seixos da poesia
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quarta, 16 janeiro, 2008
CHUVAS DE PENSAMENTO

      CHUVAS DE PENSAMENTO

 

 

 

 

  Ouvi o fragor das gotas d’agua caídas ontem, lá fora;

    mas, fugazes, elas tão-somente se mostraram...

    como também a sua ressonância.

  Peremptoriamente, aliás, como o é a via temporal de uma bala:

    sim, porque, ao sair da ígnea arma,

    em poucos momentos, transmuda uma lépida potência de luz

    numa vida irremediavelmente ceifada.

 

 

  Ah, também eu sei

     que na minha mente chove.

  No entanto, não são gamas de efêmero H2O  cadente;

    infelizmente, na realidade, vertem-se dilúvios de epígrafes                                                             

                                        ácidos:

    os quais nem remotamente lembram o olor da transitoriedade.

 Creia-me: é muito ao contrário. A bem da verdade,

                                     na mentosfera,

   eles se formam; se condensam;  deixam-se ficar; expandem-se e  

                                     Se reverberam!

 Sempre num vôo-passo fleumaticamente contínuo. Continua-

   mente inercial. Inercialmente reto.

 

 

  Sim, eu tomo essa híbrida espécie de chuva

    por fluxos de diária reflexão

    que me levam bem ulteriormente a mim;

    e, ao mesmo tempo, inimaginavelmente

                 próximo: próximo das chagas.

  Contemplando as chagas: próximo o bastante para

                                       contemplá-las.

  Sentindo as chagas: próximo o bastante para

                                       senti-las.

  Incorporando as chagas: próximo o bastante para

                                        incorporá-las.

  Então, finalmente, sendo as chagas: a se apossar da sua matéria;

                                       e, enfim, ei-las... eis que sou elas!

 

 

  Não, não posso contemplá-las...

  Não, não posso senti-las...

  Não, não posso incorporá-las...

  Não, não sou a matéria...

  Não, não sou a chaga.

 

 

  Ah, pena que não possa nada...

  Ah, pena que uma coisa só fazer possa...

  Ah, pena poder apenas empunhar a pena pra exarar

                                                                                    E mais nada.

  Sim, que porra não poder conter a chuva... Não estancar a cruel

                                     enxurrada.

  Não poder acabar com o padecimento causado pelas mazelas.

  Não cicatrizar as dolorosas chagas!

                                                    Ah, e esta chuva que não passa...

 

JESSÉ BARBOSA DE  OLIVEIRA

 

 

 

         

 

 

 

 

 

 


postado por 86135 as 01:19:06 #
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