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domingo, 01 junho, 2008
Visita da SEPARN Brejo da Madre de Deus, Pernambuco.


Visita da SEPARN Brejo da Madre de Deus, Pernambuco.

       Ente os dias 8 e 11 de janeiro de 2005 a SEPARN – Sociedade para Pesquisa, Desenvolvimento Sustentável, Cultural e Histórico do Rio Grande do Norte, realizou sua primeira viagem de pesquisa espeleológica a outro estado do Nordeste, no caso Pernambuco, mais precisamente a cidade de Brejo da Madre de Deus, onde o objetivo foi conhecer a denominada “Trilha das Cavernas” e cadastrar as cavidades naturais mais importantes do município. Esta trilha é parte do esforço da Secretaria de Turismo da cidade de criar uma nova alternativa para aqueles que visitam a região, com a utilização do potencial natural que lá se encontra.

      Esta empreitada teve a participação dos espeleólogos Rostand Medeiros, Ricardo Sávio e Jeová França, onde a SEPARN teve o convite formulado pela prefeitura através do Secretário de Turismo local, João Carlos de Oliveira (Calí) de quem tivemos todo o apoio necessário para a realização deste cadastramento e reconhecimento.

     Sobre a Cidade de Brejo da Madre de Deus e Seus Principais Atrativos

       Sua localização é na chamada Mesorregião do Agreste Pernambucano, inserido na Microrregião do Vale do Ipojuca, com acesso através das BR-232, BR-104 e PE-145, estando 200 km da capital. Com uma área de 782,6 km², sua população estimada em 2004 era de 41 651 habitantes, a temperatura média na região é de 25 o C., estando a uma altitude de 627 metros.

Em 1751, padres congregados de São Felipe Néri fundaram um hospício, as margens de um riacho localizado em um vale úmido, formado pelas serras da Prata, do Estrago e do Amaro, também chamada de serra do Ponto. No Nordeste, estes vales úmidos são normalmente denominados “brejos”. Alguns anos depois (1759/1760), os oratorianos, junto com a pequena população que iniciava o arraial, construíram uma capela sob a invocação de São José. A povoação do Brejo da Madre de Deus foi elevada à categoria de vila em 20 de maio de 1853, constituindo-se em sede de município em 20 de junho de 1893, desmembrada do Município de Cimbres, sendo o seu primeiro prefeito o Barão de Buíque, Francisco Alves Cavalcanti Camboim.

Uma lembrança do período colonial se encontra na preservação do casario colonial, com suas fachadas em azulejos portugueses do final do século XVIII e início do século XIX e suas pinhas em louça. Igualmente preservada temos a matriz de São José, edificada em homenagem ao padroeiro da cidade e concluída em 1792, junto com a Matriz de Nossa Senhora do Bom Conselho.

Na cidade encontra-se um bem montado museu, localizado em um sobrado construído no século XIX, com suas paredes externas revestidas em azulejos portugueses, abrigando peças pessoais de personagens da história do Brejo da Madre de Deus, além de restos mortais de nossos antepassados, com aproximadamente dois mil anos e ainda fósseis de animais pré-históricos que habitaram a região há aproximadamente onze mil anos.

Administrativamente, o município é formado pelos distritos: Sede e Fazenda Nova e pelos povoados: Barra do Farias, Caldeirões, Logradouro, Mandacaia, São Domingos e Fazenda Velha.

Entre estes distritos se destaca o de Fazenda Nova, a 20 km da sede, onde se localiza a cidade teatro de Nova Jerusalém, que é uma réplica da Jerusalém original. Anualmente, durante o período da Semana Santa, acontece o espetáculo da Paixão de Cristo, que atrai todos os anos 200 mil turistas ao Município. Outro atrativo de Fazenda Nova é o parque das esculturas monumentais Nilo Coelho, com suas peças em pedra granito medindo aproximadamente 3 metros de altura, retratando figuras do folclore.

