O varal, um café e o infinito...
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sexta, 03 novembro, 2006
DIÁRIO DE BORDO: "Brasília, uma miragem no cerrado"


Brasília é uma ilha

Cheguei! Brasília ao entrar já me fez saltar aos olhos as antigas páginas da cartilha de geografia da escola que descreviam o relevo e o clima. Sim, as árvores são pequenos arbustos de troncos retorcidos caracterizando o cerrado, o ar é seco e quente, e é tudo plano. É um plano arquitetado a cada rua, a cada ponto de ônibus.

Ao chegar espanta-se com a educação européia dos motoristas que param antes das faixas de pedestres sem que haja semáforo.

Mas com alguns dias no planalto descobre-se que em Brasília nem tudo é o que parece. A cidadania dos motoristas foi conseguida a duras penas com fiscais multando a cada faixa. Escutei um comentário que normalmente paulistas em Brasília são responsáveis pela maioria dos atropelamentos em cima da faixa. Encanta-se com a arquitetura do mestre Oscar Niermyer, com a organização e limpeza das estruturas. Mas, o planejamento e limpeza restringem-se aos limites do avião (vista de cima a cidade planejada são em formato de um avião), principalmente nas áreas ministeriais e no “pontão”, ponta do lago Paranoá onde a elite se reúne com suas possantes lanchas em torno de requintados bares.

O céu de Brasília é encantador, um espetáculo a parte que não atrai só aqueles que apreciam um belo crepúsculo para a poesia ou canção (como cantou Djavan: "Céu de Brasília, traço do arquiteto, gosto tanto dela assim..."), os ares alí são propícios para a prática de esportes aéreos como a asa-delta. Segundo o piloto de asa-delta e meu amigo brasiliense Eduardo, o "Edu", em Brasília se encontram as melhores termais do país. Edu e sua namorada Fabi Marin, que faz as buscas por terra, estão sempre com a "cabeça nas nuves" e de olho no céu: Privilégio planáltico!

Espanta-se com a recorrente postura do povo que diz que o brasiliense não tem sotaque nem raízes culturais. Engano. O brasiliense tem sotaque sim. Eles não percebem, mas o “R” é fricativo como o dos cariocas, há um “invólucro” caipira dos goianos e fortes puxadas nordestinas, também pudera, nos anos de Kubischek nos idos da construção de Brasília, brasileiros de todos os cantos rumaram para lá em busca de trabalho, os chamados “candangos”. O que a maioria não percebe é que com os anos criou-se uma cena cultural interessante e regionalmente marcada.

Estava participando do ENEL, Encontro Nacional de Estudantes de Letras na Universidade Federal de Brasília e tive oportunidade de conhecer um pouco da massa pensante da região e caracterizar a cidade-distrito como um importante celeiro de manifestações artístico-culturais. Assisti ali um balé de alto nível no Teatro Nacional (arquitetura de Oscar Niermeyer e jardinagem de Burle Marx), além disso, inúmeros músicos e bandas de rock nasceram no distrito federal, como Os Paralamas, o Raimundos, Cássia Eller, Natiruts, Capital Inicial, Legião Urbana, Plebe Rude, entre outros. Talvez por isso se observe na cidade um número acima do normal de jovens reunidos em torno de rodas de violão. Legado interessante.

Mas, o que é marcante é o que não se vê. O arraigado coronelismo político intrínseco a genética comportamental dos candangos, principalmente no que diz respeito a informação.

O terminal de ônibus da cidade é a Meca da balburdia, desordenado possui poucos postos de informação e nos poucos carrega sujeitos desconfiados e resistentes a dividir informação. Senti na conduta dos populares uma postura carregada de uma atmosfera do cabresto advinda dos traços corruptíveis que regem uma região cercada de politicagens, segredos, sigilos, que inconscientemente se refletem na postura dos seus.

Dissabores a parte vale lembrar que o pôr do sol na esplanada dos ministérios é de fazer chorar, e além disso, a alguns quilômetros de Brasília encontra-se o “Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros”...

Bom, mas isso é uma outra história. §

Lucas Limberti

Na seção DIÁRIO DE BORDO “O varal, um café e infinito...” coloca o pé na estrada.

