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sábado, 09 fevereiro, 2008
Na batida do surdo

Era a primeira vez que Roberto iria cobrir o Carnaval para o jornal. Ficou perto do palanque, seguindo orientação do editor. “Ali no palanque o pessoal capricha, saem fotos bem melhores”.

Na primeira escola que passou, o que mais chamou a atenção de Roberto foi uma bela morena, com uma minúscula fantasia, majestosa em cima de um carro alegórico. Não poupou a câmera, lembrando do editor: “Carnaval é imagem. Quero muitas fotos”. Tirou centenas de fotos da morena. O resto da escola não aparecerá na reportagem.

A segunda escola acordou Roberto para sua função, e ele passou a documentar todos os detalhes do desfile. Quando a terceira escola passava diante do palanque ele sentiu seu coração acelerar. Era a morena, agora com uma camiseta da escola cobrindo a fantasia, que estava no meio do público, assistindo ao desfile.

Fingindo estar fotografando a platéia, Roberto aproximou-se de onde ela estava. Ele do lado de dentro da avenida, ela segurando a corda que limitava o espaço para o público. Após mais uma foto, perguntou: “Tu desfilou na primeira escola, né?”. Ela deu um meio-sorriso e concordou, balançando a cabeça. Quando Roberto pensou em dar andamento à conversa, foi sufocado pelo som da bateria da escola que passava. Ao lado dele, as pancadas no surdo de marcação lhe atingiam o cérebro com a mesma intensidade com que o enorme ritmista lhe aplicava os golpes. Não conseguiu continuar a conversa. A escola recém havia passado quando uma gritaria, próxima à dispersão, chamou a atenção de Roberto.

 

Uma briga generalizada tomava conta da avenida. Roberto chegou fotografando tudo. “Agora sim, notícia de verdade”, vibrava, disparando o botão da câmera. A polícia chegou e logo controlou a situação, não sem fazer vibrar os cacetetes. Alguns sorteados foram colocados dentro das viaturas – entre eles o enorme ritmista que levava o surdo de marcação – e rumaram todos para a delegacia, inclusive Roberto, que se esqueceu do desfile de carnaval.

Na delegacia, os brigões da avenida foram reunidos com outros, que haviam sido presos em bares e salões da cidade. Aos poucos iam prestando depoimento. Conforme o humor do delegado, alguns eram liberados, outros eram mantidos no local “em nome da ordem pública”.

Roberto resolveu sair até a porta para respirar ar puro. Quando olhou para o lado, ele sentiu seu coração acelerar, exatamente do mesmo jeito de quando vira a morena no desfile. Pois era exatamente ela que descia de um carro e entrava na delegacia.

O repórter correu atrás – fotografando – e, sob pretexto de entrevistar, perguntou à morena: “Você se envolveu na briga?”. Recebeu um rápido olhar frio de volta. A morena passou por ele como quem passa por um manequim de loja e abraçou-se a um homem. Roberto respirou fundo. “O sonho acabou”, pensava, sem coragem para fotografar a morena abraçada ao enorme ritmista que, na avenida, golpeava o surdo de marcação.

Roberto saiu da delegacia ruminando sua desilusão, quando de repente lembrou-se de consultar o relógio. Meia-noite! Saiu correndo para a redação. Não teve muita inspiração para a matéria, apenas colocou uma observação para o diagramador: “foto da morena em destaque”.

No outro dia tentou descansar. Não conseguiu. A imagem da morena não lhe saia da cabeça. No meio da tarde foi para a redação. Negociou com o editor para não fazer a segunda noite de desfiles. Preferia fazer a polícia. “Nestas noites as delegacias ficam cheias”, argumentou.

Satisfeito por não ter que ir para a avenida, resolveu fazer um lanche na padaria próxima à redação. Pediu uma meia-taça com leite e um sonho. “Sonho não tem mais”, respondeu o balconista. “Eu já desconfiava. Me dê um pedaço de torta de creme, então”.

Enquanto esperava chegar o pedido, percebeu uma sombra ao seu lado, e uma voz feminina, familiar, perguntando: “Roberto Arruda?”. Virou-se para responder e deu de cara com a morena.

O barulho da rua cessou. O vento parou. Os passarinhos, que cantavam no final de tarde, calaram-se. Os fregueses da padaria já não provocavam burburinho. Roberto não saberia dizer se ficou com cara de palerma olhando para a morena por dois segundos ou trinta horas. Apenas, quando recuperou-se, disse: “Eu”.