Além das cavernas, entre outras atrações naturais podemos citar a Pedra do Cachorro, situada no vértice dos Municípios de São Caetano, Tacaimbó e Brejo, com aproximadamente 800 metros de altitude em relação ao nível do mar, é um ótimo local para visitação dos que gostam do turismo de aventura, como trekking, asa delta e rapel. No sítio Quatis, encontramos a Pedra da Caiana, uma imensa formação rochosa, própria para saltos de asa-delta e igualmente interessante para a prática de esportes radicais, além do belíssimo visual da paisagem. A Serra da Prata, com seus 936 metros de altitude em relação ao nível do mar, proporciona um belíssimo visual do seu mirante, além de uma temperatura muito agradável. As cachoeiras de Sobradinho e Juá são também belíssimos locais de visitação, principalmente no período chuvoso, quando o volume de água aumenta sensivelmente.

A Reserva Florestal da Mata do Bitury é uma reserva florestal de aproximadamente 200 hectares, transformada em R.P.P.N. - Reserva Particular de Proteção da Natureza, sendo a 2ª unidade de conservação deste tipo criada no Estado de Pernambuco. Está situada a 1050 metros de altitude em relação ao nível do mar, com árvores centenárias e de grande porte, chegando algumas delas a 40 metros de altura. Na mata também se encontram córregos perenes e um antigo engenho de cana de açúcar construído no século XIX, pela mão de obra escrava e com sua Casa Grande em perfeito estado de conservação.

Outra atração é a Serra do Ponto, com seus 1195 metros de altitude, em relação ao nível do mar, além do visual belíssimo, da paisagem deslumbrante, é um ótimo passeio ecológico e cultural, visitando plantações de morango, café, diversos tipos de frutas tropicais e muito em breve flores, passando por quedas d'água como a do Estrago e do Amaro (no inverno); ao chegar ao topo, encontramos a Torre de Pedra, construção rústica de pedras superpostas, sem utilização de argamassa, em forma piramidal, muito visitada por místicos que afirmam que o local é mágico e que tem uma energia fora do comum, além dos que atestam que já viram do local muitos "OVNI's". Construída em 1843 pelo engenheiro e arquiteto francês Luiz de Vautier, como parte dos trabalhos preparatórios para o levantamento do primeiro mapa do Estado de Pernambuco; a pirâmide tem na sua base os quatro pontos cardeais e contam os mais velhos que servia de orientação para os nômades que seguiam da capital para o interior da província de Pernambuco, acompanhando o leito do rio Capibaribe, visto que na época não havia estradas e o percurso neste sentido se fazia seguindo o leito dos rios.

Sobre Louis Léger Vauthier, ele foi um engenheiro e político francês, nasceu em Bergerac, no ano de 1815. Veio para o Brasil, em 1839, juntamente com outros engenheiros, matemáticos, construtores de pontes, edifícios públicos, obras hidráulicas e topográficas, trazidos pelo presidente da província de Pernambuco, Francisco do Rego Barros, o Conde da Boa Vista. Foi o responsável pelo projeto do Teatro de Santa Isabel e pela construção e reconstrução de vários edifícios e estradas. Vauthier escreveu um diário que foi publicado com o título “Diário íntimo do engenheiro Vauthier, 1840-1844”, publicado pelo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e reproduzido também na revista Contraponto, Recife, ano 5, n.12, edição comemorativa ao centenário do Teatro de Santa Isabel. Gilberto Freyre escreveu um livro sobre ele intitulado, “Um engenheiro francês no Brasil”, publicado no Rio de Janeiro, pela editora José Olympio, em 1940, que pode ser consultado na Biblioteca Central Blanche Knopf, da Fundação Joaquim Nabuco. Este arquiteto também é responsável por outra atração do centro da cidade, de valor histórico para o Brasil, é a Casa da Câmara e Cadeia, única obra no interior  realizada pelo engenheiro francês Louis Léger Vauthier, guarda características da arquitetura de 1845.

Segundo membros da municipalidade, durante nossa visita a Brejo da Madre de Deus, os membros da SEPARN foram informados que neste diário, o engenheiro bretão visitara as cavernas e os locais com pinturas rupestre, tendo feito uma descrição das cavidades e das pinturas rupestres.

