Cultura Caipira
Cultura Caipira
sábado, 13 setembro, 2008
A MARCA DO CAIPIRA

A MARCA DO CAIPIRA

Orlando Batista dos Santos

Cornélio Pires foi quem melhor definiu o jeito caipira de ser. Levando em conta as origens, como o indígena brasileiro, a contribuição do negro trazido da África, a combinação com a cultura européia, especialmente a portuguesa e depois a italiana, tudo isso acabou por formar a amálgama cultural específica do povo brasileiro: na culinária, na arte, na dança, na música e claro, no vocabulário rico e despojado à margem da língua oficial, a portuguesa.

A origem do termo remete-nos a pensar o caipira como o homem do mato, do campo, arredio e avesso ao progresso. Mas os tempos mudam, e lá está o caipira disputando espaços nas cidades; nas fábricas, no comércio e nas universidades, revelando sua competência. Quando precisam cumprir as convenções sociais, abraçam as etiquetas com fino rigor, tão fino que às vezes é impossível não imprimir certa dose de exagero, o que acaba por denunciar suas origens. 

Sossego e fartura, eis o que o caipira mais almeja. Mas se for necessário entrar na correria por uma causa justa, ele está pronto. Pode ser, mas, melhor não. Após cumprir suas obrigações para com a sociedade, volta ao acalento de suas raízes. 

 Para o caipira, a vida precisa ser saboreada em seus mínimos detalhes: na prosa boa e demorada com seus interlocutores, no apreciar dos elementos da natureza que lhes passam às vistas, no degustar da velha e boa comida feita com a mesma e tradicional receita, no apego às velhas fórmulas para resolver velhos e novos problemas e, claro, festas, porque ninguém é de ferro.

O caipira não troca o certo pelo duvidoso e desconfia muito das novas tecnologias, até que estas se revelem definitivamente indispensáveis. Sem pretensão de santidade, mostra-se extremamente apegado aos aspectos de sua religiosidade. Sem ser revolucionário, tem sempre um deboche na ponta da língua quando o assunto é política.

O zelo pelas tradições é outra característica do caipira. Não que viva apenas das glórias do passado ou tenha medo do futuro apegando-se nostalgicamente ao que não volta mais.  Esta característica é uma sábia e providencial resposta de sua alma, sem a qual, as ameaças de massificações culturais estéreis, ou tão somente mercantilistas destruiriam o GENE DA CULTURA BRASILEIRA. Graças ao caipira, isto não vai acontecer!

Mas, a verdadeira marca do caipira é sua capacidade para simplificar. São os “ataios”, soluções indispensáveis para a manutenção de seu bem-estar, especialmente quanto à linguagem. Para quê gastar tanto esforço na pronúncia “eucalipto”, se basta dizer “calipe, acalipe, calipar”? O falar caipira revela, a despeito dos justos argumentos dos defensores da língua pura, apenas e tão somente o jeito mais fácil de se comunicar. Comunicação, por sinal, direta, objetiva e pessoal, porque certamente não existem meios mais eficazes para se transmitir uma mensagem, e isto o caipira sabe muito bem fazer.

Caipira é sinônimo de Brasil. Viva o caipira !


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sábado, 17 novembro, 2007
CHUPA-CABRA: O NASCER DE UM MITO


Na segunda metade da década de 1990 os noticiários da imprensa em todo o Brasil começam a se ocupar de casos inusitados. De várias partes do território surgiam informações de que animais de pequeno porte estariam sendo atacados e mortos por uma estranha criatura, sem que ninguém conseguisse descrevê-la. Seria um ET, um vampiro, um lobisomem, ou um ente surgido das profundezas da terra? Inúteis as tentativas para explicar aquelas ocorrências. Enquanto isso, cabras, carneiros, porcos, patos, galinhas e bezerros eram descobertos mortos e com sinais peculiares pelo corpo, como resultante dos ataques: pequenos orifícios por onde as vítimas tinham seu sangue escoado, ou cortes muitos precisos, por onde as vísceras das presas eram extraídas, o que levava os investigadores do assunto a afirmarem não se tratar de ações de predadores conhecidos.
NO MUNDO
Dizem que o Chupa-Cabra – nome que foi dado ao bicho desconhecido - apareceu pela primeira vez em Porto Rico, país da América Central que tem uma grande criação de cabras. O país ficou alarmado com a ação de um ser misterioso na década de 1980, que atacava os animais, sem que se pudesse sequer dar ao bicho uma caracterização adequada.
Mas, há muitos relatos de ataques dessa criatura em outros países das Américas, como Estados Unidos, México e a região do Caribe. Em Portugal, na Espanha, na Índia e até mesmo na Turquia se têm notícias de ataques com características semelhantes.
CRIPTOLOGIA
Afirmação de um criptólogo, profissional do ramo da ciência que estuda espécies de animais ainda desconhecidas, ou redescobertas após serem consideradas extintas – a criptologia – existem três possibilidades para justificar a existência do Chupa-Cabra:
1. Trata-se de predadores conhecidos que, estando passando por mutação genética natural, agem de forma diferente da costumeira, razão pela qual as vítimas são vistas com mutilações difíceis de serem caracterizadas como sendo de um predador comum.
2. São predadores produzidos por mutação genética artificial em laboratórios, os chamados organismos geneticamente modificados (OGMs), e que teriam escapados dos locais onde essas experiências ocorrem, fugindo assim, a criatura, do controle de seu criador.
3. Predadores extra-terrestre.
RELIGIÃO
Há quem diga que, à luz da Bíblia, as manifestações do Chupa-Cabra são plenamente compreensíveis. É o começo do fim, dizem, referindo-se ao fim dos tempos, ou fim do mundo, preconizado por visões de caráter apocalípticas. Satanás e seus demônios estariam se utilizando de uma gama de bestas para espalhar o terror entre os humanos, desviando nossa atenção de assuntos mais elevados, especialmente os relacionados à salvação. Afinal, afirma-se, não é coincidência demais que os ataques se dirijam preferencialmente a ovelhas, cordeiros e cabras, animais utilizados nos sacrifícios na Idade Antiga? Satanás pode muito bem estar se utilizando desse expediente para provocar dúvidas quanto à bondade do Criador, e aprendeu os segredos da natureza para melhor exercer seu poder, assim como o faz nos grandes acidentes e calamidades no mar e em terra.
UFOLOGIA
Certos ufólogos afirmam que o Chupa-Cabra só pode ser um extra-terrestre. Objetos voadores não identificados (OVNIs), estariam trasladando seres de outro planeta para povoarem a terra. Esses novos habitantes estariam então realizando intensos estudos em animais que se encontram na superfície da terra, o que explica a retirada de órgãos vitais e o escoamento do sangue de suas presas.
FOLCLORE
CHUPA-CABRA: ser misterioso que ataca animais de pequeno porte no campo e na cidade.
Tem preferência por fêmeas prenhes.
Ataca cabras e ovelhas, mas também bezerros, porcos, patos e galinhas.
Extrai o sangue e as vísceras de suas vítimas.
Existem relatos de ataques a seres humanos.
Muitos têm visto o Chupa-Cabra, mas não conseguem fazer uma descrição precisa.
Os cães de guarda não conseguem detectar a presença do Chupa-Cabras na propriedade que está sendo atacada.
Nunca ninguém fotografou um chupa-cabra.

