
A arte fala,
Sejam bem vindos!
Obras de minha autoria:
A Ponta da Palavra (2005) - poesias;
Robotime - conto, Revista Estalo 5 ;
O caso do vôo 306 - conto, Revista Estalo 3
A seguir, um ensaio sobre meu livro A Ponta da Palavra
por Leonardo de Magalhâes, jornalista e crítico de literatura.
SEDIMENTAÇÃO LÍRICA DA PALAVRA
Muitos leitores percebem na lírica atual uma necessidade de
expressão íntima, de desabafo e auto-afirmação, em detrimento
de uma poética mais épica, mais perceptível nos clássicos.
No entanto, por distração, não mencionam a tentativa de narrativa
pessoal e coletiva de muitos modernos, desde Mário de Andrade.
Afinal o eu-lírico pode falar de si mesmo ao falar do coletivo,
expressar seus dramas em referência a um meio social.
Assim é a poética de J.FRANCO, em
sua obra A Ponta da Palavra, divulgada amplamente nos
saraus memoráveis na Café da Travessa Livraria, em Belo Horizonte.
Preocupado em dizer de si, mas nunca esquecendo os fatos e dramas
que o cercam. Denunciando problemas sociais, apontando fissuras no
tecido social, o Poeta ainda fala de si mesmo, pois trata-se de sua visão
(e sua indignação ) diante de um mundo que surge opressivo, mas que
pode ser mudado, mediante a cooperação.
Apresento-me ao imenso labirinto
onde mergulho profundamente
profunda mente mergulha
em mim.
(MERGULHO, p.15)
Eis a saudação do Poeta quando expõe o seu Eu ao olhar do(s) Outro(s),
constatando que quando fala de si mesmo, expressa, na verdade, um
sentimento coletivo, todos os gritos em seu ‘grito único’,
Bem-vindo ao grito único,
o prelúdio de uma libertação.
( A PONTA DA PALAVRA, p. 17)
É a missão que o Poeta vê diante de si, aquela de desmistificar e de
alertar, de apontar as mascaras e derruba-las. Lembra, em seus poemas,
a desumanização do ser humano, em cotidianos insípidos e existências
fracassadas. Eis o cotidiano, em SEGUNDA –FEIRA, p.21,
Levanta cedo, agora, já!
Sem café, sem mulher, sem José.
Apenas de pé em pé,
tentando encher a colher...
Onde dialoga com Carlos Drummond de Andrade, “E agora, José?”,
sugerindo que os problemas não cessaram, e o sem-sentido cotidiano
continua a se estender pelas décadas, onde parece que o ser humano
vive atendendo exigências externas, como escravo de uma “Grande
Máquina” ,
A cauda-lixa que assusta
e suas mandíbulas temerosas
espreitam o quase-homem.
(NÁUFRAGO, p.24)
Mas o Poeta não se esquece que homens de coragem ousaram
fazer uma revolução, ainda que traída, abrindo portas paras as
mudanças, que abalando os alicerces do tradicional, deixaram um
sentimento de vazio. No entanto,
Ainda vejo nos jornais amarelos
corroídos,
um tempo de se lutar, razão para viver.
(ERA DO VAZIO, p.25)
pois, neste poema, dedicado ao também poeta Rogério Salgado, outra
voz altissonante no ‘deserto do real’, é vertida a proclamação (também
em espanhol) em prol da superação, contra o conformismo hodierno.
E continua, em MADRIGAL UTÓPICO, p.35,
Eis o homem que medita
e busca a salvação na prece,
ou nas imagens do computador.
Onde a solidão é preenchida por crenças, ou onipresenças em rede
global. Assim, vivemos uma época do vazio, um vazio da época ou
um excesso da época ? Não estamos desinformados justamente por
um acúmulo de informações ? Não estamos acostumados com a
insensibilidade que a inundação de dramas e tragédias nos provoca?
Uma criança brinca num playground ( imaginemos então um condomínio
de luxo, ou um estacionamento de shopping ) e subitamente sua alegria
tem um fim. O problema da violência urbana, uma ‘bala perdida’
gratuitamente interrompendo uma existência ,
E a ciranda da vida, girassol
despetalado,
haste sobra, fincada no peito
da sociedade.
(CIRANDA, p. 27)
É a poesia retratando os problemas que afetam toda a sociedade – e
inclusive o Poeta, que não vive numa ‘torre de marfim’. No poema
CAMPO DE GUERRA, p. 33, o Poeta torna presente os distúrbios
no meio rural, as disputas por terras produtivas nos imensos latifúndios,
que lembram guerras feudais,
E no campo de guerra Paranapanema,
cobrem-se de adubos imagens, poças de sangue,
e os sonhos de terras prometidas.
O poeta, enquanto observador e participante em todos os cenários
Sociais, apresenta-se preocupado com a constante devastação
Dos recursos naturais, o desmatamento desordenado, a mercenária
Indústria do extrativismo, nos poemas