Furna do Estrago

No primeiro dia de trabalho, 8 de janeiro de 2005, a equipe da SEPARN visitou a chamada Furna ou Gruta do Estrago. Nesta pequena cavidade granítica foi encontrado um dos mais importantes sítios arqueológicos de enterramento do país, tendo o trabalho arqueológico sido executado pela Universidade Católica de Pernambuco-UNICAP. Segundo os arqueólogos desta universidade, há cerca de dois mil anos este sítio passou a ser utilizado como cemitério, com a abertura de dezenas de fossas funerárias. Do sítio foram resgatados 83 esqueletos humanos encontrados em bom estado de conservação. As condições ambientais favoreceram a rápida desidratação da matéria orgânica e a preservação da pele, dos cabelos e do cérebro em alguns indivíduos, bem como, do artesanato em palha utilizado no ritual funerário. Os materiais encontrados nas escavações fazem parte do acervo do museu arqueológico da Universidade Católica de Pernambuco - UNICAP, de onde já foram feitos vários estudos para teses de mestrado e doutorado, não só desta Universidade como também de outras do Sul e Sudeste do País colaborando assim com os estudos de como viviam nossos antepassados.

Diante da importância arqueológica desta pequena cavidade, a SEPARN não podia deixar passar à oportunidade de cadastrar este local junto ao CNC (Cadastro Nacional de Cavernas), da SBE (Sociedade Brasileira de Espeleologia), onde esta gruta recebeu a sigla PE-6.

Trilha das cavernas e Suas Cavernas

No dia seguinte, a equipe seguiu junto com o guia local para percorre a “Trilha das Cavernas”. A mesma tem início às margens da rodovia PE-145, onde seguimos por uma vereda aberta, sem muitas dificuldades. A propriedade onde está o inicio da trilha se chama “Furnas”.

Podemos notar que a vegetação difere do que tivemos oportunidade de ver no Rio Grande do Norte, lembrando uma vegetação de transição entre as regiões agreste e do sertão, com uma diversidade de árvores que formam um belo quadro natural. O esforço é razoável, mas compensatório, pois o visual na trilha é deslumbrante. Contudo, devido a sua sinuosidade é extremamente necessário à presença do guia local.

A Caverna do Caboclo e a sua Utilização nos Cultos Religiosos Afro-Brasileiros

Blocos de granito que indicam a existência da Caverna do Caboclo, onde para os membros da SEPARN, as dimensões destes blocos logo chamaram a atenção. São dois destes imensos blocos que, sobrepostos, formam esta cavidade, onde impressiona as dimensões da sua entrada para o padrão de grutas graníticas que a equipe da SEPARN tem tido oportunidade de visitar. Blocos menores interpõem-se na entrada, não dando a idéia real das dimensões internas da cavidade e encobrindo outra das surpresas desta cavidade.

Colocado a direita da entrada, encontra-se uma espécie de oratório com diversos materiais típicos da religiosidade afro-brasileira. Entre estes artefatos destacam-se três quadros com a figura do Preto Velho, diversas velas votivas coloridas (conhecidas popularmente como “velas sete dias e sete noites”), imagens de Iemanjá, de índios caboclos, santinhos católicos, imagens de São Jorge, cachimbos, um maracá indígena, e outros artefatos típicos destas manifestações religiosas.

Segundo informações, esta cavidade era utilizada por um Pai de Santo local, como uma espécie de centro de realização de atividades relativas a cultos afro-brasileiras. Diante da surpresa do achado pelos membros da SEPARN, muitas questões foram levantadas, qual o tipo de culto? Porque da utilização da caverna? Quem foi este Pai de Santo?

Foram feitas várias fotos com a intenção de buscar melhores esclarecimentos com pessoas conhecedoras destas manifestações religiosas e buscar respostas para estas questões, que mais à frente abordaremos.

Contudo, estas não foram às únicas surpresas encontradas na Caverna do Caboclo. Pudemos aferir a dimensão de 43,74 metros de comprimento, da entrada para a parte final, lateralmente as dimensões superaram os 19 metros, não existem outros salões, encontrasse uma drenagem sazonal e muitos blocos dispersos no seu interior.