No calor das especulações sobre a orígem e descrição dessa entidade, eis que surge no mercado um concorrido bonequinho de aspecto bizarro, meio gente, meio animal, conhecido como Chupinha, nome “carinhoso” dado ao filho do Chupa-Cabra. A procura era tanta que em certos locais de venda elaboravam-se extensas listas de espera para atender os interessados.
No Brasil, certo dispositivo eletrônico usado para clonar senhas de computadores tem o sugestivo nome de “chupa-cabra”.
Pessoa de aspectos fora do normal são potenciais candidatas a receberem um apelido cada vez mais comum, o de Chupa-Cabra.
Certas mortes em circunstâncias misteriosas, têm grandes chances de terem o Chupa-Cabra no centro das especulações sobre a questão da autoria.
Sabe-se de pelo menos um caso envolvendo uma mulher, que atribuiu ao Chupa-Cabra a responsabilidade por uma “agressão constrangedora”. O fato foi noticiado por um grande jornal de São Paulo.

Assim nascem os mitos e as lendas, resultantes, muitas vezes, de elementos factuais, nem sempre bem compreendidos, quase sempre mal interpretados, normalmente envolto em mistérios, e assim são inconscientemente transportados pelo imaginário popular de maneira expontânea à categoria de Folclore. Quando os entes míticos adquirem atributos específicos e características peculiares, são acolhidos pelo imaginário popular, e dessa forma “eternizados” na cultura do povo.


postado por 74574 as 09:35:38 # 0 comentários
quarta, 17 outubro, 2007
RALO... RALO – IM? E O NOSSO SACI?


É difícil para um caipira escrever e falar certas palavras. Difícil também é compreender a tendência de certos brasileiros em desprezar as coisas que são genuinamente nossas, e dão o maior destaque à cultura que vem de fora e que nos é imposta sem o menor pudor. Digo isso, não é por intolerância cultural, não, mas para dizer que quem não valoriza a cultura de seu lugar de origem, tem poucas chances de querer bem a seu próprio povo.

Bem fizeram os cidadãos de São Luis do Paraitinga SP, que há muitos anos decretaram oficialmente O Dia do Saci no município, comemorações realizadas a 31 de outubro, e está em curso uma campanha para que a data seja estendida nacionalmente.

O Estado de São Paulo já aderiu oficialmente à data.

Quanto as bruxas européias e norte americanas, deixemo-las...

Falemos do saci:

O SACI

Em todas as sociedades existem lendas, mitos, estórias fantásticas de seres com poderes sobrenaturais. E muitas vezes, os atributos de seres mitológicos de um país, se confundem com os de outro. A origem mais provável, e a mais legítima do mito do Saci é a indígena ao incorporar elementos da cultura negra. Mas ganhou força no seio da população cabocla já impregnada de informações fantasiosas, de forma que várias versões do mito, e mesmo de novos atributos foram sendo acrescentados ao personagem.

A respeito do Saci, há quem diga que o mesmo possui atributos benfazejos e protetor da natureza. Em outros casos, assume o papel de traquina, penetrando nos lares para aí aprontar mil peripécias, como apagar o fogo, colocar terra na comida e dar sumiço a objetos. No campo, não deixa os cavalos em paz, subindo-lhe ao lombo e pondo-os a galopar. Para deixar sua marca, faz tranças nos cavalos que montou. Mas, o pestinha invisível também é capaz de revelar-se malfazejo, pois vaga pelas estradas a perseguir os viajantes, armando ciladas a fim de provocar-lhes sustos e pequenos aborrecimentos.

Em cada região do Brasil o nome Saci, ganha variantes e atribuições diversificadas. O nome mais popular é Saci Pererê. Mas chamam-lhe também de Teperê, Sepê, Seperê, Trik, e por aí a fora.

O que dizem do Saci:

  • * É um moleque preto. Tem olhos de fogo e dizem que ele solta fumaça pelos olhos.

  • * Nasce dos estouros dos gomos de bambu durante uma queimada.

  • * Solta um assovio que faz doer os ouvidos da gente.

  • * Tem uma perna só, usa uma carapuça vermelha e vive fumando em um pito.

  • * Persegue os viajantes e os caçadores, pregando-lhes sustos.

  • * É mal-criado, pois pede tição de fogo para acender o pito, depois, atira o tição na cara de quem lhe fez o favor.

  • * Vive serelepe nos rodamoinhos. Para apanhá-lo basta atirar uma peneira no centro do rodamoinho.

  • * Para deter o traquina, deve-se atirar um rosário para dentro do rodamoinho.

  • * Se desaparece um objeto, deve-se dar três nós em uma palha de milho (a palha representa o pipizinho do Saci). Quando dá vontade de mijar, o Saci fica desesperado porque está com o mijador amarrado. Então, ele faz aparecer o objeto que havia escondido.

