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domingo, 01 junho, 2008
As Histórias da Gruta dos Pingos, Campina Grande-PB


A Gruta dos Pingos, em Campina Grande, na Paraíba

No livro “Serras e Montanhas do Nordeste”, de Luciano Jacques de Moraes, escrito em 1924, pelo então IFOCS (Instituto Federal de Obras Contra as Secas, depois DNOCS), existe uma interessante referência sobre uma gruta denominada “Pingos”, em Campina Grande, na Paraíba.

O livro original é extremamente raro, existe uma 2º edição comemorativa da Coleção Mossoroense, com 121 páginas, 35 fotos antigas e 7 mapas geológicos, sendo uma verdadeira mina de ouro em termos de informações históricas, materiais sobre espeleologia, geografia e geologia em nossa região.

Entre as páginas 12 e 13, existem três fotos que falam de uma fazenda chamada Mumbuca e da Gruta dos Pingos, inclusive com fotos da entrada e do interior da mesma. Na página 12 existe um texto intitulado “Soledade – Campina Grande", onde o autor explica as feições geológicas ao longo deste trecho de 57 km da estrada, que liga as duas cidades (atual BR-230).

No km 64, a partir de Soledade, ou no km 21, a partir de Campina Grande, localiza-se a fazenda Mumbuca, com a sede a um quilometro a leste da então estrada de rodagem, o autor informa que a altitude é de 600 metros, que o terreno é um gneis porfiróide cinzento, que aflora em lajedos, matacões e blocos às vezes arredondados.

A Gruta dos Pingos é formada, segundo o autor, pela sobreposição de blocos deste gneis, existindo em um dos blocos dentro da caverna pinturas que ele denomina “inscrições a tinta encarnadas”, que devem ser antigas pinturas rupestres. Informa que existem tanques nos lajedos deste maciço e que os chamados matacões são conhecidos pelo nome de “pedra de sino” pelos locais e que estes afirmavam que estas pedras teriam tesouros escondidos, afirmação que o autor trata com um desdém sentido extremamente preconceituoso. Num dos tanques da fazenda ele viu a “pasta”, como denomina os sertanejos, a capa de plantas aquáticas da família das Lemnáceas.

Nas fotos que estão no livro, em uma destas é possível observar entrada da gruta, mas não se tem idéia das dimensões, pois não há uma referência. Na segunda fotografia ela parece que foi batida no interior da gruta, na foto estão nove pessoas, 6 homens, 2 mulheres e um garoto. Dos homens, cinco deles estão com roupas de algodão branco, típico dos trabalhadores rurais nordestinos do inicio do século XX (um deles inclusive tem tradicional chapéu de aba quebrada). As senhoras com roupas e chapéus típicos da década de 20, do século passado, o garoto com chapeuzinho e calças curtas e ascendendo sobre todo o grupo um senhor de meia idade, calvo, de bigodes e paletó, demonstrando superioridade e parecendo ser o proprietário ou capataz da propriedade.

Qual seria a razão desta gruta constar no livro Luciano Jacques, quando o mesmo conheceu a região no inicio dos anos 20 do século passado? Ppode ser devido a mesma ser uma referência dentro do granito da região? Ou devido as suas dimensões? Ou pelas pinturas rupestres? O fato é que o autor percorreu setores do Rio Grande do Norte e do Ceará, onde existem grandes cavernas de calcário (como por exemplo, a região onde existe a Caverna de Ubajara – CE) e no referido livro, ele não explica o por que da gruta aparecer com tanta atenção.

      Luciano Jacques de Morais (1896-1968), foi um engenheiro de minas e geólogo brasileiro que foi um grande conhecedor do Nordeste sob o ponto de vista geológico. Formado na velha Escola de Minas de Ouro Preto, que então era o único centro de formação de geólogos brasileiros até 1939, quando se criou o Curso de Engenharia de Minas e Metalurgia na Escola Politécnica de São Paulo. Em 1924, como engenheiro de minas do então IFOCS – Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas (atual DNOCS), percorre grandes áreas do sertão nordestino, em meio ao fenômeno do cangaço, realizando pesquisas geológicas, permeadas por apontamentos arqueológicos, aonde chega a escrever livros que são referências bibliográficas, é o caso do livro "Inscrições Rupestres no Brasil”. Em 1929, Luciano Jacques de Morais publica um artigo sob o título “Possível Ocorrência de Petróleo no Rio Grande do Norte”. Nesse artigo, o geólogo recomenda a aplicação de métodos geofísicos de prospecção, empregados vantajosamente na Venezuela. Segundo ele, as prospecções sismográficas seriam seguidas das sondagens, para que houvesse melhor possibilidade de êxito.

No tocante à geomorfologia, a área onde está a Gruta dos Pingos está inserido no Planalto da Borborema, que se constitui no mais importante acidente geográfico da Região Nordeste, exercendo na Paraíba um papel de particular importância no conjunto do relevo e na diversificação do clima, com altitudes variando entre 400-500m. Esta porção é considerada como a parte mais expressiva da Superfície do Planalto, porquanto a sua suave inclinação, dirigida para o sul, conduz seus cursos d’água intermitentes para o rio Paraíba. O relevo apresenta-se bastante uniforme, predominando o suave ondulado em quase toda sua extensão, quase sempre entrecortado por áreas de relevo plano ou quase plano que, por estarem identificados em áreas não agrupadas.

Já a vegetação predominante na área da Gruta dos Pingos é do tipo caatinga hipoxerófila em área de transição para caatinga hiperxerófila. De acordo com o reconhecimento de campo realizado na área, as espécies mais encontradas (BRASIL, 1972) são: jurema (Mimosa sp.), quixaba (Bumelia sertorum Mart), facheiro (Cereus sp), angico (Anadenanthera macrocarpa – Benth), marmeleiro (ylanta sp), mandacaru (Cereus jamacary), palmatória-braba (Opuntia palmadora), macambira (Bromélia laciniosa Mart), caroá (Neoglaziovia variegata), xique-xique (Pilocereus gounelliei), aroeira (Astronium urundeuva), pereiro (Aspidosperma pyrifolium).

Entretanto, este não é a única referencia sobre esta cavidade natural. No livro “Guerreiros do Sol”, de autoria de Frederico Pernambucano de Mello, entre tantas informações interessantes sobre cangaço e cangaceiros, assim escrita;

“José Moleque, Paraíba, arredores de Campina Grande”

“Mulato paraibano atuante no centro deste Estado e no Rio Grande do Norte na segunda metade da década de 20. Sua morte foi assim noticiada por O Goianense, de 6 de julho de 1930: “José Moleque, o celebre  bandido que a frente de numeroso grupo visitou várias propriedades extorquindo dinheiro por meio de ameaças, foi morto num encontro que teve com a polícia paraibana, no dia  26 do mês último, no lugar Mumbuca, três léguas distante de Campina Grande (...) o perigoso bandoleiro ofereceu resistência, ferindo levemente um soldado que fazia parte da diligencia” (ver Patriarcas e carreiros, Manuel Rodrigues de Melo, Natal, UFRN, 1985 / notas para 2º edição).

Duas cruzes nas proximidades da gruta apontam que aparentemente a fazenda Mumbuca foi palco de combates e a possibilidade da Gruta dos Pingos tenha sido um local de esconderijo de cangaceiros.

Esta cavidade natural é muito pouco conhecida.

Rostand Medeiros - rostandmedeiros@gmail.com

Ricardo Sávio - ricardo@carcinicultor.com.br


postado por 66367 as 02:35:51 #
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