No sentido biológico foi visto uma colônia de morcegos, basicamente habitando numa mesma área, onde formam concentrações de guano no solo. Vimos um tipo de aranha com longas patas, corpo relativamente pequeno em relação ao tamanho das patas, alternando a cor marrom e vermelha, com dimensões em torno de 12 centímetros, possuindo deslocamento rápido. Outra coisa que chamou a atenção dos membros da SEPARN foi a existência de caramujos na cor marrom claro e tamanho de 5 a 7 centímetros.

No final desta caverna, existe um acesso para a parte superior de um dos grandes blocos, onde o mirante existente é extremamente interessante para incluir este local como ponto de visitação desta cavidade. Na área do mirante existe outra cavidade formada pela sobreposição de uma placa granítica em relação à rocha principal, formando um corredor de 15 a 18 metros e uma altura em torno de 10 metros, sem nenhuma outra grande atração interna.

Na base dos grandes blocos que formam esta cavidade, próximo a entrada, encontra-se alguns registros rupestres, onde se destaca uma pintura na cor vermelha, na forma de uma grade e linhas bem retas. Logo abaixo desta pintura vemos uma representação de raios que saem de um mesmo ponto, como uma reprodução de uma estrela ou outro astro celeste. Aparentemente estas pinturas seguem o padrão tradicional da chamada Tradição Agreste, que surge por volta de 10.000 anos antes do presente e parece perdurar até cerca de 4000-3.500 anos atrás. Os temas representados são figuras rígidas e estáticas e não há composições temáticas, sendo suas características principais os grafismos de grande tamanho, geralmente isolado, sem formar cenas e, quando estas existem, apresentam-se com poucos indivíduos ou animais. Com as figuras de animais pouco se pode atribuir uma designação mais precisa que “aves” ou “quadrúpedes”, entretanto são emblemáticas desta tradição a figura de pássaros com longas penas e braços abertos. O nome desta tradição deve-se a grande concentração de sítios arqueológicos na região homônima de Pernambuco e do sul da Paraíba, mas na verdade trata-se de uma tradição de registro rupestre espalhada por todo Nordeste.

No tocante as questões levantadas pela equipe da SEPARN sobre a origem e função do oratório de culto afro-brasileiro na Caverna do Caboclo, no retorno a Natal, a equipe buscou o apoio do Babalorixá Mequisedec Rocha, para conhecer melhor sobre este oratório e a utilização da caverna nos cultos. O Senhor Melquisedec é o líder espiritual da casa de cultos africanos Ilé Ilé Ifé Àse Oba Ogodó e membro da direção da Federação Espírita de Umbanda do Rio Grande do Norte.

Após analisar as inúmeras fotos do oratório e da caverna, o Babalorixá concluiu que os objetos, da forma como estavam dispostos e a sua concentração, indicavam ser um local de uma pessoa com muita devoção ao culto do Preto Velho, que também está muito ligado ao culto da Jurema ou Jurema Sagrada. Segundo ele, a Jurema ou Jurema Sagrada como tradição religiosa afro-brasileira, ainda é um assunto pouco estudado, sendo uma tradição que surgiu no Nordeste, onde sofreu influências da feitiçaria européia, da pajelança indígena e das religiões africanas. A Jurema Sagrada é remanescente da tradição religiosa dos índios que habitavam o litoral da Paraíba e dos seus pajés, grandes conhecedores dos mistérios do além, plantas e dos animais. Depois da chegada dos africanos no Brasil, quando estes fugiam dos engenhos onde estavam escravizados, encontravam abrigo nas aldeias indígenas, e através desse contato, os africanos trocavam o que tinham de conhecimento religioso em comum com os índios. Pôr isso até hoje, os grandes mestres juremeiros conhecidos, são sempre mestiços com sangue índio e negro. Os africanos contribuíram com o seu conhecimento sobre o culto dos mortos egun e das divindades da natureza os orixás voduns e inkices. Os índios, estes contribuíram com o conhecimento de invocações dos espíritos de antigos pajés e dos trabalhos realizados com os encantados das matas e dos rios. Daí a Jurema se compor de duas grandes linhas de trabalho: a linha dos mestres de Jurema e a linha dos encantados.