    Um elemento importante que auxiliou na fixação do mito do Saci, trata-se da ave Tapera naevia denominada popularmente Sem-Fim. Presente praticamente em todo território brasileiro, esta pequena ave tem um canto composto por silvos graves, mas também agudos, o que acabam desnorteando aqueles que tentam localizá-la. Para complicar, o silvo principal lembra a palavra saci. Cada casal desta espécie de aves ocupa uma área de território específico, e põem-se a emitir silvos incessantes, o que dá a falsa noção de sua onipresença. Para o imaginário antigo, cheio de superstições, os assovios do Sem-Fim deviam mesmo provocar receios nos caminheiros que varavam grandes distâncias pelos sertões do Brasil.

    Hoje, felizmente, este mito já não assombra as pessoas, e o Saci tornou-se uma figura romântica e muito expressiva do folclore brasileiro, um verdadeiro símbolo do nosso país.

    Orlando Batista dos Santos

  • (desenho do Tapera naevia - fonte: site Brasil 500 pássaros)


  • postado por 74574 as 12:33:34 # 0 comentários
    sexta, 05 outubro, 2007
    MUSGA

    FALANO INGRÊIS

  • Gúdi mórnei, cumpádi!
    — Gude...

    O povo do meu sertão
    Ficô maluco de vêis
    Com a mudança da lingua
    Eu vô contá pra vocêis
    De uns tempo para cá
    Garrô a falá ingrêis
  • Refrão:
    Gúdi mórnei, meu cumpádi
    Ói love, minha princesa
    Tanque u, minha cumádi
    Si ti dão, por gentileza

    Na fazenda do Zé Borge
    Tinha um belo dum açude
    Pra podê ganhá dinhero
    Transformô num caute crube
    Pra dizê que é um bom negoço
    Ele diz que é muito gúdi

    Refrão

    Refrão
    Meu cumpádi violero
    Num qué tocá mais pagode
    Se veste como cau bói
    Ai meu Deus, cumé qui pode
    Quando ele vai tomá banho
    Diz qui vai lavá u bode

    — Uai, cumpádi: di premero era a égua qui a gente lavava...
    — É a grobalição, cumpádi; a gente pricisa si inducá ca lingua di fora!

    A venda do Zé Galinha
    Hoje é um chópi cente
    Cheio de produto novo
    Com as letra deferente
    Rote dogue foi u nome
    Que ganhô u cachorro quente

    Refrão


    Pra omentá u meu negoço
    Matriculei nessa escola
    Aprendê a nova lingua
    Fêis mudá a minha histora
    Inté memo meu cavalo
    Tô vendeno por cem dóla

    Refrão

    Vél come pro cêis!


    postado por 74574 as 10:01:15 # 0 comentários
    segunda, 01 outubro, 2007
    PRA LÁ DE CAIPIRA


    Reportagem -
    De segunda à sexta-feira o ritual é sagrado: ao entardecer, Jorge Augusto de Almeida (o Jorge Caipira) coloca uma caixa de som na calçada, liga o aparelho e começa o desfile de músicas caipiras, de preferência das antigas. À frente de sua lojinha, denominada "bazarzin", Jorge mata a saudade e curte a nostalgia daquele "tempin bão". Vez ou outra, pega o violão e lasca um ponteado, ou puxa o fole do acordeon, premiando o bairro Itajaí em Campinas com muitas melodias. Aos sábados e aos domingos o tempo da programação é bem mais extenso.

    Nascido e criado no sul de Minas, entre Grota do Limoeiro e Rio do Peixe em Campestre, filho de Zé Conguinha (José Augusto de Almeida) e irmão do violeiro Zé Floresta (José Alves), desde criança Jorge participava de congadas, danças de São Gonçalo, catiras, folias de reis e de quadrilhas nas festas juninas.

    Jorge conta que morava em casa de taipa com cobertura de sapê, tomava banho de bica e só calçou sapatos depois de moço. E não perdia um baile de barraca, muitas vezes tocando acordeon, "pinicando um violão ou sapecando um pandeiro". Antes de ir a um baile, Jorge diz que lixava as mãos com cacos de telha e passava leite de mamão, para suavizar os calos criados pelo cabo da enxada. Depois, metia brilhantina no cabelo, bala de hortelã na boca e estava pronto para tirar as damas para dançar. E orgulha-se de nunca ter "levado tauba" (tábua - recusa por parte da dama em dançar com o cavalheiro).

    O "bazarzin" de Jorge é um retrato fiel do dono, onde o velho e o novo dividem o mesmo espaço: entre doces, botões, presilhas para cabelos e material de uso escolar, encontram-se dezenas de objetos, muitos dos quais, antigüidades, como rádios de válvulas, vitrolas, relógios de muitas marcas e de todas as idades, maquinas fotográficas estrangeiras "de mais de 70 anos". E não fica só aí: instrumentos musicais, sino de igreja, lamparinas e lampiões, chapéus, garrucha e uma coleção de "arma branca" composta de facões, facas, punhais e canivete Corneta. Mas nem todos os objetos expostos estão à venda. Uma "candeia" do tempo da escravidão "apanhada em rolo", por exemplo, Jorge diz que não tem preço.

    Quando o assunto é música, os olhos de Jorge ficam arregalados. Fala de Cornélio Pires, "o maior compositor caipira", e das duplas caipiras antigas, de muitas duplas antigas, como Silveira e Barrinha, que escolheu para tocar no aparelho enquanto a conversa ia de vento em popa. A propósito, Jorge confidencia que também se arriscou no mundo artístico, formando a dupla Paraíso e Nortinho com o irmão, chegaram a cantar na Rádio Nacional, lá pelos idos de 1959. Mas as dificuldades para se manterem falavam mais alto, fazendo com que o sonho de ser artista fosse deixado de lado.

    Entre as duplas mais velhas, Jorge prefere Vieira e Vieirinha. Entre as modernas, Cezar e Paulinho. Diz que tem muita gente boa atualmente, mas torce o nariz para o "MPB cantado a dois disfarçado de caipira". Nosso caipira fala ainda dos sanfoneiros e é claro, de Mário Zan, "o maior sanfoneiro do mundo", com a devida permissão de Sivuca, reconhece.

