A crônica do Alexandru Solomon
Conversa (des)afinada

ATERRO SANITÁRIO DE NOSSA POLÍTICA

Por mais indulgente que seja nossa apreciação, uma conclusão tende a prevalecer. Estamos diante de um gigantesco aterro sanitário, no qual está empilhado o lixo gerado pela atividade política dos últimos anos. Se é de um tamanho como nunca antes a História tenha registrado, ou não, chega a ser irrelevante. Não vamos bater nas teclas gastas do mensalão, aloprados, e outros escândalos relegados a um imerecido esquecimento. Não será preciso. O processo de renovação do lixo é contínuo, com o empilhamento constante de novas camadas de detritos. Para aqueles que se preocupam com a ecologia, uma preocupação a mais. Não se trata de lixo reciclável.

É comum, após cometer uma tolice, praticar quatro outras na tentativa de reabilitá-la, ensina Baltasar Gracián. Será que para apagar as quatro outras seriam necessárias dezesseis adicionais, perguntará o cínico.

Sem discutir os méritos de nossa política externa, regido pelos nossos três chanceleres, ou tenores – se preferirem: Celso Amorim, Marco Aurélio Garcia e Samuel Pinheiro Guimarães – recém deslocado para a ponta esquerda da SEALOPRA, os sonhos megalomaníacos levaram a posições que o anti-americanismo endêmico não basta para justificar. São propósitos tão fora do alcance da plebe vulgar que não vale a pena discutir o perdão de dívidas dos Gabões da vida, os tapinhas nas costas do senhor Ahmadinejad, ou as mesuras ao senhor Chávez e ao seu projeto bolivariano seja lá qual for o significado que se quer dar a esse conceito. Trata-se de dogmas indiscutíveis – como todos os dogmas. Ou no linguajar com o qual querem nos acostumar “eixos”.

Mesmo evitando esse debate, já que dar murro em ponta de faca não é sinônimo de sensatez, talvez valesse a pena formular, ainda que timidamente uma pergunta: Tudo bem. Estamos adquirindo a dimensão global do Brasil ano 8, já que antes do desabrochar dessa gloriosa era havia apenas desolação, mas será que para tanto devemos comprar os aviões que ninguém quis a preços estranhamente altos? Não se trata de sair bradando por aí “mais Camembert e menos Rafale”, apenas questionar esses sábios que acham suficiente afirmar que “o barato sai caro” para que em nome de uma aliança estratégica cevada por rapapés gauleses se abra mão de uma elementar praticidade. Nada disso! Ao diabo o parecer dos técnicos que entendem do assunto, temos que habituar-nos com uma percepção superior dos fatos.

Anestesiados por falas triunfalistas, reagimos molemente, para depois atirarmos a toalha. Quem somos nós para discutir esse entendimento superior dos mecanismos da afirmação no contexto global?

Essa discussão não leva a nada, ofuscada pelo problema maior da sucessão presidencial. Na campanha, cujo início foi antecipado, contrariamente ao PAC , cuja conclusão ficou para uma data indefinida, recebemos continuamente mensagens subliminares ou nem tanto: “ No passarán os revanchistas, entreguistas, vendilhões etc. cujo objetivo é acabar com tudo de bom que se fez até hoje – aliás tudo que se fez até hoje nessa octaetéride incompleta merece elogios superlativos – para atirar o Brasil no regime feudal, que prevalecia até o ano 1 da Redenção. O próprio Redentor e seus porta-pensamentos repetem esse mantra. Caminhamos para a transformação do processo político num autêntico programa de auditório, que deixaria o saudoso Chacrinha eufórico. Buzinadas para Serra! E a Dilma? Vai para o trono ou não vai? Vocês querem bacalhau? Querem Bolsa-issoeaquilo? Só tem aqui, no reino encantado do “Nunca antes”. Nunca antes o Brasil teve 190 milhões de habitantes.