Este tipo de culto tem como base a jurema (mimosa hostilis), sendo esta uma árvore que floresce no agreste e na caatinga nordestina, onde são mais conhecidas as juremas-branca e jurema-preta. Da casca do tronco da jurema-branca, faz-se uma bebida considerada mágica, sagrada, que alimenta e dá força aos “encantados do outro mundo”. Acredita-se também que é essa bebida que permite aos homens entrar em contato com o mundo espiritual e os seres que lá residem, Tal árvore é símbolo e núcleo de várias práticas mágico-religiosas de origem ameríndia.

De fato, entre os diversos povos indígenas que habitaram o Nordeste, se fazia (e em alguns deles ainda se faz) o uso ritual desta bebida. Este culto se difundiu dos sertões e agrestes nordestinos em direção às grandes cidades do litoral, onde elementos das outras matrizes étnicas entraram em cena. Desse modo, o símbolo da árvore que liga o mundo terreno ao além, embora amarga, dá sapiência aos que dela se alimentam, ganha novos significados, surgindo um mito com traços cristãos.  Neste sentido a jurema surge como a árvore que escondeu a “sagrada família” dos soldados de Herodes, durante a fuga para o Egito, ganhando desde então suas propriedades mágicas religiosas.

Esta árvore era venerada pelos índios potiguares e tabajaras, muitos séculos antes da descoberta Brasil. A jurema, depois de crescida, é uma frondosa árvore que vive mais de 200 anos. Todas as partes dessa arvore são aproveitadas: a raiz, a casca, as folhas e as sementes. Sendo utilizadas em banhos de limpeza, infusões, ungüentos, bebidas e para fins ritualísticos. Os devotos iniciados nos rituais do culto são chamados de “Juremeiros”.

Para o Babalorixá Melquisedeque, segundo o material disposto no oratório, mostra que o Mestre Juremeiro da Caverna do Caboclo era uma pessoa aparente muito devota, que podia utilizar esta caverna por necessitar de locais ermos para realizar suas atividade de forma secreta, ou para estar com a sua percepção melhor preparada para a realização dos seus “trabalhos”, ou para buscar refúgio em meio a problemas de preconceitos e perseguições sofridos pelos praticantes destes cultos no início do século XX.

Outras indicações da utilização desta caverna para o culto de Jurema, segundo o Babalorixá, é a existência de um maracá indígena, que poderia ser utilizado pra evocações espirituais. Outra indicação é a franca existência de materiais de devoção católica, como santinhos (pequenos livretos de orações) e imagens de três santos católicos, respectivamente São Francisco, Santo Expedito e São Jorge. Além destes materiais, encontrasse um livreto de orações do falecido Frei Damião, onde este padre italiano radicado no Nordeste, durante mais de 50 anos, foi pregador e realizava missas por toda a região. Toda esta concentração de materiais católicos é extremamente normal no culto da Jurema.

È quase certo que este Mestre Juremeiro realizasse trabalhos de curas de seus devotos, com a utilização de ervas para a criação das “garrafadas”, que é uma tradição popular arraigada até hoje entre o povo Nordestino. O povo acredita que elas podem curar qualquer mal, desde que o “paciente” siga os “seguimentos” do conhecido “doutor raiz” (como eram chamados os práticos que lidam com ervas medicinais), muitos deles Mestres Juremeiros. 

Não conseguimos maiores dados específicos sobre o líder religioso que utilizava esta caverna para seus cultos. Mas podemos comprovar o quanto à simbologia da religiosidade afro-brasileira está presente nesta cavidade e na sua relação com a população da cidade.