    No meio da prosa, entra a esposa, Cida (Aparecida da Silva Almeida - casaram-se em 1963). Mineira, nascida na zona rural de Machado (Fazenda Caiana), dona Cida diz que seu marido é "pra lá de caipira", e que ela lida com essa questão de forma mais ponderada. Jorge contesta. Diz que a esposa se modernizou demais e já não admite mais viver na roça. Dona Cida retruca, dizendo que caipira é caipira em qualquer lugar do mundo. Jorge olha para fora e desabafa: "tem muito caipira que num assume. Fico orguioso quando sô chamado de caipira. Liáis, só saí da roça pu farta de iscoia".

    A trajetória profissional de Jorge também não deixa de ser interessante. Depois que deixou a roça, trabalhou em hotéis, restaurantes, churrascarias, bares (Éden Bar em Campinas, por exemplo), sempre na luta árdua para garantir o pão de cada dia. Jorge também orgulha-se de ter sido chefe de cozinha na Escola Preparatória de Cadetes do Exército em Campinas, onde firmou grande amizade entre "gente graduada". Para "descansar um pouco", resolveu ser gráfico na CATI, órgão do governo do estado de São Paulo ligado à agricultura. Hoje aposentado, Jorge reclama que pagou bem mais do que a "mixaria" que está recebendo da Previdência.

    Para quem se especializou em culinária, chegando a ser chefe de cozinha e preparado delícias da cozinha internacional, não custa saber um pouco de suas preferências gastronômicas, e nosso Jorge responde de pronto:

    Virado de feijão com toucinho, arroz e couve;

    Costela de vaca com mandioca;

    Pé de porco com fava;

    Paçoca de carne socada no pilão;

    Angu com frango e quiabo.

    Bebida preferida? "pinga de tonér".


    postado por 74574 as 08:32:13 # 0 comentários
    quinta, 20 setembro, 2007
    CULTURA RÚSTICA E CULTURA CAIPIRA

    CULTURA RÚSTICA E CULTURA CAIPIRA
    (trechos de “Os parceiros do Rio Bonito”, de Antônio Cândido – Livraria Duas Cidades, 3ª edição, 1975)

    “Convém agora esclarecer o uso, no texto, de duas expressões: cultura (e sociedade) rústica; cultura (e sociedade) caipira. O termo rústico é empregado aqui não como equivalente de rural, ou de rude, tosco, embora os englobe. Rural exprime sobretudo localização, enquanto ele pretende exprimir um tipo social e cultural, indicando o que é, no Brasil, o universo das culturas tradicionais do homem do campo; as que resultaram do ajustamento do colonizador português ao Novo Mundo, seja por transferência e modificação dos traços da cultura original, seja em virtude do contacto com o aborígine.
    Implicando, não obstante o isolamento, em constante incorporação e reinterpetração de traços, que vão-se alterando ao longo do contínuo rural-urbano, rústico não traduz folk-culture ou folk-society, usados entre nós com certa inteperança com cultura ou sociedade de folk (barbarismo dispensável); pelo menos no sentido limitado que lhes deu afinal Redfield, seu criador (...).
    No caso brasileiro, rústico se traduz praticamente por caboclo no uso dos estudiosos, tendo provavelmente Emílio Willems o primeiro a utilizar de modo coerente a expressão cultura cabocla; e com efeito aquele termo exprime as modalidades étnicas e culturais do referido contacto do português com o novo meio. Entretanto, no presente trabalho o termo caboclo é utilizado apenas no primeiro sentido, designando o mestiço próximo ou remoto de branco e índio, que em São Paulo forma talvez a maioria da população tradicional. Para designar os aspectos culturais, usa-se aqui caipira, que tem a vantagem de não ser ambíguo (exprimindo desde sempre um modo-de-ser, um tipo de vida, nunca um tipo racial), e a desvantagem de restringir-se quase apenas, pelo uso inveterado, à área de influência histórica paulista. Como neste estudo não saímos dela, o inconveniente se atenua.
    Cornélio Pires descreve, em um de seus livros, o “caipira branco”, o “caipira caboclo”, o “caipira preto”, o “caipira mulato”. É a maneira justa de usar os termos, inclusive porque sugere a acentuada incorporação dos diversos tipos étnicos ao universo da cultura rústica de São Paulo – processo a que se poderia chamar acaipiramento, ou acaipiração, e que os integrou de fato num conjunto bastante homogêneo.(pg. 21-22).

    Tendo conseguido elaborar formas de equilíbrio ecológico e social, o caipira se apegou a elas como expressão da sua própria razão de ser, enquanto tipo de cultura e sociabilidade. Daí o atraso que feriu a atenção de Saint-Hilaire e criou tantos estereótipos, fixados sinteticamente de maneira injusta, brilhante e caricatural, já neste século, no Jeca Tatu de Monteiro Lobato. (...).
    Como já se tinha visto no seu antepassado índio, verificou-se nele certa incapacidade de adaptação rápida às formas mais produtivas e exaustivas de trabalho, no latifúndio da cana e do café. Esse caçador subnutrido, senhor do seu destino graças à independência precária da miséria, refugou o enquadramento do salário e do patrão, como eles lhes foram apresentados, em moldes traçados para o trabalho servil. O escravo e o colono europeu foram chamados, sucessivamente, a desempenhar o papel que ele não pode, não soube ou não quis encarnar. E, quando não se fez citadino, foi progressivamente marginalizado, sem renunciar aos fundamentos da sua vida econômica e social. Expulso da sua posse, nunca legalizada; despojado de sua propriedade, cujos títulos não existiam, por grileiros e capangas – persistia como agregado, ou buscava sertão novo, onde tudo recomeçaria. Apenas recentemente se tornou apreciável a sua incorporação à vida das cidades, sobretudo como operário. (...). A cultura caipira, como a do primitivo, não foi feita para o progresso: a sua mudança é o seu fim, porque está baseada em tipos tão precários de ajustamento ecológico e social, que a alteração deste provoca a derrocada das formas de cultura por eles condicionada. Daí o fato de encontrarmos nela uma continuidade impressionante, uma sobrevivência das formas essenciais, sob transformações de superfície, que não atingem o cerne senão quando a árvore já foi derrubada – e o caipira deixou de o ser.(pg. 79-83).