Foto: Carolina Lomba

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postado por 35821 as 04:01:55 #
18 Comentários

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isabel:
brasilia nao é pra se ficar indiferente. se vc consegue ficar é porque falta alguma coisa no seu "sentidor", é porque vc nao tem a menor interaçao com o seu pais, com o seu povo. é porque vc, provavelmete é do sudeste e nasceu com tudo pronto e certamente vai morrer com tudo do mesmo jeito.
caro limberti, fico muito feliz com pessoas que assim como vc conseguem tantos vder tantos "algo mais" em nossa capital. mas vou um pouco alem, num ponto que gostaria de lhe deixar como reflexao- que tal pelo menos uma vez na vida, desvincular brasilia da corrupçao. estranhou? é que a corrupçao vai de aviao para brasilia. e nao basta pagar a passagem aerea. tem que ter tambem o passaporte do voto. voto este que vem de todas as paragens brasileiras. e estes "corruptos" só ficam em brasilia de terça a quinta e o trajeto deles é do aeroporto à esplanada dos ministerios. acho que bsb é muito mais que isso, concorda? abraço
segunda, maio 09, 2011 12:39 

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quinta, abril 07, 2011 06:55 

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Goiana:
Sr, estudante de letras... R CAIPIRA com muito orgulho. Brasilia de terras goianas;
sábado, setembro 25, 2010 09:10 

EXTREMA ON LINE:
Aproveite e conheça a cidade de Extrema MG.
Extrema é conhecida pelos esportes radicais ali praticados, tais como: Rafting, Motocross, Asa Delta, Paraglider e outros.
Extrema possui belíssimas paisagens e cachoeiras.
Para ver as fotos da cidade bem como dos esportes citados, visite o site acima.
Obrigado
sexta, julho 20, 2007 11:54 

Michele Lopes:
Ao ler as primeiras linhas que tu escreveste, lembrei-me de minha aventura no Mato Grosso do Sul. A relação com a cartilha foi ótima, exatamente igual ao meu pensamento ao pisar em solo sul-mato-grossense. Não posso deixar de compartilhar aqui, a minha aventura.
O destino era Naviraí, uma cidadezinha que fica alguns quilômetros antes de Campo Grande. Saí de Presidente Prudente e ao atravessar a ponte (ponte essa que separa o estado de São Paulo do estado de MGS) já dá pra perceber no clima que não se está mais em solo paulista. O forte calor, tão característico da região, se faz presente no instante em que se chega ao estado do Mato Grosso do Sul.
Seguindo viagem, o que se vê na paisagem é uma vasta extensão de plantações de soja, iguaizinhas as que vemos nos livros do colêgio ou na TV, e vez ou outra fazenda de gados com uns arbustos de galhos retorcidos. As estradas são retas longas e estreitas, apesar de serem mão dupla possuem apenas uma faixa em cada sentido, e as vezes nos surpreende com gigantes carretas que vêm em sentido contrário ao nosso carro.
As cidadezinhas pequenas, bem típicas do nosso interiorzão, começam e acabam nessas mesmas estradas. É como se a estrada se abrisse para abrigá-las e depois se fechasse para protegê-las.
Foram umas quatro horas até chegar ao meu destino, Naviraí. Mas, a paisagem não sofreu alterações. O que se viu foram repetições de plantações de soja, algumas fazendas de gados com seus arbustos retorcidos e cidades e começavam e terminavam em determinados pontos da estrada.
Não pude conhecer muito a parte cultural do Mato Grosso do Sul, exceto um tal de "Vaneirão". Um rítmo muito escutado por lá que, ao meu ver pareceu mais uma mistura de forró com sertanejo, não sei ao certo.
A única certeza é que voltei de lá encantada com o nosso cerrado; ouvindo Grupo Tradição, maior representante do "Vaneirão"; e completamente apaixonada por um lugar e uma cultura tão diferentes da que eu tenho no meu habitat natural: minha linda e amada São Paulo.
domingo, março 11, 2007 02:03 

denise:
Lucas! Seu texto é bem escrito e bonito. Não posso me furtar a fazer algumas observações sobre ele. Vim para Brasília menina, moro aqui há 35 anos, lugar onde cresci e que também vi crescer. Brasília é uma cidade cheia de segredos, não se revela assim à primeira vista, assim como seus habitantes, por isso seu estranhamento quanto ao que chamou de “O arraigado coronelismo político intrínseco a genética comportamental dos candangos”. Acho que não é bem isso. Custa-se fazer amigos, mas quando fazemos é para a vida toda. Não temos o costume de conhecer e papear à toa com estranhos em ônibus e mesmo em bares, nem com vizinhos, na verdade a maioria de nós nem sabemos quem são direito. Porquê isso não sei, mas é uma característica do candango. Mora-se a vida toda em uma quadra, mas se não fez amigos na escola ou no trabalho, não será com os vizinhos que fará, com certeza. Longe de ser uma característica coronelista, acho que estamos mais para cosmopolitas, não sabemos o sobrenome das pessoas, o que elas fazem e não nos interessa, geralmente as conhecemos por meio de outros amigos – esse é o passaporte. E então você adentra um mundo que jamais encontrará em qualquer lugar, descobre a solidariedade e a generosidade advindas talvez da falta de famílias, da necessidade do encontro, que a própria geografia e arquitetura não permite à primeira vista. Adoro essa cidade apesar de saber de todas as suas mazelas, que não são poucas, como imagina o resto do país. Temos problemas seríssimos por aqui, mas ainda acho o melhor lugar para se viver!
terça, novembro 14, 2006 08:51 

