar-te a reação à menção do assunto, imagine na prática? O problema é ainda maior que não resistir à dama de vermelha. Como meu outro amigo, deixe que eu depois explique o assunto a ele... Pelo que o conheço, ele entenderá...
VINÍCIUS: — É verdade, o problema vai mais longe do que resistir ou não resistir às tentações... existem muitas pessoas que iriam contra a sua teoria... mas então, que vantagem teria a sua teoria a nós?!
YENDIS: — Lembra-se amigo, no início da nossa conversa, quando disse como todos nós andávamos, sempre preocupados e com medo? E sem ter intimidade um com os outros, como seres humanos, realmente humanos? Lembra?
VINÍCIUS: — Sim.
YENDIS: — Que maior benefício se fazer ao homem do que um amor verdadeiro? do que amizades verdadeiras? do que um sorriso no rosto?
VINÍCIUS: — Mas como sua teoria traria isso ao Homem?
YENDIS: — Amigo, parece que estou a falar as paredes? Não lembra que disse que a mulher é mais fácil de se adaptar do que o homem? Elas seriam mais desinibidas e nós também e não estou falando de promiscuidade! Estou falando de auto-aceitação e de aceitar os outros como são, apenas seres humanos e imperfeitos. Essa desinibição seria o ponto de partida para os nossos relacionamentos humanos. Não só porque estaríamos nus de corpo e sim porque estaríamos nos sentindo nus de alma.
VINÍCIUS: — Como assim Yendis?
YENDIS: — Veja bem: nós todos nus, homens e mulheres, sem preocupação da aparência, do ter, do querer para possuir, e sim co9m a liberdade de apenas ser e ser é o que importa!
VINÍCIUS: — Ainda não entendo, o que é este ser?
YENDIS: — Não vê amigo, um dos maiores problemas que temos é querermos ser outra pessoa, uma pessoa mais bonita, mais alta, mais, magra, mais gorda. Entende? Seríamos nós mesmos, e não haveria porquê ser isso ou aquilo... não haveria vergonha por essa mesma não existir...
VINÍCIUS: — Compreendi, mas lhe peço mas detalhe sobre o assunto.
YENDIS: — Amigo, depois te prometo que te darei mais detalhes. Mas agora já é hora de voltar à labuta porque senão serei jogado ao vento...
VINÍCIUS: — Muito bem amigo, mas não me esquecerei desta promessa, pois este assunto muito me interessou...
YENDIS: — Vamos então, pois já está na hora, pense sobre o assunto...
VINÍCIUS: — Claro, já achei interessante a idéia...
YENDIS: — Até breve Vinícius...
VINÍCIUS: — Ate mais amigo...
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