O debate que se aproxima permitirá ao eleitor escolher entre FHC e Lula. Ah, eles não estão participando da disputa? Não tem importância. Eleitor, preste atenção, Dilma fará mais que Lula e Serra será pior que FHC. Agora podem votar! Ready, set, GO! diria um entreguista.

O mundo não para...

É preciso vislumbrar o futuro. Tarefa difícil, já que por aqui, até o passado é imprevisível, para não mencionar o presente.

Há, no entanto, a poderosa ajuda de um discípulo de Cassandra, geneticamente modificado. Cassandra era uma profetisa sobre a qual se abateu a maldição de Apolo. Poderia prever o futuro, mas ninguém iria acreditar nela. Nosso Ministro da Fazenda é uma espécie de Cassandra ao contrário. Não acerta uma previsão, porém há uma máquina que ecoa todos os seus prognósticos, para, em seguida se calar, quando constatados os equívocos.

Enquanto as águas do rio da fantasia, no qual não iremos nos banhar duas vezes correm plácidas, geram-se carros alegóricos para o desfile da candidata Dilma.

Já temos o PAC2. Esse sim, acelerará de verdade, e para não soçobrar na monotonia, vamos recriar a Telebrás. É um projeto bizarro, não resta dúvida e isso por uma razão bem simples. Nem nos seus tempos de glória, a Telebrás jamais instalou um telefone, não colocou sequer um orelhão, não enterrou um metro de cabo. Era uma empresa holding, de méritos indiscutíveis, mas jamais foi operacional. Qual o propósito dessa estranha idéia? Injetar dinheiro público numa atividade que o setor privado, convenientemente orientado – para isso existe a Anatel - desempenhará melhor!

Mesmo entregando á Telebrás a rede de fibra óptica da falida Eletronet, como chegará aos assinantes, como percorrerá a famosa ‘last mile’ até a residência dos futuros incluídos digitalmente? Como não se cometerá a sandice de criar uma rede capilar paralela – ou talvez sim... cala-te boca – será utilizada provavelmente a rede das atuais concessionárias. Então, para quê? Para acumular prejuízos durante uns cinco anos – bancados com mais impostos – e colocar mais companheiros a serem apresentados à lei de OHM?

Do alto de sua imensa popularidade NOSSOPRESIDENTE contempla as planícies desse Absurdistão!

postado por Alexandru Solomon em 04:56:47 :
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Conversa (des)afinada

Políticos falsos, falsos dilemas

Segundo o Presidente do PT, Ricardo Berzoini, a oposição “quer se opor às legítimas manifestações de nossa pré-candidata, mas escorrega na aprovação do governo que Lula lidera e Dilma coordena, e o povo brasileiro aprova”. Esse seria o dilema tucano.

Naturalmente, o Sr. Berzoini sabe o que é um dilema: o estar à frente de duas alternativas mutuamente exclusivas. Portanto, o PSDB – descontrolado, na sua opinião – está se defrontando com a alternativa de se opor ou de não se opor, tendo em vista a imensa popularidade de NOSSOPRESIDENTE.

Um pouco de reflexão.

Na Teoria dos Jogos existe um dilema famoso – o dilema do prisioneiro.

Copiando da Wikipédia, para ganhar concisão, a situação poderia ser assim resumida:

Dois suspeitos, A e B, são presos pela polícia. A polícia tem provas insuficientes para os condenar, mas, separando os prisioneiros, oferece a ambos o mesmo acordo: se um dos prisioneiros, confessando, testemunhar contra o outro e esse outro permanecer em silêncio, o que confessou sai livre enquanto o cúmplice silencioso cumpre 10 anos de sentença. Se ambos ficarem em silêncio, a polícia só pode condená-los a 6 meses de cadeia cada um. Se ambos traírem o comparsa, cada um leva 5 anos de cadeia. Cada prisioneiro faz a sua decisão sem saber que decisão o outro vai tomar, e nenhum tem certeza da decisão do outro.O pomo da discórdia, nesse caso, seria o PAC I, deixando de lado outras querelas menores quanto à legitimidade dos títulos de mestre ou doutor da candidata oficial. O que farão os contendores PT e PSDB? Há de se fazer uma ou outra adaptação para seguir o modelo, mas a questão tem um certo sabor. O que farão, pois, os contendores?