IVAN:
Cara,
muito legal... uma boa visão etnográfica
segunda, novembro 13, 2006 08:31 

Eduardo Henrique Ellery:
E ae Lucas, muito legal teu blog. Obrigado pela lembrança no varal.
Qualquer hora dessas nos esbarramos novamente pelas estradas da vida.

Grande Abraço,

Eduardo

segunda, novembro 13, 2006 06:30 

Ciro:
Gostei do que escreveste! Brasília é um pouco disso tudo! Moro aqui há 7 meses e tenho me perguntado se aqui mora alguém humano. Sinto falta do calor das pessoas...
Mas o céu, que céu!
Abraços
segunda, novembro 13, 2006 01:20 

Keila Belo:
`Texto complexo, perfeito.
Inclusive indiquei para um amigo q acabou de visitar Brasília, e me descreveu a estadia aki com tanta emoção,!
Abraços
segunda, novembro 13, 2006 01:35 

Lucas Limberti:
Caro José Francisco,
muito bacana seu comentário, mas vale lembrar que a cidade e a capital de Brasília é nossa, somos(sou) cidadãos do mundo. Mas , te digo que minhas raízes e habitat natural é a selva de pedras paulistana!
Até
Lucas Limberti
www.varaldoinfinito.uniblog.com.br
sábado, novembro 11, 2006 03:09 

José Francisco Scafoglio Mader:
Foi uma honra visitar sua cidade e nossa capital. Foi melhor do que imaginei. Sempre li sobre Brasília nos livros, mas utilizando os 5 sentidos é muito diferente.
Poder ver a cidade inteira. Entrar no interior da Catedral, do Congresso, do Palácio do Itamaraty, do Memorial Jk, do Teatro Nacional, da concha acústica (quartel do exército), do Catetinho. Subir na torre de tv e ver a cidade toda de uma vez, de uma altura de 75 m.
Caminhar por algumas superquadras da asa sul, pela Praça dos Três Poderes, Esplanada dos Ministérios, e conhecer o local da primeira missa celebrada em Brasília (praça do cruzeiro), da primeira igreja construída de materiais (igrejinha).
Ver a ponte JK e o lago Paranoá, o setor de embaixadas, o Quartel do Exército (onde diariamente trabalham 10 mil pessoas) o Palácio da Alvorada. Foi simplesmente indescritível e inesquecível.
Saber que 60 mil pessoas se dirigiram para Brasília, para participar de sua construção.
Beber a água da mina que existe próximo ao catetinho, que segundo dizem foi o que determinou a sua localização, por JK.
Uma grande emoção que vou guardar para o resto de minha vida. Visitei belas cidades que são simplesmente maravilhosas como, por exemplo, Curitiba e Salvador, mas Brasília superou e ficará na minha memória como algo meio mágico, onde se unem diferentes esferas da vida humana. Uma cidade nova, construída com a sabedoria, coragem e determinação de um povo, que tem a necessidade e precisa ocupar seu território, para consolidar definitivamente a nossa pátria.

sexta, novembro 10, 2006 06:22 

Ailton Pereira:
Texto descritivamente argumentativo (usando até as aulas de geografia para confirmar aquilo de está falando) - mas uma descrição que não é chata, e que dá mais impacto na beleza da transmissão da idéia. Nada mais a dizer...
terça, novembro 07, 2006 02:01 

Christiano Póvoa:
Cara, falar mais o que de Brasília? Você disse, em um texto curto, muuuuito! E eu estou louco prá mudar prá lá! Parabéns pelos textos...tu vai longe!
segunda, novembro 06, 2006 03:27 

pericles:
é...saudade de brasilia.rs
mas das pessoas
do que do tempo
da cidade.r.s


sábado, novembro 04, 2006 01:34 

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As cores aladas que se projetam
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Lucas Limberti


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