No Rio Grande do Norte, recordo-me de poucas cavidades naturais utilizadas para este fim. Apenas as cavidades da região do Lajedo de Soledade, antes da transformação do local em área de utilização turística, foram muito utilizadas como locais para a prática de cultos afro-brasileiros. A chegada do turismo, a idéia do “moderno”, o desejo de não associar estas práticas religiosas ao nome da empresa de petróleo patrocinadora da implantação da área de preservação, preconceito e outras situações, fizeram com que praticamente fossem extintas estas antigas práticas nestas cavidades.

A Gruta do Sobrado

Deixamos a interessante Caverna do Caboclo e seguimos para o alto da serra, onde ultrapassamos o ponto mais alto, sempre seguindo por uma trilha com belas passagens da região, vegetação densa e mais uma vez esta trilha aponta a necessidade da participação do guia local.

Após chegarmos ao alto da serra, seguimos em descendente, onde ao longe avistamos um grande conjunto de blocos de granito, que chamam a atenção na paisagem, o caminho não é difícil.

Novamente são grandes blocos de granito que formam esta gruta, sua entrada tem uma abertura em torno de sete metros de altura, que vai afunilando na medida que se adentra o local. A parte interna é ampla, bem arejada e possui um grande bloco na posição horizontal que cria dois compartimentos, com um visual muito positivo da região e torna o ambiente interno da cavidade extremamente agradável, compreendendo-se a razão dos sertanejos colocarem o nome de Sobrado a este local.

Que segue pela trilha, após sair da Caverna do Caboclo, terminar de subir a serra, tem na Gruta do Sobrado um ótimo ponto de descanso. Vale ressaltar que esta gruta foi alvo de pesquisas dos arqueólogos da Universidade Católica de Pernambuco, existindo no local vestígio destas escavações. A área onde se localiza esta cavidade é o Sítio Terra Rasa e sua altitude é de 598 metros.

Gruta do Saponto

A trilha entre a Gruta do Sobrado e a do Saponto, é mais extensa, onde descemos a serra até uma pequena vila, seguimos subindo outra serra, até o seu cume, onde está a gruta. A paisagem é deslumbrante, onde é possível a visualização de muitos quilômetros da região agreste de Pernambuco e a região da fronteira com a Paraíba.

Após a subida da serra, chegamos à entrada da gruta, que necessita um pequeno rapel para adentrar. Encontramos um corredor com uma “cortina” de raízes de plantas, aparentemente crotes, que cria um interessante cenário. Após este corredor, as passagens se tornam mais estreitas, com grandes blocos no interior. A dois pequenos salões, com uma interessante colônia de morcegos e muito guano. A altitude onde está localizada está gruta é de 635 metros.

Devido a sua localização, acessibilidade, dificuldade na entrada, esta é a gruta que exige uma maior atenção e cuidado para quem a visita.

Conclusão

Após a visita a do Saponto, continuamos nosso caminho pela trilha, ainda no alto da serra. Os belos mirantes vão se alternando, em meio a uma vegetação sempre muito bonita e exuberante. Trinta minutos depois, chegamos novamente na PE – 145, em local distinto do início da trilha.

O percurso para quem deseja conhecer estas cavernas é em torno de cinco horas, tendo a necessidade de ser bem planejado para evitar problemas para os visitantes. È importante salientar que deve ser bem trabalhado a orientação de quem deve e quem não tem condições físicas para a realização desta visita.

As cavernas são interessantes, a trilha possui um leque de paisagens e belezas naturais. Evidente que a trilha necessita de placas sinalizadoras, placas referenciadas para as cavidades, para alguns exemplares da vegetação e outras informações úteis para os turistas. Um mapeamento da Caverna do Caboclo, da trilha, melhoramento em certos locais de acesso, porteiras e outras benfeitorias são necessários. Mas o custo se torna pequeno diante das belezas naturais do lugar.

Para um Estado como Pernambuco, onde é limitado o número de cavernas expressivas em seu meio ambiente natural, a trilha das cavernas é uma alternativa muito bem vinda de turismo ecológico na região.

Rostand Medeiros – rostandmedeiros@gmail.com                  

Ricardo Sávio – Ricardo@carcinicultor.com.br           

Jeová Costa – Jcfrança@yahoo.com.br


postado por 66367 as 02:30:02 #
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