Confiam no “cúmplice” – falar em cúmplice em se tratando dos mais importantes partidos, pode ser um exagero, mas é bom lembrar que, queiram ou não, ambos sairam da mesma costela (esquerda) do corpo político –, e permanecem negando o crime ou seja, admitem que não conseguem se ater à verdade nos seus pronunciamentos, mesmo correndo o risco de serem colocados numa situação ainda pior, ou confessam que seus discursos contém exageros, e esperam ser “libertados”, apesar de que, se “os outros” fizerem o mesmo – confessando sua incompetência –, ambos ficarão numa situação pior do que se permanecessem calados? A discussão é interessante, mas para nossa situação já dissemos o suficiente.

Apesar da troca de insultos, na qual sobraram afagos como: “mentirosa” e “babaca”, não estamos falando de suspeitos, embora haja no curriculo de ambos os partidos (PT e PSDB) uma quantidade apreciável de atos diante dos quais os puristas poderiam, até deveriam, ficar escandalizados – não só os puristas, aliás.

Como na política – num determinado nível – ensina NOSSOPRESIDENTE, há chutes no peito, concordado com o quase-sogro de Oscar Wilde, o marquês de Queensberry, autor das regras do boxe moderno, que proibia golpes abaixo da linha da cintura, a troca de impropérios pode acontecer – sempre que os demonizados “outros” partirem para a ignorância.

É possível usar sarcasmos baratos: antes de acelerar o crescimento, é preciso ele existir, mas não é o caso de partir para esse tipo de finas ironias... Com ventos favoráveis, enchendo as velas do governo e com o bom-senso de não partir para rupturas extravagentes, houve e haverá crescimento. Não se discute, portanto, o “o quê”, e sim, o “como”. Qualquer que seja o candidato que as urnas ungiem, não é de se esperar mudanças drásticas. Isso é válido aqui e alhures. Nenhum partido com pretensão de seriedade, pois é nisso que estamos falando, colocará como objetivo aumento da desgraça social, o abandono de politicas sociais ou a ruína do sistema de saúde. Resta saber o famoso “como”.

Colecionar projetos pré-existentes e juntá-los a propostas meritórias dará sempre um bom plano. Seja ele PAC, PEC, PIC, POC, PUC. O importante é realizá-lo.

Se O PSDB negar as realizações em bloco e o PT admitir a incompetência, a corrupção, o aparelhamento etc., voltando ao caso acima, a candidata Dilma perde. Se o PSDB admitir tudo que a propaganda oficial divulga, Serra, ou o candidato da oposição – já que até agora, não sabemos ao certo qual é – é varrido do tabuleiro, para tomar emprestado uma fórmula empregada pelos protagonistas de um esporte menos violento – aparentemente – o xadrez.

Ocorre que, salvo informações até agora ocultas, o PAC não é a coleção de sucessos que se alardeia nem tampouco um filho retardado da mãe do PAC. Algo já foi feito, apesar de haver, inaugurações de obras virtuais ou atrasos atribuídos a causas outras que a própria incompetência. É tão humano pensar assim, atribuindo as causas do malogro a “forças ocultas”, ou não?

No entanto, nenhum dos contendores quer admitir isso, sujeitando-se a pena mínima do caso teórico exposto acima. A pena mínima seria expor ambos os candidatos à apreciação de eleitores aos quais não terão sido contadas mentiras.

De parte a parte, contudo, preferem a posição hostil, o que viria, em tese, deixá-las sujeitas a uma penalidade intermediária, infelizmente improvável no caso real, ou seja, a eliminação de ambos da rodada 2010.

Isso lembra a lógica da corrida armamentista, na qual os adversários, por desconfiança mútua aumentam seus arsenais, ao invés de promover o desarmamento, chegando ao absurdo já conhecido.

Então, Candide, isso é política?


