No século XIX, com a dimensão da neurofisiologia, começa a se desenvolver novos estudos sobre o corpo, levando em consideração a possibilidade de identificar transtornos graves sem que pudesse ser constatada uma lesão cerebral localizada (1861 - Broca descobre a lesão localizada da afasia - ausência de fala).
Em 1906, Sherrington referiu a ação integradora do sistema nervoso, de seu papel na regulação das condutas de um organismo em interação com o meio. Todo movimento tem um significado biológico. A medula espinhal é reconhecida como capaz de analisar os estímulos e responder a eles de modo adaptado.
Em 1909, Dupré (neurologista francês) rompe com os pressupostos da correspondência entre localização neurológica e as perturbações motoras da infância. Esse momento torna-se um marco na história da psicomotricidade.
Dupré descreveu a síndrome da debilidade motora através de um conjunto de distúrbios relacionados à motricidade: tiques, cincinesias e paratonias.
- debilidade motora é diferente de debilidade mental;
- "um sujeito pode ser torpe sem ser idiota";
- psico da psicomotricidade ganha sua origem.
Em 1925, Henri Wallon relaciona o movimento com a construção psíquica. Relaciona afeto, emoções, meio ambiente como fatores influenciadores no movimento, sendo esse outro marco importante para a psicomotricidade.
Em 1935, Edouard Guilmain determina um novo método de trabalho - a reeducação psicomotora, baseada na psiquiatria infantil e nos estudos de Wallon. Ele cria um manual de reeducação, com exercícios para a atividade tônica e postural, o controle motor e o exame psicomotor (coordenação, ritmo, equilíbrio, etc).
Em 1947, Ajurriaguerra faz referência aos transtornos psicomotores como oscilantes entre o campo da neurologia e da psiquiatria. Com isso, o objetivo da terapia psicomotora seria modificar o tônus de base e influir na habilidade, na posição e na rapidez do corpo (estruturação espaço-temporal), bem como organizar o sistema corporal no seu conjunto, levando em consideração as aferências emocionais.
Em 1960, Jean Piaget coloca a idéia de corpo como um instrumento da inteligência. Permite, assim, desenvolver uma técnica, que parte da vivência sensório-motora, para chegar progressivamente à percepção e à conceituação (estruturação espaço-temporal).
Em 1970, Jean Bergés coloca que o corpo e suas desordens tem a ver com a relação eu-outro.
Em 1975 começa a existir uma mudança na visão do campo psicomotor com as contribuições de Lydia Coriat, Alfredo Jerusalinsky, Jean Bergés, Samí Alí. A psicomotricidade é centrada na visão do corpo de um sujeito desejante.
1. CAMPO DA MEDICINA
- Anamnese como acúmulo de dados. Avaliações quantitativas (testes, provas) no sentido de medir o transtorno: medir déficit, quantificar porcentagem, idade cronológica.
- Se ocupa do transtorno instrumental mais do que do sujeito.
- Procura normalizar, o mais próximo a uma média ideal, o funcionamento do transtorno.
- Métodos, técnicas e procedimentos na tentativa de apagar o transtorno e normatizar a criança. Métodos reeducativos que utilizam sequência de atividades a serem rigorosamente aplicadas, com o objetivo de reparação.
- Determina uma maneira de avaliar colocando um valor e levando em conta os dados cronológicos de desenvolvimento. Não escuta nas entrelinhas de como os pais chegam a esse atendimento (não escuta a novela).
- A direção da cura está pré-determinada, ao invés de ser vista como uma construção que norteia a intervenção do terapeuta.
- O terapeuta ocupa o lugar de saber efetivo - ele é quem sabe o que e como fazer.
- Os pais não estão implicados no trabalho - eles vão ao atendimento com o objetivo de que o terapeuta lhe devolva a criança curada, resolvida enquanto a sua patologia.
- Várias intervenções/terapias com a intenção de compensar a falha.
2. CAMPO DA PSICOLOGIA (ANOS 60)
- Tira a criança de uma passividade e começa a se falar do afetivo, do emocional, da motivação, do vínculo.
- Havia algo que se antecipava com a teoria de Piaget - a criança era o construtor ativo do conhecimento.
- Do ponto de vista do psicomotor, se fala da globalidade do corpo e da importância da expressão desse corpo.
- O brincar a serviço do terapeuta.
- Lugar do saber no lugar do terapeuta.
- Final dos anos 70, há o início do conceito de interdisciplina - entrecruzamentos no discurso das diversas disciplinas em torno de uma criança com transtorno. Começa a possibilidade de escutar o discurso do outro terapeuta, ou seja, de cada um desponibilizar a sua especificidade e escutar o saber do outro, até para saber o momento de sair de cena.
3. CAMPO DA PSICANÁLISE
- Abre conceitos sobre o sujeito - história - outro - desejo.
- O corpo é um receptáculo e reage ao olhar do Outro - o olho levanta a criança e a sustenta no eixo - o olho muda do ponto de vista tônico.
- O sintoma/transtorno é algo que diz e algo que oculta. assim, a anamnese não é um acúmulo de dados, mas uma escuta da novela.
- É na escuta da novela que ocorre o desdobramento da demanda - os pais se sentem implicados no transtorno da criança.
- O lugar do terapeuta não é aquele de permanente saber. Ele às vezespontua e ensina, mas outras vezes se retira para que o sujeito diga na cena.
- O brincar é espontâneo porque há algo da lógica do consciente e algo da lógica do inconsciente - nesse momento, o inconsciente fala.
- Na direção da cura não há promessa pois não sabemos por antecipação o que vai acontecer. Na sessão, o terapeuta deve estar atento para a demanda da criança - esperar e acompanhar para que a construção tenha o percurso dado pela criança.
- É muito mais do que a cura de uma patologia, mas um sujeito que está se estruturando.
"A Psicomotricidade é a ciência que tem por objeto o estudo do homem, através do seu corpo em movimento, nas relações com o mundo interno e externo, bem como suas possibilidades de perceber, atuar, agir com o outro, com os objetos e consigo mesmo. Está relacionada ao processo de maturação, onde o corpo é a origem das aquisições cognitivas, afetivas e orgâicas". (Sociedade Brasileira de Psicomotricidade)
O movimento é organizado e integrado de acordo com as experiências vividas pelo sujeito, que são consequência da sua individualidade, linguagem e socialização.
O psicomotricista é o profissional da área de saúde e educação que pesquisa, ajuda, previne e cuida do homem na aquisição, no desenvolvimento e nos distúrbios da integração somatopsíquica. Atua nas áreas da Educação, Clínica (reeducação, terapia), Consultoria e Supervisão.
Clientela atendida pelo psicomotricista:
- crianças em fase de desenvolvimento;
- crianças, adolescentes e adultos com dificuldade de aprendizagem, distúrbios relacionais, do comportamento (hiperatividade, por exemplo);
- portadores de necessidades especiais - desoganização emocional, afetiva, motora que se situam, também, no corporal e que acabam por refletir-se na ação do sujeito, nas suas relações consigo e com os outros;
- 3ª idade.
Locais de atuação:
- creches, escolas;
- clínicas interdisciplinares;
- consultórios;
- hospitais;
- empresas.