“Olha, eu queria agradecer a matéria sobre a escola. A minha foto ficou muito bonita. Obrigada mesmo!”, dizia ela. O repórter tentou responder,”imagina!”. Ela continuou. “Desculpe, mas eu fui grossa contigo na delegacia. É que eu tava preocupado com o meu irmão. Ele entrou na confusão sem querer”. Roberto sentiu um estranho calor subindo pelo pescoço. “Ir-mão?”. Ela abriu o sorriso mais lindo que Roberto já vira. “É, o cara do..” . Ele a interrompeu, de olhos arregalados. “Aquele ritmista enorme que espancava o surdo de marcação...é teu irmão?”.

“É! Ele mesmo! Escuta, espero que tu faça a cobertura do desfile das campeãs, sábado. A gente podia conversar depois. O que tu acha?”

O repórter não respondeu. Apenas sorriu com o canto dos pássaros, com o burburinho dos fregueses da padaria, com o barulho dos carros na rua, com o som do vento. Nenhuma manifestação humana ou da natureza, naquele momento, afetaria Roberto. Nem o baque forte de um surdo de marcação.

Uma briga generalizada tomava conta da avenida. Roberto chegou fotografando tudo. “Agora sim, notícia de verdade”, vibrava, disparando o botão da câmera. A polícia chegou e logo controlou a situação, não sem fazer vibrar os cacetetes. Alguns sorteados foram colocados dentro das viaturas – entre eles o enorme ritmista que levava o surdo de marcação – e rumaram todos para a delegacia, inclusive Roberto, que se esqueceu do desfile de carnaval.

Na delegacia, os brigões da avenida foram reunidos com outros, que haviam sido presos em bares e salões da cidade. Aos poucos iam prestando depoimento. Conforme o humor do delegado, alguns eram liberados, outros eram mantidos no local “em nome da ordem pública”.

Roberto resolveu sair até a porta para respirar ar puro. Quando olhou para o lado, ele sentiu seu coração acelerar, exatamente do mesmo jeito de quando vira a morena no desfile. Pois era exatamente ela que descia de um carro e entrava na delegacia.

O repórter correu atrás – fotografando – e, sob pretexto de entrevistar, perguntou à morena: “Você se envolveu na briga?”. Recebeu um rápido olhar frio de volta. A morena passou por ele como quem passa por um manequim de loja e abraçou-se a um homem. Roberto respirou fundo. “O sonho acabou”, pensava, sem coragem para fotografar a morena abraçada ao enorme ritmista que, na avenida, golpeava o surdo de marcação.

Roberto saiu da delegacia ruminando sua desilusão, quando de repente lembrou-se de consultar o relógio. Meia-noite! Saiu correndo para a redação. Não teve muita inspiração para a matéria, apenas colocou uma observação para o diagramador: “foto da morena em destaque”.

No outro dia tentou descansar. Não conseguiu. A imagem da morena não lhe saia da cabeça. No meio da tarde foi para a redação. Negociou com o editor para não fazer a segunda noite de desfiles. Preferia fazer a polícia. “Nestas noites as delegacias ficam cheias”, argumentou.

Satisfeito por não ter que ir para a avenida, resolveu fazer um lanche na padaria próxima à redação. Pediu uma meia-taça com leite e um sonho. “Sonho não tem mais”, respondeu o balconista. “Eu já desconfiava. Me dê um pedaço de torta de creme, então”.

Enquanto esperava chegar o pedido, percebeu uma sombra ao seu lado, e uma voz feminina, familiar, perguntando: “Roberto Arruda?”. Virou-se para responder e deu de cara com a morena.

O barulho da rua cessou. O vento parou. Os passarinhos, que cantavam no final de tarde, calaram-se. Os fregueses da padaria já não provocavam burburinho. Roberto não saberia dizer se ficou com cara de palerma olhando para a morena por dois segundos ou trinta horas. Apenas, quando recuperou-se, disse: “Eu”.

“Olha, eu queria agradecer a matéria sobre a escola. A minha foto ficou muito bonita. Obrigada mesmo!”, dizia ela. O repórter tentou responder,”imagina!”. Ela continuou. “Desculpe, mas eu fui grossa contigo na delegacia. É que eu tava preocupado com o meu irmão. Ele entrou na confusão sem querer”. Roberto sentiu um estranho calor subindo pelo pescoço. “Ir-mão?”. Ela abriu o sorriso mais lindo que Roberto já vira. “É, o cara do..” . Ele a interrompeu, de olhos arregalados. “Aquele ritmista enorme que espancava o surdo de marcação...é teu irmão?”.

“É! Ele mesmo! Escuta, espero que tu faça a cobertura do desfile das campeãs, sábado. A gente podia conversar depois. O que tu acha?”

O repórter não respondeu. Apenas sorriu com o canto dos pássaros, com o burburinho dos fregueses da padaria, com o barulho dos carros na rua, com o som do vento. Nenhuma manifestação humana ou da natureza, naquele momento, afetaria Roberto. Nem o baque forte de um surdo de marcação.



postado por 87801 as 02:38:45
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