    Ora, o caipira não vive mais como antes em equilíbrio precário, segundo os recursos do meio imediato e de uma sociedade de grupos segregados; vive em franco desequilíbrio econômico, em face dos recursos que a técnica moderna possibilita. Antes, o atraso técnico e a economia de subsistência condicionavam, em São Paulo uma sociedade global muito mais homogênea, não havendo discrepâncias essenciais de cultura entre o campo e a cidade. O desenvolvimento da economia baseado na exportação dos gêneros tropicais acentuou a diferenciação dos níveis econômicos, que foram aos poucos gerando fortes distinções de classe e cultura. Quando esse processo avultou, o caipira ficou humanamente separado do homem da cidade, vivendo cada um o seu tipo de vida.
    Mas em seguida, a industrialização, a diferenciação agrícola, a extensão do crédito, a abertura do mercado interno ocasionaram uma nova e mais profunda revolução na estrutura social de São Paulo. Graças aos recursos modernos de comunicação, ao aumento da densidade demográfica e à generalização das necessidades complementares, acham-se agora frente a frente homens do campo e da cidade, sitiantes e fazendeiros, assalariados agrícolas e operários – bruscamente reaproximados no espaço geográfico social, participando de um universo que desvenda dolorosamente as discrepâncias econômicas e culturais. Nesse diálogo, em que se empenham todas as vozes, a mais fraca e menos ouvida é certamente a do caipira que permanece no seu torrão. (pg. 223).

    O caipira é condenado à urbanização, e todo o esforço de uma política rural baseada cientificamente (isto é, da Agronomia e da Sociologia) deve ser justamente no sentido de urbaniza-lo, o que, note-se bem, é diferente de traze-lo para a cidade. No estado atual, a migração rumo a esta é uma fuga do pior para o menos mau, e não poderá ser racionalmente orientada se não se partir do pressuposto de que as conquistas fundamentais da técnica, da higiene, da divulgação intelectual e artística devem convergir para criar novos mínimos vitais e sociais, diferentes dos que analisamos neste trabalho” . (pg. 225).

    Nota do editor: A primeira edição de Os Parceiros do Rio Bonito ocorreu em 1964 pela José Olympio.
    Para maiores informações acesse o link Livros & Autores do site http://www.caipiraliteral.com.br ou o site http://www.editora34.com.br.

    postado por 74574 as 09:40:12 # 0 comentários
    quarta, 19 setembro, 2007
    O CAIPIRA COMO ELE É


    O CAIPIRA COMO ELE É – DE CORNÉLIO PIRES(1)

    Notas de Orlando Batista dos Santos

    Movendo e estudando tipos de "caipiras" nesta obra, especialmente caipiras paulistas, ao classificá-lo, não faço referências ao "cafuz(2) e ao "caboré(3), raros neste Estado.

    O nosso caipira tem sido uma vítima de alguns escritores patrícios, que não vacilam em deprimir o menos poderoso dos homens para aproveitar figuras interessantes e frases infelizes como jogo de palavras.

    "Caipiras"... Mas que são os caipiras?

    São os filhos das nossas brenhas, de nossos campos, de nossas montanhas e dos ubérrimos vales de nossos piscosos, caudalosos, encaichoeirados e inumeráveis rios, "acostelados" de milhares de ribeirões e riachos.

    É fato: o caipira puxador de enxada, com a maior facilidade se transforma em carpinteiro, ferreiro, adomador, tecedor de taquares e guembê, ou construtor de pontes. Basta-lhe uma só"explicação bem clara; ele responderá: "Se os ôtro fáiz... proque não hi de fazê!... Não agaranto munto, mais vô exprementá".

    Os caipiras não são vadios: ótimos trabalhadores, têm crises de desânimo quando não trabalham em suas terras e são forçados a trabalhar como camaradas, a jornal. Nesse caso o caipira é, quase sempre, uma vítima.

    O trabalhador estrangeiro(4) tem suas cadernetas, seus contratos de trabalho, a defesa do "Patronato Agrícola" e seus cônsules... Trabalha e recebe dinheiro. Ao nacional, com raras exceções o patrão paga mal e em vales com valor em determinadas casas, onde os preços são absurdos e os pesos arrobalhados; nesse caso o caipira não tem direito a reclamações nem pechinches, está comprando fiado... com o seu dinheiro, o fruto do seu suor, transformado em pedaço de caderneta velha rabiscada a lápis.

    E querem que o brasileiro tenha mais ânimo!

    Ânimo não lhe falta, quando trabalha em suas próprias terras. As suas algibeiras e o seu crédito nas lojas e vendas o confirmam.

    Deixem os fazendeiros de explorar o nacional, pagando-lhe em moeda corrente; que ele veja e sinta o dinheiro, o seu dinheiro, fruto do seu labor, e ele será outro.

    Dócil e amoroso é todo camponês; sincero e afetivo é o caipira.

    Não cuido aqui do caipira da cidade(5) Esse sabe ler, é bom, é fino, e só lhe falta o traquejo das viagens, o desenleio e o desembaraço adquiridos no contínuo contato com as populações dos grandes centros. Esse é menos desconfiado que o do sítio, mas revela grande timidez num meio grande e estranho, imaginando que todo mundo o observa, chasqueando-os, trocando-lhe o andar e o jeito.

    Da cidade ou do sítio o caipira é sempre prejudicado pelo seu excesso de modéstia. É que em nossa terra, trancada de magníficas inteligências, parece que toda a gente é obrigada a ter talento! Daí o pouco caso a que são votados homens que brilhariam em outras terras.

    A música e o canto roceiros são tristes, chorados em falsete; são um caldeamento da tristeza do africano escravizado, num martírio contínuo do português exilado e sentimental, do bugre perseguido e cativo. O canto caipira comove, despertando impressões de senzalas e tapéras. Em compensação, as danças são alegres e os versos quase sempre jocosos.

    I - O CAIPIRA BRANCO

    Neste caso, branco quer dizer de melhor estirpe, meia mescla, descendentes de estrangeiros brancos... gente que possa destrinçar a genealogia da família até o trisavô, confirmando pelo procedimento o nome e a boa fama dos seus genitores e progenitores. Podem ser alvos, morenos ou trigueiros... são brancos.

    Descendem geralmente dos primeiros povoadores, fidalgos ou nobres decaídos de suas pompas, ou de brancos europeus atraídos para a nossa terra pela árvore das patacas e que, nos sertões de então, fecundos latinos, deixaram a sua descendência. A média de filhos do caipira branco é de 8, e ele consegue criá-los.

