Sobreviventes do massacre de Eldorado do Carajás
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sábado, 07 julho, 2007
Relação humana

Feridas na dignidade

No dia 24 de junho, cinco jovens de classe média alta roubaram e agrediram a socos e pontapés a empregada doméstica Sirlei Dias Carvalho Pinto, que estava em um ponto de ônibus, no Rio de Janeiro.

No mesmo Estado, em 4 de julho, a garota de programa Fabiane Pereira Costa foi arremessada para fora do carro em que estava por dois jovens artistas.

Dias antes, em Belém, o segurança Antônio Carlos Barbosa morreu dentro de uma Unidade de Saúde, que, em tese, deveria salvar vidas. Faleceu diante das câmeras de televisão e da omissão das autoridades. Uma imagem cruel de um homem definhando, angustiado e implorando pelo direito de respirar.

Qual a semelhança que há entre esses crimes? O desrespeito com a dignidade que possuem as pessoas vitimadas.

Os agressores de Sirlei Carvalho justificaram o crime à polícia dizendo que acharam que a mulher era "uma vagabunda", “uma prostituta”. Os jovens artistas também jogaram Fabiane Costa por ser uma garota de programa. E Antônio Barbosa, provavelmente permaneceu sem tratamento médico até a morte por ser um cidadão pobre.

Portanto, o que moveu os responsáveis a praticarem esses atos – e omissão – foi o fato de se sentirem superiores as suas vítimas, acreditando que estas possuíam menos – ou nenhuma – dignidade.

Torna-se mais fácil menosprezar, ferir e até exterminar um ser que não possui alma, que não tem sentimentos, autonomia, enfim, que não é ser humano, do que tratar de forma degradante alguém que consideramos nosso semelhante. Justificamos vários de nossos atos de indiferenças com outras pessoas, “retirando” destas qualidades e sentimentos que possuímos.

Historicamente lançou-se mão desse sentimento de superioridade para justificar vários atos discriminatórios ou de violência praticados por seres humanos contra outros seres humanos. Na antiguidade grega, em Atenas, somente os atenienses do sexo masculino, filhos de atenienses e no perfeito gozo de suas liberdades possuíam cidadania. Só a eles eram assegurados os direitos à igualdade. Portanto, as mulheres, os escravos e os estrangeiros não participavam da vida pública por serem considerados inferiores em virtude da sua natureza.

A escravidão, uma das relações mais humilhante entre seres humanos, que transforma o ser escravizado em coisa, persistiu séculos da história. E a sustentação dessa “coisificação” de homens vinha, inclusive, por meio de justificativas teórico-filosóficas e religiosas. Aristóteles reconhecia que os escravos eram idênticos fisicamente ao cidadão livre, mas interiormente não. Pensamento ratificado por São Tomás de Aquino.

No Brasil, a escravidão foi mantida por trezentos anos, e assim como os índios, no período da colonização, eram considerados seres inferiores e desprovidos de alma.

Por considerar-se detentor de uma raça privilegiada, Hitler exterminou milhões de judeus.

Por outro lado, para tentar desqualificar essa desigualdade entre seres humanos, procura-se demonstrar que todos nós temos dignidade, considerada como uma qualidade intrínseca e indissociável de qualquer ser humano, que a possui pelo simples fato de existir. Desta forma, o homem não pode, em hipótese alguma, ser tratado como objeto ou lhe ser atribuído qualquer valor econômico.

Essa concepção de dignidade foi inserida em praticamente todas as constituições dos países, principalmente após a segunda guerra mundial. E na Declaração Universal dos Direitos Humanos, consta que “todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. Dotados de razão e consciência, devem agir uns para com os outros em espírito e fraternidade”.

No Brasil, após 21 anos de regime militar, a atual Constituição Federal adotou a dignidade da pessoa humana como um princípio fundamental da República, balizador do Estado Democrático de Direito e núcleo de todos os direitos humanos.

Contudo, a realidade tratou de nos mostrar que o reconhecimento positivo de direito não significa a sua imediata aplicação. Enquanto não percebemos no próximo a nossa própria identidade, continuaremos a nos deparar com mulheres sendo espancadas e jogadas de carros em movimento, ou observando mais um Antônio morrendo, solitário, diante da inércia de e uma multidão de seres humanos.



postado por 12282 as 10:48




2 comentários:
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