World Wide Suicide
A procissão

            As centenas de passos faziam o fundo sonoro enquanto, bem alto, os fiéis oravam o “Pai nosso”. No megafone, o padre entoava a primeira parte da oração, puxando o ritmo da reza. Na frente de todos, o santo, levado por quatro homens. Era segunda-feira santa, procissão do Senhor dos Passos.

            Na multidão, um garoto conseguia ser o mais indisposto de todos. Visualmente ele já se destoava da maioria: com bermudas, camisa regata e sandália, estava bem informal para uma cerimônia religiosa. Crescer tinha suas vantagens, como poder escolher suas roupas. Nem tudo, porém, era liberdade. Quantas coisas ele poderia estar fazendo se não estivesse ali? Ele preferiria todas as possibilidades ao evento, que os pais declaradamente o intimavam a ir. Não gostava de grandes aglomerações, aquele andar miúdo, truncado. A reza alta e melancólica na voz das pessoas. O pé de uma senhora, atrás, beliscando, volta e meia, o seu calcanhar. O odor dos perfumes de 1,99, misturados entre si e com o suor coletivo. A caminhada que não acabava... Seria bem melhor se ele estivesse em casa.

            De cima, quem sabe, poderia ser uma vista interessante, com todos aqueles minúsculos pontos de luz fornecidos pelas velas. Mas a sua pingava parafina quente em seu braço. Felizes, suas duas irmãs menores vinham a cada cinco minutos reacender as velas na chama dele. Estavam brincando de, disfarçadamente, soprar a vela uma das outras. Ao lado, seus pais apareciam compenetrados na oração. Mas não perdiam os movimentos ao redor. Recriminavam a brincadeira das meninas e, com certeza, puxariam o filho, caso ele tentasse fugir. Sem escapatória.

            Dobrando esquinas, mudava-se muitas vezes o calçamento das ruas. Ora asfalto, ora paralelepípedos, as vezes cascalho. Acima, a noite era fresca, céu aberto com lua quase cheia. Todavia, na procissão, o abafado da proximidade dos corpos incomodava o garoto. Os passos curtos. Ele queria correr, esticar as pernas. Correr. Fugir dali. Mas só podia ter os passos curtos. Até que nem mesmo eles. Porque, num passo em falso, ele exclamou: “ai, ai!”. Uma dor lacerante em sua panturrilha. Cãibras na perna direita o acometiam. Era só o que lhe faltava. E a semana santa havia começado.

postado por 35202 em 01:21:39 :

2 comentários:Comente este post!
em 17/04/2009 11:22:57 , Alexei Fausto escreveu:
Realmente, é mais ou menos assim que me sentia quando ASSISTIA! a procissão, felizmente não tinha que participar.
em 15/04/2009 13:22:43 , Gelly escreveu:
Ei, Lu!

O texto reproduz muito bem a claustrofobia da procissão obrigatória.
Bem camusianas, aliás, as suas escritas: ele dizia que só escrevia sobre o que vivia - mas mudava um bocado, na prática. Você parece fazer o mesmo: eu o reconheço e, ao mesmo tempo, a roupagem é outra...

Bisous!
CRIAR BLOG GRATIS   
..