    São esses os caipiras reclamadores de escolas. Seus filhos, engarupados no pangaré, freqüentam aulas na cidade a uma e meia léguas de distância, quando não há escola no bairro.

    Por mais pobres que sejam, com seus cobrinhos, suas terras, porque eles são sempre proprietários, podem andar remendados, mas andam limpos. Usam chinelos de liga ou cara de gato, sapatões de vaqueta branca-amarelada ou botinas de elástico, pés não muito grandes, porém altos; barba abundante e os lóbulos da orelha gordos e destacados das faces. Não dispensam o paletó, não usam colete, não passam sem um lenço amarrado no pescoço; chapéu de pano, calça de riscado, e uma boa cinta de couro curtido, couro de sapateiro, como dizem eles.

    As mulheres são asseadas e amorosas, fugindo às cores berrantes tão apreciados pelos caipiras caboclos. Excessivamente pudicas, suas filhas aos sete para oito anos já usam saias compridas...

    Seus penteados prediletos são o pericote na nuca ou no alto da cabeça; a trança longa e cheia, ou duas tranças pendentes, usando também, quando pouco cabeludas, trancinhas em rodilha.

    Os caipiras brancos, mesmo quando pobres, são respeitados pelo caboclo pobre ou rico e pelos pretos.

    Se os filhos são analfabetos, em compensação são gentis e bem educados.

    Pouco dados à cachaça, são sóbrios e alegres, comedidos nos gestos, compassivos, bonachões e pacientes.

    As suas casas, apesar de ser de barro e telha vã, são asseadas, bem varridas, ostentando nas linhas enxadas envernizadas pelo uso, ficando atrás da porta os machados e foices. Nas estanqueiras não faltam a espingarda, a patrona de couro de jaguatirica o laço, o cabresto, o bornal, o freio, o serigote ou socado, o corote, o samburá e um pala.

    Não são velhacos, nem carvoteiros, nem gaúchos: têm sempre de seu. Rascam regularmente nas violas de doze cordas, com seus canotilhos, toeiras e turina.

    Riem abertamente. Têm o falar sossegado e bondoso, de tudo se admirando, a mostrar interesse pela conversa mais insossa e secante, só para serem delicados.

    Não dispensam a sua cachorrada paqueira e veadeira, com que fazem seu desporto aos domingos ou dias de guarda. Amam os seus cães, que não cedem por dinheiro nenhum. Põe-lhes nomes originais: Bismarque – Sultão – Paxá – Baliza – Clarim – Palhaço – Fidalgo – Sem Nome – Que Importa – Espicula – Marengo – Piloto – Colibri – Corsário – Não Sei...

    Como patrões, são verdadeiros amigos e companheiros de eito dos camaradas. Sabem adoçar a voz e a ordem com um sorriso.

    Têm, quase sempre, em casa, um compartimento assoalhado para os hóspedes, pois são os mais hospitaleiros dos homens.

    Quando moradores dos campos, suas casas ficam dentro de um mangueirão, com suas figueiras e coqueiros, pés de pinhão-paraguai, cochos em forquilhas, chiqueirão de um lado, paiol, uma horta–jardim e um modesto pomar.

    Os ribeirinhos armam suas casas barreadas, rebocada e caiada no tope de uma ribanceira, num refego de vale ou no alto de uma poética barranca de rio.

    São João e Santo Antônio são os seus santos prediletos e em todos os sítios se ostentam no mesmo mastro, costas com costas no mesmo caixilho, mastro pintado em gomos azuis e rosas.

    Pelas cercas de pau-a-pique, pendentes e verdes, as "buchas", as abobreiras e os croás cheirosos. Junto á porta, as pedras de afiar e de acentar o fio. No quintal as laranjeiras: lima, tangerina, tangerona, ananás, mexeriqueiras, azeda cascuda, seleta, limão doce, lima umbiguda, lima da Pérsia, cidreiras, jambeiros, além do abençoado pé de limão galego, que floresce toda a vida, o ano inteiro, até morrer. É o salvador dos doentes. De lado fica a horta, misto de campo e de conservação de plantas medicinais. Ali estão em confusão o cravo de defunto, o coentro, a erva-cidreira, o cravo-chita, e outros cravos, a hortelã. O cravo é a flor predileta do caipira, figurando sempre na sua poesia

    II – O CAIPIRA CABOCLO(6)

    Caipiras caboclos são os descendentes diretos dos bugres catequizados pelos primeiros povoadores do sertão. Se o caipira branco diz: "eu sou da família Amaral(7), Arruda, Pires, Ferraz, Almeida, Vaz, Barros, Lopes de Souza, Botelho, Toledo", ou outra, dizem os caboclos: "eu sou da raça" de tal gente...

    Estes caipiras quase nunca têm os lóbulos das orelhas, ou estes são completamente pegados.

    Inteligentes e preguiçosos, velhacos e mantosos, barganhadores como ciganos, desleixados, sujos e esmulambados, dão tudo por um encosto de mumbava ou de capanga; são valentes, brigadores e ladrões de cavalos...

    São uns poáias quando dão para pilintras, e então, deixam a preguiça de lado e a vaidade presta o seu serviço, tornando-os trabalhadores. Neste caso, o chá é mandar chumbar um dente a ouro e pôr uma coroa na frente. Freqüentam os arredores das cidades. São valentes e ágeis, ligeiros como lambaris, arreganhando as magníficas e alvas dentaduras fazem um banzé-de-cuia(8) de uma hora para outra por causa de uma catirina, pois são mulhereiros e dados a galantes, com o seu andar gingado, bamboleante e gamenho. Estes "almofadinhas" caboclos, são raros, mas existem por todo o interior do Estado.

    Geralmente os caipiras caboclos são madraços. Arranjando um cantinho no sítio do branco, ou numa fazenda, lá ficam munbaveando, tolerados pelos patrões... aos quais não prestam serviço.