Alexandru Solomon, formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas` e ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade. Nas livrarias Cultura, Siciliano e ´Pega Sonho``: Rua Martinico Prado, 372 – Higienópolis – SP – Tel.: (11) 3668-2107)| E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br

postado por Alexandru Solomon em 10:19:24 :
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João-bobo

Todos conhecem o João-bobo – aquele brinquedo que por mais que seja empurrado, retorna à posição vertical. Voltando a nossas plagas, é impossível não observar a semelhança entre o João-bobo e as sucessivas manobras, para citar as mais recentes: O Confecom, o PNDH3 e o Encontro da cultura, que trazem embutido, debaixo de um palavrório confuso, o desejo de amordaçar a imprensa. Sob o rótulo de "controle social" ou "instrumento transversal das políticas públicas e de interação democrática", fórmulas que em si nada dizem, está o perigo de vermos conquistas democráticas e constitucionais virarem pó. Rejeitadas, retornam sempre sob diferentes roupagens.

Não faz sentido um simples dar de ombros. Não estamos à frente de um bricabraque ideológico, embora o excipiente desse veneno pareça inofensivo, e sim, de uma tentativa de burlar a vigilância da sociedade, uma espécie de "vai que um dia dá certo". O desejo de "orientar, fiscalizar e controlar" a mídia já foi explicitado. A ameaça aí está. Essas repetidas tentativas, às vésperas das eleições devem ser neutralizadas. A embalagem não consegue camuflar as intenções que pretende ocultar. Entende-se a pressa em fazer passar essa aberração ainda nesse governo, já que o amanhã pode não ser tão favorável.

Para voltar ao PNDH3, é bom lembrar que o seu conteúdo foi apresentado para a assinatura presidencial, após passar por um displicente – na melhor das hipóteses – crivo da Casa Civil, órgão chefiado pela candidata oficial.

Por outro lado, na campanha eleitoral – já em pleno andamento, apesar das inevitáveis negativas e da inércia dos órgãos aos quais caberia impedi-la – procura-se criar a sensação de que qualquer outra solução que não seja a escolha da ministra Dilma Rousseff, levará 'esse país' a um desastre marcado pela perda de conquistas às quais se associa perversamente a indefectível – e consagrada, apesar de geralmente falsa – fórmula: "Nunca antes na nossa história". Obviamente o “nunca antes” é aplicável em diversas situações, por exemplo: Nunca antes na história deste País contamos com mais de 190 milhões de habitantes.

Catástrofes inenarráveis estariam a nossa espera: um mar de privatizações engolfando as estatais (e seus quadros dirigentes, de competência variável e orientação política bem definida), o término dos programas assistenciais e... cúmulo da desgraça, o fim do PAC. Tudo isso daria lugar a uma administração pautada pelos mandamentos do tenebroso Consenso de Washington – não importa se poucos sabem o que é o tal Consenso. Um bando de vândalos, perto dos quais os cavaleiros do Apocalipse não passam de inocentes coroinhas, tudo espezinharia. Acena-se com um retrocesso inevitável, a menos que – Heureca ! – elejamos a escolhida do Nossopresidente.

Michelangelo, se vivo, esculpiria, sem sombra de dúvida, uma nova Pietá. Já imaginaram, a mãe do PAC segurando no colo o filho retardado – porque precoce, com certeza, ele não é – cuja existência, segundo ela, corre sério perigo, caso o pleito presidencial aponte como vencedor "um-que-não-seja-dos-nossos".

Espalhar uma imagem distorcida das conseqüências nefastas dos atos de algum preposto de Satanás, ungido pelas urnas parece ser a tônica das mensagens a martelarem as mentes dos eleitores. Falsificar é uma arma que muitas vezes deu certo. Desmistificar é preciso.


Alexandru Solomon, formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas` e ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade. Nas livrarias Cultura, Siciliano e ´Pega Sonho``: Rua Martinico Prado, 372 – Higienópolis – SP – Tel.: (11) 3668-2107)| E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br

postado por Alexandru Solomon em 10:15:00 :
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