    Sua vida é caçar (com aviamentos arranjados aqui e ali à custa de pedinchices), pescar, dormir, fumar, beber pinga e tocar viola, enquanto a mulher, guedelhuda e imunda, vai pelos vizinhos, pidonha e descarada, filar dos bons trabalhadores o feijão, o toicinho, o açucre, o café, a farinha e... um manojo de couve. Os vizinhos dos caboclos só matam porco a tiro e sangram depois de morto, pois se o animal grita sob a faca esse é o dia das visitas...

    Quando são muito trabalhadores, os caboclos se satisfazem com qualquer coisa: uns pé de couve, uma rocinha de mandioca, três pés de cebola de cheiro, batatas, abóboras e ... a serralha dá por si...

    São marotos. Criam os filhos ao Deus-dará.

    O traje do caboclo é repelente. Sua casa é imunda, de paredes esburacadas, coberta de sapé velhíssimo e podre, afogada pelos vegetais daninhos que lhe invadem o terreiro e vêm até a porta do quintal, trepando a "unha-de-gato" pelas paredes até a cumieira, de sociedade com o melão de S. Caetano. A miséria envolve-lhe o lar. Cadelas magras e sarnentas a se coçar ao sol, cheias de bernes, completam o quadro, pois aqui nem o gato do caipira se encontra: tal casa não comporta ratos; se não há o que roer...

    O caboclo...

    Ei-lo de cocre à margem suja do ribeirão (não tem coragem de passar uma foice no pesqueiro) com sua vara-de-anzol quebrada e encanada com embira... O bambuzal fica perto, mas o caboclo não tem tempo para ir cortar uma vara nova. Descalço, pés chatos, e esparramados, dedos cabeçudos, longos, em garra, fincados no chão: uma das pernas da calça arregaçada, outra a tombar; botões mal tapados pela vista da calça; uma cinta de correia de couro cru, estreita, de fivela esconsa; metade das fraudas para fora das calças vendendo farinha. Pela aberta da camisa, na ilhaga, de quando em vez, enfia a mão de unhas curvas, longas e sujas e se coça pela costela num gozo infindo... A camisa aberta ao peito, sem botão, deixa ver os rosários de contas de capim, os bentinhos, um dente de porco ou de jacaré, e um patuá, que é um saquinho fechado de pano encebado, brilhante de sujice e de suor. Esse saquinho, envolve uma oração e uma pedra do Bom Jesus de Pirapora. A oração serve para fechar o corpo contra balas e as coisa-feito. A tiracolo tem o caboclo um saquitel com fumo, palha, isqueiro de taquara com tampo de cuia, pedra de fogo e um pedaço de lima à guisa de fuzil.

    Além de sujo, é roto. A mulher não lhe remenda a roupa e ele deixa ficar. A sua cabeleira emaranhada parece uma touceira de capim barba-de-bode, um enxu(9) ou ninho de corruíra d’água ; quando vem do mato traz a cabelama cheias de ciscos e pauzinhos secos. O seu chapéu de palha de piaçaba, afunilado, que já foi branco, hoje está envernizado, com uma cor indefinível, brilha e fede. Tem as abas caídas e comidas de barata.

    Pobre caboclo... Creio que nunca tomou banho...

    Coitado do meu patrício! Apesar dos governos os outros caipiras se vão endireitando à custa do próprio esforço, ignorantes de noções de higiene... Só ele, o caboclo, ficou mumbava, sujo e ruim! Ele não tem culpa... Ele nada sabe.

    Mas, graças a Deus parece que esse tipo vai desaparecer.

    Foi um desses indivíduos que Monteiro Lobato estudou, criando o Jeca Tatu, erradamente dado como representante do caipira em geral.

    Ainda não estão perdidos os caipiras caboclos. Para salvá-los bastam duas coisas tomadas a sério: a escola e a obrigatoriedade do ensino... mas de verdade.

    III O CAIPIRA PRETO(10)

    Caipiras pretos são os descendentes dos africanos já desaparecidos do Brasil

    São os bons brasileiros vítimas ainda das últimas influências da escravidão.

    Almas caridosas e pacientes, generosas e humildes são os "negros velhos".

    Vede-os ali, "conversando ao pé-do-fogo", ou sentados numa pedra, no terreiro, ou na soleira de uma porta se aquecendo ao sol... Também estão rotos e esfarrapados... Pobres depois de terem, com seu suor, inundado as fazendas de brasileiros patrícios seus – de canaviais, algodoais e cafezais, enchendo-os de dinheiro, desse ouro abundante e bom!

    Que é o negro velho?

    Um farrapo de gente...é um bagaço da vida. É um hospital de doenças. Tem os pés inchados e rachados pelas frieiras, pelos espinhos, pela erisipela, pela elefantíase... O seu peito ronca e ringe cheio de asma!

    E ele, o pobre negro velho, nos sorri, contando histórias de outros tempos, humilde, cabisbaixo, sem gestos, ou só gesticulando de quando em quando, tentando estender a mão "engruvinhada", de dedos encroados, entravada pelo reumatismo, mão com que tenta mostrar o porte de uma criança ou apontar o quartel de cana ou o talhão de "café-velho", para além, muito além onde ele conheceu a mata-virgem e ouviu o estrondar dos jequitibás nas derribadas; onde ele viu erguer-se a lavoura nova do "sinhô" e onde amou a sua "crioula"... Essa crioula hoje é a "negra-velha", a mãe-preta" a "mamã" que tem qualquer coisa de Santa naqueles olhos bondosos, naqueles cabelos tão brancos! Ela é a miséria aliada à bondade; é a tristeza e o caminho; é o amor e a boa conselheira dos filhos daqueles que a torturaram explorando-lhe o trabalho.

    Pobres negros velhos! Nas grandes cidades, disputam aos cães, pela madrugada os restos das latas de lixo! Não podem pedir esmolas, eles, que só viveram para o trabalho... Não podem: a polícia não deixa: - são nacionais...

    Felizmente os filhos dos "Negros-velhos" reagiram! São hoje o melhor braço da nossa lavoura e dos serviços de "estiva" no litoral.

    Vejamos o "caipira-preto" novo.

    Sua casa é quase sempre limpa; é coberta de sapé, mas é cercado de lavoura: tem sua plantação de cana, um pouco de café, e cereais: tem um "punhado"de santos no terreiro, em mastros: S. João, Santo Antônio, São Benedito. Ele é religioso e pena é que a aguardente, a "cachaça" o arraste para a tuberculose. A sua engenhoca, é tocada a pulso; ele é forte. Um cachorro "jaguapoca", pouco maior que um "jaguapeva" ronda sempre as capoeiras, assombrando tatus e defendendo as galinhas, dos "bichos do mato".

    Tem a sua horta e as suas frutas. Respira-se um grande bem-estar no seu "sitiéco".

    É trabalhador e não se deixa pisar pelos brancos – que muito estima e respeita – mas, por "qualquer-cousa" responde logo: - "Sinhô me descurpe... mais tempo de escravo já cabô!"

    Aos domingos, chibante e limpo, aparece na cidade com as pretas pimponas e risonhas, mostrando lindas e magníficas dentaduras alvas num riso franco e feliz. E as pretas garbosas e nadegudas como "içás" passeiam suas saias de chita, engomadas, sob paletós brancos de babados e golas enfeitadas de renda e entremeios vermelhos ou azuis, fazendo visitas e comprando "quitandas" nos tabuleiros à porta da igreja matriz.

    Se os caipiras brancos são patriotas, os pretos suplantam-nos com grande vantagem. Sentem-se orgulhosos do nome do Brasil. Quantas páginas brilhantes foram escritas na nossa história pelo brasileiro-negro!

    O novo caipira-preto é cavalheiresco e gentil. Em contato com o italiano, tendo, em compensação a estranha simpatia da italiana

    É batuqueiro, sambador, e "bate" dez léguas a pé para cantar um desafio num fandango ou "chacuaiá"o corpo num baile da roça.

    IV - O CAIPIRA MULATO

    Oriundos da cruzamento de africanos ou brasileiros pretos com portugueses, e brasileiros brancos, raramente com o caboclo, o caipira-mulato é o mais vigoroso, altivo, o mais independente e o mais patriota dos brasileiros. Ele é bem o brasileiro que sabe amar o Brasil acima da própria família.

    Lutando contra a prevenção do branco e fugindo, repelindo o preto, ficou numa situação especial e por isso procura sempre e sempre se elevar e se distinguir pelas suas ações.

    Quando dá para pachola e falante... deixemo-lo.

    Excessivamente cortês e galanteador para com as senhoras, nunca é humilde ante o patrão. Grande apreciador de sambas e bailes, não se mistura com o preto, tratando-o com certa superioridade mas com carinho. As suas mães, pretas, tratam-no com tanto mimo, com tanto carinho, por serem claros, que eles se tornam um tanto desprezadores de seus genitores maternos.

    Nem sempre são proprietários.

    Fiéis, são os bons-empregados, os bons boleeiros, os bons copeiros, os bons camaradas, os ótimos fatotum dos ricos... enquanto não forem tratados com desprezo.

    Aparece agora no nosso Estado um novo tipo de caipira mulato, robusto e talentoso, destacando-se nos grandes centros, tratável e simpático: é o mestiço do italiano com a mulata ou do preto tão estimado por algumas italianas( 11).

    1- Trechos do livro "Conversas ao ‘Pé-do-Fogo" editado pela OTTONI Editora em 2002. A primeira edição desta obra deu-se em 1921.

    2- Cafuz é resultado do cruzamento do negro com o índio, o cafuzo.

    3- Caboré, salvo outras eventuais significações, refere-se ao nordestino. O termo remete à figura de um tipo de coruja de cabeça chata. Daí a expressão pejorativa e discriminatória de "cabeça-chata", referente ao nordestino.

    4- Aqui, "estrangeiros" refere-se aos colonos imigrantes vindos de vários países para o Brasil, principalmente no final do século XIX e início do século XX. Cornélio Pires revela a discriminação entre os trabalhadores nacionais e os estrangeiros.

    5- Diferentemente do conceito de que "caipira" é necessariamente o homem do campo, Cornélio Pires faz referências ao "caipira da cidade". Já Antônio Cândido em "Os Parceiros do Rio Bonito" diz que seu estudo limitava-se apenas ao "caipira paulista", cabendo aqui então uma indagação: caipira é um estado da alma, um estilo de vida, uma estética peculiar, uma cultura?

    6- Não estranhem os leitores a forma contundente com que o caboclo é apresentado aqui. A expressão "caboclo" como conhecida de forma tão romântica nos dias de hoje, esconde uma origem bem diferente. Cornélio Pires deixa bem claro que a esta categoria de caipira pertence os descendentes de indígenas. Pouco dados ao trabalho, pelo menos ao estruturado pela lógica da acumulação de bens e capital, os caboclos, como seus ancestrais preocupavam-se tão somente com a caça, pesca e coleta, indicando a forte presença cultural dos nossos indígenas. Perambulando pelas fazendas, e depois pelas cidades, lá se vai o caboclo carregando apenas as reminiscência de sua cultura original. Cornélio Pires analisa-os pela ótica do "civilizado", assim como Monteiro Lobato faz com seu Jeca Tatu, personagem caipira que representa justamente este "caboclo" avesso à correria e desligado dos problemas da "civilização". Vamos encontrar um pouco de tais características também em grande parte dos filmes do inesquecível Mazzarope.

    7- A título de curiosidade, segundo consta, Cornélio Pires era primo de Amadeu Amaral, autor de "O dialeto Caipira" e muito provavelmente também da família da pintora Tarsila do Amaral, pelas ligações que teve com o primeiro e com a cidade de Capivari no Estado de São Paulo.

    8- Banzé-de-cuia: encrenca, confusão.

    9- Enxu: colmeia da abelha conhecida popularmente como arapuá.

    10- Cornélio Pires foi apaixonado pela cultura negra. Seu livro "Conversas ao ‘Pé-do-Fogo" revela bem esta afirmativa. Não estranhe, portanto, o leitor, seu tom romântico, ainda que melancólico, quando se refere ao negro.

    11- Como se pode notar, Cornélio Pires já aponta, por volta de 1920 uma significativa miscigenação do negro com o branco italiano, originando o "novo tipo de mulato", fenômeno anteriormente ligado ao português.


    postado por 74574 as 11:10:27 # 0 comentários
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    postado por 74574 as 09:40:44 # 7 comentários
     
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